ARCOVERDE, PE — A histórica escassez de água que castiga o Sertão do Araripe motivou uma nova mobilização política em Pernambuco. Diante da exclusão da região na recente etapa de investimentos federais, foi formalizado um pedido urgente à Casa Civil para que os municípios do Araripe sejam inseridos nas obras de abastecimento rural do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
Falta de água no Araripe leva região a pedir inclusão no Novo PACRádio Conexão Notícias
Diversidade do Sertão do Araripe | Foto: Acervo/Empetur
Sertão: o contexto da exclusão
O Governo Federal aprovou recentemente um montante de R$ 105 milhões destinados a projetos de abastecimento rural em Pernambuco. A previsão é que esse investimento beneficie cerca de 38 mil pessoas em áreas do Agreste e do Sertão.
No entanto, apesar de sua alta vulnerabilidade social e climática, a região do Araripe não foi contemplada nesta lista inicial de prioridades. O fato gerou preocupação, visto que a região enfrenta dificuldades crônicas de acesso à água potável, essenciais para a sobrevivência da agricultura familiar e a permanência do homem no campo.
A articulação política
Em resposta a esse cenário, o deputado federal Eduardo da Fonte (PP-PE) encaminhou um ofício diretamente à Casa Civil. O documento solicita a revisão do planejamento para incluir as comunidades rurais do Araripe nas ações do programa "Água para Todos" ou vertentes similares do Novo PAC.
Os principais argumentos apresentados no ofício incluem:
Saúde Pública: A falta de água tratada impacta diretamente a incidência de doenças na população local.
Produção Agrícola: A região, que possui potencial produtivo (incluindo a bacia leiteira e a mandiocultura), tem sua economia travada pela insegurança hídrica.
Combate ao Êxodo Rural: A garantia de água é o fator determinante para que as famílias não precisem abandonar suas terras em busca de sobrevivência nos centros urbanos.
"A proposta é garantir que o Araripe também seja incluído nas ações do Novo PAC, assegurando água para quem mais precisa e fortalecendo o desenvolvimento da região." — Trecho da reportagem de Diogo Bastos, da Agência Rádio Conexão.
Entenda o Caso em Números
Dado
Detalhe
Investimento Aprovado
R$ 105 Milhões (via Governo Federal)
Público Beneficiado
Estimativa de 38 mil pessoas
Regiões Contempladas
Partes do Agreste e Sertão (exceto Araripe)
Região Reivindicante
Sertão do Araripe (Oeste de Pernambuco)
Próximos Passos
A solicitação aguarda análise técnica da Casa Civil e do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. A inclusão do Araripe dependeria de um remanejamento de verbas ou da abertura de uma fase suplementar de investimentos do Novo PAC voltada especificamente para regiões de semiárido extremo que ficaram de fora do corte inicial.
Sala de aula escola pública do RN Escola Estadual Duque de Caxias Rio Grande do Norte do Norte cadeiras Macau RN — Foto: Elisa Elsie/Governo do RN
Piso 2026 a humilhação decimal
Imagine receber o contracheque em janeiro e descobrir que o reconhecimento pelo seu trabalho, após um ano de salas superlotadas e planejamento noturno, vale menos que um cafezinho na esquina. É exatamente esse o cenário desenhado para o magistério brasileiro. Pelas regras vigentes de cálculo do Piso Salarial Profissional Nacional (PSPN), atreladas à variação do Valor Aluno Ano (VAAF) do Fundeb, o reajuste projetado para o próximo ciclo seria de irrisórios 0,37%.
Não é um erro de digitação. É zero vírgula trinta e sete.
Para um professor que ganha o piso atual (R$ 4.580,57), isso representaria um aumento de cerca de R$ 16,90. Enquanto o custo da cesta básica dispara e a inflação corrói o poder de compra, a "matemática" fria herdada de um período de trevas educacionais oferece migalhas. Essa aberração estatística não surgiu do nada; ela é o fantasma da gestão Bolsonaro assombrando o contracheque de quem sustenta a educação pública neste país.
A herança maldita e a engenharia do caos
Esse índice vergonhoso de 0,37% não é um "acidente fiscal". É o sintoma agudo de uma política deliberada de asfixia implementada entre 2019 e 2022. O governo Bolsonaro não apenas cortou verbas; ele desorganizou a estrutura de financiamento da educação.
A atual regra de reajuste do piso, baseada na variação do valor por aluno, torna-se uma armadilha mortal quando a economia estagna ou quando há desonerações irresponsáveis (como as feitas com o ICMS em fins eleitorais de 2022), que derrubam a arrecadação de estados e municípios. O governo anterior, ao atacar a educação como "inimiga ideológica" e congelar investimentos, criou um vácuo jurídico e financeiro. Eles transformaram o MEC em um balcão de negócios para pastores e deixaram uma bomba-relógio no Fundeb: se a arrecadação não cresce, o professor não come.
