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Por Murilo Alencar

20 de junho de 2026


O podcast Teoria Literária desta semana entra em uma das discussões mais inflamadas do mercado editorial contemporâneo: afinal, o BookTok está salvando ou destruindo a literatura?



Homem com óculos em fundo amarelo em HQ; texto: O Booktok está destruindo os livros e a literatura? Episódio 40
Capa do episódio 40 do Podcast Teoria Literária | Fonte: Reprodução/YouTube

Com o episódio “BookTok está destruindo a literatura? A verdade sobre livros virais, romantasy e algoritmo”, Raul Silva, jornalista, escritor e professor, analisa o fenômeno que transformou recomendações literárias em vídeos curtos, vendas expressivas, novas comunidades leitoras e também em alvo de críticas severas de professores, críticos literários e leitores mais tradicionais.


O ponto de partida do episódio é uma provocação: “E se a maior revolução literária do século XXI não veio da universidade, mas de vídeos de 30 segundos?”


A pergunta resume a tensão central da pauta. De um lado, o BookTok se consolidou como uma das maiores forças de descoberta de livros no mundo. De outro, cresce a preocupação de que a lógica algorítmica esteja reduzindo a experiência literária a fórmulas emocionais de consumo rápido.


Segundo divulgação do TikTok baseada em dados da NielsenIQ BookData e da Media Control, mais de 50 milhões de livros recomendados pela comunidade #BookTok foram vendidos na Europa em 2025, movimentando €800 milhões. A plataforma também afirma que mais de um terço dos leitores entre 16 e 39 anos descobre novos livros por meio do BookTok.


No Brasil, o fenômeno também ganhou escala. Levantamento publicado pelo PublishNews informou que publicações com as hashtags #BookTok e #BookTokBrasil cresceram 39% no primeiro semestre de 2025, com mais de 6 bilhões de visualizações no período e cerca de 12 mil vídeos semanais.


Assista ao episódio completo | Fonte: O estopim no YouTube

O episódio discute esse crescimento sem cair em respostas simplistas. A análise parte da ideia de que o BookTok não pode ser visto apenas como uma ameaça à leitura tradicional, mas também não deve ser romantizado como uma revolução neutra. O fenômeno amplia o acesso ao livro, mas ocorre dentro de uma plataforma orientada por retenção, engajamento e recomendação algorítmica.


A reflexão se apoia em três lentes teóricas. A primeira é a indústria cultural, conceito associado a Theodor Adorno e Max Horkheimer, usado para pensar como produtos culturais podem ser padronizados para consumo em massa. A segunda é a estética da recepção, especialmente a noção de horizonte de expectativas de Hans Robert Jauss, segundo a qual o leitor chega à obra com repertórios prévios que orientam sua interpretação. A terceira é a teoria de Pierre Bourdieu sobre capital simbólico, isto é, a disputa por autoridade cultural: quem tem poder para legitimar o que deve ser lido?


No episódio, Raul Silva argumenta que o BookTok desloca o poder da mediação literária. Antes, a recomendação passava principalmente pela escola, pela universidade, pela crítica especializada, pelas editoras, por livrarias e suplementos culturais. Agora, um vídeo emocional pode ter mais impacto sobre a venda de um livro do que uma resenha publicada em veículo tradicional.


Essa mudança, porém, não elimina hierarquias. Apenas desloca o centro da disputa. A autoridade do crítico perde espaço para a autoridade afetiva do influenciador; e a curadoria humana passa a conviver com a curadoria algorítmica.


O episódio também dedica atenção especial à romantasy, gênero híbrido entre romance e fantasia que se tornou um dos grandes símbolos do BookTok. A explosão de obras marcadas por dragões, reinos mágicos, casais intensos, cenas sensuais e estruturas de fantasia épica revela uma força de renovação do mercado, mas também uma tendência à repetição de fórmulas de sucesso.


O veredito do episódio é direto: o BookTok salva a circulação da literatura, mas pode destruir a complexidade da leitura se virar o único critério de valor.


A tese não é condenar livros virais nem ridicularizar jovens leitores. Pelo contrário: o episódio reconhece que a leitura também nasce do afeto, da identificação, do prazer, da catarse e da comunidade. A crítica se volta ao empobrecimento da experiência quando todo livro passa a ser julgado apenas pela capacidade de viralizar.



A abordagem segue os princípios editoriais do Grupo O estopim, que defendem método, transparência, distinção entre fato, análise e opinião, além do compromisso de evitar sensacionalismo e deformação da realidade para explorar medo, ódio ou preconceitos. O próprio documento editorial do grupo reforça que conteúdos opinativos preservam liberdade crítica, mas devem se apoiar em dados corretos, contextualizados e checados.


No encerramento, o episódio convida o público a participar do debate com uma pergunta simples e provocadora: qual livro viral do BookTok realmente valeu a pena — e qual foi pura propaganda algorítmica?


O estopim — O começo da notícia!

