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Investigação revela como vídeo que circula no Telegram e WhatsApp utiliza anacronismos grosseiros e manipulação histórica para transformar a memória da Ditadura Militar em arma de guerra política.


Da Redação de O estopim | 01 de fevereiro de 2026


Vídeo circula na internet espalhando desinformação deliberada pela extrema-direita com objetivo de angariar votos de jovens que devem votar pela primeira vez esse ano
Vídeo circula na internet espalhando desinformação deliberada pela extrema-direita com objetivo de angariar votos de jovens que devem votar pela primeira vez esse ano | Fonte: Reprodução/WhatsApp

Um vídeo granulado, acompanhado de legendas alarmistas e um texto repleto de emojis e apelos urgentes, tornou-se a nova peça central de uma campanha de desinformação que já visa as eleições presidenciais de 2026. O conteúdo, compartilhado massivamente em grupos de Telegram e WhatsApp, alega revelar um "arquivo dos anos 80" supostamente ocultado pela Rede Globo a mando do PT, financiado via "Roubanet".


A peça não é apenas uma fake news comum; é um artefato de guerra híbrida desenhado com um alvo demográfico preciso: a geração Z. Ao dissecarmos o conteúdo, encontramos uma fabricação que desafia a lógica temporal, a verdade jurídica e a história documentada do Brasil.


O anacronismo da "Roubanet": A fake news que a cronologia desmascara


A base da acusação viral desmorona diante de uma simples verificação de calendário. O texto afirma que o Partido dos Trabalhadores (PT) pagou para "enterrar" o arquivo nos anos 80 utilizando a Lei Rouanet (pejorativamente chamada de "Roubanet").


Esta afirmação é uma impossibilidade histórica. A Lei de Incentivo à Cultura (Lei 8.313), conhecida como Lei Rouanet, foi sancionada apenas em 23 de dezembro de 1991, durante o governo de Fernando Collor de Mello. É cronologicamente impossível que qualquer transação tenha ocorrido "via Rouanet" na década de 1980, uma vez que o mecanismo legal sequer existia à época.


Além disso, na década de 1980, o PT era um partido de oposição emergente, sem acesso à máquina federal e com uma relação historicamente conflituosa com a Rede Globo, culminando na edição do debate de 1989 que prejudicou Lula. A ideia de um conluio financiado pelo Estado naquela época é uma fabricação que tenta projetar ressentimentos políticos atuais sobre o passado.


Dilma Rousseff e o "Cofre do Adhemar": O Que Dizem os Fatos


O vídeo utiliza montagens de áudio e cortes abruptos para sugerir que a ex-presidente Dilma Rousseff seria uma criminosa comum ou uma "assaltante de bancos" que confessaria seus crimes em um arquivo secreto. A realidade histórica, documentada pelo Superior Tribunal Militar (STM) e pela Comissão Nacional da Verdade (CNV), é muito mais complexa e difere radicalmente da narrativa bolsonarista.


Dilma Rousseff militou nas organizações COLINA (Comando de Libertação Nacional) e VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares) durante a ditadura. Documentos da repressão da época a descrevem como uma liderança intelectual ("um dos cérebros") e organizadora, mas não como uma executora de ações armadas na linha de frente.


O episódio mais explorado, o roubo do cofre do ex-governador Adhemar de Barros em 1969, foi realizado pela VAR-Palmares. No entanto, investigações históricas e processos do próprio regime militar indicam que Dilma não participou da execução do assalto no Rio de Janeiro. Embora tenha tido conhecimento da ação como dirigente e participado da gestão dos recursos para a manutenção da organização clandestina, ela não estava na cena do crime.


A narrativa viral apaga deliberadamente o contexto de exceção: a luta armada surgiu como resposta ao fechamento do regime após o AI-5 (1968). Além disso, o vídeo omite o fato de que Dilma foi presa em 1970 e submetida a torturas brutais — pau-de-arara, choques e espancamentos — durante quase três anos, crimes de lesa-humanidade reconhecidos pelo Estado brasileiro. Transformar uma vítima de tortura estatal em mera "bandida" é uma estratégia de revisionismo histórico.


Este vídeo circula em grupos do Telegram e WhatsApp, utilizando dados históricos distorcidos e/o fora de contexto para gerar desinformação deliberada com intuito de radicalizar jovens e angariar votos para a extrema-direita nas eleições 2026 | Fonte: Reprodução/WhatsApp

A Estratégia do "Colapso de Contexto" no Telegram


A disseminação deste material depende da arquitetura de aplicativos como o Telegram e o WhatsApp. O fenômeno, conhecido por pesquisadores como "colapso de contexto", ocorre quando uma informação perde sua fonte original e autoria à medida que é encaminhada.


