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Por Raul Silva | Especial para O Estopim



Em uma noite histórica para a cultura nacional, o cinema brasileiro — e, mais especificamente, o cinema pernambucano — quebrou um jejum de quase três décadas. "O Agente Secreto", o thriller político de Kleber Mendonça Filho, faturou na noite deste domingo o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Não-Inglesa, consolidando a força da produção audiovisual do Nordeste no cenário global.


A vitória coloca o Brasil de volta ao pódio da Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, ecoando o feito de Central do Brasil (1999), e serve como um poderoso "estopim" para a campanha do Oscar 2026.


A Consagração de uma Era


Ambientado no Recife de 1977, durante os anos de chumbo da Ditadura Militar, o filme não é apenas uma obra de suspense esteticamente impecável; é um documento histórico pulsante. Ao subir ao palco, Kleber Mendonça Filho, acompanhado do protagonista Wagner Moura e da produtora Emilie Lesclaux, foi ovacionado de pé.


O longa superou concorrentes de peso da França, Coreia do Sul e Alemanha, destacando-se pela forma visceral como retrata a paranoia urbana e a vigilância estatal — temas que, embora situados nos anos 70, dialogam assustadoramente com a vigilância digital e as tensões políticas contemporâneas.


Recife: A Capital do Cinema Brasileiro


Para nós, pernambucanos, o prêmio tem um sabor especial. Ver as ruas do Recife, com sua arquitetura brutalista e suas pontes, projetadas nas telas de Los Angeles, reafirma o que a crítica especializada já aponta há anos: Pernambuco produz o cinema mais autoral e politicamente engajado do país.


"Este prêmio é para o Recife, para a memória dos que resistiram em 1977 e para todos os cineastas brasileiros que continuam filmando, apesar de tudo." — Trecho do discurso de aceitação (reconstrução jornalística).

A atuação de Wagner Moura, vivendo um professor universitário que se vê enredado em uma trama de espionagem, foi citada pela crítica internacional como "magnética" e "devastadora", servindo como a âncora emocional de um filme que trata da perda da liberdade.


O Significado Político


Para os leitores de O Estopim, a vitória de "O Agente Secreto" vai além do glamour do tapete vermelho. O filme toca em feridas que a sociedade brasileira ainda não cicatrizou completamente. Ao expor os mecanismos de controle da ditadura através da ficção, Kleber Mendonça Filho realiza um ato de memória política essencial em tempos de revisionismo histórico.


O filme nos lembra que a arte é, em última instância, uma ferramenta de resistência. A vitória no Globo de Ouro amplifica essa mensagem para uma audiência global, forçando o mundo a olhar para a história política do Brasil e para a sofisticação da nossa narrativa.


Rumo ao Oscar


Com o Globo de Ouro em mãos, "O Agente Secreto" torna-se automaticamente o favorito, ou ao menos um concorrente fortíssimo, para o Oscar de Melhor Filme Internacional. A estatueta dourada serve como um farol, atraindo a atenção dos votantes da Academia para a obra-prima pernambucana.


Arcoverde, Recife e todo o Brasil celebram hoje. Não apenas um prêmio de cinema, mas o reconhecimento de que a nossa história, contada com o nosso sotaque, merece ser vista pelo mundo inteiro.


 
 
 

Por Raul Silva para Radar Literário d'O estopim | 26 de setembro de 2025


Publicado em 2015, "Ainda Estou Aqui", de Marcelo Rubens Paiva, subverte a definição de um simples livro de memórias para se firmar como um artefato cultural de rara potência. É, na verdade, uma obra híbrida e multifacetada que se tece com os fios da biografia íntima, do testemunho histórico, do jornalismo investigativo e do ensaio filosófico. A genialidade de Paiva está em fundir esses gêneros de forma orgânica, criando um texto que é ao mesmo tempo documento e desabafo.