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Murilo Alencar é editor e crítico literário, com atuação em literatura comparada e sociologia da cultura. No O estopim, escreve sobre o que a vida literária revela do país: seus mecanismos de consagração, suas ausências e suas disputas por voz.

Da redação do Radar Literário


O Mercado Livre, reconhecido como o maior marketplace da América Latina, anunciou recentemente a criação de sua própria loja de livros, marcando uma expansão significativa em sua atuação no mercado editorial. Até então, a plataforma operava no modelo de marketplace (3P), servindo como intermediária entre vendedores e compradores. Nesse formato, diversas livrarias e editoras, como a Livraria Leitura e A Página, utilizavam o Mercado Livre para comercializar seus produtos. No entanto, com a nova iniciativa, a empresa passa a vender livros diretamente aos consumidores, assumindo um papel de revendedora oficial.



Essa mudança estratégica ocorre em um momento de transformações no setor. No início de janeiro de 2025, o jornal O Globo noticiou que o Mercado Livre implementaria um "custo fixo" para vendedores de livros, uma categoria que, até então, era isenta dessa taxa. Anteriormente, apenas a "tarifa de venda" por produto comprado era aplicada. Com a nova política, a venda de livros com preço de até R$ 79 passou a ser taxada entre R$ 3 e R$ 4.


A entrada direta do Mercado Livre na venda de livros não é uma iniciativa isolada. Em 2021, a Câmara Brasileira do Livro (CBL), em parceria com distribuidoras como Catavento, Inovação, Loyola e Disal, lançou o projeto Conexão Livraria. O objetivo era auxiliar o comércio eletrônico de livros em todo o Brasil, tendo o Mercado Livre como plataforma piloto. A ideia central era utilizar a estrutura, os processos e a tecnologia do Mercado Livre, juntamente com o apoio logístico das distribuidoras, para conectar estoques e facilitar a venda online de livros.


Além disso, em 2023, o Mercado Livre firmou um acordo com a MVB Brasil para utilizar o banco de metadados da Metabooks. Essa parceria visa otimizar os processos relacionados à gestão de metadados de livros, melhorando a precisão e a eficiência na catalogação e distribuição de informações sobre os títulos disponíveis na plataforma.


A decisão do Mercado Livre de operar sua própria loja de livros reflete uma tendência observada em outras grandes empresas do varejo digital. Por exemplo, em outubro de 2024, a Natura estreou no Mercado Livre com sua loja própria, ampliando sua presença no comércio eletrônico e alcançando um público ainda maior.


Com essa iniciativa, o Mercado Livre não apenas diversifica suas operações, mas também fortalece sua posição no mercado editorial, oferecendo aos consumidores uma experiência de compra mais integrada e eficiente. A expectativa é que essa movimentação traga benefícios tanto para os leitores, que terão acesso facilitado a uma ampla variedade de títulos, quanto para o mercado editorial como um todo, que ganha uma nova dinâmica com a entrada direta de um dos maiores players do comércio eletrônico na venda de livros.

Como a reedição de obras clássicas se reinventa para conquistar novas gerações e aprofundar o conhecimento literário


Da Redação do Radar Literário


Nos últimos anos, um fenômeno curioso tem tomado os catálogos das editoras: a reedição de clássicos da literatura, uma prática que, até então, era mais comum em nichos específicos, passou a ganhar uma força renovada e se adaptar ao novo contexto cultural e editorial. O que parecia ser um movimento puramente conservador, destinado a manter viva a memória literária de grandes autores do passado, se transformou em uma verdadeira estratégia de aproximação com novos públicos, muitas vezes distantes da leitura desses textos e de suas abordagens tradicionais. As editoras estão criando diferentes práticas de reedição com o objetivo de não só manter os clássicos acessíveis, mas também de despertar a curiosidade e o interesse de leitores das mais diversas idades e contextos. A revisão das obras e a atualização de suas edições tornaram-se essenciais não apenas para a preservação do patrimônio literário, mas também para que essas obras sigam relevantes e atrativas no cenário literário contemporâneo.



A reedição de clássicos sempre esteve associada à tradição. Escritores como Machado de Assis, Clarice Lispector, Fernando Pessoa, William Shakespeare, Fiódor Dostoiévski e outros mestres da literatura mundial ocupam um lugar fixo nas estantes de livrarias, mas é importante notar que a maneira como esses livros chegam ao público mudou drasticamente nas últimas décadas. As editoras não estão mais apenas republicando essas obras com capas simples e texto imutável. Ao contrário, elas investem em revisões completas, estudos adicionais, novas traduções e até mesmo adaptações gráficas e visuais, de forma a revitalizar esses textos e conquistar um público que se diferencia de seus predecessores. Essa mudança traz à tona uma questão importante: a reedição de clássicos não se resume mais à preservação histórica, mas também à sua reinvenção como um instrumento de transformação social e cultural.