No Telegram, grupos com até 200 mil membros funcionam como "bunkers digitais". Diferente das redes sociais abertas, onde o conteúdo pode ser checado ou contestado publicamente, esses aplicativos criam câmaras de eco onde a mentira circula sem contraditório. O vídeo chega ao usuário "limpo" de metadados, validado apenas pela confiança em quem o enviou (um amigo ou familiar), o que aumenta sua credibilidade percebida.


O texto viral instrui explicitamente: "Não esconda esta sujeira", "Temos que enviar este vídeo para o mundo inteiro". Este é um gatilho de ação projetado para transformar cada usuário em um soldado da desinformação, criando um senso de urgência artificial.


O Alvo: "Os Jovens de 2021" e o Pleito de 2026


O aspecto mais perigoso do texto é seu foco explícito na demografia juvenil. Ao listar as idades ("15 anos está com 19", etc.), a mensagem revela uma estratégia de recrutamento geracional para as eleições de 2026.


Jovens que hoje têm entre 16 e 20 anos não possuem memória vivida da Ditadura Militar, nem mesmo dos governos do PT do início dos anos 2000. Eles são o alvo perfeito para o revisionismo histórico. A extrema-direita tem se posicionado nessas redes como uma força "contracultural" e "rebelde", oferecendo a esses jovens uma versão da história onde a ditadura foi uma "revolução necessária" e a esquerda é um "sistema corrupto" a ser varrido.


O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a Polícia Federal já identificaram que a desinformação organizada e o uso de Inteligência Artificial para criar deepfakes (vídeos falsos hiper-realistas) serão os maiores desafios para a integridade das eleições de 2026 .


O Risco Democrático


A retórica de "terminar a faxina" e "varrer a esquerdalha" utiliza metáforas de limpeza que historicamente precedem a violência política real. Ao desumanizar adversários e falsificar a história, essas redes preparam o terreno não apenas para ganhar votos, mas para contestar a legitimidade do processo democrático caso o resultado não lhes agrade, repetindo o roteiro de 2022.


Combater essa desinformação exige mais do que apenas checagem de fatos; exige letramento digital e histórico. É fundamental entender que o vídeo do "arquivo enterrado" não é uma revelação secreta, mas uma montagem fraudulenta desenhada para manipular a indignação de quem não viveu a história.

 
 
 
Deputado Leur Lomanto Júnior (União-BA) será o responsável por analisar a representação por quebra de decoro parlamentar. O processo, que pode levar à cassação do mandato do filho do ex-presidente, entra agora em sua fase inicial.

Por Redação d'O estopim | 26 de setembro de 2025


Brasília – O presidente do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados, Julio Arcoverde (PP-PI), definiu nesta sexta-feira (26) o relator do processo disciplinar movido contra o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O escolhido para conduzir a análise inicial do caso foi o deputado Leur Lomanto Júnior (União-BA), um político experiente e membro de um partido que recentemente adotou uma postura de independência em relação ao governo.


Confira nossa análise em áudio

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Leur Lomanto Júnior, e os próximos passos rumo à possível cassaçãoO estopim

Leur Lomanto Júnior (União-BA) - Fonte: Portal da Câmara dos Deputados
Leur Lomanto Júnior (União-BA) - Fonte: Portal da Câmara dos Deputados

A definição do relator é um passo crucial e dá início formal à tramitação de um dos processos mais politicamente sensíveis da atual legislatura. A representação, protocolada em conjunto pelos partidos PSOL e Rede Sustentabilidade, acusa o parlamentar de quebra de decoro por supostamente ter feito ameaças a outros congressistas e por discursos que, segundo os autores, atentariam contra as instituições democráticas e o Estado de Direito.


Quem é o relator?


Leur Lomanto Júnior pertence ao União Brasil, partido que acaba de formalizar sua saída da base de apoio do governo Lula. Essa posição de "independência" coloca o relator em uma posição-chave, teoricamente menos suscetível às pressões diretas tanto do Palácio do Planalto quanto da oposição bolsonarista.


Membro de uma família com longa tradição na política baiana, Lomanto Júnior é visto como um parlamentar de perfil moderado, filiado ao chamado Centrão. Sua atuação será fundamental para ditar o ritmo e a direção do processo. A escolha de um nome do União Brasil para a relatoria é, por si só, um elemento de imprevisibilidade no desfecho do caso.


Quais os próximos passos?