Agora, o governo Lula corre contra o tempo para desarmar essa bomba. A proposta que está na mesa, prestes a virar Medida Provisória (MP) até o fim de janeiro, busca alterar a base de cálculo. A ideia é substituir a volatilidade do VAAF por um índice que combine a inflação (INPC) com ganho real, projetando um reajuste em torno de 6,25%.
Não se enganem: a diferença entre 0,37% e 6,25% não é apenas numérica. É a diferença entre a continuidade do projeto de precarização bolsonarista e a retomada, ainda que tímida, da valorização profissional.
A "Tia" que pague para trabalhar
Vamos descer dos gabinetes de Brasília para o chão da escola. Pense na professora Helena, da rede municipal de uma cidade média. Ela gasta do próprio bolso para comprar cartolina e canetas, porque o material "licitado" nunca chega. Ela lida com alunos que desmaiam de fome na segunda aula.
Quando Helena ouve falar em 0,37%, ela não vê um índice econômico. Ela sente o desrespeito na pele. "É como se dissessem que meu esforço vale menos a cada ano", desabafa uma docente em um grupo de WhatsApp da categoria, um dos muitos que fervilham de indignação.
Para a Confederação Nacional de Municípios (CNM), que vive chorando miséria enquanto prefeitos aumentam os próprios salários, pagar o piso é "gasto insustentável". Para Helena, o piso é a única barreira que a impede de abandonar a sala de aula para virar motorista de aplicativo ou vendedora, profissões dignas, mas que não exigem a formação superior e a responsabilidade social que ela carrega. A recusa em dar um reajuste decente é uma forma de violência psicológica contra quem já está exausto.
Desmontando a falácia da "Falta de Verba"
Vamos aos fatos e à Lei 11.738/2008. O argumento de que "não há dinheiro" é uma falácia contábil.
A Armadilha do VAAF: O critério atual (Lei 14.113/2020) atrela o reajuste à variação do valor mínimo por aluno. O legado econômico desastroso de Paulo Guedes e Bolsonaro achatou essa variação. Sem crescimento robusto da arrecadação, o mecanismo trava.
A Proposta do Governo Federal: A nova MP deve buscar um meio-termo. Um reajuste de 6,25% (provavelmente INPC + uma porcentagem de ganho real baseada no crescimento da receita) é tecnicamente viável. O Fundeb tem recursos. O problema é a prioridade.
Investimento, não Gasto: Estudos do INEP e comparativos da OCDE mostram que o Brasil ainda investe pouco por aluno em comparação a países desenvolvidos, embora invista uma fatia razoável do PIB. O gargalo está na gestão e na valorização dos recursos humanos. Pagar bem o professor é a medida mais eficiente para melhorar a qualidade do ensino, muito mais do que comprar tablets superfaturados de edtechs que prometem milagres.
A resistência dos prefeitos e governadores não é técnica; é política. Eles preferem asfaltar ruas em ano eleitoral a garantir a subsistência do magistério. O reajuste de 6,25% é o mínimo para repor as perdas inflacionárias e garantir um respiro. O índice de 0,37% seria, juridicamente, o cumprimento da letra fria de uma regra quebrada por uma economia sabotada.
Ou valoriza ou a escola para
A MP que o governo Lula promete para janeiro é um curativo necessário numa ferida aberta. Se o reajuste ficar em 0,37%, teremos a maior greve nacional da educação da última década. Não haverá "pacto pela educação" que se sustente sobre a fome dos professores.
A disputa que se avizinha no Congresso para aprovar essa MP será brutal. O lobby municipalista vai gritar que as prefeituras vão quebrar. Cabe a nós perguntar: e a coluna vertebral do professor, que já quebrou carregando o peso do descaso?
Se permitirmos que a lógica do "teto de gastos" e da "herança maldita" vença, decretaremos o fim da carreira docente no Brasil. 6,25% não é o céu, mas 0,37% é o inferno. A caneta do Ministro Camilo Santana precisa estar cheia de tinta, e a rua precisa estar cheia de gente. Janeiro definirá se 2026 será o ano da recuperação ou o ano da debandada final das salas de aula.
Nísia Campos é jornalista especializada em educação, defensora da escola pública e acredita que não existe soberania nacional com professor ganhando mal.
Ministro do Turismo cede a ultimato do partido, que rompeu com o Planalto, mas presidente pede que permaneça no cargo por mais alguns dias. Saída expõe fragilidade da articulação política e abre nova frente de negociação por espaço no primeiro escalão.
Por Redação d'O estopim | 26 de setembro de 2025
Brasília – Em um dos capítulos mais tensos e reveladores da complexa relação entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional, o ministro do Turismo, Celso Sabino, entregou oficialmente sua carta de demissão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na tarde desta sexta-feira. A decisão, embora amplamente esperada nos bastidores políticos ao longo da semana, culmina um período de alta pressão e formaliza o desembarque do União Brasil da base aliada. Este movimento não apenas gera uma crise de consequências ainda imensuráveis para a governabilidade, mas também acende um sinal de alerta sobre a coesão da coalizão que sustenta o governo.
