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Por Michael Andrade, da redação de O estopim - Fonte: G1 | 27 de maio de 2026


Falha no Meu INSS teria permitido consultas sem autenticação; segundo a Dataprev, 98% dos CPFs acessados eram de pessoas falecidas, mas cerca de 52 mil pessoas vivas tiveram dados expostos


Aplicativo Meu INSS — Foto: Julia Carneiro
Aplicativo Meu INSS — Foto: Julia Carneiro

O vazamento de dados de segurados do Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS, atingiu 2,8 milhões de CPFs, segundo informações divulgadas pela Dataprev, estatal responsável pela gestão tecnológica de bases de dados de aposentados, pensionistas e beneficiários da Previdência Social. O número é superior ao informado inicialmente por técnicos do próprio INSS, que haviam citado cerca de 2 milhões de registros expostos.


De acordo com a Dataprev, 98% dos CPFs acessados pertenciam a pessoas já falecidas. Ainda assim, o incidente também atingiu cidadãos vivos: aproximadamente 52 mil pessoas tiveram a data de nascimento exposta durante a falha de segurança registrada em abril. A informação foi apresentada nesta terça-feira, 26, por Edmar dos Santos Ferreira Junior, representante da Dataprev, durante reunião do Conselho Nacional da Previdência Social.


Embora a investigação ainda não tenha sido concluída, a Dataprev informou que já identificou uma vulnerabilidade em uma consulta de serviço vinculada ao aplicativo Meu INSS. Segundo o representante da estatal, a funcionalidade deveria exigir autenticação por login, mas aceitava resposta como se estivesse em ambiente público, permitindo o acesso sem a etapa adequada de segurança.


Ferreira Junior afirmou que o incidente durou um dia e que a falha foi corrigida assim que identificada. A Dataprev também informou que trabalha em uma atualização para restringir as consultas, permitindo que apenas um usuário consulte um CPF por vez.


O caso veio a público na semana passada, quase um mês após a identificação da falha, em 22 de abril. Em nota anterior, o INSS informou que havia adotado providências e destacou que a maior parte dos dados acessados era de cidadãos falecidos. A autarquia também afirmou que concessões de benefícios e operações como empréstimos consignados dependem de documentos, validações e etapas adicionais de segurança.


Ainda assim, o episódio levanta preocupação sobre a proteção de dados em sistemas públicos que concentram informações sensíveis de milhões de brasileiros. Mesmo quando a maioria dos CPFs pertence a pessoas falecidas, a exposição indevida pode abrir brechas para fraudes, consultas abusivas e uso irregular de informações pessoais.


O vazamento também não é um caso isolado. Em 2024, o próprio INSS confirmou outra vulnerabilidade em seus sistemas, que deixou expostas informações sigilosas de pessoas com aposentadorias, benefícios sociais e assistenciais. A repetição de falhas reforça a necessidade de auditoria permanente, transparência na comunicação dos incidentes e responsabilização técnica e institucional quando dados de cidadãos são colocados em risco.


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Por Raul Silva para O estopim | 22 de maio de 2026



Pessoa segura celular com o app Meu INSS aberto, exibindo o botão Entrar com gov.br.
Falha no Meu INSS expõe dados de segurados e reacende debate sobre a proteção na Previdência | Foto: Reprodução

Uma falha de segurança identificada na plataforma Meu INSS expôs dados de segurados da Previdência Social e abriu uma nova frente de desgaste para o Instituto Nacional do Seguro Social, a Dataprev e a política federal de proteção de dados. O incidente foi detectado em 22 de abril de 2026, comunicado à Autoridade Nacional de Proteção de Dados, a ANPD, em 27 de abril, e confirmado publicamente nesta semana, em meio a mais um ciclo de desconfiança sobre a capacidade do Estado de proteger informações de aposentados, pensionistas e demais beneficiários.


Segundo o INSS, a falha foi identificada pela Dataprev no fluxo de requerimentos feitos na plataforma digital do órgão. Em nota, o instituto informou que adotou medidas de contenção no mesmo dia em que o problema foi detectado e afirmou que ainda consolida o número exato de pessoas atingidas.