Com a designação oficial, o rito processual começa a correr. Leur Lomanto Júnior terá agora um prazo de 10 dias úteis para apresentar um parecer preliminar. Neste documento, ele deverá decidir por uma de três vias:


  1. Arquivamento: Caso entenda que a denúncia não tem fundamento ou não constitui quebra de decoro, pode recomendar o arquivamento imediato do processo.

  2. Continuidade: Se considerar que há indícios de infração ética, ele recomendará a continuidade das investigações.

  3. Diligências: O relator pode ainda solicitar a realização de diligências para coletar mais informações antes de tomar sua decisão.


Se o parecer for pela continuidade, ele será votado pela maioria simples dos membros do Conselho de Ética. Aprovado, o processo entra na fase de instrução, na qual Eduardo Bolsonaro será notificado para apresentar sua defesa por escrito e arrolar até oito testemunhas. O relator, por sua vez, poderá ouvir as testemunhas de acusação e defesa, coletar provas e, ao final, elaborar um parecer de mérito, que também será submetido à votação no colegiado.


As possíveis punições e o cenário político


O processo no Conselho de Ética pode resultar em um leque de penalidades, que variam em gravidade, desde uma censura verbal ou escrita, passando pela suspensão temporária do mandato por até seis meses, até a punição máxima: a cassação do mandato parlamentar.


A instauração do processo e a escolha do relator elevam a temperatura política em Brasília. Para a base governista e partidos de oposição a Bolsonaro, o caso é um teste para a capacidade do Conselho de Ética de punir o que consideram "excessos" e reafirmar os limites da imunidade parlamentar. Já para os aliados do ex-presidente, o processo é visto como mais um capítulo de uma suposta "perseguição política" contra a família Bolsonaro e seus apoiadores.


A definição do relator marca o início de uma batalha jurídica e política que deve se estender pelos próximos meses no Congresso Nacional. O parecer de Leur Lomanto Júnior será o primeiro termômetro crucial sobre a força da representação e as chances reais de uma punição efetiva a um dos principais nomes e influenciadores do bolsonarismo no país.

 
 
 

A trama Golpista

Como uma organização criminosa liderada por Jair Bolsonaro tentou quebrar a democracia brasileira e agora enfrenta a Justiça no julgamento histórico que começou nesta terça-feira no STF

A trama Golpista

Por Redação d'O estopim - 2 de setembro de 2025


Às 9h desta terça-feira, 2 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal inicia o que pode ser considerado o julgamento mais importante para a democracia brasileira desde o fim da ditadura militar. No banco dos réus, oito pessoas, incluindo o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, respondem por uma das mais sofisticadas tentativas de golpe de Estado já documentadas na história republicana do país.


A investigação da Polícia Federal, condensada em mais de 3.000 páginas de relatórios, e a denúncia da Procuradoria-Geral da República revelam uma trama que começou muito antes das eleições de 2022 e culminou na invasão dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 - um plano minuciosamente arquitetado para manter Bolsonaro no poder a qualquer custo, inclusive com a eliminação física de autoridades e candidatos eleitos.


As Origens: Quando a Democracia Entrou na Mira

A trama Golpista

A história começa em 29 de julho de 2021, quase um ano e três meses antes das eleições presidenciais. Naquele dia, durante uma transmissão ao vivo no Palácio da Alvorada, Jair Bolsonaro iniciou o que os investigadores chamariam posteriormente de "execução prática" de um plano para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro.


Cronologia da Trama Golpista no Brasil (2021-2023)
Cronologia da Trama Golpista no Brasil (2021-2023)

"As eleições de 2022, se não tivermos o voto impresso, uma forma de auditar o voto, pode esquecer. Não vai ter eleição", declarou o então presidente, lançando as bases de uma narrativa que seria repetida exaustivamente nos meses seguintes.


Mas o marco definitivo da escalada golpista veio em 7 de setembro de 2021. Durante os atos de celebração da Independência, Bolsonaro subiu no trio elétrico em Brasília e proferiu ameaças diretas ao Supremo Tribunal Federal: "Eu não mais me submeto a decisões emanadas de Alexandre de Moraes. Só Deus me tira dali", bradou para uma multidão que aplaudia.


Segundo a investigação da Polícia Federal, essas declarações públicas eram apenas a ponta de um iceberg muito maior. Nos bastidores, uma sofisticada organização criminosa já operava para criar as condições necessárias para uma ruptura institucional.


