Acadêmicos de Niterói é rebaixada no Carnaval 2026 após enredo sobre Lula e reacende debate sobre imparcialidade no julgamento
- Clarice Drummond

- há 2 horas
- 9 min de leitura
Por Clarice Drummond para O estopim Cultura | 18 de Fevereiro de 2026
A Acadêmicos de Niterói entrou na Marquês de Sapucaí, no domingo (15), com um enredo biográfico sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atravessou a Avenida sob holofotes políticos incomuns para uma estreante no Grupo Especial e, três dias depois, saiu da apuração em último lugar. O rebaixamento veio rápido. O debate sobre os limites da arte veio antes. O questionamento sobre a imparcialidade dos jurados, agora, precisa vir com nome, sobrenome e método: onde a escola perdeu pontos, o que o regulamento exige de um julgador, que tipo de justificativa a Liesa precisa oferecer ao público e como o carnaval carioca lida, historicamente, com vieses que atravessam raça, religião e política.

A manchete que se espalhou é simples. Escola que falou de Lula na Avenida foi rebaixada. O problema é que o carnaval raramente é simples. E quando uma escola resolve colocar o dedo na ferida, a ferida precisa ser examinada com lupa.
O que aconteceu na apuração, em números pode falar muito sobre o julgamento
A classificação final do Grupo Especial do Rio Carnaval 2026 colocou a Acadêmicos de Niterói na 12ª posição, com 264,6 pontos. Em um sistema cujo teto é 270,0, o número diz mais do que parece: a escola perdeu 5,4 pontos em relação à nota máxima possível e ficou 2,8 pontos atrás da 11ª colocada, a Mocidade Independente de Padre Miguel.
A fotografia do mapa de notas é dura porque não se resume a um erro pontual. A Niterói perdeu décimos em todos os nove quesitos julgados. O seu melhor desempenho foi em Samba-enredo, com 29,9, incluindo ao menos uma nota 10. Já as maiores perdas se concentraram no conjunto visual e na narrativa: Fantasias somou 29,0 e Alegorias e adereços fechou em 29,1. Em um carnaval em que muitas escolas flertam com o 30,0 em vários quesitos, esses números não são só “um décimo aqui e outro ali”. Eles configuram um padrão.
Como ficaram os nove quesitos da Acadêmicos de Niterói no mapa de notas:
Comissão de frente: 29,5
Bateria: 29,4
Mestre-sala e porta-bandeira: 29,4
Alegorias e adereços: 29,1
Harmonia: 29,5
Fantasias: 29,0
Enredo: 29,3
Evolução: 29,5
Samba-enredo: 29,9
A apuração também registrou uma punição administrativa anterior à leitura das notas: a Acadêmicos de Niterói foi multada em R$ 80 mil por problemas na dispersão. A penalidade, financeira, não tirou pontos, mas ajuda a compreender que a noite da estreante não foi tecnicamente imune a falhas operacionais.
A leitura fria desses dados leva a uma conclusão inicial. A escola não caiu por uma queda de braço em um único quesito. Caiu por um conjunto de avaliações que, somadas, formaram o rebaixamento.
A leitura política, no entanto, começa exatamente onde termina a leitura fria: como uma escola que chegou ao Grupo Especial como estreante, com uma comunidade mobilizada e um enredo de alta visibilidade, perde em todos os quesitos de forma tão constante que abre um abismo de quase três pontos para a penúltima colocada?

