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Senadora de Pernambuco afirma que derrubada do veto ao PL 2.162/2023 beneficia diretamente Jair Bolsonaro e reacende disputa entre Congresso, governo e Supremo sobre os crimes contra a democracia


Por Raul Silva para O estopim | 2 de maio de 2026



Mulher fala em pódio no Senado, com microfones e bandeira do Brasil ao fundo. Ela usa óculos e veste roupa escura. Cena formal.
A senadora Teresa Leitão discursa em plenário do Senado | Jefferson Rudy/Agência Senado

O estopim da nova crise institucional em Brasília foi a derrubada, pelo Congresso Nacional, do veto total do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamado PL da Dosimetria, o Projeto de Lei 2.162/2023. Em vídeo publicado em suas redes sociais, a senadora Teresa Leitão (PT-PE) fez uma crítica frontal à votação e afirmou que a proposta foi pensada e aprovada para beneficiar uma pessoa específica: Jair Bolsonaro, pai do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).


A fala da parlamentar pernambucana se insere num embate que já ultrapassou a fronteira da técnica penal. O que está em disputa não é apenas a forma de calcular penas ou o ritmo de progressão de regime. O conflito envolve a memória política dos atos de 8 de janeiro de 2023, a autoridade das decisões do Supremo Tribunal Federal, a capacidade do Executivo de conter derrotas no Congresso e a tentativa do bolsonarismo de reorganizar sua força institucional às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.


A senadora sustentou que a tramitação do veto teve caráter excepcional. Segundo Teresa, o projeto entrou como um “paraquedista” na pauta, embora houvesse outros vetos aguardando análise. Ela também afirmou que a condução da Mesa do Congresso inicialmente permitia efeitos mais amplos do texto, inclusive sobre crimes hediondos e organizações criminosas, antes de parte desses dispositivos ser considerada prejudicada durante a sessão.


“Foi um paraquedista”, afirmou a senadora, ao criticar a prioridade dada à matéria. Em outro ponto, Teresa foi mais direta ao apontar o alvo político da proposta: na avaliação dela, a dosimetria aprovada tem “direção única” e mira Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo no processo da trama golpista.


O Congresso derrubou o veto presidencial em 30 de abril de 2026. Na Câmara dos Deputados, foram 318 votos contra o veto, 144 a favor da manutenção e 5 abstenções. No Senado Federal, o placar foi de 49 votos pela rejeição do veto e 24 pela manutenção. Com isso, o texto vetado seguirá para promulgação pelo próprio Congresso, ressalvados os dispositivos considerados prejudicados pela Presidência da Mesa.


O PL da Dosimetria altera trechos da Lei de Execução Penal e do Código Penal. Embora o texto tenha uma redação geral, sua repercussão política está diretamente ligada aos condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro e pela tentativa de golpe de Estado. Entre os possíveis beneficiados está Jair Bolsonaro, condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses de prisão.


A decisão do Congresso não produz, por si só, a revisão automática das penas. Após a promulgação, defesas de condenados poderão pedir a aplicação da nova lei ao Supremo ou ao juízo responsável pela execução penal. Do outro lado, o PT e setores do governo avaliam levar o caso ao STF para questionar a constitucionalidade da norma e o procedimento adotado na derrubada do veto.


A fala de Teresa Leitão tem dois eixos. O primeiro é jurídico e procedimental: a senadora questiona a forma como a votação foi conduzida. O segundo é político: ela acusa a maioria parlamentar de usar uma regra penal de aparência geral para atingir um objetivo concreto, a redução do impacto da condenação de Bolsonaro.


Segundo a senadora, a proposta não nasceu como uma reforma ampla, debatida com calma, audiências públicas e estudo de impacto sobre o sistema prisional. Pelo contrário, apareceu no centro da pauta em meio a uma disputa política intensa, com pressão direta de setores bolsonaristas para reduzir as penas dos condenados pela tentativa de ruptura institucional.