A Anatomia de uma Conspiração: Os Seis Núcleos do Golpe

A trama Golpista

A Polícia Federal identificou que a organização criminosa operou através de seis núcleos especializados, cada um com funções específicas no projeto de poder:


Estrutura da Organização Criminosa segundo a Polícia Federal
Estrutura da Organização Criminosa segundo a Polícia Federal

1. Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral


Coordenado por figuras como Filipe Martins, assessor especial da Presidência, e José Eduardo de Oliveira e Silva, este núcleo foi responsável por disseminar sistematicamente informações falsas sobre fraudes eleitorais. O grupo utilizou o que os investigadores chamam de técnicas da "milícia digital": alto volume de disseminação, uso de múltiplos canais, repetição constante e emprego de autoridades para dar credibilidade às narrativas falsas.


Um dos episódios mais emblemáticos foi a reunião de 18 de julho de 2022 com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada. Bolsonaro apresentou alegações infundadas sobre vulnerabilidades do sistema eletrônico de votação, numa clara tentativa de desacreditar as eleições junto à comunidade internacional.


2. Núcleo Responsável por Incitar Militares a Aderirem ao Golpe


Liderado pelo general Walter Souza Braga Netto, este núcleo tinha como objetivo cooptar comandantes militares para apoiar a ruptura institucional. Os investigadores descobriram que militares de forças especiais, apelidados de "Kids Pretos", foram mobilizados para pressionar o Alto Comando do Exército.


Uma reunião crucial ocorreu em 28 de novembro de 2022, numa residência em Brasília, onde oficiais de forças especiais planejaram ações para "influenciar positivamente" seus comandantes a aderir ao golpe. O coronel Bernardo Romão Corrêa Netto chegou a afirmar em mensagens: "Thomaz, Richard e Stumpf tinham que ser exonerados, presos, sei lá, qualquer merda, antes do GFG [General Freire Gomes] passar o Comando EB".


3. Núcleo Jurídico


Composto por advogados e juristas como Amauri Feres Saad, este núcleo elaborou as minutas de decretos que dariam aparência legal ao golpe. O grupo trabalhou na fundamentação jurídica para medidas como a decretação de Estado de Defesa e a intervenção no Tribunal Superior Eleitoral.


4. Núcleo Operacional de Apoio às Ações Golpistas


Este núcleo fornecia suporte logístico e operacional para as ações da organização. Incluía militares e civis que atuavam na coordenação de manifestações, distribuição de materiais e articulação entre diferentes grupos.


5. Núcleo de Inteligência Paralela


Liderado por Alexandre Rodrigues Ramagem, ex-diretor da ABIN, este núcleo utilizou a estrutura de inteligência do Estado para monitorar opositores, produzir informações falsas e apoiar as narrativas golpistas. Ramagem chegou a elaborar anotações pessoais com estratégias para interferir em investigações da Polícia Federal.


6. Núcleo Operacional para Cumprimento de Medidas Coercitivas


O mais sinistro dos núcleos, composto por militares de forças especiais, foi responsável pelo planejamento de ações violentas, incluindo planos para sequestrar ou assassinar autoridades. Este grupo elaborou o documento "Punhal Verde Amarelo", um detalhado plano operacional para eliminar o ministro Alexandre de Moraes e os candidatos eleitos Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin.


O Núcleo Crucial: Bolsonaro no Centro da Teia

A trama Golpista

Na estrutura hierárquica identificada pelos investigadores, Jair Messias Bolsonaro ocupava inequivocamente a posição de líder da organização criminosa. A denúncia da Procuradoria-Geral da República é categórica:


"O então presidente da República exerceu a liderança e teve pleno domínio da organização criminosa".

Jair Bolsonaro - Reprodução: Reuters
Jair Bolsonaro - Reprodução: Reuters

As evidências do protagonismo de Bolsonaro são abundantes:

  • Controle das Narrativas: Bolsonaro não apenas disseminava pessoalmente as alegações de fraude eleitoral, como coordenava a produção e distribuição desses conteúdos. Em reunião ministerial de 5 de julho de 2022, um general teria dito: "o que tiver que ser feito tem que ser feito antes das eleições", numa clara referência à necessidade de criar condições para questionar o resultado eleitoral.

  • Comando das Articulações: O ex-presidente participou diretamente de reuniões onde foram apresentadas as minutas do decreto golpista. Em 7 de dezembro de 2022, no Palácio do Alvorada, Bolsonaro reuniu os comandantes das Forças Armadas e o ministro da Defesa para apresentar o decreto que subverteria o Estado Democrático de Direito.

  • Conhecimento dos Planos Violentos: Segundo os investigadores, Bolsonaro tinha conhecimento dos planos para eliminar autoridades. O general Mario Fernandes, ex-secretário-executivo da Secretaria-geral da Presidência, confessou em depoimento ao STF ter sido o autor do plano "Punhal Verde Amarelo", que previa o assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes.

