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CRE marca audiência para 18 de março e senadores citam brasileiros retidos na região e efeito da crise no petróleo e nos fertilizantes


Por Raul Silva para O estopim | 11 de Março de 2026


A Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional (CRE) do Senado marcou para 18 de março uma audiência com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para tratar dos desdobramentos da guerra no Oriente Médio e dos impactos do conflito sobre brasileiros que estão na região e sobre setores estratégicos da economia.


Chanceler Mauro Vieira | Foto: © Valter Campanato/ Agência Brasil
Chanceler Mauro Vieira | Foto: © Valter Campanato/ Agência Brasil

O convite ao chanceler foi aprovado após parlamentares relatarem preocupação com a escalada de hostilidades e seus efeitos sobre civis e sobre infraestruturas como aeroportos, portos, refinarias e outras estruturas consideradas estratégicas.



O presidente da comissão, senador Nelsinho Trad (PSD-MS), afirmou que a CRE quer ouvir do Itamaraty a posição do governo federal e quais medidas foram adotadas até agora, citando demandas de brasileiros que, segundo ele, estariam retidos em países do Oriente Médio sem conseguir retornar ao Brasil. Trad também vinculou o conflito a pressões econômicas, com alta do petróleo e reflexos em combustíveis, gás e fertilizantes.


Em debate na comissão, o senador Esperidião Amin (PP-SC) defendeu que a CRE busque informações oficiais antes de se posicionar sobre o conflito, e disse que o colegiado não deve assumir lado.


A senadora Tereza Cristina (PP-MS) disse que a guerra pode pressionar preços do petróleo, encarecer fretes e atingir cadeias essenciais do comércio internacional. Ela citou variação do barril, de US$ 63 para US$ 120, e questionou o horizonte de duração do conflito.


O senador Laércio Oliveira (PP-SE) chamou atenção para a dependência brasileira de fertilizantes importados e defendeu urgência na tramitação da Política Nacional de Fertilizantes. Para ele, a crise expõe vulnerabilidades do país em cadeias estratégicas para a produção agrícola e já aumenta custos logísticos para produtores.


A audiência de 18 de março será a próxima agenda da CRE dedicada ao tema, em meio à pressão de parlamentares por esclarecimentos sobre a atuação diplomática do Brasil e sobre ações para assistência a brasileiros na região.


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Jornalista, Escritor e Professor. Raul Silva é a mente que arquitetou O estopim. Sua missão é desmontar narrativas hegemônicas e oferecer um jornalismo que não tem medo de comprar briga com o poder estabelecido. Aqui, ele assina as principais análises editoriais e coordena a visão estratégica do portal.

Por Heitor Lemos para O estopim | 4 de março de 2026


Os possíveis sucessores de Ali Khamenei | Foto: Reprodução
Os possíveis sucessores de Ali Khamenei | Foto: Reprodução

A morte do aiatolá Ali Khamenei em meio à ofensiva conjunta de Estados Unidos e Israel abriu a sucessão mais sensível do Oriente Médio desde 1989. Com o país sob bombardeio, a disputa pelo posto de líder supremo do Irã deixou de ser especulação de gabinete e virou fator de sobrevivência do regime.


A escolha cabe à Assembleia de Especialistas, um colégio de clérigos eleito sob forte filtro do Conselho dos Guardiões. Na prática, o processo acontece a portas fechadas e sob a sombra do ator mais temido e mais rico do sistema: a Guarda Revolucionária Islâmica.



Irã: Análise de contexto


O cargo de líder supremo existe para garantir que a Revolução Islâmica de 1979 não seja desmontada por eleições ou por governos de turno. É o coração do conceito de velayat-e faqih, a tutela do jurista islâmico sobre a política. Em outras palavras, Teerã é uma república, mas com um freio de mão teológico.


A primeira sucessão, em 1989, foi um trauma administrado. Ruhollah Khomeini morreu sem anunciar publicamente um sucessor e o sistema escolheu Ali Khamenei, então com credenciais religiosas contestadas para o topo. A lição ficou: a institucionalidade pode ser improvisada, mas a cadeia de comando não pode falhar.


Agora a crise é maior por três motivos.

  • Guerra no território iraniano: a sucessão ocorre sob ataques e com a infraestrutura militar e política sob pressão.

  • Legitimidade em erosão: protestos e ciclos de repressão desgastaram a ideia de “consenso revolucionário”.

  • Economia sob sanções: inflação, emprego e moeda viraram combustível social, e a liderança precisa decidir se dobra a aposta na confrontação ou se busca alívio.


