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Por Raul Silva Editoria de Política | 11 de fevereiro de 2026


Pesquisa Genial Investimentos | Foto: Reprodução
Pesquisa Genial Investimentos | Foto: Reprodução

O brilho azulado da tela do smartphone à meia-noite é a nova fogueira em torno da qual a tribo se reúne. Mas, diferentemente das fogueiras ancestrais que aqueciam e uniam, esta consome. Enquanto o usuário médio desliza o polegar por um feed infinito de vídeos curtos antes de dormir, a realidade é processada, mastigada e devolvida em forma de ressentimento. A última pesquisa Genial/Quaest, divulgada neste 11 de fevereiro de 2026, é o espelho desse cansaço da Democracia: o Brasil não está apenas polarizado; ele está fragmentado em realidades paralelas que não se comunicam mais.


A tese é incômoda para os otimistas de plantão: o governo Lula pode entregar o maior PIB da década e o menor desemprego da história, mas está perdendo a guerra para o "sentimento". Não estamos diante de uma crise de gestão, mas de uma crise de percepção mediada por algoritmos que lucram com o caos. A máquina pública funciona, mas a máquina de afetos da oposição opera em uma frequência que a racionalidade institucional sequer consegue sintonizar.


Se mergulharmos nos dados de escolaridade e renda (Páginas 111-112 da pesquisa), vemos um padrão persistente. A economia dá sinais de melhora no bolso, mas a alma do eleitor permanece sob o regime do que Byung-Chul Han chama de "Infocracia". A informação perdeu sua dimensão narrativa e se tornou apenas um estímulo. Quando a Quaest aponta que a principal fonte de informação política do brasileiro são as redes sociais (Páginas 104-107), ela está nos dizendo que a verdade se tornou um subproduto do engajamento. O algoritmo não quer que você saiba que a inflação caiu; ele quer que você sinta medo de que ela suba.


Leia a pesquisa completa:


O background sociológico nos ajuda a entender o abismo. Zygmunt Bauman falava da "modernidade líquida", mas o que vivemos hoje é uma "modernidade gasosa", onde nada se fixa. O conhecimento técnico sobre o funcionamento do Estado — o desenho de políticas públicas, o equilíbrio fiscal — é atropelado por uma lógica de "shock and awe" (choque e pavor). A esquerda, muitas vezes, "passa pano" para a própria incapacidade comunicacional, acreditando piamente que "o fato fala por si". Erro fatal. Na era do deepfake e do microdirecionamento, o fato é apenas uma matéria-prima que o algoritmo molda conforme o viés do freguês.


A contradição óbvia surge aqui: Mas Raul, a oposição também não tem propostas, apenas grita mais alto?. Exato. E é justamente por isso que eles crescem. A política transformou-se em entretenimento de combate. O argumento de que "o povo vota com o estômago" está sendo desafiado pela ideia de que o povo vota com o sistema dopaminérgico. Antecipar que a melhora econômica garantirá 2026 é de uma ingenuidade atroz.


Não podemos ser mornos. Se o campo progressista continuar tratando a política como uma planilha de Excel enquanto o outro lado a trata como uma guerra santa digital, o resultado de 2026 será o triunfo do vazio. A lealdade deste jornal é com o humano, e o humano está sendo asfixiado por interfaces.


O desfecho desta rodada da Quaest não é um número percentual, é um alerta silencioso. Estamos nos tornando operários de uma fábrica de indignação que não produzirá nenhum pão, mas garantirá muito circo. Se não recuperarmos a capacidade de contar uma história humana que faça sentido para além das bolhas de vidro temperado, terminaremos o ano não como cidadãos, mas como meros pontos de dados em um gráfico de rejeição. A política morreu; viva o engajamento. E que Deus, ou o próximo update do sistema, tenha piedade de nós.

Da Redação de O estopim | 21 de janeiro de 2026


ARCOVERDE, PE — A histórica escassez de água que castiga o Sertão do Araripe motivou uma nova mobilização política em Pernambuco. Diante da exclusão da região na recente etapa de investimentos federais, foi formalizado um pedido urgente à Casa Civil para que os municípios do Araripe sejam inseridos nas obras de abastecimento rural do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).


Audio cover
Falta de água no Araripe leva região a pedir inclusão no Novo PACRádio Conexão Notícias

Diversidade do Sertão do Araripe | Foto: Acervo/Empetur
Diversidade do Sertão do Araripe | Foto: Acervo/Empetur

Sertão: o contexto da exclusão


O Governo Federal aprovou recentemente um montante de R$ 105 milhões destinados a projetos de abastecimento rural em Pernambuco. A previsão é que esse investimento beneficie cerca de 38 mil pessoas em áreas do Agreste e do Sertão.