Os dados já divulgados mostram, porém, que o episódio está longe de ser residual. O próprio INSS informou que 97% dos CPFs acessados pertenciam a pessoas falecidas. Nos casos sem registro de óbito, o total ficou em cerca de 50 mil. A partir dessa proporção, a exposição potencial pode chegar a algo em torno de 1,6 milhão de cadastros, embora técnicos ouvidos pela imprensa falem em universo próximo de 2 milhões de segurados.


Relatos técnicos apontam que a brecha surgia quando um terceiro tentava apresentar, em nome do segurado, um requerimento de benefício, como aposentadoria, pensão por morte ou auxílio-reclusão. Ao digitar o CPF do beneficiário, o sistema poderia exibir nome completo, data de nascimento e, em alguns casos, histórico de vínculos empregatícios.


O ponto central não é apenas a exposição de tela. Em sistemas previdenciários, dados cadastrais, histórico laboral e informações de benefício compõem material de alto valor para golpes, engenharia social, assédio comercial e tentativas de fraude documental. Mesmo quando não há concessão automática de benefício, a base exposta ajuda a montar abordagens mais convincentes contra idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade.


O INSS sustenta que a exposição dos dados, por si só, não garante acesso a benefícios. A autarquia afirma que a concessão exige documentos adicionais, validações específicas e etapas de comprovação. Também cita a biometria facial como barreira para empréstimos consignados e diz ter reforçado controles internos depois da descoberta da falha.


A Dataprev confirmou que existe um evento de segurança em apuração envolvendo o Meu INSS, mas não detalhou a extensão do impacto. Já a ANPD informou que recebeu a comunicação do incidente e que iniciou a análise preliminar da documentação, aguardando manifestação complementar do instituto.


A gravidade do episódio não se mede apenas pelo número de registros potencialmente expostos. O problema atinge um banco de dados ligado a benefícios previdenciários e assistenciais, com forte presença de idosos, pensionistas e famílias dependentes de renda pública. A própria ANPD considera que incidentes em larga escala, sobretudo os que podem facilitar roubo de identidade e atingir grupos vulneráveis, têm potencial de gerar dano relevante.


O caso também amplia a pressão sobre o dever de transparência. Desde 2024, a regulamentação da ANPD prevê que incidentes de segurança com risco ou dano relevante devem ser comunicados à autoridade e aos titulares em até três dias úteis, com possibilidade de complementação posterior quando faltarem dados técnicos. Se não for possível individualizar os afetados, a comunicação pode ter de alcançar toda a base atingida por meios amplos.


O novo vazamento não ocorre em terreno neutro. Em fevereiro de 2024, a ANPD sancionou o INSS por violações à Lei Geral de Proteção de Dados em um incidente de 2022 que atingiu o Sistema Corporativo de Benefícios, o SISBEN, com exposição de CPF, dados bancários e data de nascimento. Na ocasião, a autoridade entendeu que o órgão deveria ter comunicado os titulares afetados.


Poucos meses depois, em junho de 2024, o próprio INSS confirmou a exposição de dados cadastrais de até 40 milhões de segurados por meio de acessos sem controle ao sistema Suibe, usados por servidores de órgãos externos que já haviam deixado seus cargos. A reação incluiu suspensão de senhas e adoção de certificado digital e criptografia para acessos externos.


Em maio de 2025, em outra frente de contenção, o instituto passou a exigir validação biométrica no Meu INSS para desbloqueio de benefícios para crédito consignado. O argumento oficial era reduzir descontos indevidos e limitar a circulação de dados de margem consignável entre bancos e financeiras.


Tela inicial do app Meu INSS, com logotipo colorido e botão azul ENTRAR em fundo branco.
Tela de login do aplicativo Meu INSS | Foto: Reprodução

O episódio desta semana aponta para algo maior que um erro pontual de programação. Ele revela uma fragilidade recorrente na governança de dados da Previdência: sistemas críticos com alto valor econômico, grande massa de usuários vulneráveis e reação institucional quase sempre posterior à exposição.


Há ainda um elemento adicional. A ANPD mantém processo de fiscalização sobre INSS e Dataprev para verificar a conformidade do tratamento de dados pessoais no compartilhamento de informações para oferta de empréstimos consignados. Em outras palavras, o debate sobre uso comercial e segurança das bases previdenciárias já estava aberto antes da nova falha.