Na visão de Teresa, mesmo depois de a Mesa retirar trechos que poderiam alcançar criminosos comuns, como condenados por crimes hediondos e organizações de facções, o problema central permaneceu. Para ela, a lei continuou carregando uma finalidade específica: aliviar a situação penal do ex-presidente.


Essa crítica toca num ponto sensível da teoria democrática. Leis devem ser gerais, impessoais e orientadas pelo interesse público. Quando uma maioria parlamentar aprova uma norma com destinatário político identificável, a pergunta deixa de ser apenas penal e passa a ser republicana: o Congresso está legislando para o país ou para um grupo de aliados?


Homem de terno observa painel eletrônico verde com textos em amarelo. Ambiente de plenário, ar sério, papéis sobre a mesa.
O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, durante a sessão que derrubou o veto do presidente Lula ao PL da Dosimetria | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Parlamentares favoráveis ao PL da Dosimetria afirmam que a proposta corrige excessos nas condenações e busca responder a penas consideradas desproporcionais. A oposição bolsonarista e parte do Centrão sustentam que muitos réus do 8 de janeiro receberam punições altas demais para condutas praticadas num mesmo contexto fático.


Esse argumento encontrou eco em setores que defendem “pacificação” política. Para esse campo, a dosimetria não seria anistia, mas apenas ajuste técnico para evitar que crimes derivados de um mesmo episódio se somem de modo excessivo. A diferença, porém, é que a anistia declara perdão político, enquanto a dosimetria altera o cálculo da pena. Na prática política, a distinção pode ser menos nítida do que parece no papel.


Críticos do projeto, como Teresa Leitão, dizem que a proposta funciona como anistia indireta. O raciocínio é simples: se a lei reduz substancialmente o tempo de pena dos condenados por tentativa de golpe, ela enfraquece o efeito pedagógico e institucional das decisões judiciais que responsabilizaram os ataques à democracia.


A derrubada do veto é também uma derrota política para Lula. O presidente havia vetado integralmente o texto em janeiro de 2026 sob o argumento de inconstitucionalidade e contrariedade ao interesse público. Ao derrubar o veto, o Congresso impôs sua maioria e deixou claro que a correlação de forças em Brasília está mais favorável ao bloco conservador e ao Centrão do que ao Palácio do Planalto.


O gesto parlamentar, porém, não encerra a disputa. Ao contrário, desloca o conflito para o Supremo. Como as condenações dos principais envolvidos na trama golpista foram impostas pelo STF, caberá à Corte decidir, se provocada, até onde uma nova lei pode interferir nos efeitos práticos dessas condenações.


Essa é a arena mais delicada. De um lado, o Congresso tem competência para legislar em matéria penal. De outro, a Constituição impõe limites ao uso da lei quando há desvio de finalidade, violação da separação de poderes ou tentativa de neutralizar decisões judiciais por meio de casuísmo legislativo.


Estátua de justiça em frente a um moderno edifício de vidro e concreto sob céu azul claro. Sensação de formalidade e tranquilidade.
Acervo arquivístico do STF | Fonte: Site oficial do CNJ

A fala de Teresa Leitão também expõe uma estratégia mais ampla do bolsonarismo. Desde a condenação de Jair Bolsonaro, seus aliados vêm buscando três caminhos simultâneos: a narrativa de perseguição política, a reorganização eleitoral em torno de Flávio Bolsonaro e a tentativa legislativa de reduzir os efeitos jurídicos da punição.


A dosimetria se encaixa nesse terceiro eixo. Ela não absolve Bolsonaro, mas pode diminuir sua pena e antecipar benefícios na execução penal. Politicamente, isso permite ao bolsonarismo apresentar a derrubada do veto como vitória, sem assumir formalmente a impopularidade de uma anistia plena aos responsáveis pela tentativa de golpe.


É nessa fresta que Teresa Leitão finca sua crítica. Para ela, o nome técnico do projeto encobre uma operação política. “Dosimetria” soa como cálculo jurídico, mas, na leitura da senadora, o que está em curso é uma disputa sobre impunidade, memória democrática e força institucional da extrema direita.