No entanto, apesar de sua alta vulnerabilidade social e climática, a região do Araripe não foi contemplada nesta lista inicial de prioridades. O fato gerou preocupação, visto que a região enfrenta dificuldades crônicas de acesso à água potável, essenciais para a sobrevivência da agricultura familiar e a permanência do homem no campo.


A articulação política


Em resposta a esse cenário, o deputado federal Eduardo da Fonte (PP-PE) encaminhou um ofício diretamente à Casa Civil. O documento solicita a revisão do planejamento para incluir as comunidades rurais do Araripe nas ações do programa "Água para Todos" ou vertentes similares do Novo PAC.


Os principais argumentos apresentados no ofício incluem:


  • Saúde Pública: A falta de água tratada impacta diretamente a incidência de doenças na população local.

  • Produção Agrícola: A região, que possui potencial produtivo (incluindo a bacia leiteira e a mandiocultura), tem sua economia travada pela insegurança hídrica.

  • Combate ao Êxodo Rural: A garantia de água é o fator determinante para que as famílias não precisem abandonar suas terras em busca de sobrevivência nos centros urbanos.

"A proposta é garantir que o Araripe também seja incluído nas ações do Novo PAC, assegurando água para quem mais precisa e fortalecendo o desenvolvimento da região." — Trecho da reportagem de Diogo Bastos, da Agência Rádio Conexão.

Entenda o Caso em Números

Dado

Detalhe

Investimento Aprovado

R$ 105 Milhões (via Governo Federal)

Público Beneficiado

Estimativa de 38 mil pessoas

Regiões Contempladas

Partes do Agreste e Sertão (exceto Araripe)

Região Reivindicante

Sertão do Araripe (Oeste de Pernambuco)

Próximos Passos


A solicitação aguarda análise técnica da Casa Civil e do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. A inclusão do Araripe dependeria de um remanejamento de verbas ou da abertura de uma fase suplementar de investimentos do Novo PAC voltada especificamente para regiões de semiárido extremo que ficaram de fora do corte inicial.

Por Nísia Campos | 17 de janeiro de 2026


Sala de aula escola pública do RN Escola Estadual Duque de Caxias Rio Grande do Norte do Norte cadeiras Macau RN — Foto: Elisa Elsie/Governo do RN
Sala de aula escola pública do RN Escola Estadual Duque de Caxias Rio Grande do Norte do Norte cadeiras Macau RN — Foto: Elisa Elsie/Governo do RN

Piso 2026 a humilhação decimal


Imagine receber o contracheque em janeiro e descobrir que o reconhecimento pelo seu trabalho, após um ano de salas superlotadas e planejamento noturno, vale menos que um cafezinho na esquina. É exatamente esse o cenário desenhado para o magistério brasileiro. Pelas regras vigentes de cálculo do Piso Salarial Profissional Nacional (PSPN), atreladas à variação do Valor Aluno Ano (VAAF) do Fundeb, o reajuste projetado para o próximo ciclo seria de irrisórios 0,37%.


Não é um erro de digitação. É zero vírgula trinta e sete.


Para um professor que ganha o piso atual (R$ 4.580,57), isso representaria um aumento de cerca de R$ 16,90. Enquanto o custo da cesta básica dispara e a inflação corrói o poder de compra, a "matemática" fria herdada de um período de trevas educacionais oferece migalhas. Essa aberração estatística não surgiu do nada; ela é o fantasma da gestão Bolsonaro assombrando o contracheque de quem sustenta a educação pública neste país.


A herança maldita e a engenharia do caos


Esse índice vergonhoso de 0,37% não é um "acidente fiscal". É o sintoma agudo de uma política deliberada de asfixia implementada entre 2019 e 2022. O governo Bolsonaro não apenas cortou verbas; ele desorganizou a estrutura de financiamento da educação.


A atual regra de reajuste do piso, baseada na variação do valor por aluno, torna-se uma armadilha mortal quando a economia estagna ou quando há desonerações irresponsáveis (como as feitas com o ICMS em fins eleitorais de 2022), que derrubam a arrecadação de estados e municípios. O governo anterior, ao atacar a educação como "inimiga ideológica" e congelar investimentos, criou um vácuo jurídico e financeiro. Eles transformaram o MEC em um balcão de negócios para pastores e deixaram uma bomba-relógio no Fundeb: se a arrecadação não cresce, o professor não come.