Para o cidadão, a reação precisa ser prática. A recomendação mais imediata é desconfiar de mensagens, e-mails e links que prometam consulta de vazamento, restituição automática ou regularização urgente. A ANPD orienta os titulares a não responderem comunicações suspeitas, trocarem senhas, ativarem autenticação em dois fatores quando disponível e monitorarem contas e serviços relacionados aos dados expostos.


No caso específico do INSS, aposentados e pensionistas devem conferir com frequência o extrato de pagamento e o extrato de empréstimo no Meu INSS, para identificar descontos não autorizados. O instituto também recomenda manter o benefício bloqueado para consignado quando não houver interesse em contratar crédito. Se aparecer uso fraudulento de dados, o caminho inclui reclamação em consumidor.gov.br, registro de boletim de ocorrência e comunicação aos canais oficiais do órgão.


A confirmação do incidente resolve apenas a primeira etapa do caso. Ainda faltam respostas públicas sobre cinco pontos centrais: quantos cadastros foram realmente expostos, por quanto tempo a falha permaneceu ativa, quais campos puderam ser visualizados em cada situação, quantos titulares vivos serão formalmente notificados e quais medidas permanentes serão adotadas para impedir reincidência.


Sem isso, o caso corre o risco de repetir o roteiro que já se tornou familiar no ecossistema previdenciário brasileiro: falha descoberta, contenção emergencial, divulgação parcial e pouca clareza sobre responsabilização.


O vazamento de dados do Meu INSS não é apenas um episódio técnico. Ele atinge a confiança em um serviço público essencial, expõe a assimetria entre o cidadão e a máquina estatal e recoloca no centro uma pergunta que o país ainda não respondeu de forma satisfatória: quem protege, de fato, os dados de quem depende do Estado para sobreviver?


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua com cobertura de política, direitos sociais e temas de interesse público, com foco em apuração, contexto e impacto social.


A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Instituto Nacional do Seguro Social (CPMI do INSS), instalada em agosto de 2025, emerge em um contexto de fraudes bilionárias que atravessaram três governos e expõem uma teia complexa de interesses políticos, empresariais e corporativos. Longe de ser apenas uma investigação técnica, a CPMI revela-se como um teatro político onde alguns dos próprios protagonistas das irregularidades tentam controlar a narrativa e encobrir suas responsabilidades históricas.


Evolução dos descontos fraudulentos no INSS de 2016 a 2024, mostrando como o esquema cresceu durante diferentes governos
Evolução dos descontos fraudulentos no INSS de 2016 a 2024, mostrando como o esquema cresceu durante diferentes governos

A anatomia de um esquema bilionário


O esquema de fraudes no INSS representa uma das maiores sangrias de recursos públicos da história recente do Brasil. Entre 2019 e 2024, estima-se que R$ 6,3 bilhões foram desviados através de descontos irregulares nas aposentadorias e pensões de milhões de brasileiros. O prejuízo potencial pode chegar a R$ 10 bilhões considerando todo o período investigado.


A operação criminosa funcionava através de um sistema aparentemente legítimo de Acordos de Cooperação Técnica (ACTs) entre o INSS e entidades associativas. Essas organizações, muitas delas de fachada, descontavam mensalidades diretamente dos benefícios previdenciários sob o pretexto de oferecer serviços como assistência jurídica, odontológica e descontos comerciais.


A realidade, porém, era bem diferente. Investigações da Controladoria-Geral da União (CGU) revelaram que 97,6% dos beneficiários entrevistados afirmaram não ter autorizado os descontos. A falsificação de assinaturas era sistemática, com "fábricas" dedicadas exclusivamente à produção de documentos fraudulentos.


No centro do escândalo encontra-se a Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), presidida pelo empresário mineiro Carlos Roberto Ferreira Lopes. A entidade, que se apresenta como defensora de indígenas e pequenos agricultores, é na verdade controlada por um proeminente pecuarista do agronegócio com extensos negócios pessoais.