O enredo que virou alvo antes mesmo de virar desfile
“Do alto do mulungu surge a esperança: Lula o operário do Brasil” não foi um enredo neutro. E isso não é um defeito. É uma escolha estética e narrativa.
A sinopse apresentada no Livro Abre-alas da Liesa é explícita ao reivindicar o carnaval como linguagem política, ao defender a legitimidade da homenagem e, sobretudo, ao fazer um pedido incomum, quase um aviso, ao júri: que a escola fosse julgada “sem pré concepções ou resistências” e que o desfile não fosse reduzido ao “peso da bandeira” que ele carrega. A frase é reveladora porque admite, no papel, aquilo que todo carnavalesco experiente sabe nos bastidores. Há enredos que chegam à pista já marcados por amor e ódio antes do primeiro surdo.
A narrativa escolhida percorreu a trajetória do retirante nordestino, do operário, do líder sindical, do presidente e do personagem atravessado por crises políticas recentes. O desfile encenou a passagem da faixa para Dilma Rousseff e o impeachment de 2016. Houve crítica direta ao bolsonarismo em forma de alegoria, com Jair Bolsonaro representado como palhaço atrás de grades. A escola também montou uma ala que chamou de “neoconservadores em conserva”, reunindo símbolos e estereótipos de uma oposição social e política ao lulismo.
No samba-enredo, a escola apostou em uma estrutura que alterna épica popular, memória política e moral de fábula. Há referências a fome, trabalho, religião e democracia. O refrão que cita o nome do homenageado foi cantado como grito de arquibancada e como escolha de dramaturgia.
Nada disso é “mentira” ou “invenção gratuita” no sentido estrito. O enredo trabalha com fatos históricos amplamente documentados e com interpretações políticas que estão no centro do debate público brasileiro há anos. A migração nordestina, as greves do ABC, a construção do PT, a presidência e o impeachment de Dilma, a polarização recente. O carnaval não é tribunal, mas também não é peça de ficção desligada do mundo.
O ponto central é outro: se a escola se apoiou em fatos concretos e em debate público real, por que o sistema que a julga parece incapaz de separar técnica de temperatura política?
Da tentativa de veto ao rebaixamento: a linha do tempo da pressão
Antes de a Acadêmicos de Niterói pisar na Avenida, o enredo já estava sendo disputado no campo jurídico.
A Justiça Federal rejeitou ações populares apresentadas por parlamentares de oposição que questionavam repasses públicos ligados ao carnaval e tentavam impor limites ao conteúdo do desfile, incluindo pedidos para impedir “ataques pessoais” e até para proibir a transmissão por rádio e TV. No Tribunal Superior Eleitoral, duas representações pediram liminar para barrar o desfile sob a tese de propaganda antecipada. O TSE negou as liminares por unanimidade e registrou um ponto essencial para esta discussão: restringir previamente uma manifestação artística por suspeita genérica seria censura judicial prévia.
Ou seja, houve tentativa formal de censura. O Judiciário, nesse primeiro momento, não comprou a tese.
Depois do desfile, a própria escola divulgou nota alegando perseguição política e tentativas de interferência artística, afirmando ter enfrentado pressões para alterar enredo e samba. A equipe de Janja Lula da Silva também citou receio de “perseguição” como motivo para ela não desfilar.
Esse conjunto de fatos não prova, por si só, que o júri puniu a escola por ideologia. Mas ele demonstra uma coisa incontornável: a Acadêmicos de Niterói desfilou sob um cerco público, institucional e midiático que outras escolas raramente enfrentam.
E quando o manual do julgador exige “distanciamento crítico” e proíbe influência de opinião pública, a pergunta inevitável é: como blindar uma avaliação quando o desfile já é tratado como caso de Estado?
O que o manual exige dos jurados e por que isso importa agora
O Manual do Julgador do Carnaval 2026 é claro em dois pontos que se tornaram centrais diante do caso Niterói.
Primeiro: cada jurado deve se ater “única e exclusivamente” ao quesito que julga, sem se deixar influenciar pela totalidade do desfile e sem levar em conta reação do público, opinião de comentaristas, popularidade da escola ou qualquer elemento externo.
Segundo: todas as notas, inclusive as máximas, devem ser justificadas por escrito, com clareza e objetividade. Justificativa vaga não é detalhe. É falha de procedimento. E falha de procedimento contamina a credibilidade do resultado.
O carnaval carioca sempre conviveu com a tensão entre subjetividade e régua técnica. O próprio manual reconhece que julgar expressão artística tem uma camada inevitável de subjetividade. O antídoto, então, não é fingir neutralidade. É produzir transparência.
Por isso, o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói precisa ser acompanhado de uma exigência objetiva: que as justificativas para a sequência de notas abaixo do padrão máximo sejam públicas, compreensíveis, coerentes entre si e comparáveis com a régua aplicada às demais escolas.