Agora, o governo Lula corre contra o tempo para desarmar essa bomba. A proposta que está na mesa, prestes a virar Medida Provisória (MP) até o fim de janeiro, busca alterar a base de cálculo. A ideia é substituir a volatilidade do VAAF por um índice que combine a inflação (INPC) com ganho real, projetando um reajuste em torno de 6,25%.


Não se enganem: a diferença entre 0,37% e 6,25% não é apenas numérica. É a diferença entre a continuidade do projeto de precarização bolsonarista e a retomada, ainda que tímida, da valorização profissional.


A "Tia" que pague para trabalhar


Vamos descer dos gabinetes de Brasília para o chão da escola. Pense na professora Helena, da rede municipal de uma cidade média. Ela gasta do próprio bolso para comprar cartolina e canetas, porque o material "licitado" nunca chega. Ela lida com alunos que desmaiam de fome na segunda aula.


Quando Helena ouve falar em 0,37%, ela não vê um índice econômico. Ela sente o desrespeito na pele. "É como se dissessem que meu esforço vale menos a cada ano", desabafa uma docente em um grupo de WhatsApp da categoria, um dos muitos que fervilham de indignação.


Para a Confederação Nacional de Municípios (CNM), que vive chorando miséria enquanto prefeitos aumentam os próprios salários, pagar o piso é "gasto insustentável". Para Helena, o piso é a única barreira que a impede de abandonar a sala de aula para virar motorista de aplicativo ou vendedora, profissões dignas, mas que não exigem a formação superior e a responsabilidade social que ela carrega. A recusa em dar um reajuste decente é uma forma de violência psicológica contra quem já está exausto.


Desmontando a falácia da "Falta de Verba"


Vamos aos fatos e à Lei 11.738/2008. O argumento de que "não há dinheiro" é uma falácia contábil.


  1. A Armadilha do VAAF: O critério atual (Lei 14.113/2020) atrela o reajuste à variação do valor mínimo por aluno. O legado econômico desastroso de Paulo Guedes e Bolsonaro achatou essa variação. Sem crescimento robusto da arrecadação, o mecanismo trava.

  2. A Proposta do Governo Federal: A nova MP deve buscar um meio-termo. Um reajuste de 6,25% (provavelmente INPC + uma porcentagem de ganho real baseada no crescimento da receita) é tecnicamente viável. O Fundeb tem recursos. O problema é a prioridade.

  3. Investimento, não Gasto: Estudos do INEP e comparativos da OCDE mostram que o Brasil ainda investe pouco por aluno em comparação a países desenvolvidos, embora invista uma fatia razoável do PIB. O gargalo está na gestão e na valorização dos recursos humanos. Pagar bem o professor é a medida mais eficiente para melhorar a qualidade do ensino, muito mais do que comprar tablets superfaturados de edtechs que prometem milagres.


A resistência dos prefeitos e governadores não é técnica; é política. Eles preferem asfaltar ruas em ano eleitoral a garantir a subsistência do magistério. O reajuste de 6,25% é o mínimo para repor as perdas inflacionárias e garantir um respiro. O índice de 0,37% seria, juridicamente, o cumprimento da letra fria de uma regra quebrada por uma economia sabotada.


Ou valoriza ou a escola para


A MP que o governo Lula promete para janeiro é um curativo necessário numa ferida aberta. Se o reajuste ficar em 0,37%, teremos a maior greve nacional da educação da última década. Não haverá "pacto pela educação" que se sustente sobre a fome dos professores.


A disputa que se avizinha no Congresso para aprovar essa MP será brutal. O lobby municipalista vai gritar que as prefeituras vão quebrar. Cabe a nós perguntar: e a coluna vertebral do professor, que já quebrou carregando o peso do descaso?


Se permitirmos que a lógica do "teto de gastos" e da "herança maldita" vença, decretaremos o fim da carreira docente no Brasil. 6,25% não é o céu, mas 0,37% é o inferno. A caneta do Ministro Camilo Santana precisa estar cheia de tinta, e a rua precisa estar cheia de gente. Janeiro definirá se 2026 será o ano da recuperação ou o ano da debandada final das salas de aula.


Nísia Campos é jornalista especializada em educação, defensora da escola pública e acredita que não existe soberania nacional com professor ganhando mal.

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