Conafer - Foto: Reprodução
Conafer - Foto: Reprodução

A Conafer recebeu R$ 688 milhões em repasses do INSS até o começo de 2025, tornando-se a entidade que mais arrecadou através dos descontos fraudulentos. O crescimento da organização foi explosivo: passou de 231 mil associados em 2021 para 641 mil em 2023, representando um aumento de quase 180% em dois anos.


Durante a pandemia de COVID-19, quando os brasileiros enfrentavam suas maiores dificuldades, a Conafer promoveu a inclusão de descontos em 73.108 benefícios em apenas quatro meses (abril a julho de 2020), equivalente a aproximadamente 610 novos "filiados" por dia. Esse crescimento anômalo ocorreu justamente quando as agências do INSS estavam fechadas e os idosos tinham menor capacidade de detectar as fraudes.


A evolução histórica das fraudes


Governo Temer (2016-2018): As sementes da corrupção


Michel Temer - Getty Images
Michel Temer - Getty Images

As fraudes no INSS não surgiram do nada. Suas raízes remontam ao governo de Michel Temer, quando as bases legais e operacionais foram criadas ou flexibilizadas para permitir o esquema. Durante esse período, os descontos fraudulentos saltaram de R$ 413 milhões em 2016 para R$ 617 milhões em 2018.


Um marco crucial foi a implementação da "transformação digital" em 2017, que suspendeu o envio de extratos em papel e transferiu tudo para o aplicativo Meu INSS. Embora apresentada como modernização, essa medida deixou milhões de idosos sem meios eficazes de acompanhar seus descontos, criando um ambiente propício para as fraudes.


Já em 2016, servidores do INSS denunciavam repasses suspeitos a associações, mas essas denúncias foram sistematicamente abafadas. Um servidor responsável por contratos denunciou à Polícia Federal repasses irregulares a uma associação de peritos médicos, mas não apenas não houve investigação como o próprio denunciante foi transferido para um setor conhecido como "cemitério de elefantes brancos".


Governo Bolsonaro (2019-2022): A consolidação criminal


O ex-presidente Jair Bolsonaro  • 09/06/2025 - Ton Molina
O ex-presidente Jair Bolsonaro  • 09/06/2025 - Ton Molina

Se o governo Temer plantou as sementes, foi durante o mandato de Jair Bolsonaro que o esquema floresceu e se consolidou em escala industrial. Os números são eloquentes: os descontos fraudulentos mantiveram-se relativamente estáveis entre R$ 604 milhões em 2019 e R$ 706 milhões em 2022.


O período foi marcado por mudanças legislativas que facilitaram ainda mais as fraudes. A Medida Provisória 871/2019 inicialmente exigia renovação anual das autorizações de desconto, mas a Lei 14.438/2022, sancionada por Bolsonaro sem vetos, eliminou esse requisito de segurança. Como resumiu o ministro Wolney Queiroz: "Entre 2019 e 2022 é que o ladrão entra na casa".


Durante esse período, 10 das 11 entidades hoje investigadas pela Polícia Federal assinaram acordos de cooperação técnica com o INSS entre 2021 e 2022. Essa concentração não é coincidência, mas resultado de uma política deliberada de afrouxamento dos controles.


Governo Lula (2023-2025): A descoberta e o enfrentamento


Lula - Reprodução YouTube
Lula - Reprodução YouTube

Paradoxalmente, foi durante o terceiro governo Lula que tanto ocorreu a explosão final das fraudes quanto sua definitiva exposição e combate. Os números mostram um crescimento vertiginoso: de R$ 706 milhões em 2022 para R$ 1,2 bilhão em 2023 e impressionantes R$ 2,8 bilhões em 2024.


Esse crescimento aparentemente paradoxal explica-se pelo fato de que o governo Lula herdou um sistema completamente comprometido, com acordos fraudulentos já estabelecidos e mecanismos de controle destruídos pelos governos anteriores. As entidades continuaram operando com base nos contratos firmados anteriormente, mas agora em escala exponencial.


A diferença fundamental foi a resposta governamental. Enquanto os governos anteriores ignoraram ou facilitaram as fraudes, o governo Lula desencadeou a Operação Sem Desconto em abril de 2025, suspendeu todos os acordos suspeitos, bloqueou R$ 2,8 bilhões em bens dos fraudadores e já devolveu mais de R$ 1 bilhão aos aposentados lesados.


