Por Raul Silva para O estopim | 22 de maio de 2026

A Companhia Editora de Pernambuco coloca a periferia no centro de uma nova aposta do jornalismo cultural e da formação audiovisual em Pernambuco. Para marcar os 25 anos da Revista Continente Multicultural, a Cepe lançou uma websérie produzida por dez jovens de bairros periféricos do Recife e da Região Metropolitana, responsáveis por transformar antigas capas e reportagens da revista em episódios em vídeo. A série estreia neste sábado, 23 de maio, às 11h, na TV Tribuna, e também será disponibilizada no canal da Cepe no YouTube.
A iniciativa, batizada de Revista Continente Multicultural em Movimento, reúne estudantes de cinema e jornalismo, além de produtores culturais, em um experimento que vai além da celebração de um título editorial. O projeto reposiciona a revista como plataforma de circulação de repertório, formação e entrada profissional para novos realizadores, num momento em que a Cepe acelera sua expansão digital e tenta conectar seu acervo histórico a públicos mais jovens.
A proposta partiu de um gesto simples e politicamente eloquente. Em vez de tratar a memória editorial da Continente como arquivo congelado, a Cepe decidiu entregá-la a jovens de territórios muitas vezes sub-representados na produção cultural tradicional. Em duplas, eles selecionaram reportagens que já haviam estampado capas da revista, assumindo roteiro, captação de imagens e edição dos episódios.
O primeiro programa leva a assinatura de Witória Maria Ribeiro de Souza, estudante de Jornalismo, e Karen Rebeca Santos da Silva, aluna de Publicidade e Propaganda. Inspiradas na reportagem Na beira da praia, elas foram a Boa Viagem para observar os contrastes entre lazer e sustento na economia criativa que ocupa a orla. O recorte já indica o alcance do projeto. Não se trata apenas de adaptar conteúdo de revista para vídeo, mas de recolocar temas conhecidos sob um olhar socialmente situado.
Segundo a Cepe, os participantes foram selecionados por edital aberto conduzido pela Seabra Produção, agência contratada pela companhia para desenvolver projetos de impacto social. Os jovens são moradores de Areias, Água Fria, Iputinga, Imbiribeira, Engenho do Meio, Passarinho, Várzea, Charneca, Jardim Paulista Baixo e Jaguarana. Cada um recebeu bolsa de incentivo de R$ 1 mil.
O dado financeiro não é detalhe lateral. Em boa parte do mercado cultural, o discurso sobre oportunidade ainda convive com a naturalização do trabalho gratuito ou mal remunerado, sobretudo quando envolve juventude, periferia e formação. Ao pagar bolsa, ainda que modesta, a Cepe reconhece que iniciação profissional também exige condição material mínima para existir.

O processo começou em outubro do ano passado, quando os estudantes tiveram contato com a redação e com edições históricas da Continente. Da pré-produção à finalização, cada dupla levou cerca de três meses de trabalho. A parceria com a CESAR School reforçou a dimensão formativa da experiência, com estudantes de Design criando vinhetas, ilustrações, animações e a identidade visual dos episódios.
O projeto não aparece isolado. A Cepe vem sinalizando que pretende disputar espaço também no ambiente digital. Em balanço divulgado neste ano, a editora informou que lançou 35 novos títulos em 2025, reimprimiu outros 20 e projeta publicar 50 obras em 2026. No campo dos periódicos, a prioridade anunciada para este ano é justamente ampliar a presença digital das revistas Continente e Pernambuco.
Essa estratégia ajuda a entender por que a websérie importa. Ela não é apenas uma ação comemorativa. Funciona como peça de transição de uma marca consolidada no impresso para uma lógica multiplataforma, na qual reportagem, vídeo, redes sociais, aplicativo e acervo passam a conversar entre si. A própria Continente já havia dado esse passo ao lançar, em 2025, um aplicativo com conteúdo próprio e atualizações semanais, ampliando a circulação da revista para além da edição impressa.
A experiência dialoga com uma discussão mais ampla sobre quem produz imagem, quem narra o território e quem transforma repertório cultural em trabalho. Em fevereiro deste ano, outra iniciativa em Pernambuco, a Oficina de Cinema Daqui do Alto, ofereceu formação gratuita em audiovisual para jovens do Alto da Esperança, no Vasco da Gama, com foco em roteiro, fotografia e montagem, além da produção coletiva de curtas. O movimento indica que a formação audiovisual de base, especialmente em áreas periféricas, deixou de ser pauta lateral e passou a integrar uma agenda pública mais visível.
Em escala nacional, o audiovisual também atravessa momento de expansão. O Ministério da Cultura informou, em janeiro, que o setor recebeu R$ 1,41 bilhão em fomento em 2025. O volume recorde ajuda a explicar por que experiências locais de formação e incubação de novos realizadores ganharam peso estratégico. Sem renovação de mão de obra, sem circulação de repertório e sem inclusão de novos sujeitos, o crescimento vira concentração.
A websérie lançada pela Cepe tem força simbólica porque altera, ao menos em parte, o fluxo tradicional da legitimação cultural. Os jovens não entram apenas como personagens, público-alvo ou beneficiários abstratos. Entram como realizadores. Esse deslocamento importa.
Mas o mérito do projeto não elimina a cobrança. A questão agora é saber se a iniciativa será um marco de continuidade ou apenas um evento de aniversário. Se a resposta for a primeira, a Cepe terá de transformar experiência em política editorial mais estável, com novas turmas, circulação ampliada, remuneração adequada e acompanhamento profissional consistente.
A comemoração dos 25 anos da Continente, nesse sentido, vale menos como ritual institucional e mais como teste de rumo. O que está em jogo não é só a memória de uma revista de jornalismo cultural. É a possibilidade de abrir a máquina de produção simbólica para quem sempre esteve mais perto da pauta do que da assinatura.
O estopim — O começo da notícia!Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi
Mini bioRaul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, cultura e temas de interesse público, com foco em apuração, contexto e impacto social.
8.png)
