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Por Clarice Drummond para O estopim Cultura | 18 de Fevereiro de 2026


A Acadêmicos de Niterói entrou na Marquês de Sapucaí, no domingo (15), com um enredo biográfico sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atravessou a Avenida sob holofotes políticos incomuns para uma estreante no Grupo Especial e, três dias depois, saiu da apuração em último lugar. O rebaixamento veio rápido. O debate sobre os limites da arte veio antes. O questionamento sobre a imparcialidade dos jurados, agora, precisa vir com nome, sobrenome e método: onde a escola perdeu pontos, o que o regulamento exige de um julgador, que tipo de justificativa a Liesa precisa oferecer ao público e como o carnaval carioca lida, historicamente, com vieses que atravessam raça, religião e política.


Desfile da Acadêmicos de Niterói homenageou o presidente Lula | Foto: Alex Ferro / Riotour
Desfile da Acadêmicos de Niterói homenageou o presidente Lula | Foto: Alex Ferro / Riotour

A manchete que se espalhou é simples. Escola que falou de Lula na Avenida foi rebaixada. O problema é que o carnaval raramente é simples. E quando uma escola resolve colocar o dedo na ferida, a ferida precisa ser examinada com lupa.


O que aconteceu na apuração, em números pode falar muito sobre o julgamento


A classificação final do Grupo Especial do Rio Carnaval 2026 colocou a Acadêmicos de Niterói na 12ª posição, com 264,6 pontos. Em um sistema cujo teto é 270,0, o número diz mais do que parece: a escola perdeu 5,4 pontos em relação à nota máxima possível e ficou 2,8 pontos atrás da 11ª colocada, a Mocidade Independente de Padre Miguel.


A fotografia do mapa de notas é dura porque não se resume a um erro pontual. A Niterói perdeu décimos em todos os nove quesitos julgados. O seu melhor desempenho foi em Samba-enredo, com 29,9, incluindo ao menos uma nota 10. Já as maiores perdas se concentraram no conjunto visual e na narrativa: Fantasias somou 29,0 e Alegorias e adereços fechou em 29,1. Em um carnaval em que muitas escolas flertam com o 30,0 em vários quesitos, esses números não são só “um décimo aqui e outro ali”. Eles configuram um padrão.


Como ficaram os nove quesitos da Acadêmicos de Niterói no mapa de notas:

  • Comissão de frente: 29,5

  • Bateria: 29,4

  • Mestre-sala e porta-bandeira: 29,4

  • Alegorias e adereços: 29,1

  • Harmonia: 29,5

  • Fantasias: 29,0

  • Enredo: 29,3

  • Evolução: 29,5

  • Samba-enredo: 29,9



A apuração também registrou uma punição administrativa anterior à leitura das notas: a Acadêmicos de Niterói foi multada em R$ 80 mil por problemas na dispersão. A penalidade, financeira, não tirou pontos, mas ajuda a compreender que a noite da estreante não foi tecnicamente imune a falhas operacionais.


A leitura fria desses dados leva a uma conclusão inicial. A escola não caiu por uma queda de braço em um único quesito. Caiu por um conjunto de avaliações que, somadas, formaram o rebaixamento.


A leitura política, no entanto, começa exatamente onde termina a leitura fria: como uma escola que chegou ao Grupo Especial como estreante, com uma comunidade mobilizada e um enredo de alta visibilidade, perde em todos os quesitos de forma tão constante que abre um abismo de quase três pontos para a penúltima colocada?


Presidente Lula foi ao desfile e tirou fotos com integrantes da escola após a passagem pela avenida | Foto: Ricardo Stuckert/PR
Presidente Lula foi ao desfile e tirou fotos com integrantes da escola após a passagem pela avenida | Foto: Ricardo Stuckert/PR

O enredo que virou alvo antes mesmo de virar desfile


“Do alto do mulungu surge a esperança: Lula o operário do Brasil” não foi um enredo neutro. E isso não é um defeito. É uma escolha estética e narrativa.

A sinopse apresentada no Livro Abre-alas da Liesa é explícita ao reivindicar o carnaval como linguagem política, ao defender a legitimidade da homenagem e, sobretudo, ao fazer um pedido incomum, quase um aviso, ao júri: que a escola fosse julgada “sem pré concepções ou resistências” e que o desfile não fosse reduzido ao “peso da bandeira” que ele carrega. A frase é reveladora porque admite, no papel, aquilo que todo carnavalesco experiente sabe nos bastidores. Há enredos que chegam à pista já marcados por amor e ódio antes do primeiro surdo.