A rede de proteção interna


Uma das revelações mais chocantes das investigações é o nível de infiltração do esquema criminoso dentro do próprio INSS. A operação contava com uma rede de servidores estrategicamente posicionados que garantiam proteção e continuidade às fraudes.


Alessando Roosevelt
Alessando Roosevelt

Alessandro Roosevelt, diretor de benefícios do INSS, descobriu as irregularidades da Conafer em 2020 e tentou suspender os repasses. Ele identificou que a entidade havia incluído descontos em mais de 95 mil benefícios em apenas quatro meses, exigindo na prática a coleta de mais de 600 autorizações por dia. Roosevelt chegou a alertar o Ministério Público Federal sobre as irregularidades.


No entanto, sua investigação foi sabotada internamente. Em outubro de 2020, uma portaria assinada pelo então presidente do INSS Leonardo José Rolim retirou de Roosevelt a atribuição de fiscalizar a Conafer, transferindo-a para outra diretoria. A nova diretoria, chefiada por Jobson de Paiva Silveira Sales, rapidamente produziu uma nota técnica favorável à Conafer.


Os operadores da Fraude
Os operadores da Fraude

O papel de Jucimar Fonseca da Silva foi particularmente relevante. Conhecido como "Soldado do Proerd", Jucimar era ex-policial militar e ex-vereador pelo PR (atual PL) em Manacapuru, Amazonas. Como Chefe da Divisão de Consignação em Benefícios do INSS, ele liderou um comitê interno que "investigou" as suspeitas sobre a Conafer em 2022.


O relatório final de Jucimar, baseado apenas em documentos fornecidos pela própria Conafer, concluiu não haver "nem grave e nem iminente risco" nos descontos da entidade. Essa "investigação" ocorreu quando já havia um inquérito da Polícia Federal em andamento e múltiplos alertas internos sobre fraudes.


Ingrid Ambrozi, servidora da diretoria de Jobson de Paiva, produziu uma nota técnica defendendo a "presunção da boa-fé" em relação à Conafer. Sua análise, que não tinha poder de decisão mas influenciou fortemente o processo, baseou-se exclusivamente em documentos apresentados pela própria entidade investigada, considerando o "contexto da pandemia" como justificativa para as irregularidades.


A presença de Ingrid Ambrozi nos quadros do INSS desde pelo menos 2003 e sua ascensão a posições-chave coincidindo com o período de maior crescimento das fraudes levanta questões sobre a penetração de longo prazo do esquema na estrutura do órgão.


A CPMI como Cortina de Fumaça


A análise da composição e dos primeiros movimentos da CPMI revela sinais claros de que ela pode servir mais para encobrir responsabilidades do que para esclarecê-las. O senador Carlos Viana (Podemos-MG), eleito presidente da comissão, foi figura central na onda bolsonarista de 2018 e mantém posições críticas ao governo Lula.


Viana, que teve pouco protagonismo durante seu mandato, subitamente ganhou destaque ao assumir a presidência da CPMI. Suas declarações iniciais, embora prometendo "isenção", revelam um foco narrativo específico: concentrar as investigações no período mais recente (governo Lula) quando as fraudes se tornaram visíveis, evitando aprofundar as responsabilidades históricas dos governos que criaram e consolidaram o esquema.


Carlos Viana preside a CPMI, ao lado do vice-presidente, Duarte Jr., e do relator, Alfredo Gaspar - Fonte: Agência Senado
Carlos Viana preside a CPMI, ao lado do vice-presidente, Duarte Jr., e do relator, Alfredo Gaspar - Fonte: Agência Senado

Uma das principais estratégias da "cortina de fumaça" é inverter a narrativa temporal. Embora os dados mostrem claramente que as fraudes começaram no governo Temer e se consolidaram sob Bolsonaro, parte da comissão tenta focar exclusivamente no período 2023-2024, quando os números explodiam devido aos contratos fraudulentos já estabelecidos.


Como observou o deputado Pedro Campos (PSB-PE), líder do PSB na Câmara: "Vê-se um escândalo de corrupção que começou num governo e continuou no seguinte [...] Achar que o melhor lugar para investigar isso é dentro de uma CPI, no próprio Congresso Federal, não me parece inteligente. O que a gente vê, na verdade, é uma tentativa de criar uma cortina de fumaça".