  • Persistência Após o Fracasso: Mesmo depois que os comandantes militares recusaram apoio ao decreto golpista, Bolsonaro manteve a articulação através de outros canais, culminando nos eventos de 8 de janeiro de 2023.


As Acusações Contra Bolsonaro


A denúncia da PGR imputa a Jair Bolsonaro três crimes:

  1. Organização Criminosa (art. 2º da Lei 12.850/2013): Como líder de uma associação de mais de quatro pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas para cometer crimes.

  2. Tentativa de Abolição Violenta do Estado Democrático de Direito (art. 359-L do Código Penal): Por tentar suprimir ou modificar o regime democrático mediante violência ou grave ameaça.

  3. Tentativa de Golpe de Estado (art. 359-M do Código Penal): Por tentar assumir o comando de tropas ou assumir o exercício de função pública constitucionalmente atribuída a outrem.


O Ministério Público enfatiza que a tentativa de golpe é crime consumado, independentemente do sucesso da empreitada. "Não há justificativa plausível para questionar a legitimidade de eleições livres, diretas, secretas, universais e periódicas, realizadas com observância de todas as garantias legais e constitucionais", afirma a denúncia.


Os Demais Protagonistas do Núcleo Central


Além de Bolsonaro, outros sete réus compõem o núcleo central julgado pela Primeira Turma do STF:


General Walter Souza Braga Netto - Imagem: Sergio Lima - 16.fev.18/AFP
General Walter Souza Braga Netto - Imagem: Sergio Lima - 16.fev.18/AFP

Walter Souza Braga Netto

Ex-ministro da Defesa e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro, Braga Netto foi identificado como coordenador-geral da organização criminosa. Os investigadores descobriram que ele ordenou ataques sistemáticos contra comandantes militares que se opuseram ao golpe. Em mensagem de 15 de dezembro de 2022, Braga Netto orientou: "Senta o pau no Batista Junior... traidor da pátria. Dai para frente. Inferniza a vida dele e da família".


General Augusto Heleno Ribeiro Pereira.Foto: Marcos Corrêa/PR
General Augusto Heleno Ribeiro Pereira.Foto: Marcos Corrêa/PR

Augusto Heleno Ribeiro Pereira

Ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Heleno participou ativamente da articulação política do golpe e da elaboração das justificativas legais para as medidas excepcionais.







Alexandre Ramagem Rodrigues, diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência)
Alexandre Ramagem Rodrigues, diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência)

Alexandre Rodrigues Ramagem

Ex-diretor da ABIN, Ramagem utilizou a estrutura de inteligência do Estado para apoiar a trama golpista. Suas anotações pessoais revelam estratégias para interferir em investigações e produzir conteúdo favorável à narrativa de fraude eleitoral.






Ex-ministro Anderson Torres em depoimento à CPI dos Atos Golpistas — Foto: WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Ex-ministro Anderson Torres em depoimento à CPI dos Atos Golpistas — Foto: WALLACE MARTINS

Anderson Gustavo Torres

Ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Torres participou da articulação para utilizar as forças policiais federais em apoio ao projeto golpista.








O tenente-coronel Mauro Cid - Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
O tenente-coronel Mauro Cid - Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Mauro César Barbosa Cid

Ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Cid foi peça-chave na articulação entre os diferentes núcleos da organização. Suas mensagens de WhatsApp, recuperadas pela Polícia Federal, documentam detalhadamente o planejamento golpista.






General Almir Garnier Santos - Foto: Marcos Corrêa/PR
General Almir Garnier Santos - Foto: Marcos Corrêa/PR

Almir Garnier Santos

Ex-comandante da Marinha, foi o único entre os três comandantes militares a apoiar explicitamente o golpe. Segundo as investigações, Garnier chegou a colocar tropas à disposição para o cumprimento do decreto golpista.





Ex-comandante do exército - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Ex-comandante do exército - Marcelo Camargo/Agência Brasil

Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira

Ex-ministro da Defesa, participou das reuniões onde o decreto golpista foi apresentado aos comandantes militares.









O Plano Sinistro: "Punhal Verde Amarelo"


Entre todas as descobertas da investigação, talvez nenhuma seja mais chocante que o documento encontrado em poder do general Mario Fernandes, intitulado "Punhal Verde Amarelo". Trata-se de um detalhado plano operacional para sequestrar ou assassinar o ministro Alexandre de Moraes e eliminar os candidatos eleitos Lula e Alckmin.