A narrativa escolhida percorreu a trajetória do retirante nordestino, do operário, do líder sindical, do presidente e do personagem atravessado por crises políticas recentes. O desfile encenou a passagem da faixa para Dilma Rousseff e o impeachment de 2016. Houve crítica direta ao bolsonarismo em forma de alegoria, com Jair Bolsonaro representado como palhaço atrás de grades. A escola também montou uma ala que chamou de “neoconservadores em conserva”, reunindo símbolos e estereótipos de uma oposição social e política ao lulismo.


No samba-enredo, a escola apostou em uma estrutura que alterna épica popular, memória política e moral de fábula. Há referências a fome, trabalho, religião e democracia. O refrão que cita o nome do homenageado foi cantado como grito de arquibancada e como escolha de dramaturgia.


Nada disso é “mentira” ou “invenção gratuita” no sentido estrito. O enredo trabalha com fatos históricos amplamente documentados e com interpretações políticas que estão no centro do debate público brasileiro há anos. A migração nordestina, as greves do ABC, a construção do PT, a presidência e o impeachment de Dilma, a polarização recente. O carnaval não é tribunal, mas também não é peça de ficção desligada do mundo.


O ponto central é outro: se a escola se apoiou em fatos concretos e em debate público real, por que o sistema que a julga parece incapaz de separar técnica de temperatura política?


Da tentativa de veto ao rebaixamento: a linha do tempo da pressão


Antes de a Acadêmicos de Niterói pisar na Avenida, o enredo já estava sendo disputado no campo jurídico.


A Justiça Federal rejeitou ações populares apresentadas por parlamentares de oposição que questionavam repasses públicos ligados ao carnaval e tentavam impor limites ao conteúdo do desfile, incluindo pedidos para impedir “ataques pessoais” e até para proibir a transmissão por rádio e TV. No Tribunal Superior Eleitoral, duas representações pediram liminar para barrar o desfile sob a tese de propaganda antecipada. O TSE negou as liminares por unanimidade e registrou um ponto essencial para esta discussão: restringir previamente uma manifestação artística por suspeita genérica seria censura judicial prévia.


Ou seja, houve tentativa formal de censura. O Judiciário, nesse primeiro momento, não comprou a tese.


Depois do desfile, a própria escola divulgou nota alegando perseguição política e tentativas de interferência artística, afirmando ter enfrentado pressões para alterar enredo e samba. A equipe de Janja Lula da Silva também citou receio de “perseguição” como motivo para ela não desfilar.


Esse conjunto de fatos não prova, por si só, que o júri puniu a escola por ideologia. Mas ele demonstra uma coisa incontornável: a Acadêmicos de Niterói desfilou sob um cerco público, institucional e midiático que outras escolas raramente enfrentam.


E quando o manual do julgador exige “distanciamento crítico” e proíbe influência de opinião pública, a pergunta inevitável é: como blindar uma avaliação quando o desfile já é tratado como caso de Estado?


O que o manual exige dos jurados e por que isso importa agora


O Manual do Julgador do Carnaval 2026 é claro em dois pontos que se tornaram centrais diante do caso Niterói.


  • Primeiro: cada jurado deve se ater “única e exclusivamente” ao quesito que julga, sem se deixar influenciar pela totalidade do desfile e sem levar em conta reação do público, opinião de comentaristas, popularidade da escola ou qualquer elemento externo.

  • Segundo: todas as notas, inclusive as máximas, devem ser justificadas por escrito, com clareza e objetividade. Justificativa vaga não é detalhe. É falha de procedimento. E falha de procedimento contamina a credibilidade do resultado.


O carnaval carioca sempre conviveu com a tensão entre subjetividade e régua técnica. O próprio manual reconhece que julgar expressão artística tem uma camada inevitável de subjetividade. O antídoto, então, não é fingir neutralidade. É produzir transparência.


Por isso, o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói precisa ser acompanhado de uma exigência objetiva: que as justificativas para a sequência de notas abaixo do padrão máximo sejam públicas, compreensíveis, coerentes entre si e comparáveis com a régua aplicada às demais escolas.


54 pessoas fizeram parte do corpo de jurados | Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval/Divulgação
54 pessoas fizeram parte do corpo de jurados | Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval/Divulgação

A imparcialidade é um dever. A dúvida é um dado


Quando uma escola perde pontos em todos os quesitos, existem três caminhos possíveis. O primeiro é o mais óbvio: houve um conjunto real de falhas técnicas e o júri apenas registrou o que a pista apresentou.