A própria dinâmica da CPMI favorece essa inversão narrativa. Com mais de 800 requerimentos já apresentados, muitos focam exclusivamente em figuras do atual governo, como o irmão do presidente Lula, José Ferreira da Silva (Frei Chico), que é vice-presidente do Sindnapi, uma das entidades investigadas.


Analistas políticos alertam que a CPMI será marcada por "forte debate e tentativas de politização das investigações". Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP) chegou a alertar explicitamente para o risco de o governo usar a CPMI como "cortina de fumaça" para desviar a atenção das pautas da oposição.


O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) já sinalizou que usará a comissão para "cobrar investigações rigorosas", mas sem mencionar as responsabilidades históricas dos governos de direita que criaram as condições para o esquema.


As conexões políticas obscuras


Carlos Lopes
Carlos Lopes

A figura de Carlos Roberto Ferreira Lopes, presidente da Conafer, revela conexões profundas com o sistema político brasileiro. Além de ser um proeminente pecuarista do agronegócio, Lopes construiu uma rede de influência que atravessa diferentes espectros políticos.


Um de seus principais aliados é o senador Francisco Rodrigues (PSB-RR), a quem Lopes chama de "amigo e orientador". Rodrigues já foi flagrado com dinheiro na cueca em operação da Polícia Federal e defendeu o garimpo em terras indígenas. Seu avião foi flagrado circulando em garimpo ilegal em terra Yanomami em 2018.


Lopes também manteve relações próximas com diferentes governos. Em novembro de 2024, cinco meses antes da Operação Sem Desconto, ele assinou um Protocolo de Intenções com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). A Conafer conseguiu 31 reuniões oficiais com representantes do governo federal só em 2024, a maioria com os ministérios da Agricultura e das Comunicações.


Enquanto a Conafer recebia centenas de milhões em repasses fraudulentos do INSS, Carlos Lopes diversificava agressivamente seus negócios pessoais. Entre 2020 e 2024, ele abriu empresas de genética bovina, uma loja de arte indígena, uma mineradora e até uma holding nos Estados Unidos chamada Farmlands.


Terra Bank logo
Terra Bank logo

Mas o mais revelador foi a criação do Terra Bank em outubro de 2021, no auge do aumento dos repasses do INSS à Conafer. Embora oficialmente pertencesse ao empresário Cícero Santos, documentos obtidos pelo Intercept mostram que o verdadeiro dono do banco digital é o próprio Lopes através de sua holding americana.


A Polícia Federal identificou transferências diretas entre a Conafer, Carlos Lopes, Cícero Santos e sua esposa no valor de R$ 812 mil entre 2021 e julho de 2023. O Terra Bank opera como fintech sem autorização do Banco Central, oferecendo serviços bancários voltados para o agronegócio e utilizando a imagem de indígenas em sua propaganda.


Nelson Wilians
Nelson Wilians

Uma das revelações mais explosivas das investigações é o envolvimento do escritório do advogado Nelson Wilians, um dos mais famosos do país. Relatórios do Coaf apontam movimentações suspeitas na ordem de R$ 4,3 bilhões entre 2019 e 2023 envolvendo o escritório.


O montante bilionário justificou pedidos de convocação de Wilians na CPMI, especialmente devido à sua relação com o empresário Maurício Camisotti, um dos principais alvos da Operação Sem Desconto. Investigadores suspeitam de lavagem de dinheiro através de transações aparentemente legítimas, como a compra de imóveis e "adiantamentos de honorários" de valores astronômicos.


A blindagem institucional


Leonardo Rolim, que presidiu o INSS durante período crucial das fraudes (2020-2021), desempenhou papel fundamental na proteção do esquema criminoso. Foi ele quem assinou a portaria que retirou de Alessandro Roosevelt a atribuição de fiscalizar a Conafer, transferindo-a para uma diretoria mais "amigável".


Rolim justificou sua decisão como parte de uma "reestruturação" organizacional, mas a cronologia sugere motivação bem diferente. A mudança ocorreu exatamente quando Roosevelt estava descobrindo e documentando as fraudes da Conafer. Dois meses depois, a nova diretoria liberou os repasses que Roosevelt havia bloqueado.