Confira nossa resenha em áudio

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Justiça, memória e a luta de Eunice Paiva contra a Ditadura e o AlzheimerRadar Literário

Capa do livro - Editora Alfaguara
Capa do livro - Editora Alfaguara

No seu cerne, o livro é um poderoso e comovente tratado sobre a memória e a luta desesperada contra o seu apagamento em duas frentes simultâneas e igualmente trágicas: a batalha de uma família contra o esquecimento deliberadamente imposto por um Estado autoritário e a batalha de um filho contra a dissolução da identidade de sua mãe pela névoa impiedosa do Alzheimer. Essas duas batalhas não correm em paralelo; elas se entrelaçam, dialogam e se espelham, mostrando que o esquecimento, seja ele forçado pela violência política ou pela falha da biologia, é sempre uma forma de aniquilamento.


A narrativa se constrói sobre um pilar duplo de perdas, erguendo um monumento à resiliência humana. De um lado, acompanhamos a saga incansável de Eunice Paiva, mãe do autor, em busca da verdade sobre o destino de seu marido, o deputado Rubens Paiva. Figura política proeminente e cassada pelo regime, ele foi sequestrado, torturado e assassinado por agentes da ditadura militar brasileira em 1971, tornando-se um dos mais emblemáticos "desaparecidos políticos" do país.


Por mais de quatro décadas, Eunice enfrentou a burocracia kafkiana, o silêncio cúmplice e a negação sistemática das Forças Armadas. Ela transformou seu luto pessoal em uma bandeira política, convertendo a dor da ausência em ação incessante pela memória e pela justiça. Sua luta não era apenas por um corpo para enterrar, mas pelo direito à verdade, tornando-se a personificação da resistência contra o projeto de esquecimento histórico que, sob o pretexto de uma "reconciliação", tentou varrer para debaixo do tapete os crimes e as feridas abertas do regime.


Em um espelhamento cruel e paradoxal do destino, enquanto Eunice luta para que a memória de seu marido não seja apagada da história do Brasil, seu filho, Marcelo, trava uma batalha inversa e igualmente dolorosa: ele luta para preservar as memórias de sua mãe, que começam a ser implacavelmente roubadas pelo Mal de Alzheimer.


Eunice Paiva e Rubens Paiva - Foto: Acervo pessoal da família Paiva
Eunice Paiva e Rubens Paiva - Foto: Acervo pessoal da família Paiva

A sobreposição dessas duas jornadas é o que confere ao livro sua força avassaladora e seu impacto universal. Paiva narra com uma honestidade brutal, que não poupa o leitor dos detalhes mais crus da degenerescência, e, ao mesmo tempo, com uma ternura infinita, o processo de desintegração cognitiva de Eunice. Ele descreve a perda progressiva das palavras, dos nomes dos filhos, dos rostos familiares e, por fim, da própria noção de si. Ele documenta não a morte física de sua mãe, mas a dolorosa metamorfose de uma das mentes mais brilhantes e ativas de sua geração — uma advogada combativa, uma mãe presente — em uma sombra de si mesma, presa em um labririnto interior. A crueza dessa descrição serve a um propósito maior: o de mostrar que a perda da memória é uma forma de desaparecimento em vida.


A genialidade da estrutura narrativa de Paiva reside em sua recusa a uma cronologia linear, optando por uma abordagem que reflete a própria desordem da memória. O livro é um mosaico, uma colagem de fragmentos que espelha a natureza caótica do trauma e do esquecimento. Capítulos que funcionam como um diário íntimo sobre o avanço da doença e os desafios práticos e emocionais do cuidado são intercalados com flashbacks vívidos da infância do autor, transcrições de documentos oficiais da Comissão da Verdade, cartas pessoais, reportagens da época e trechos da minuciosa investigação sobre o sequestro e assassinato de Rubens Paiva.


Essa polifonia de vozes e textos cria uma experiência de leitura imersiva e, por vezes, sufocante. Ao saltar de um laudo pericial frio para uma lembrança afetuosa, Paiva coloca o leitor diretamente no centro do caos emocional e histórico vivido pela família. Essa desorientação temporal, portanto, é uma escolha estética e política: ela não apenas espelha a mente fragmentada de Eunice, mas emula a própria memória fraturada de uma nação que ainda luta para montar o quebra-cabeça de seu passado.