O segundo é o mais delicado: houve falhas, mas a régua pesou mais para uma escola do que para as outras, algo que costuma aparecer quando se compara justificativas semelhantes para notas diferentes.


O terceiro é o mais grave: o julgamento foi atravessado por fatores externos, conscientes ou inconscientes, e puniu o enredo que incomodou mais do que os erros que apareceram.


Hoje, sem a leitura pública e detalhada dos cadernos de justificativas, qualquer afirmação categórica sobre qual dos três caminhos venceu é precipitada. Mas isso não significa que o debate deva ser abafado. Significa que ele deve ser conduzido com critério.


E o primeiro critério é simples: se o manual manda o jurado ignorar “o peso da bandeira”, o júri precisa provar, no papel, que ignorou.


Quando o carnaval é julgado por gente, vieses aparecem


O questionamento sobre parcialidade no julgamento do Rio não nasce com a Acadêmicos de Niterói.


Há histórico recente de críticas públicas a decisões de jurados que tocaram em preconceitos de raça, religião e classe, e que expuseram o quanto a avaliação “técnica” pode reproduzir hierarquias sociais.


Em 2025, por exemplo, a Unidos de Padre Miguel perdeu décimos porque uma jurada registrou “excesso de termos em iorubá” como justificativa para desconto em Samba-enredo. A reação foi imediata, com críticas de racismo religioso e manifestações públicas que expuseram uma contradição. O iorubá está na raiz da cultura do samba e nas religiões de matriz africana, e tratá-lo como ruído de compreensão coloca o julgador em uma posição de filtro cultural que não é neutra.


Em 2023, o então presidente da Liesa foi alvo de denúncias após fazer, em podcast, uma fala considerada racista ao questionar a identidade racial de um carnavalesco da Portela. O episódio não é detalhe de bastidor. Ele é sintoma do ambiente institucional.


Esse tipo de histórico não autoriza acusar qualquer jurado, individualmente, de perseguição política no caso Niterói. Mas ele torna irresponsável tratar o debate como paranoia de torcedor. O carnaval já viu, mais de uma vez, o julgamento ser criticado por reproduzir preconceitos ou por falhar em compreender linguagens negras e populares.


É por isso que a imparcialidade não pode ser um mantra repetido em coletiva de imprensa. Ela precisa ser uma prática auditável.


A parte que dói: por que incomodou tanto?


A Acadêmicos de Niterói não homenageou um personagem neutro. Homenageou o presidente em exercício em ano eleitoral, em um país polarizado, e ainda cutucou figuras e símbolos do bolsonarismo e do neoconservadorismo.


A escola, do ponto de vista do carnaval como fenômeno cultural, fez o que as escolas fazem há décadas: transformou política em narrativa, crítica em alegoria, biografia em mito popular. A Avenida sempre foi tribuna. Às vezes tribuna de louvor, às vezes tribuna de denúncia.


A diferença é que, desta vez, a tentativa de impor limites à obra veio antes mesmo do ensaio técnico. O desfile foi tratado como ameaça. E uma obra tratada como ameaça costuma ser punida não apenas nos tribunais, mas também no imaginário.


Quando o rebaixamento chega logo depois, é legítimo perguntar se a escola foi julgada apenas pelo que mostrou na pista ou também pelo que simbolizou fora dela.


E é legítimo perguntar se doeu em quem merecia doer. Porque o enredo de Niterói não inventou fome, não inventou desigualdade, não inventou a guerra cultural, não inventou a disputa por memória histórica. O desfile apenas colocou isso na Sapucaí, com a linguagem que o conservadorismo costuma temer: a linguagem popular, cantada e vista por milhões.


Liga das Escolas de Samba | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Liga das Escolas de Samba | Foto: Reprodução/Redes Sociais

O que precisa ser cobrado da Liesa e do corpo de jurados


Se a Liesa quer que o carnaval seja reconhecido como competição justa e não como jogo de poder, algumas respostas precisam deixar de ser tabus.


  1. Publicação imediata e integral das justificativas, com padronização de linguagem, para permitir comparação entre escolas.

  2. Transparência ativa sobre formação e critérios dos jurados, incluindo treinamento para evitar vieses discriminatórios, em especial contra expressões de matriz africana e contra narrativas políticas.

  3. Mecanismo de auditoria independente, ao menos para casos de rebaixamento e desempate, com revisão de consistência entre justificativa e nota.