Posteriormente, Rolim foi promovido novamente à Secretaria de Previdência, demonstrando que sua proteção ao esquema fraudulento não apenas não foi punida como foi recompensada com ascensão na carreira.


José Carlos Oliveira representa talvez o caso mais emblemático de como o esquema de fraudes foi protegido e premiado institucionalmente. Como diretor de benefícios do INSS, ele criou o comitê que "investigou" e absolveu a Conafer em 2022.


A investigação comandada por Oliveira foi uma farsa completa. Liderada por Jucimar Fonseca da Silva (o ex-vereador do PL), baseou-se exclusivamente em documentos fornecidos pela própria entidade investigada e ignorou completamente os inquéritos policiais e alertas técnicos já existentes.


O resultado da "investigação" foi usado pelo próprio Carlos Lopes para tentar escapar de intimação da Polícia Federal, alegando já ter sido "inocentado" pelo INSS. Longe de ser punido por essa farsa, Oliveira foi posteriormente promovido a presidente do INSS e depois a ministro do Trabalho e Previdência no governo Bolsonaro.


O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) detectou transações suspeitas entre um sócio de Oliveira e sócios de Carlos Lopes, sugerindo benefícios financeiros pela proteção oferecida.


As vítimas silenciadas


Por trás dos números bilionários estão milhões de brasileiros idosos que tiveram seus parcos recursos subtraídos por organizações criminosas. A auditoria da CGU revelou que 97,6% dos beneficiários entrevistados não autorizaram os descontos, demonstrando a natureza massivamente fraudulenta do esquema.


Muitos aposentados vivem com apenas um salário mínimo e viram descontos de até R$ 79 mensais sendo retirados de suas aposentadorias. Para uma pessoa que recebe R$ 1.412 (salário mínimo), isso representa mais de 5% de sua renda mensal sendo desviada para enriquecer organizações criminosas.


O perfil das vítimas torna o crime ainda mais hediondo: idosos, muitos com baixa escolaridade e dificuldades com tecnologia, que foram deliberadamente escolhidos como alvos por sua vulnerabilidade. A suspensão dos extratos em papel durante a "transformação digital" de 2017 deixou milhões deles sem meios de acompanhar seus benefícios.


Uma das facetas mais perversas do esquema foi o uso de comunidades indígenas como fachada para legitimar as operações da Conafer. Carlos Lopes se apresenta como "liderança indígena" e usa cocares e adereços em eventos públicos, embora não tenha reconhecimento da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).


Líderes indígenas relataram ao Intercept que o "modo operante" da Conafer é "oferecer caminhonete locada e salário para as lideranças" em troca de apoio e legitimidade. A organização bancava atividades sociais, campeonatos de futebol e assembleias nas comunidades, criando uma rede de dependência e cooptação.


A Conafer chegou ao ponto de organizar mutirões previdenciários com Unidades Móveis Flutuantes da Previdência Social, criando a impressão de que ajudava indígenas a acessar benefícios quando na verdade estava preparando o terreno para descontos fraudulentos.


A resposta governamental


A diferença fundamental entre os governos anteriores e o atual foi a resposta às fraudes descobertas. Enquanto Temer e Bolsonaro ignoraram, facilitaram ou protegeram o esquema, o governo Lula desencadeou uma resposta imediata e eficaz.


A Operação Sem Desconto, deflagrada em abril de 2025, foi resultado de dois anos de investigações coordenadas entre a Polícia Federal, a CGU e outros órgãos de controle. A operação resultou em:


  • Suspensão imediata de todos os acordos suspeitos

  • Bloqueio de R$ 2,8 bilhões em bens dos fraudadores

  • Prisão de 8 pessoas ligadas ao esquema

  • Afastamento de 5 dirigentes do INSS

  • Devolução de mais de R$ 1 bilhão aos aposentados em tempo recorde


Uma das ações mais significativas foi o acordo firmado pela Advocacia-Geral da União (AGU) no Supremo Tribunal Federal para ressarcimento imediato das vítimas. Em menos de um mês, mais de 1,6 milhão de beneficiários receberam R$ 1,084 bilhão em suas contas, valores corrigidos pela inflação.


