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Por Murilo Alencar | 2 de abril de 2026



Mulher em roupa vermelha segura celular, com árvore e pássaro ao fundo. Fundo de tijolos, visual retrô, cores vivas e expressão neutra.
Ilustração da capa de "O Conto da Aia", destacando uma mulher vestida de vermelho, simbolizando opressão e resistência, com um fundo de galhos negros e um pássaro, remetendo à vigilância constante e à luta pela liberdade. A figura central segura um objeto em chamas, representando esperança e transformação em meio à escuridão. | Foto: Reprodução/Capa O conto da Aia editora Rocco

Em seu novo episódio, o podcast/videocast Teoria Literária volta-se para um dos romances mais inquietantes da ficção contemporânea: O Conto da Aia, de Margaret Atwood. Apresentado por Raul Silva, jornalista, escritor e professor, o programa propõe uma leitura que se afasta do consumo apressado da obra como simples “distopia famosa” e a recoloca no terreno que ela exige: o da crítica literária, da história política e da disputa em torno da linguagem.


A aposta do episódio é clara desde a abertura. Mais do que perguntar por que o livro ainda assusta, Raul procura demonstrar por que ele continua funcionando como chave interpretativa do presente. O argumento central do programa sustenta que Atwood não constrói apenas um regime totalitário de ficção, mas uma engrenagem narrativa capaz de mostrar como o autoritarismo se normaliza, como a violência aprende a falar em nome da ordem e como o corpo feminino pode ser transformado em peça de administração estatal.


Publicado originalmente em 1985, o romance de Margaret Atwood acompanha a experiência de uma narradora submetida à República de Gilead, uma teocracia que reorganiza a vida social por meio de hierarquias rígidas, vigilância permanente e controle reprodutivo. No episódio, esse ponto de partida não aparece como pretexto para um resumo de enredo, mas como base para uma discussão mais ampla sobre forma literária. Raul destaca que a grandeza do romance não reside apenas em seu tema, e sim na carpintaria do texto: a primeira pessoa fragmentada, a memória interrompida, a hesitação narrativa, a ironia, os silêncios e o esforço contínuo da narradora para transformar trauma em relato.


Ao longo da análise, o episódio investe em uma hipótese forte: em O Conto da Aia, a linguagem não apenas descreve o poder, ela é uma ferramenta do poder. O vocabulário de Gilead, os rituais, a reorganização dos nomes e a captura simbólica do corpo produzem um universo em que a opressão se sustenta tanto por coerção física quanto por manipulação discursiva. É nesse ponto que o programa amplia sua leitura e se insere em um debate que extrapola a literatura, alcançando questões de interesse público como autoritarismo, fundamentalismo, misoginia institucional e erosão democrática.


Assista ao episódio completo sobre O Conto da Aia de Margaret Atwood | Podcast: Teoria Literária do Canal O estopim

Outro mérito do episódio está em não tratar a obra no vazio. Fiel a uma perspectiva de literatura comparada, Raul aproxima Atwood de George Orwell, Aldous Huxley e José Saramago. A comparação permite identificar diferenças decisivas entre modelos de distopia: se Orwell enfatiza a vigilância e a produção oficial da verdade, Huxley radicaliza a administração biopolítica dos corpos e dos desejos; já Saramago expõe o colapso ético de uma comunidade em ruínas. Atwood, por sua vez, tensiona essas tradições ao mostrar um regime que sequestra o corpo feminino e apresenta essa violência como salvação moral. O resultado é um episódio que combina clareza didática com densidade interpretativa, sem perder o ritmo oral necessário ao formato.


Há, ainda, um segundo eixo que dá espessura ao programa: a atenção ao desenho formal do romance. Raul chama o público para observar as epígrafes do livro, em especial o fragmento bíblico que fundamenta a exploração reprodutiva em Gilead e a presença de Jonathan Swift como sombra satírica da racionalidade perversa. Em vez de tratar essas passagens como ornamento erudito, o episódio as apresenta como chaves de leitura. A violência, sugere a análise, nem sempre se impõe aos gritos; muitas vezes ela se instala com a serenidade de uma justificativa, com a aparência de necessidade histórica ou com a autoridade de uma interpretação sagrada.


O clímax crítico do programa chega quando a leitura se volta para as célebres “Notas Históricas”, bloco final do romance que muda o enquadramento da narrativa e reabre a discussão sobre memória, arquivo e poder. Raul lê esse desfecho como uma das operações mais agudas de Atwood: mesmo depois do horror, a dor feminina ainda corre o risco de ser absorvida por discursos que classificam, arquivam, relativizam e explicam demais. Em outras palavras, o autoritarismo não termina necessariamente quando o regime cai; ele pode persistir na linguagem de quem narra o passado, na falsa neutralidade institucional e no riso deslocado diante da violência.


Esse movimento dá ao episódio um alcance que vai além da recomendação de leitura. O programa não se limita a afirmar que O Conto da Aia “continua atual”. Ele procura mostrar por que a obra ainda produz fricção. Sua atualidade não decorre de uma suposta capacidade profética simplificada, mas do modo como identifica mecanismos recorrentes de poder: censura, fundamentalismo, captura moral da política, domesticação da linguagem e naturalização progressiva do intolerável.



No panorama do conteúdo literário em língua portuguesa, o episódio se destaca por recusar tanto a simplificação escolar quanto a reverência vazia. Há rigor conceitual, mas há também oralidade. Há teoria literária, mas em conexão direta com a escuta do público. O resultado é um formato que informa, interpreta e convoca à reflexão, três dimensões que o jornalismo cultural costuma perder quando se reduz a agenda promocional ou a opinião impressionista.


Ao fim, a pergunta deixada por Raul ao público resume bem o espírito do episódio: Gilead começa onde? No medo, na religião instrumentalizada, na indiferença ou na naturalização da violência? A força dessa pergunta está em deslocar a discussão do exotismo distópico para o terreno das concessões cotidianas. E talvez seja justamente aí que resida a permanência de Margaret Atwood: não em ter imaginado um pesadelo distante, mas em ter mostrado como o absurdo pode aprender a parecer normal.


Para quem acompanha o Teoria Literária, o novo episódio confirma a proposta do programa de transformar obras canônicas e contemporâneas em debate vivo, sem abrir mão de densidade, contexto e responsabilidade crítica. Para quem chega agora, trata-se de uma porta de entrada robusta para compreender por que certos livros não sobrevivem apenas como clássicos: sobrevivem como advertência.


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Murilo Alencar é editor e crítico literário, com atuação em literatura comparada e sociologia da cultura. No O estopim, escreve sobre o que a vida literária revela do país: seus mecanismos de consagração, suas ausências e suas disputas por voz.

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