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Por Raul Silva para O estopim | 17 de junho de 2026
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta terça-feira, 16 de junho, na cúpula ampliada do G7, em Évian-les-Bains, na França, que o combate ao crime organizado transnacional precisa respeitar a soberania dos Estados e não pode ser dissociado de uma agenda mais ampla de desenvolvimento, cooperação internacional e redução das desigualdades. A fala ocorreu durante a sessão dedicada a novas parcerias e à reconstrução da solidariedade internacional.

No trecho mais sensível politicamente, Lula afirmou que o crime organizado aterroriza comunidades e drena recursos públicos que deveriam financiar escolas, hospitais e infraestrutura. Em seguida, ressaltou que esse enfrentamento precisa considerar o respeito à soberania dos Estados.
A ênfase não foi casual. O discurso ocorre poucas semanas depois de o governo dos Estados Unidos classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, movimento que gerou reação do Planalto e do Itamaraty por abrir margem, na leitura do governo brasileiro, para pressões externas e efeitos econômicos e jurídicos sobre empresas e instituições financeiras que operam no país.
Ao levar esse recado ao G7, Lula procurou combinar duas mensagens. A primeira, de que o Brasil não minimiza a gravidade do crime organizado. A segunda, de que a cooperação internacional, para ser legítima, precisa ocorrer sem tutela estrangeira e dentro das regras do direito internacional.
O presidente também usou a tribuna para ampliar o foco do debate. Disse que protecionismo e unilateralismo reaparecem como respostas enganosas para crises globais e afirmou que a solidariedade internacional encolheu num momento em que os desafios se multiplicam.
Na avaliação apresentada por Lula, o enfraquecimento de programas internacionais de ajuda, somado ao aumento dos gastos militares e ao aprofundamento da desigualdade entre países ricos e pobres, agrava a instabilidade global. A fala dialoga com a posição que o governo brasileiro já vinha anunciando antes da viagem, de defender no G7 a retomada do multilateralismo e a reforma da governança global.
Lula também associou soberania a desenvolvimento produtivo. Ao falar sobre minerais críticos, defendeu que países detentores dessas reservas não sejam reduzidos ao papel de exportadores de matéria-prima. Segundo ele, essas nações devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia, com industrialização, transferência de tecnologia e formação de capacidades.
No mesmo eixo, o presidente advertiu que a transição digital e a corrida pela inteligência artificial não podem repetir padrões históricos de concentração de renda, tecnologia e poder decisório em poucos atores. A mensagem reforça uma linha já defendida pelo governo brasileiro em fóruns internacionais, de acesso mais equilibrado às tecnologias estratégicas.
A participação de Lula no G7 ocorre num momento de atrito com Washington em áreas de comércio, segurança e política. Antes da viagem, o governo brasileiro já sinalizava que usaria o encontro para reagir ao avanço de medidas unilaterais e ao que classifica como desmonte do multilateralismo.
Na prática, o discurso sobre soberania serviu para posicionar o Brasil em duas frentes. Externamente, buscou rejeitar qualquer formulação que autorize ingerência em território nacional sob o argumento do combate ao crime. Internamente, reforçou a narrativa de que o país pode cooperar internacionalmente sem abrir mão do comando sobre suas próprias decisões estratégicas.
Ao falar em soberania no G7, Lula não tratou apenas de segurança pública. O conceito apareceu como eixo de uma política externa que tenta reunir combate ao crime, defesa do multilateralismo, crítica ao protecionismo, disputa tecnológica e reindustrialização.
O efeito imediato da fala é político e diplomático. O presidente insere o Brasil no debate global sobre segurança e desenvolvimento, mas rejeita soluções desenhadas fora do marco da autonomia nacional. Para o Planalto, a mensagem é clara: cooperação, sim; tutela, não.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação voltada à cobertura de política, poder e interesse público.
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