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Por Michael Andrade, da redação do Portal O Estopim | Fontes: Netflix, Repórter Brasil, Tribunal de Justiça do Pará e Agência Brasil | terça-feira (14)
Dirigido por Ana Aranha, filme acompanha sobreviventes da chacina que matou dez trabalhadores rurais no Pará e revela a longa busca por responsabilização dos envolvidos.

O documentário “Pau D’Arco”, dirigido pela jornalista e cineasta Ana Aranha, está disponível na Netflix desde quinta-feira (25 de junho). A produção acompanha, ao longo de sete anos, a luta de sobreviventes e advogados por justiça após uma das chacinas rurais mais graves da história recente do Brasil.
O filme reconstrói os acontecimentos de 24 de maio de 2017, quando dez trabalhadores rurais sem-terra, nove homens e uma mulher, foram mortos durante uma operação conjunta das polícias Civil e Militar na Fazenda Santa Lúcia, no município de Pau D’Arco, no sul do Pará.
A narrativa acompanha especialmente Fernando dos Santos Araújo, sobrevivente e principal testemunha do caso, e o advogado José Vargas. O documentário mostra não apenas a disputa judicial, mas também as ameaças, pressões e obstáculos enfrentados por quem tentou romper o silêncio em torno do episódio.
Fernando deixou o Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas e retornou à Fazenda Santa Lúcia. Em janeiro de 2021, foi assassinado com um tiro na nuca no lote onde vivia. Sua morte ampliou as preocupações sobre a segurança das testemunhas e sobre possíveis tentativas de impedir o esclarecimento completo da chacina.
Sete anos de acompanhamento
Produzido pela Repórter Brasil e pela Amana Cine, em coprodução com a RioFilme, o longa acompanha os personagens por sete anos e reúne depoimentos, registros da investigação e cenas do cotidiano dos trabalhadores rurais. A obra apresenta indícios de tentativas de encobrimento e expõe como conflitos fundiários, violência policial e concentração de terras se cruzam na Amazônia paraense.
Ao colocar as vítimas no centro da narrativa, o documentário evita transformar a chacina apenas em uma sucessão de números. O filme revela projetos de vida interrompidos, a busca pelo direito à terra e o impacto da violência sobre famílias e comunidades inteiras.
O título internacional usado pela Netflix é “Paid in Blood”. Na descrição da plataforma, a produção é apresentada como a história de um sobrevivente de um massacre policial e de um advogado que enfrentam uma batalha perigosa para denunciar um possível encobrimento e buscar justiça.
Policiais serão levados a júri popular
Em maio de 2026, o Tribunal de Justiça do Pará manteve a decisão que determina que os 16 policiais civis e militares réus no processo respondam a júri popular por homicídio. A medida representou um avanço no caso, que permaneceu por anos sem julgamento dos acusados.
As investigações relacionadas aos possíveis mandantes do crime, porém, foram encerradas sem responsabilizações. O processo contra os policiais apontados como executores avançou lentamente, enquanto familiares, sobreviventes e organizações de direitos humanos continuaram cobrando respostas do Estado.
A estreia do filme em uma plataforma de alcance internacional amplia a visibilidade do caso justamente no momento em que o processo judicial entra em uma nova etapa. Para os realizadores e movimentos que acompanham a chacina, a circulação do documentário também ajuda a manter a atenção pública sobre a segurança das testemunhas e sobre a realização do julgamento.
Violência no campo e disputa pela memória
Mais do que reconstituir um episódio ocorrido em 2017, “Pau D’Arco” discute a permanência da violência no campo brasileiro e a dificuldade de responsabilizar agentes públicos envolvidos em mortes durante conflitos por terra.
O documentário também disputa a memória do caso. Em vez de aceitar versões oficiais que inicialmente trataram as mortes como consequência de um confronto, o filme acompanha os relatos dos sobreviventes e as evidências reunidas por investigadores, advogados e organizações de direitos humanos.
Assistir a “Pau D’Arco” é compreender que a luta por terra, justiça e proteção às testemunhas não terminou. A chegada do documentário à Netflix amplia o alcance dessa história e transforma o cinema em uma forma de preservar a memória das vítimas e pressionar para que o caso não termine em impunidade.
A campanha ligada ao filme utiliza a mensagem #JustiçaPraPauDArco para incentivar o público a assistir, indicar e compartilhar a produção.
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