Um dos exemplos mais notáveis desse fenômeno pode ser observado no trabalho da editora Companhia das Letras com sua coleção “L&PM Pocket”. A editora não apenas lançou edições de autores consagrados, mas também passou a incluir estudos e biografias, o que contribui para o aprofundamento crítico das obras. Essas edições comentadas têm como principal objetivo levar o leitor a uma reflexão mais profunda, promovendo uma compreensão que transcende a primeira leitura. A adição de notas explicativas, introduções críticas e análises literárias não apenas contextualiza os textos, mas também serve de ponte para um público que pode estar distante da leitura acadêmica, mas que busca um acesso mais profundo às ideias e temas dessas obras.


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Outro aspecto importante nas reedições modernas de clássicos é a abordagem gráfica. Livros clássicos, quando reeditados, ganham frequentemente novas capas e designs que atendem aos gostos contemporâneos. A editora Martin Claret, por exemplo, tem se destacado com a reedição de grandes nomes da literatura brasileira, como Machado de Assis e Graciliano Ramos, mas com um foco especial na estética visual. Suas novas edições, repletas de ilustrações e cores vibrantes, procuram atrair um público mais jovem, ao mesmo tempo em que respeitam a essência dos textos. O design não é apenas uma questão de atração estética, mas uma ferramenta de conversação que conecta as obras do passado com os desejos e as necessidades dos leitores do presente.


Essas mudanças de formato e apresentação têm sido acompanhadas de uma reavaliação do papel das editoras como agentes de mudança cultural. As editoras estão, cada vez mais, conscientes de que o mercado literário atual é competitivo e que o interesse pelos clássicos precisa ser cultivado e mantido com estratégias inovadoras. O sucesso de uma reedição depende não apenas de sua fidelidade ao texto original, mas também da capacidade de atrair um público que, por vezes, se distanciou do cânone literário. E é aqui que entram as práticas de construção de conhecimento. A editora Cia. das Letras, por exemplo, tem feito um trabalho relevante ao incluir material extra, como estudos sobre o impacto social e histórico das obras, reflexões sobre a vida dos autores e até mesmo análises sobre como esses textos ecoam nos dias de hoje. Essas edições não são apenas livros, mas formas de acesso a um tipo de conhecimento que, de outra forma, ficaria distante dos leitores contemporâneos.


A reedição de clássicos também apresenta uma nova perspectiva sobre a relevância dessas obras. Por muito tempo, os clássicos foram vistos como textos que tinham pouco a oferecer ao leitor atual. No entanto, editoras como a Zahar, com suas edições de clássicos da literatura mundial, têm se esforçado para mostrar que esses livros não são apenas relicários do passado, mas fontes de reflexão sobre problemas atemporais, como o poder, a opressão, a liberdade e a condição humana. Ao lançar edições comentadas, novas traduções e até mesmo reinterpretações de textos antigos, essas editoras destacam a universalidade das questões abordadas pelos autores, abrindo portas para discussões contemporâneas que envolvem desde o ativismo social até os desafios da sociedade globalizada.


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No cenário das reedições de clássicos, também não podemos deixar de falar sobre o crescente mercado digital. A chegada de plataformas de leitura online e a popularização dos e-books têm oferecido novas possibilidades para as editoras. Muitos clássicos estão sendo disponibilizados gratuitamente em plataformas digitais, enquanto outras editoras estão criando versões digitais interativas, com funcionalidades que permitem ao leitor acessar não apenas o texto original, mas também recursos como vídeos explicativos, animações e links para discussões de grupo. Essa estratégia busca, ao mesmo tempo, aumentar o alcance dos livros e criar uma experiência de leitura mais imersiva e interconectada, algo que pode ser particularmente atraente para o público mais jovem e para aqueles que buscam mais do que simplesmente uma leitura passiva.


Em um cenário editorial onde as expectativas dos leitores estão em constante mudança, as editoras têm se mostrado cada vez mais inovadoras ao apostar na reedição de clássicos como uma forma de continuar gerando valor literário. A prática de atualizar essas obras para que dialoguem com as questões contemporâneas é fundamental não apenas para preservar a memória literária, mas também para garantir que essas obras continuem a enriquecer a sociedade de maneiras novas e relevantes. Por meio de novas traduções, edições comentadas, apresentações gráficas arrojadas e até mesmo versões digitais interativas, as editoras estão transformando a reedição de clássicos em uma ferramenta de aprendizado e reflexão, ao mesmo tempo em que aproximam o passado literário do presente cultural.


No entanto, apesar de todas as inovações, permanece uma questão fundamental: até que ponto essas reedições podem preservar a essência dos textos originais sem comprometer sua autenticidade? Como garantir que essas obras, que são parte de nossa herança cultural, não se tornem apenas produtos de consumo sem um real entendimento do que representam? Essas são perguntas que editoras e leitores devem continuar a refletir, enquanto o mercado editorial segue sua trajetória de reinvenção e busca pela preservação do patrimônio literário, ao mesmo tempo em que busca aproximar-se de novos públicos.


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