Eunice Paiva, acompanhada do filho Marcelo Rubens Paiva, recebe a certidão de óbito de Rubens Paiva, seu marido desaparecido desde 1971 - Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress
Eunice Paiva, acompanhada do filho Marcelo Rubens Paiva, recebe a certidão de óbito de Rubens Paiva, seu marido desaparecido desde 1971 - Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress

No centro de tudo, e a cada página, emerge a figura monumental de Eunice Paiva. O livro é, antes de mais nada, uma eloquente carta de amor e uma homenagem à sua força inabalável. Longe de ser retratada apenas como vítima passiva da história ou da doença, ela é a protagonista resiliente, uma mulher que, mesmo diante das maiores dores que um ser humano pode suportar — a perda do marido e a perda de si mesma —, se recusou a ser silenciada.


Advogada, mãe de cinco filhos, ela se tornou um símbolo de dignidade e coragem, não só para sua família, mas para inúmeras outras que passaram pela mesma tragédia do desaparecimento forçado. Ao registrar meticulosamente a história de sua mãe, da sua lucidez combativa à sua vulnerabilidade final, Marcelo cumpre a promessa contida no título: "Ainda Estou Aqui". Ele se torna a memória viva dela, o guardião de sua história e de sua luta, garantindo que nem a brutalidade da ditadura nem a crueldade da doença tenham a palavra final sobre quem foi Eunice Paiva.


"Ainda Estou Aqui" é, portanto, uma obra de importância capital, cuja relevância só cresce com o tempo. É um documento de denúncia que humaniza as estatísticas da ditadura, dando nome, rosto, história e uma complexidade de sentimentos a uma de suas vítimas e à família que foi permanentemente marcada pela violência de Estado. Mais do que isso, é uma reflexão universal sobre o amor filial, o luto, a identidade e a própria essência do que nos torna humanos.


Ao justapor a perda da memória coletiva e da memória individual, Marcelo Rubens Paiva nos força a confrontar o quão essencial e ativo é o ato de lembrar — para uma pessoa, para uma família e para uma nação inteira. Não é um livro fácil, mas profundamente necessário. É um testamento inesquecível que afirma, com clareza cortante, que o antídoto contra o desaparecimento — seja ele imposto por um regime ou por uma doença — é o ato de contar a história.


"Ainda estou aqui" tem sido destaque na imprensa nacional e estrangeira. Foto: reprodução.
"Ainda estou aqui" tem sido destaque na imprensa nacional e estrangeira. Foto: reprodução.

O eco dessa verdade literária encontrou sua mais potente caixa de ressonância na adaptação cinematográfica homônima dirigida por Walter Salles. O filme não apenas traduziu com maestria a complexidade da obra para as telas, mas amplificou sua mensagem a uma escala global, um fenômeno coroado com o histórico Oscar de Melhor Filme Internacional em março de 2025. Sete meses depois, o impacto do filme não diminuiu; pelo contrário, ele continua a acumular prêmios nos mais prestigiados festivais ao redor do mundo, de Cannes a Veneza.


Essa aclamação contínua demonstra que a história de Eunice Paiva transcendeu seu contexto brasileiro para se tornar um símbolo universal da luta por justiça e memória. O sucesso duradouro do filme potencializa a força da narrativa original, provando que a luta contra o esquecimento é uma pauta urgente e global. Cada novo prêmio não é apenas um reconhecimento artístico para Salles e sua equipe, mas uma vitória para a memória histórica, um lembrete contundente de que, enquanto houver quem conte essas histórias, as vozes silenciadas continuarão a ecoar.


Recentemente Raul Silva fez uma resenha especial para o quadro Literatura de Primeira na Rádio Itapuama FM confiram aqui:


 
 
 
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