O documento, com características de manual terrorista, incluía:

  • Levantamento detalhado da rotina e segurança de Alexandre de Moraes: horários, itinerários, composição da equipe de segurança, veículos utilizados e pontos vulneráveis.

  • Plano para envenenar Lula: O documento previa a eliminação do presidente eleito por envenenamento, considerado um método que deixaria menos evidências.

  • Assassinato de Geraldo Alckmin: O vice-presidente eleito também seria eliminado para "extinguir a chapa vencedora" das eleições.

  • Aceitação de "baixas colaterais": O plano previa explicitamente que haveria mortes, inclusive de militares envolvidos, classificadas como "passíveis e aceitáveis".


O general Mario Fernandes confessou em depoimento ao STF ter sido o autor do plano: "O pensamento foi meu", declarou em julho de 2025. O documento chegou a ser impresso no Palácio do Planalto em dezembro de 2022, demonstrando que havia conhecimento em altos escalões do governo.


O plano saiu do papel em 15 de dezembro de 2022, quando os "Kids Pretos" executaram a chamada "Operação Copa 2022". Militares de forças especiais estavam posicionados em Brasília para prender ou executar Alexandre de Moraes. A operação só foi abortada quando ficou claro que Bolsonaro não conseguiria o apoio necessário dos comandantes militares.


A Resistência Democrática: Quando os Militares Disseram Não


Um dos aspectos mais relevantes revelados pela investigação foi a resistência oferecida pelos principais comandantes militares ao projeto golpista. Essa resistência foi determinante para impedir a consumação do golpe.


General Freire Gomes: O Comandante Legalista


General Marco Antônio Freire Gomes  • Romério Cunha/VPR
General Marco Antônio Freire Gomes  • Romério Cunha/VPR

O então comandante do Exército, general Júlio César de Arruda, conhecido como Freire Gomes, foi alvo de intensa pressão para aderir ao golpe. Em depoimento à Polícia Federal, Freire Gomes confirmou que chegou a advertir Bolsonaro de que, caso atentasse contra o regime democrático, seria obrigado a prender o próprio presidente.


A recusa de Freire Gomes gerou uma campanha sistemática de ataques orquestrada por Braga Netto. O ex-ministro da Defesa chegou a afirmar: "a culpa pelo que está acontecendo e acontecerá é do Gen FREIRE GOMES. Omissão e indecisão não cabem a um combatente", e ordenou: "Oferece a cabeça dele. Cagão".


Brigadeiro Baptista Junior: A Aeronáutica Contra o Golpe


O tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, comandante da Aeronáutica, (Força Aérea Brasileira/Divulgação)   Leia mais em: https://veja.abril.com.br/coluna/radar/comandante-da-fab-curte-mensagens-com-pedidos-golpistas-no-twitter/
O tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, comandante da Aeronáutica, (Força Aérea Brasileira/Divulgação)

O comandante da Aeronáutica, brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, foi ainda mais incisivo em sua oposição. Em depoimento, relatou que alertou constantemente Bolsonaro de que não existia qualquer fraude no sistema eletrônico de votação e que a Aeronáutica jamais apoiaria qualquer tentativa de manutenção irregular no poder.


Baptista Junior também se tornou alvo de ataques sistemáticos. Braga Netto chegou a orientar: "Senta o pau no Batista Junior... traidor da pátria... Inferniza a vida dele e da família".


A Exceção: Almirante Garnier


O único entre os três comandantes a apoiar o golpe foi o almirante Almir Garnier Santos, da Marinha. Segundo as investigações, Garnier chegou a colocar tropas à disposição de Bolsonaro e foi por isso elogiado pelos golpistas, que o chamavam de "patriota".


Eduardo Bolsonaro e a Guerra Econômica dos EUA




O deputado federal pediu licença do cargo e atualmente mora nos Estados Unidos com a esposa e os filhos - (crédito: Reprodução/Instagram @bolsonarosp)
O deputado federal pediu licença do cargo e atualmente mora nos Estados Unidos com a esposa e os filhos - (crédito: Reprodução/Instagram @bolsonarosp)

Enquanto no Brasil a trama golpista se desenrolava, nos Estados Unidos, Eduardo Nantes Bolsonaro, filho do ex-presidente e deputado federal, trabalhava numa frente complementar: a tentativa de criar um caos econômico no país através de sanções internacionais.


A Procuradoria-Geral da República instaurou inquérito específico contra Eduardo Bolsonaro em maio de 2025, acusando-o de três crimes: coação no curso do processo, obstrução de investigação de organização criminosa e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.