A imparcialidade é um dever. A dúvida é um dado
Quando uma escola perde pontos em todos os quesitos, existem três caminhos possíveis. O primeiro é o mais óbvio: houve um conjunto real de falhas técnicas e o júri apenas registrou o que a pista apresentou.
O segundo é o mais delicado: houve falhas, mas a régua pesou mais para uma escola do que para as outras, algo que costuma aparecer quando se compara justificativas semelhantes para notas diferentes.
O terceiro é o mais grave: o julgamento foi atravessado por fatores externos, conscientes ou inconscientes, e puniu o enredo que incomodou mais do que os erros que apareceram.
Hoje, sem a leitura pública e detalhada dos cadernos de justificativas, qualquer afirmação categórica sobre qual dos três caminhos venceu é precipitada. Mas isso não significa que o debate deva ser abafado. Significa que ele deve ser conduzido com critério.
E o primeiro critério é simples: se o manual manda o jurado ignorar “o peso da bandeira”, o júri precisa provar, no papel, que ignorou.
Quando o carnaval é julgado por gente, vieses aparecem
O questionamento sobre parcialidade no julgamento do Rio não nasce com a Acadêmicos de Niterói.
Há histórico recente de críticas públicas a decisões de jurados que tocaram em preconceitos de raça, religião e classe, e que expuseram o quanto a avaliação “técnica” pode reproduzir hierarquias sociais.
Em 2025, por exemplo, a Unidos de Padre Miguel perdeu décimos porque uma jurada registrou “excesso de termos em iorubá” como justificativa para desconto em Samba-enredo. A reação foi imediata, com críticas de racismo religioso e manifestações públicas que expuseram uma contradição. O iorubá está na raiz da cultura do samba e nas religiões de matriz africana, e tratá-lo como ruído de compreensão coloca o julgador em uma posição de filtro cultural que não é neutra.
Em 2023, o então presidente da Liesa foi alvo de denúncias após fazer, em podcast, uma fala considerada racista ao questionar a identidade racial de um carnavalesco da Portela. O episódio não é detalhe de bastidor. Ele é sintoma do ambiente institucional.
Esse tipo de histórico não autoriza acusar qualquer jurado, individualmente, de perseguição política no caso Niterói. Mas ele torna irresponsável tratar o debate como paranoia de torcedor. O carnaval já viu, mais de uma vez, o julgamento ser criticado por reproduzir preconceitos ou por falhar em compreender linguagens negras e populares.
É por isso que a imparcialidade não pode ser um mantra repetido em coletiva de imprensa. Ela precisa ser uma prática auditável.
A parte que dói: por que incomodou tanto?
A Acadêmicos de Niterói não homenageou um personagem neutro. Homenageou o presidente em exercício em ano eleitoral, em um país polarizado, e ainda cutucou figuras e símbolos do bolsonarismo e do neoconservadorismo.
A escola, do ponto de vista do carnaval como fenômeno cultural, fez o que as escolas fazem há décadas: transformou política em narrativa, crítica em alegoria, biografia em mito popular. A Avenida sempre foi tribuna. Às vezes tribuna de louvor, às vezes tribuna de denúncia.
A diferença é que, desta vez, a tentativa de impor limites à obra veio antes mesmo do ensaio técnico. O desfile foi tratado como ameaça. E uma obra tratada como ameaça costuma ser punida não apenas nos tribunais, mas também no imaginário.
Quando o rebaixamento chega logo depois, é legítimo perguntar se a escola foi julgada apenas pelo que mostrou na pista ou também pelo que simbolizou fora dela.
E é legítimo perguntar se doeu em quem merecia doer. Porque o enredo de Niterói não inventou fome, não inventou desigualdade, não inventou a guerra cultural, não inventou a disputa por memória histórica. O desfile apenas colocou isso na Sapucaí, com a linguagem que o conservadorismo costuma temer: a linguagem popular, cantada e vista por milhões.

O que precisa ser cobrado da Liesa e do corpo de jurados
Se a Liesa quer que o carnaval seja reconhecido como competição justa e não como jogo de poder, algumas respostas precisam deixar de ser tabus.
Publicação imediata e integral das justificativas, com padronização de linguagem, para permitir comparação entre escolas.
Transparência ativa sobre formação e critérios dos jurados, incluindo treinamento para evitar vieses discriminatórios, em especial contra expressões de matriz africana e contra narrativas políticas.
Mecanismo de auditoria independente, ao menos para casos de rebaixamento e desempate, com revisão de consistência entre justificativa e nota.
Revisão pública das regras de dispersão e dos impactos operacionais entre escolas, já que há relatos de que problemas na saída de pista podem afetar a entrada da escola seguinte.
Diversidade no corpo de jurados e nos espaços de decisão. Não como gesto simbólico, mas como correção de lente. Quem avalia também carrega repertório cultural.
Essas medidas não são “mimo” para escola rebaixada. São política de credibilidade do espetáculo.
Também é papel do público entender o que é, de fato, passível de recurso. O Regulamento do Grupo Especial 2026 prevê impugnações por infringência às regras operacionais até as 13h da Quarta-feira de Cinzas, para decisão antes da abertura dos envelopes de julgamento. Já os recursos formais, sem efeito suspensivo, tendem a se concentrar em penalidades administrativas aplicadas pela organização, com prazos e trâmites internos na Liesa. Na prática, é raro que um recurso altere notas de jurados. É justamente por isso que a transparência das justificativas, no papel, pesa tanto.
O carnaval que pune a coragem vira um carnaval menor
A Acadêmicos de Niterói pode ter cometido falhas técnicas. Isso é parte do jogo, especialmente para uma estreante que pisa no Grupo Especial com orçamento, logística e pressão diferentes do que viveu na Série Ouro.
Mas o rebaixamento, do jeito que aconteceu, pede mais do que a explicação genérica de que “faltou chão”. Pede prova. Pede papel. Pede justificativa.
Porque quando uma escola que ousa narrar o Brasil real cai de imediato, e cai com um conjunto de notas que parece indicar reprovação total, o carnaval corre o risco de passar uma mensagem perigosa: temas críticos são tolerados até o ponto em que incomodam demais.
E aí a pergunta deixa de ser apenas sobre a Acadêmicos de Niterói.
A pergunta passa a ser sobre o próprio Rio Carnaval: quem pode contar a história do país na Avenida e sair ileso?
O estopim — O começo da notícia!Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim & @muira.ubi

Sobre a autora: Clarice Drummond é jornalista e crítica carnavalesca. Pesquisadora apaixonada pelas escolas de samba do Rio e de São Paulo, ela cobre a folia como fenômeno cultural, político e artístico o ano inteiro, dissecando quesitos e enredos com rigor técnico e emoção.
8.png)





Comentários