Essa solução evitou que cada vítima tivesse de entrar com ação individual na Justiça, processo que levaria anos e deixaria milhões de idosos sem reparação. A transparência foi assegurada por auditorias internas e acompanhamento dos órgãos de controle.


O governo também implementou medidas preventivas para evitar novos golpes:

  • Biometria obrigatória para toda autorização de desconto

  • Redução drástica no número de servidores com acesso a senhas críticas (de mais de 3.000 para apenas 6 pessoas)

  • Novos sistemas de monitoramento em tempo real

  • Campanhas de orientação para aposentados e pensionistas


Por que a CPMI é uma Farça: A inversão da responsabilidade temporal


A análise detalhada das evidências revela que a CPMI do INSS corre o risco de se tornar exatamente aquilo que seus críticos denunciam: uma cortina de fumaça para proteger os verdadeiros responsáveis pelas fraudes. A tentativa de focar as investigações no período 2023-2025, quando as fraudes se tornaram visíveis devido aos contratos estabelecidos anteriormente, representa uma inversão deliberada da responsabilidade temporal.


Os dados são inequívocos: as fraudes começaram no governo Temer, consolidaram-se sob Bolsonaro e foram descobertas e combatidas no governo Lula. Qualquer investigação séria deveria concentrar-se nos períodos de 2016-2018 e 2019-2022, quando as bases legais foram flexibilizadas e os mecanismos de proteção foram destruídos.


A composição da CPMI e seus primeiros movimentos sugerem uma estratégia deliberada de proteger figuras-chave que facilitaram ou protegeram o esquema. Nomes como Leonardo Rolim, José Carlos Oliveira, e os próprios ex-presidentes que criaram as condições para as fraudes parecem estar sendo poupados do escrutínio mais rigoroso.


Ao mesmo tempo, há uma concentração desproporcional de atenção em figuras marginais ou simbólicas, como o irmão do presidente Lula, que embora deva ser investigado se houver indícios, representa uma fração mínima do problema real.


O timing da criação da CPMI também levanta suspeitas. A comissão foi instalada exatamente quando as investigações da Polícia Federal e da CGU estavam avançando rapidamente e produzindo resultados concretos. Em vez de fortalecer esses órgãos técnicos, optou-se por criar uma arena política onde a narrativa pode ser mais facilmente manipulada.


Como observaram diversos analistas, a própria existência da CPMI pode prejudicar as investigações em curso, criando conflitos de competência e dando aos investigados múltiplas instâncias para protelar ou confundir os processos.


A verdadeira agenda por trás da CPMI parece ser tripla:

  1. Desviar a atenção das responsabilidades históricas dos governos Temer e Bolsonaro

  2. Criar narrativas alternativas que responsabilizem o governo que descobriu e combateu as fraudes

  3. Proteger a rede de interesses políticos e empresariais que se beneficiou do esquema


Para que a CPMI cumpra seu papel constitucional de esclarecer a verdade, seria necessário:


  1. Foco temporal correto: Concentrar as investigações nos períodos 2016-2018 e 2019-2022

  2. Convocação dos verdadeiros responsáveis: Leonardo Rolim, José Carlos Oliveira, e outros que protegeram o esquema

  3. Análise das mudanças legislativas: Investigar quem promoveu e aprovou as flexibilizações que facilitaram as fraudes

  4. Rastreamento completo dos recursos: Seguir o dinheiro até seus beneficiários finais, incluindo as redes de lavagem

  5. Responsabilização política: Identificar quais autoridades tinham conhecimento das fraudes e optaram por não agir


A atual configuração da CPMI, com sua composição política e agenda aparente, sugere que nada disso acontecerá de forma adequada. O que se vislumbra é mais um capítulo da longa tradição brasileira de investigações que servem mais para encobrir do que para esclarecer, protegendo os poderosos enquanto punem os subalternos.


A farça está montada. Resta saber se o público brasileiro se deixará enganar novamente por essa cortina de fumaça ou se exigirá uma investigação verdadeiramente séria sobre uma das maiores sangrias de recursos públicos da história recente do país.

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