Segundo a investigação, Eduardo Bolsonaro vem, desde o início de 2025, "reiterada e publicamente, afirmando que está se dedicando a conseguir do governo dos Estados Unidos a imposição de sanções contra integrantes do Supremo Tribunal Federal, da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal".


As ameaças incluem:

  • Cassação de vistos de entrada nos EUA

  • Bloqueio de bens e valores que autoridades brasileiras possam ter em território americano

  • Proibição de relações comerciais com pessoas físicas e jurídicas americanas


A estratégia de Eduardo Bolsonaro tem um objetivo claro: criar uma crise econômica e institucional no Brasil que force a saída do presidente Lula e abra caminho para o retorno de seu pai ao poder. A PGR identificou que essas ações têm "manifesto tom intimidatório" e visam "embaraçar o andamento do julgamento" da ação penal contra Jair Bolsonaro.


8 de Janeiro: O Ápice da Violência


Quando todos os outros planos falharam, a organização criminosa recorreu à violência direta. Em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse de Lula, milhares de pessoas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília.



Extremistas invadiram sedes dos Poderes: mesmo identificada por setores de Inteligência, ação não foi brecada pelas forças policiais — Foto: Cristiano Mariz
Extremistas invadiram sedes dos Poderes: mesmo identificada por setores de Inteligência, ação não foi brecada pelas forças policiais — Foto: Cristiano Mariz

A investigação revelou que os atos de 8 de janeiro não foram espontâneos, mas resultado direto da atuação da organização criminosa. O financiamento, a logística e o estímulo para as invasões foram coordenados pelos núcleos golpistas.


Os danos materiais superaram R$ 20 milhões, mas o custo democrático foi incalculável. Pela primeira vez na história republicana, os símbolos máximos da democracia brasileira foram atacados fisicamente por grupos que rejeitavam o resultado de eleições livres e democráticas.


Alexandre de Moraes: O Guardião da Democracia


No centro de toda a trama golpista estava a figura do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Relator dos principais inquéritos sobre ameaças à democracia, Moraes se tornou o principal alvo dos ataques golpistas.


Como relator do inquérito das fake news e dos atos antidemocráticos, Moraes conduziu investigações que revelaram a extensão das ameaças ao sistema democrático. Suas decisões, sempre respaldadas pelo colegiado do STF, foram fundamentais para preservar as instituições.


Alexandre de Moraes, do STF / Crédito: Gustavo Moreno/STF
Alexandre de Moraes, do STF / Crédito: Gustavo Moreno/STF

A investigação revelou que Moraes era alvo prioritário dos planos violentos. O documento "Punhal Verde Amarelo" detalha minuciosamente como seria executado seu sequestro ou assassinato. O plano chegou a ser colocado em prática em 15 de dezembro de 2022, sendo abortado apenas quando ficou claro que o golpe não teria apoio militar.


Mesmo sob ameaça constante, Moraes manteve a condução das investigações dentro do estrito marco legal. Sua postura firme, mas sempre respaldada em decisões colegiadas, foi fundamental para que as instituições democráticas resistissem aos ataques sistemáticos.


O STF Como Bastião da Democracia


O Supremo Tribunal Federal desempenhou papel crucial na preservação da democracia brasileira durante a crise. Mais do que julgar casos individuais, o STF se posicionou como guardião último das instituições democráticas.


Ministros da Suprema Corte brasileira - Fellipe Sampaio/STF
Ministros da Suprema Corte brasileira - Fellipe Sampaio/STF

O Tribunal tomou decisões fundamentais:

  • Validação das eleições de 2022 contra contestações infundadas

  • Condenação dos atos de 8 de janeiro como atentados à democracia

  • Autorização das investigações que desvendaram toda a trama golpista


A conduta do STF demonstrou que as instituições brasileiras, forjadas pela Constituição de 1988, possuem mecanismos de defesa eficazes contra tentativas autoritárias. A separação de poderes funcionou como anteparo contra os ataques ao sistema democrático.


O julgamento que começa nesta terça-feira na Primeira Turma do STF transcende a responsabilização individual dos acusados. Trata-se de um momento definidor para a democracia brasileira pelos seguintes motivos:


1. Precedente Jurídico

O julgamento estabelecerá precedente definitivo sobre os limites do exercício do poder no Brasil. Uma eventual condenação deixará claro que nem mesmo ex-presidentes estão acima da lei e que tentativas de golpe serão punidas com rigor.


2. Fortalecimento Institucional

A condução do julgamento demonstra a maturidade das instituições brasileiras. O fato de um ex-presidente ser julgado pelos mesmos crimes que qualquer cidadão reforça o princípio da igualdade perante a lei.