Confira nossa análise em áudio
Ultimato do União Brasil e a saída de Celso Sabino do turismoO estopim
Celso Sabino (União Brasil - PA) - Foto: Portal da Câmara dos Deputados
A saída de Sabino não foi uma escolha voluntária, mas sim o resultado inevitável de um ultimato imposto pela executiva nacional do União Brasil, uma das siglas mais influentes do Centrão. Na semana passada, o partido, que recentemente formou uma federação com o Progressistas (PP), aprovou uma resolução taxativa que obrigava todos os seus filiados a deixarem cargos no governo federal em um prazo exíguo. A medida é a mais clara sinalização de que o partido abandona a postura de aliado para se posicionar como uma força independente, e potencialmente de oposição, com o claro objetivo de construir um projeto de poder autônomo para as eleições de 2026.
O ultimato e a resistência
Celso Sabino resistiu enquanto foi politicamente viável. Com projetos importantes sob sua gestão, a organização da COP30, a conferência climática da ONU que será realizada em Belém (PA), seu estado natal, era a joia da coroa. Para Sabino, permanecer à frente do ministério durante um evento de projeção global era uma plataforma estratégica para sua carreira política, alimentando seus planos de uma possível candidatura ao Senado.
Diante da pressão, ele se engajou em intensas negociações nos últimos dias, tentando costurar um acordo com a cúpula do partido, liderada pelo presidente Antonio Rueda, para obter uma "licença partidária". Esse arranjo, se bem-sucedido, lhe permitiria continuar no governo sem ser formalmente um representante do União Brasil, um drible na resolução partidária.
A negociação, contudo, encontrou um muro. A liderança do partido, determinada a marcar sua posição de independência, mostrou-se irredutível, comunicando que a decisão de romper com o governo era soberana e inegociável.
A pressão foi amplificada por declarações públicas de Rueda, que, em uma tentativa de personalizar a questão sem parecer quebrar laços pessoais, afirmou que "ama Celso Sabino, mas o partido tem regras". A mensagem era clara: a lealdade partidária deveria prevalecer sobre os projetos individuais e a aliança com o governo.
A carta e o pedido estratégico de Lula
Ao sair da reunião no Palácio do Planalto, Sabino confirmou à imprensa que havia acatado a determinação de seu partido.
"Entreguei hoje ao presidente Lula a minha carta, colocando o cargo à disposição, cumprindo a orientação do União Brasil", declarou o ministro em um tom que mesclava resignação e um apelo por moderação.
A entrega do documento simbolizou o fim de uma era de colaboração entre a sigla e o governo petista. Contudo, a demissão não será imediata. Em um movimento político calculado, o presidente Lula pediu que Sabino o acompanhasse em uma agenda oficial na próxima semana, adiando a exoneração formal.
"O presidente pediu que eu o acompanhasse nessa missão na próxima quinta-feira e assim nós vamos estar. Vou como ministro ainda", afirmou Sabino.
Essa sobrevida, ainda que curta, serve a múltiplos propósitos: dá ao governo tempo para negociar a sucessão no ministério, sinaliza aos demais partidos da base que a transição será ordenada e, principalmente, deixa uma porta entreaberta para o diálogo com a ala menos radical do União Brasil.
"Eu acredito no diálogo, eu acredito que os homens públicos devem querer o que é melhor para o país", completou Sabino, ecoando a estratégia do Planalto.
Repercussões e o futuro incerto da esplanada
A saída de Celso Sabino é um golpe duro e de efeito prático imediato para a articulação política do governo. A federação União-PP representa a maior bancada da Câmara dos Deputados, com mais de 100 parlamentares, e seu desembarque oficial para a oposição encarece significativamente o custo de aprovação de pautas de interesse do Executivo, como reformas econômicas e projetos orçamentários. A crise expõe a dificuldade crônica do governo em manter uma base de apoio sólida e heterogênea, dependente de partidos com agendas próprias e muitas vezes conflitantes.
A partir de agora, a Esplanada dos Ministérios se torna, mais uma vez, um disputado tabuleiro de xadrez. A vaga no Ministério do Turismo é cobiçada por outros partidos do Centrão que permanecem na base, como o PSD e o MDB, que já iniciaram movimentações para intensificar a pressão por mais espaço. Para o Planalto, a escolha do substituto será delicada e estratégica: precisará ser um nome que não apenas demonstre capacidade técnica, mas que, crucialmente, traga consigo o apoio de uma bancada expressiva e fiel no Congresso.
A situação do ministro dos Esportes, André Fufuca, filiado ao PP, também se torna insustentável. Com a mesma resolução da federação se aplicando a ele, sua permanência no cargo é vista nos corredores do poder como improvável, o que pode levar a uma nova e iminente baixa no primeiro escalão de Lula. O cenário que se desenha é de profunda incerteza e de intensas negociações nos próximos dias, com o governo correndo contra o tempo para reorganizar suas alianças, conter a sangria e garantir a estabilidade mínima necessária para governar e avançar sua agenda.