Os jogadores


Interesses ocultos


A sucessão não é apenas um duelo de turbantes. É a disputa por:

  • Controle do complexo militar econômico da Guarda Revolucionária, com contratos, importações, portos e obras.

  • Direção do programa nuclear e do arsenal de mísseis, o ativo de barganha mais perigoso do país.

  • Narrativa de continuidade: manter a base ideológica mobilizada, especialmente em tempo de guerra.


O xadrez geopolítico


O novo líder supremo vai decidir, na prática:

  • Se o Irã endurece a retaliação regional e aprofunda o eixo com Rússia e China.

  • Se tenta reabrir uma janela de negociação para aliviar sanções e estabilizar a economia.

  • Se aposta em uma transição mais colegiada, com o aparato de segurança assumindo o protagonismo.


Por trás do palco, cresce o peso do “rei sem coroa” do momento: Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional. Ele não aparece como favorito teológico, mas circula onde o poder real mora: inteligência, negociação nuclear, contenção de protestos e articulação entre facções.


Os dossiês dos principais candidatos


A seguir, os nomes que mais circulam nos bastidores de Teerã e os cenários prováveis caso cada um chegue ao topo.


Mojtaba Khamenei


Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei e candidato a novo líder supremo do Irã. Foto de 2019 | Foto: AP Photo/Vahid Salemi/File
Mojtaba Khamenei, filho de Ali Khamenei e candidato a novo líder supremo do Irã. Foto de 2019 | Foto: AP Photo/Vahid Salemi/File

Quem é

Filho de Ali Khamenei, discreto em público e influente nos bastidores. Construíu a fama de “porteiro do poder”, controlando acessos e alinhamentos. A hipótese de sua ascensão enfrenta um tabu: a República Islâmica nasceu contra a hereditariedade do xá.


Base de poder

  • Relação estreita com segmentos da Guarda Revolucionária e da milícia Basij.

  • Rede de influência dentro do clero de Qom.

  • Simbolismo de continuidade em plena guerra.


O que mudaria no Irã

  • Tendência a uma securitização total do Estado, com prioridade absoluta para controle interno.

  • Repressão mais preventiva, mirando lideranças sociais e redes digitais.

  • Concessões sociais limitadas, se houver, apenas como gestão de crise.


Política externa provável

  • Linha dura contra Estados Unidos e Israel, com retaliação calibrada para não abrir flanco interno.

  • Fortalecimento do arco com Moscou e Pequim, usando a guerra como argumento de unidade.

  • No nuclear, postura de barganha agressiva: avançar o suficiente para dissuadir, recuar o suficiente para negociar.


Riscos e consequências

  • Contestação por “dinastia religiosa” pode incendiar parte da sociedade e até setores do próprio campo conservador.

  • Se consolidar apoio dos aparatos armados, o Irã pode se tornar ainda mais dependente do poder econômico da Guarda.


Hassan Khomeini


Seyyed Hassan Khomeini, neto do aiatolá Ruhollah Khomeini, durante visita oficial ao Sri Lanka, em 2016 | Foto: Dinuka Liyanawatte/Reuters/Arquivo
Seyyed Hassan Khomeini, neto do aiatolá Ruhollah Khomeini, durante visita oficial ao Sri Lanka, em 2016 | Foto: Dinuka Liyanawatte/Reuters/Arquivo

Quem é

Neto do fundador da Revolução Islâmica. Tem peso simbólico, trânsito entre reformistas e parte do clero tradicional, e histórico de críticas pontuais ao filtro eleitoral e a abusos do Estado.


Base de poder

  • Capital simbólico do sobrenome Khomeini.

  • Pontes com setores moderados e reformistas.

  • Possível aceitação entre clérigos que buscam “oxigênio” para o regime.



O que mudaria no Irã

  • Tentativa de reduzir temperatura interna com gestos de abertura social e política.

  • Reequilíbrio do discurso religioso para recuperar legitimidade, sem romper com o sistema.

  • Maior ênfase em governabilidade civil, ainda que sob vigilância dos aparatos.


Política externa provável

  • Probabilidade maior de negociação para aliviar sanções e estabilizar a economia.

  • Diplomacia mais ativa com Europa e mediadores regionais.

  • Continuidade do eixo com Rússia e China, mas com linguagem menos beligerante.


Riscos e consequências

  • Resistência dura de setores da Guarda e do establishment que veem moderação como fraqueza em tempo de guerra.

  • Risco de “liderança refém”: eleito para pacificar, mas incapaz de governar sem concessões ao aparato de segurança.


