A Grande Expropriação: o ataque à Venezuela não é sobre Democracia, é sobre abastecimento e saque
- Raul Silva

- 3 de jan.
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Por Raul Silva para O estopim | 03 de janeiro de 2026
Esqueçam a retórica inflamada sobre "libertação", "narcoterrorismo" ou "direitos humanos". O que testemunhamos na madrugada de 3 de janeiro de 2026, com a captura de Nicolás Maduro e a declaração de que os Estados Unidos irão "governar" a Venezuela interinamente, não foi uma operação de resgate humanitário. Foi a maior operação de aquisição corporativa hostil da história moderna, executada não por advogados em uma sala de reuniões, mas por forças especiais sob a cobertura da escuridão.

Para entender a verdadeira motivação de Donald Trump, basta ignorar as manchetes sobre ditadura e prestar atenção nas letras miúdas da infraestrutura energética americana e nas próprias palavras do presidente. A verdade é crua, técnica e puramente mercantilista.
A narrativa oficial omite o fato mais crítico da segurança energética dos EUA: o paradoxo do petróleo de xisto. Embora os EUA sejam os maiores produtores de petróleo do mundo, eles produzem o tipo "errado" para suas próprias refinarias. O complexo industrial da Costa do Golfo — a joia da coroa da Chevron, Valero e Exxon — foi construído décadas atrás para processar petróleo pesado e azedo. O petróleo leve de xisto americano é como colocar gasolina de aviação em um motor a diesel; ele não maximiza os lucros dessas usinas.
Com as sanções que cortaram o acesso ao petróleo pesado da Rússia e do Irã, e com a produção do México em declínio, as refinarias americanas estavam famintas. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo pesado do mundo. Ao tomar o controle físico desses campos, Trump não está "salvando venezuelanos"; ele está garantindo a margem de lucro das refinarias do Texas e da Louisiana, assegurando o único insumo que pode manter o preço do diesel e da gasolina artificialmente baixos para o eleitor americano.
Talvez a declaração mais honesta e assustadora de Trump tenha sido a introdução do conceito de "reembolso". Em suas próprias palavras: "Vamos tirar uma tremenda quantidade de riqueza do solo... e isso vai também para os Estados Unidos da América na forma de reembolso pelos danos causados a nós por aquele país".
Isso destrói qualquer pretensão de ajuda humanitária. Trump transformou uma nação soberana em um devedor inadimplente em processo de liquidação. A ideia de que o petróleo venezuelano deve ser extraído para pagar os custos da operação militar americana é uma atualização do saque colonial para o século XXI. Não se trata de reconstruir a Venezuela para os venezuelanos, mas de usar seus recursos para abater a dívida nacional dos EUA e pagar os contratos das empresas americanas que, segundo Trump, "vão entrar, gastar bilhões e começar a ganhar dinheiro".
Há um terceiro interesse silencioso: anular os credores rivais. A China e a Rússia emprestaram dezenas de bilhões de dólares à Venezuela, dívidas garantidas justamente por barris de petróleo futuros. Ao assumir o controle físico da PDVSA e declarar que os EUA vão "gerir" o país, Washington efetivamente confisca a garantia desses empréstimos.
Pequim e Moscou agora assistem, impotentes, enquanto o ativo que garantia seus investimentos é transferido para o controle de empresas americanas. É um xeque-mate financeiro: os EUA não apenas garantem o petróleo para si, mas impõem uma perda total aos seus maiores rivais geopolíticos sem disparar um tiro contra eles.
A recusa de Trump em reconhecer imediatamente um governo de transição civil, preferindo declarar que "nós vamos governar o país" e "fazer a transição de forma adequada" , revela o desprezo pela soberania venezuelana. Se o objetivo fosse a democracia, o poder seria entregue a Edmundo González ou María Corina Machado instantaneamente. Ao manter o controle administrativo, os EUA admitem que a Venezuela é agora, na prática, um protetorado de energia — um território onde a constituição local é subordinada aos interesses de segurança energética de Washington.
Não se iludam. A operação de 3 de janeiro não foi feita porque Maduro era um ditador — o mundo está cheio deles e muitos são aliados dos EUA. Ela foi feita porque a Venezuela é um posto de gasolina estratégico que os Estados Unidos decidiram que não podiam mais deixar sob gestão "hostil". O que estamos vendo é a privatização da política externa, onde a mudança de regime é apenas uma etapa necessária para a reestruturação da cadeia de suprimentos de petróleo pesado. A liberdade da Venezuela pode ser o slogan, mas o fluxo de cru para o Golfo do México é a única missão.
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