  4. Revisão pública das regras de dispersão e dos impactos operacionais entre escolas, já que há relatos de que problemas na saída de pista podem afetar a entrada da escola seguinte.

  5. Diversidade no corpo de jurados e nos espaços de decisão. Não como gesto simbólico, mas como correção de lente. Quem avalia também carrega repertório cultural.


Essas medidas não são “mimo” para escola rebaixada. São política de credibilidade do espetáculo.


Também é papel do público entender o que é, de fato, passível de recurso. O Regulamento do Grupo Especial 2026 prevê impugnações por infringência às regras operacionais até as 13h da Quarta-feira de Cinzas, para decisão antes da abertura dos envelopes de julgamento. Já os recursos formais, sem efeito suspensivo, tendem a se concentrar em penalidades administrativas aplicadas pela organização, com prazos e trâmites internos na Liesa. Na prática, é raro que um recurso altere notas de jurados. É justamente por isso que a transparência das justificativas, no papel, pesa tanto.


O carnaval que pune a coragem vira um carnaval menor


A Acadêmicos de Niterói pode ter cometido falhas técnicas. Isso é parte do jogo, especialmente para uma estreante que pisa no Grupo Especial com orçamento, logística e pressão diferentes do que viveu na Série Ouro.


Mas o rebaixamento, do jeito que aconteceu, pede mais do que a explicação genérica de que “faltou chão”. Pede prova. Pede papel. Pede justificativa.


Porque quando uma escola que ousa narrar o Brasil real cai de imediato, e cai com um conjunto de notas que parece indicar reprovação total, o carnaval corre o risco de passar uma mensagem perigosa: temas críticos são tolerados até o ponto em que incomodam demais.


E aí a pergunta deixa de ser apenas sobre a Acadêmicos de Niterói.


A pergunta passa a ser sobre o próprio Rio Carnaval: quem pode contar a história do país na Avenida e sair ileso?


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Clarice Drummond

Sobre a autora: Clarice Drummond é jornalista e crítica carnavalesca. Pesquisadora apaixonada pelas escolas de samba do Rio e de São Paulo, ela cobre a folia como fenômeno cultural, político e artístico o ano inteiro, dissecando quesitos e enredos com rigor técnico e emoção.

 
 
 

Por Clarice Drummond para O estopim Cultura | 18 de Fevereiro de 2026


A Grande Rio fez o que sabe fazer quando está no seu melhor: transformou a Sapucaí em tese e tese com corpo, suor e risco. A escola que vem assinando, nos últimos anos, um Carnaval de ideias (às vezes desconfortáveis, quase sempre necessárias) apostou em narrativa, pesquisa, linguagem cênica e identidade. O problema é que, no miolo do desfile, ali onde a bateria é coração e termômetro, a Grande Rio aceitou um atalho de “alcance” que custou caro: coroar Virgínia Fonseca.

A Grande Rio não precisava de novos públicos; precisava de novo pacto. Porque uma escola que escolhe Exu, onça, encantaria e mangue, e que se coloca como narradora de mundos marginalizados, não pode entregar o posto mais midiático da bateria a uma figura pública cuja biografia recente é atravessada por polêmicas de consumo, publicidade e apostas.
Desfile da Grande Rio | Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

Não é moralismo de arquibancada, nem birra com a cultura pop. É método. O Carnaval, quando é Grande Rio, não é vitrine de celebridade: é construção de comunidade. E toda vez que uma escola troca pertencimento por engajamento, quem paga a conta não é o algoritmo. É a avenida.


A Grande Rio que aprendeu a falar de conflito


Há escolas que fazem Carnaval para agradar. A Grande Rio, especialmente na fase recente, fez Carnaval para disputar sentidos.


Quando levou Exu ao centro da narrativa e ajudou a reposicionar, com linguagem de massa, um personagem demonizado por séculos, a escola não estava apenas “fazendo um enredo afro”. Estava enfrentando a engrenagem cotidiana da intolerância religiosa. O recado era duplo: ao público, a lição estética; aos próprios terreiros e praticantes, o gesto de reconhecimento em horário nobre.


Quando virou o olhar para cosmologias indígenas, para a Amazônia encantada e para repertórios que o Brasil urbano costuma transformar em folclore sem sujeito, a Grande Rio reafirmou uma assinatura: não basta citar a “diversidade”. É preciso narrar o Brasil de baixo para cima e com pesquisa.