Alireza Arafi


lireza Arafi — Foto: Mostafa Meraji via Wikimedia Commons
Alireza Arafi | Foto: Mostafa Meraji via Wikimedia Commons

Quem é

Clérigo administrador que ascendeu pelo sistema de Qom, com cargos no Conselho dos Guardiões e na própria Assembleia de Especialistas. Hoje integra o núcleo que responde pela transição.


Base de poder

  • Credenciais sólidas no clero e influência sobre o sistema de seminários.

  • Perfil de lealdade doutrinária ao projeto político de Khamenei.

  • Capilaridade internacional via redes de formação religiosa.


O que mudaria no Irã

  • Reforço do poder clerical institucional, com menos personalismo e mais doutrina.

  • Tendência a governar com forte delegação para a área de segurança por falta de experiência executiva.

  • Fortalecimento de políticas culturais e de controle social sob lógica “educacional”.


Política externa provável

  • Continuidade ideológica, com retórica antiocidental.

  • Priorização de alianças e redes religiosas, além da diplomacia formal.

  • No nuclear, continuidade do cálculo estratégico, mas com menos flexibilidade pública.


Riscos e consequências

  • Pode ser visto como solução de compromisso, mas corre o risco de virar vitrine enquanto decisões reais migram para uma direção colegiada de segurança.


Gholam-Hossein Mohseni-Ejei


Gholam-Hossein Mohseni-Ejei | Fonte: Justiça para as vítimas do massacre de 1988 no Irã
Gholam-Hossein Mohseni-Ejei | Fonte: Justiça para as vítimas do massacre de 1988 no Irã

Quem é

Chefe do Judiciário, com passado no Ministério da Inteligência e longa trajetória na linha dura do regime. É um nome associado a operações de repressão e a um modelo de governança pelo medo.


Base de poder

  • Controle e influência sobre o sistema judicial e sobre redes de promotores e tribunais.

  • Legitimidade junto ao campo conservador que prioriza ordem interna.

  • Presença no núcleo de transição.


O que mudaria no Irã

  • Adoção explícita de um “Estado juiz”, com o Judiciário virando eixo de disciplina social.

  • Mais prisões políticas, julgamentos sumários e endurecimento de punições.

  • Discurso anticorrupção como instrumento para enquadrar rivais internos.


Política externa provável

  • Menos ênfase em charme diplomático, mais em dissuasão.

  • Possível negociação tática para aliviar sanções, sem abandonar o programa nuclear.


Riscos e consequências

  • Alta chance de amplificar revoltas internas, sobretudo em centros urbanos.

  • Endurecimento pode acelerar isolamento, a menos que negocie com pragmatismo.


Mohsen Araki


Mohsen Araki, membro da Assembleia de Peritos e também membro do Conselho de Discernimento da Conveniência
Mohsen Araki, membro da Assembleia de Peritos e também membro do Conselho de Discernimento da Conveniência

Quem é

Aiatolá com carreira voltada à política religiosa e ao ecumenismo islâmico sob controle do Estado. Integra círculos de alto nível e circula por conselhos estratégicos.


Base de poder

  • Rede clerical e institucional em Qom.

  • Participação em conselhos consultivos e conexão com a máquina ideológica.

  • Afinidade com a ala que enxerga protestos como ameaça existencial.


O que mudaria no Irã

  • Radicalização do discurso moral e legitimação religiosa para repressão.

  • Maior peso de organizações de “proximidade islâmica” como instrumento de soft power.


Política externa provável

  • Aposta no pan-islamismo controlado por Teerã e em alianças não ocidentais.

  • Manutenção do “eixo de resistência” com mais carga doutrinária.


Riscos e consequências

  • Pode ser menos palatável para negociações com o Ocidente.

  • Cresce o risco de fratura interna por fadiga social.


Mohammad Mehdi Mirbagheri


Aiatolá Mohammad-Mahdi Merbagheri | Foto: Wikimedia Commons
Aiatolá Mohammad-Mahdi Merbagheri | Foto: Wikimedia Commons

Quem é

Aiatolá de perfil ultraideológico e teórico, ligado a uma visão civilizacional de confronto com o Ocidente. É o tipo de candidato que não promete ajuste, promete cruzada.


Base de poder

  • Apoio de grupos ultrarradicais e de setores que querem “purificação” do regime.

  • Influência acadêmica e discursiva em Qom.


O que mudaria no Irã

  • Política interna guiada por doutrina, com menos pragmatismo econômico.

  • Repressão como projeto e não apenas como resposta.


Política externa provável

  • Confronto frontal, com maior probabilidade de escaladas regionais.

  • Menos espaço para acordos, mais para “economia de guerra”.


Riscos e consequências

  • Aumento do isolamento e da pressão econômica.