3. Proteção da Democracia

Uma condenação servirá como elemento dissuasório para futuras tentativas autoritárias. Estabelecerá que golpes de Estado, mesmo quando fracassam, têm consequências penais graves.


4. Reparação Histórica

O julgamento representa uma oportunidade de reparação histórica pelos danos causados às instituições democráticas e à sociedade brasileira. É uma chance de reafirmar os valores democráticos.


5. Exemplo Internacional

O Brasil está sendo observado pela comunidade internacional. Um julgamento justo e rigoroso reforçará a imagem do país como democracia sólida e servirá de exemplo para outras nações enfrentando desafios similares.


Os Impactos para a Democracia Brasileira


As revelações sobre a tentativa de golpe já produziram impactos duradouros na democracia brasileira:


Paradoxalmente, os ataques às instituições resultaram no seu fortalecimento. O Congresso Nacional, o STF, o TSE e as Forças Armadas demonstraram capacidade de resistir a pressões autoritárias.


Praça dos Três Poderes em Brasília
Praça dos Três Poderes em Brasília

A sociedade brasileira tomou consciência da fragilidade da democracia. A mobilização social em defesa das instituições em momentos críticos demonstrou o amadurecimento cívico do país.


Os eventos revelaram a necessidade de reformas para fortalecer a democracia:

  • Regulamentação das redes sociais para combater desinformação

  • Fortalecimento dos órgãos de controle para impedir uso indevido da máquina pública

  • Maior transparência nos processos eleitorais


O país ainda enfrenta o desafio de superar a polarização extrema criada pela trama golpista. O julgamento pode contribuir para esse processo ao estabelecer os fatos com clareza e impor consequências aos responsáveis.


Lições para o Futuro


A tentativa de golpe de Estado no Brasil oferece lições importantes para a preservação da democracia:


1. Vigilância Constante

A democracia exige vigilância constante da sociedade. Sinais de autoritarismo devem ser identificados e combatidos precocemente.


2. Fortalecimento Institucional

As instituições democráticas precisam ser constantemente fortalecidas e aperfeiçoadas para resistir a ataques futuros.


3. Educação Cívica

É fundamental investir na educação cívica da população para criar cidadãos conscientes de seus direitos e deveres democráticos.


4. Combate à Desinformação

A desinformação é uma arma poderosa contra a democracia e precisa ser combatida através de regulamentação adequada e educação digital.


5. Defesa dos Valores Democráticos

Os valores democráticos não podem ser considerados garantidos. Precisam ser ativamente defendidos e promovidos.


O Brasil na encruzilhada da história


Quando os ministros da Primeira Turma do STF se reuniram nesta terça-feira para iniciar o julgamento de Jair Bolsonaro e seus correligionários, não estavam apenas decidindo sobre o destino individual de oito pessoas. Estavam, sim, escrevendo um capítulo fundamental da história democrática brasileira.


A investigação da Polícia Federal e a denúncia da Procuradoria-Geral da República revelaram uma conspiração de proporções assustadoras: uma organização criminosa que operou a partir dos mais altos escalões do poder, utilizou a máquina pública para fins privados, articulou com militares para quebrar a ordem constitucional e planejou eliminar fisicamente opositores políticos.


Que essa trama tenha sido descoberta, investigada e levada a julgamento demonstra a robustez das instituições brasileiras. Que os principais comandantes militares tenham recusado apoio ao golpe mostra que as lições da ditadura militar foram aprendidas pelas Forças Armadas. Que a sociedade tenha se mobilizado em defesa da democracia revela o amadurecimento cívico do país.


Mas a história ainda não terminou. O julgamento que se inicia hoje dirá se o Brasil está definitivamente vacinado contra aventuras autoritárias ou se precisará permanecer em vigilância constante. Uma coisa, porém, já está clara: a democracia brasileira foi testada ao limite e resistiu. E isso, por si só, já é uma vitória histórica.


O veredicto da Primeira Turma do STF não julgará apenas os réus no banco dos acusados. Julgará a própria capacidade da democracia brasileira de se defender, se renovar e se fortalecer diante dos desafios do século XXI. E, pelos indícios revelados ao longo de quase três anos de investigação, essa democracia está mais forte do que nunca.


Esta reportagem foi baseada em documentos oficiais da Polícia Federal, denúncia da Procuradoria-Geral da República, decisões do Supremo Tribunal Federal e fontes jornalísticas verificadas. Todos os fatos narrados estão devidamente documentados nos autos dos inquéritos e ações penais em curso.

 
 
 
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