E o Manguebeat, agora, é a escolha perfeita para uma escola de Duque de Caxias que conhece, na pele, a palavra “periferia”. O movimento que nasceu de um Recife ferido por desigualdade e abandono e que reagiu com estética, crítica e invenção tem tudo a ver com o que uma escola pode ser quando se recusa a desfilar “bonito” e decide desfilar “com sentido”. A Grande Rio acertou o enredo justamente por isso: porque entende que arte popular é também diagnóstico social.



A bateria não é cenário: é o lugar do pacto

É aqui que a discussão fica séria e técnica.


Rainha de bateria não é uma moldura. É um posto simbólico que organiza a atenção do público e, na prática, altera a dinâmica do chão. A rainha está no campo de visão da bateria, do mestre, do diretor, dos ritmistas, das câmeras e do público. Ela pode elevar o astral e o desempenho coletivo; pode também virar obstáculo, ruído, foco de tensão.


E não adianta fingir que “não vale ponto”. No Carnaval real, tudo vale ponto quando atrapalha evolução, quando quebra a leitura do conjunto, quando provoca correria no recuo, quando desloca o centro do desfile para um drama particular.


O Manual do Julgador é cristalino ao lembrar que a fantasia precisa permitir boa evolução; e que o julgador observa dificuldades do componente no uso completo da indumentária. A rainha é componente, com holofote, mas componente. Quando ela entra na avenida sem dominar a convivência com o peso, com o calor, com o espaço apertado e com a responsabilidade do recuo, o problema não é “da celebridade”. É da escola.


No Carnaval 2026, o enredo e a bateria pediam uma rainha que soubesse ouvir. Ouvir o surdo de marcação, ouvir o repique, ouvir o mestre, ouvir a comunidade. E, sobretudo, ouvir o sentido do desfile, porque é aí que mora o tal “carisma” que ninguém compra.


O caso Virgínia: quando a coroa vira cupom


A escolha de Virgínia Fonseca foi vendida como “diálogo com novos públicos”. É uma formulação simpática, moderna, e totalmente preguiçosa.


A Grande Rio não precisava de novos públicos; precisava de novo pacto. Porque uma escola que escolhe Exu, onça, encantaria e mangue, e que se coloca como narradora de mundos marginalizados, não pode entregar o posto mais midiático da bateria a uma figura pública cuja biografia recente é atravessada por polêmicas de consumo, publicidade e apostas.


Virgínia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio | Foto: Rafael Sacharny /Enquadrar/ Estadão Conteúdo
Virgínia Fonseca como rainha de bateria da Grande Rio | Foto: Rafael Sacharny /Enquadrar/ Estadão Conteúdo

A rainha que faltou antes de reinar


O trabalho de uma rainha começa muito antes da Sapucaí. Começa em ensaio de quadra, em ensaio técnico, em visita a barracão, em conversa com ritmista e com velha guarda, em aula com passistas, em humildade para aprender o que não se aprende em reels.


Só que, ainda na temporada de preparação, Virgínia virou notícia por ausência em ensaio de quadra e por tratar a ausência como detalhe da agenda pessoal. O que, para quem vive o Carnaval, não é detalhe: é linguagem. É a velha mensagem de que o tempo da comunidade é um “evento”, enquanto o tempo da celebridade é “vida”.


O desfile como palco de autopropaganda


A estreia na avenida foi, por si, um resumo do problema: a rainha virou pauta por percalços com a fantasia e por uma estratégia comercial que transformou a Sapucaí em extensão de marca.


A Grande Rio, que vinha de enredos que questionam o reducionismo e o preconceito, apareceu, nesse ponto, permitindo que um posto simbólico se confundisse com produto. O nome da marca pessoal estampado em uniforme de equipe de apoio, explorando brechas, pode até ser “inteligente” do ponto de vista do marketing. Para o Carnaval, é um rebaixamento: a bateria vira background de campanha.


O que era para ser “mangue”, crítica, contracultura, coletividade, virou “feed”: eu no centro, o resto como cenário.


A biografia pública de um negócio


Virgínia é, indiscutivelmente, um fenômeno de audiência e conversão. E aí mora o ponto que muita gente evita: a lógica de influência contemporânea monetiza intimidade. A vida privada vira produto, a emoção vira gatilho de consumo, e a presença pública passa a ser medida por venda, não por vínculo.


Isso não é crime. Mas é incompatível com um posto que, para funcionar, exige justamente o contrário: deslocar o foco do “eu” para o “nós”.