  • Forte probabilidade de explosão social, a menos que o aparelho de segurança consiga sufocar tudo.


Outros nomes no radar


Além dos seis acima, circulam bastidores com outros nomes, geralmente como opções de contingência ou de composição:

  • Ahmad Alamolhoda: clérigo influente em Mashhad e voz dura do conservadorismo.

  • Hashem Hosseini Bushehri: liderança religiosa em Qom, citado como alternativa de consenso.

  • Mohsen Qomi: operador de bastidor ligado ao gabinete do líder supremo.


Impacto no Brasil


O Brasil não está na sala de votação de Qom, mas paga a conta do que sai de lá.

  • Petróleo e inflação: qualquer crise prolongada no Golfo pressiona preços e fretes marítimos. Isso entra na gasolina, no diesel e no custo da comida.

  • Fertilizantes e logística: volatilidade no Oriente Médio encarece insumos, trava rotas e afeta o agro, mesmo quando o produto não vem diretamente do Irã.

  • BRICS e diplomacia do Sul Global: com o Irã dentro do BRICS, o tom do novo líder pode mudar o equilíbrio do bloco. Um Irã mais beligerante empurra o grupo para o campo da segurança. Um Irã mais pragmático pode priorizar comércio, moeda e energia.

  • Política externa brasileira: cresce a pressão por posicionamentos em ONU e fóruns multilaterais, com o desafio de defender direito internacional sem virar peça de propaganda de ninguém.


O debate em Teerã não é sobre modernização versus conservadorismo. É sobre sobrevivência. A pergunta real é quem consegue manter o sistema de pé enquanto bombas caem e a legitimidade desaba.


Se a escolha recair em um sucessor respaldado pela força, o Irã tende a virar um Estado ainda mais policial. Se a opção for alguém com capital simbólico para pacificar, a guerra externa pode virar o pretexto perfeito para sabotar qualquer abertura.


No fim, o mundo quer saber quem será o próximo líder supremo do Irã. O povo iraniano quer saber outra coisa: o próximo líder vai governar para a Revolução ou para os iranianos?


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Heitor Lemos

Heitor Lemos é Correspondente Internacional Sênior e Analista Chefe de Geopolítica de O estopim. Escreve sobre Oriente Médio, energia e guerra híbrida, com foco nas implicações para o Brasil e o Sul Global.

Por Atlas Siqueira para O estopim Tech | 3 de Março de 2026


O que antes era uma promessa de ficção científica virou rotina de quartel. Na guerra que se abriu com ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, sistemas de inteligência artificial deixaram de ser apenas apoio periférico e passaram a ocupar o centro do tabuleiro: filtrando imagens, cruzando sinais, sugerindo alvos e encurtando o tempo entre ver e destruir.


Guerra na Ucrânia | Foto: Reprodução
Guerra na Ucrânia | Foto: Reprodução

O resultado prático é um tipo de conflito em que a vantagem não é só ter mais mísseis. É ter mais dados e capacidade de transformar dados em decisões. A diferença é que, quando a decisão vira um fluxo automatizado, o erro também ganha escala.



O que mudou no campo de batalha


A ofensiva começou com ataques aéreos e de mísseis contra estruturas estratégicas, em especial alvos ligados a capacidades nucleares e ao complexo de mísseis do Irã. Em poucos dias, a guerra passou a ter dois rostos simultâneos.


O primeiro é o do choque político e simbólico, com a decapitação de lideranças e uma disputa pela narrativa do que foi atingido, por quê e com qual legalidade.


O segundo é o do impacto humano, mais silencioso e mais brutal. Um dos episódios mais graves desta escalada foi o ataque que atingiu uma escola de meninas no sul do país, com relatos de dezenas de crianças mortas e imagens que correram o mundo. A tragédia não é apenas um acidente colateral. Ela é o retrato do risco de um conflito que tenta operar rápido demais.


A engrenagem invisível: como a inteligência artificial entra na guerra


Quando militares falam em encurtar a “cadeia de destruição”, estão falando de reduzir o caminho entre identificar um alvo e disparar. A inteligência artificial tem sido usada exatamente para isso.


Na prática, esse tipo de sistema funciona como uma central de triagem do caos. Ele recebe volumes gigantescos de informação de satélites, drones, radares, interceptações, bancos de dados e relatórios de campo. Depois, usa modelos de visão computacional para marcar padrões em imagens, rastrear mudanças em instalações, identificar equipamentos e destacar o que “parece relevante”.


A camada mais nova é a dos modelos de linguagem, usados para resumir relatórios, cruzar descrições, sugerir hipóteses e priorizar a lista de alvos. Em vez de dezenas de analistas lendo documentos e comparando mapas, parte desse trabalho vira recomendação automatizada. O ser humano continua assinando, mas assina sob pressão de tempo.