Nos últimos anos, Virgínia esteve no centro de controvérsias relacionadas a publicidade de apostas e ao papel de influenciadores na promoção desse mercado. Em depoimento no Senado, afirmou que não se arrepende das propagandas e declarou não ter como atender pedidos de ajuda de seguidores prejudicados por perdas em jogos. A frase pode ser interpretada como honestidade, mas, para quem ocupa um lugar de poder comunicacional, ela soa como um confessionário de indiferença: eu ganho com o alcance; o dano não é meu problema.


Somam-se, ainda, episódios envolvendo sua marca de cosméticos e conflitos de consumo que chegaram ao sistema de justiça e a órgãos de defesa do consumidor, num país em que “empreendedorismo” costuma ser usado como biombo para práticas comerciais agressivas. Quando o Ministério Público entra na história para impor obrigações, o debate deixa de ser fofoca e vira interesse público.


Nada disso impede uma pessoa de desfilar. Mas impede, ao menos para mim, que ela simbolize uma bateria de escola popular que constrói, há anos, uma imagem pública de enfrentamento cultural.


A antirrepresentatividade não é sobre “lacrar”. É sobre coerência

Representatividade, no Carnaval, não é slogan. É coerência estética e política.


Quando uma escola escolhe contar histórias de terreiros, povos originários, periferias e movimentos de contracultura, ela assume um compromisso com sujeitos coletivos. E esse compromisso precisa aparecer nas escolhas internas: quem ocupa o microfone, quem assina pesquisa, quem desenha, quem dança, quem reina.


Virgínia pode dizer que ama o Carnaval. Mas amar não basta. É preciso compreender que o Carnaval não é um palco neutro: é um território em disputa, uma máquina de visibilidade, um espaço onde minorias sociais lutam para não serem apenas tema e sim autoria.


Ao coroar uma figura cuja trajetória pública é marcada por publicidade controversa e por uma cultura de ostentação, a Grande Rio escorrega justamente no lugar em que deveria ser mais cuidadosa: na imagem que projeta para fora sobre o que é “Caxias”, sobre o que é “comunidade”, sobre o que é “povo”.


E há uma ironia triste nisso. O Manguebeat nasceu gritando que a lama não era atraso: era potência. A Grande Rio, com sua escolha, parece ter dito o contrário: que a potência precisa de uma vitrine para “valer”.


O que a Grande Rio poderia ter feito (e ainda pode)


A escola não precisa demonizar Virgínia para corrigir o erro. Precisa, isso sim, reconhecer a natureza do equívoco: não foi “a internet que pegou no pé”. Foi a comunidade dizendo, com vaias e desconforto, que o posto não é prêmio de popularidade.


Há alternativas, e todas passam por um princípio simples: rainha de bateria é pacto, não contrato.


  1. Reafirmar o posto como trabalho: presença mínima em ensaios, vivência real com a bateria, rituais internos respeitados, e uma postura pública que não trate o Carnaval como “conteúdo”.

  2. Blindar o desfile de autopromoção: se a escola precisa de patrocínio, que o patrocínio seja tratado com transparência e limites. A Sapucaí não é vitrine pessoal.

  3. Investir na casa: passistas, musas de comunidade, mulheres da bateria, lideranças locais. A Grande Rio tem material humano de sobra para ocupar o posto com verdade.

  4. Coerência com o enredo: se o desfile é contracultura, a escolha simbólica precisa dialogar com contracultura, não com o manual do “branding”.


A Grande Rio acertou em tudo, menos no coração do desfile


O Carnaval é uma soma de escolhas. A Grande Rio foi brilhante naquilo que sustenta uma escola campeã: narrativa, estética, risco e identidade. Mas errou onde não podia errar: no coração do desfile, na bateria, no ponto em que a comunidade se reconhece.


Virgínia Fonseca pode ter carisma, seguidores e dinheiro. O que ela não tem, ou, ao menos, não demonstrou ter até aqui, é a disposição de desaparecer um pouco para que a escola apareça. E ser rainha de bateria, no fim, é isso: ser destaque sem ser dono; ser estrela sem virar produto; ser figura sem sequestrar o sentido.


A Grande Rio, que aprendeu a falar de conflito, precisa agora encarar o seu próprio.


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Clarice Drummond

Clarice Drummond é jornalista e crítica carnavalesca. Pesquisadora apaixonada pelas escolas de samba do Rio e de São Paulo, ela cobre a folia como fenômeno cultural, político e artístico o ano inteiro, dissecando quesitos e enredos com rigor técnico e emoção.


 
 
 
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