É aqui que nasce o novo problema. Quando a operação acontece em minutos, o espaço de dúvida vira uma inconveniência. E a dúvida é justamente a fronteira entre uma ação militar e um crime.


Drones, enxames e defesa aérea: o laboratório da autonomia


A guerra no Irã também escancara o papel dos drones e das munições de espera, os chamados kamikazes. Eles já haviam mudado o campo de batalha na Ucrânia. Agora, entram em um teatro com alta densidade de sensores, jamming e defesa aérea integrada.


A lógica dos enxames é simples e cruel: saturar. Um drone barato, por si só, pode ser derrubado. Centenas deles, combinados com mísseis e iscas, fazem a defesa gastar interceptadores caros e abrir brechas. É economia política aplicada no céu.


A inteligência artificial aparece nesse ponto como cola tática. Ela ajuda a navegar com menos dependência de sinal, a reconhecer alvos com câmeras térmicas e a ajustar rotas para evitar áreas de maior risco. Também dá fôlego a uma guerra eletrônica em que o objetivo é cegar o adversário.


O Irã, que construiu parte da sua dissuasão em torno de drones e mísseis, colhe o lado amargo de uma guerra em que a mesma família de armas pode ser copiada, barateada e devolvida como contra-ataque.


Quem ganha e quem perde: a economia da guerra com IA


Toda guerra cria um mercado. A diferença desta é que o produto central não é só munição. É software.


Plataformas de análise e fusão de dados, nuvens militares, modelos de linguagem treinados para “entender” relatórios de inteligência e sistemas de comando e controle viraram o novo pacote premium. Empresas que já vendiam sistemas de previsão, policiamento e inteligência corporativa agora operam no coração do planejamento de ataques.


Esse ciclo tem dois efeitos perigosos.


O primeiro é o incentivo para transformar conflito em vitrine. Se um sistema promete reduzir o tempo de resposta, a guerra vira prova de conceito.


O segundo é a normalização de uma cadeia de responsabilidades que se dilui. Quando um algoritmo sugere, outro filtra, um operador valida e uma chefia aprova, a culpa se espalha em camadas. No fim, o cadáver continua no chão.


A guerra dos chips por trás da guerra real


Armas “inteligentes” dependem de eletrônica comum: chips, sensores, memória, módulos de comunicação, peças que circulam por cadeias globais e muitas vezes escapam de sanções por rotas indiretas.


Há um ponto desconfortável para o Ocidente: boa parte do que torna drones e sistemas de guerra mais precisos vem de componentes produzidos por empresas e fábricas que alimentam o mercado civil. É a mesma lógica da indústria de smartphones aplicada ao campo de batalha.


Por isso, a disputa por controle de exportações, rastreabilidade e acesso a hardware avançado virou extensão direta da guerra. Sem semicondutor não há autonomia. E sem autonomia, a promessa de “decidir mais rápido” desaba.


O estopim: o risco de uma guerra sem freio humano


A discussão sobre armas autônomas costuma parecer abstrata até o dia em que um ataque erra o alvo, atinge civis e ninguém consegue explicar, com transparência, como a decisão foi tomada.


Em teoria, a regra é manter um humano no comando. Na prática, o que se consolida é o humano como carimbador de um processo que já veio pronto. Isso reduz a fricção moral, acelera o gatilho e aumenta a chance de escaladas por reação automática.


O efeito geopolítico é ainda maior. Quando Estados com capacidade tecnológica demonstram que é possível operar uma campanha em ritmo de dados, outros correm para copiar. E países com menos recursos podem buscar atalhos, comprando soluções fechadas, dependentes de fornecedores externos e pouco auditáveis.


Para o Brasil, a lição é direta. Não existe soberania digital se a defesa do país depende de caixa-preta estrangeira, seja em satélites, em nuvem, em chips ou em modelos de inteligência artificial. Sem capacidade própria de cibersegurança, rastreabilidade de hardware e governança de dados, qualquer estratégia vira dependência.


A guerra no Irã não é apenas um capítulo do Oriente Médio. É a consolidação de um novo modelo de guerra, onde a decisão vira produto, o alvo vira dado e a velocidade vira argumento. O futuro, se não for regulado com rigor e transparência, tende a ser mais rápido, mais opaco e mais letal.


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Atlas Siqueira

Atlas Siqueira é editor de tecnologia e inovação e analista-chefe de tendências digitais de O estopim. Investiga a geopolítica dos chips, a economia dos dados e o impacto social da inteligência artificial no Sul Global.

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