A intervenção de Teresa Leitão carrega também um significado regional. Primeira mulher eleita senadora por Pernambuco, ela fala a partir de um estado que tem tradição de participação política intensa e memória viva de lutas democráticas. Ao se posicionar contra o PL da Dosimetria, a parlamentar busca associar Pernambuco ao campo de defesa institucional, numa conjuntura em que o Nordeste permanece como base estratégica do lulismo e alvo permanente da disputa simbólica nacional.


Não se trata apenas de uma fala partidária. É uma tentativa de marcar posição num debate em que o vocabulário jurídico muitas vezes esconde o conflito real. A pergunta que atravessa o episódio é direta: como uma democracia deve tratar quem tentou destruí-la?


Com a derrubada do veto, o próximo passo formal é a promulgação do texto pelo Congresso. Depois disso, a disputa deve seguir por dois caminhos. No campo jurídico, defesas de condenados podem pedir revisão de penas. No campo institucional, partidos contrários ao projeto devem acionar o STF para tentar barrar ou limitar os efeitos da nova regra.


No campo político, a votação fortalece o discurso bolsonarista de revanche e amplia a pressão sobre o governo Lula. Ao mesmo tempo, dá à esquerda um argumento poderoso para mobilizar sua base: a tese de que a maioria parlamentar está convertendo poder legislativo em instrumento de proteção de aliados condenados por atacar a democracia.


A fala de Teresa Leitão, não é apenas reação a uma votação. É um alerta sobre a qualidade republicana da lei. Num país que ainda tenta processar os traumas do 8 de janeiro e da Ditadura Militar, a dosimetria virou mais que um cálculo de pena. Virou um teste de memória institucional.


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Raul Silva é jornalista político sênior de O estopim, especialista em Ciência Política, instituições democráticas e relações entre poder, território e sociedade no Nordeste brasileiro.


Por Raul Silva para O estopim | 29 de março de 2026



A menos de uma semana do fechamento da janela partidária, marcado para 3 de abril, os partidos em Pernambuco aceleraram a filiação de novos nomes, a troca de legendas entre parlamentares e a montagem de chapas proporcionais para a disputa de 2026. O movimento envolve a base da governadora Raquel Lyra (PSD), o campo liderado pelo prefeito do Recife, João Campos (PSB), e siglas que tentam recuperar peso no tabuleiro estadual, como MDB, PSDB, PRD e PT.


Sessão plenária em uma Assembleia Legislativa. Pessoas sentadas em cadeiras, painel eletrônico ao fundo e bandeiras no palco. Ambiente formal.
Sessão plenária na Assembleia Legislativa de Pernambuco. | Foto: Blog Dantas Barreto

A corrida não se resume a formalidades partidárias. Ela define quem chega a abril com mais bancada, mais capilaridade territorial, mais poder de barganha e mais capacidade de negociar espaços nas chapas majoritárias. Em ano eleitoral, a janela funciona como termômetro de força e também como instrumento de reorganização do sistema político.


Pela regra do Tribunal Superior Eleitoral, deputados federais, estaduais e distritais podem trocar de legenda sem perda de mandato durante a janela partidária, aberta em 5 de março e encerrada em 3 de abril. O mecanismo beneficia apenas mandatos proporcionais, mas seus efeitos extrapolam esse universo. Quando um partido ganha ou perde quadros nesse período, ele não altera apenas números internos. Ele muda o seu peso na negociação das campanhas, na distribuição de recursos e na montagem das nominatas.


Em Pernambuco, esse processo ganhou força desde a primeira quinzena de março e se intensificou nos últimos dias. O próprio cálculo feito por setores do noticiário político local indica uma movimentação ampla, com expectativa de mais de 30 parlamentares trocando de legenda no estado entre Câmara dos Deputados, Assembleia Legislativa e Câmara do Recife.


PSD e PSB disputam o centro da vitrine


Os dois polos mais visíveis da janela são hoje o PSD, sob comando de Raquel Lyra em Pernambuco, e o PSB, presidido nacionalmente por João Campos.


No campo governista, a estratégia é usar a máquina estadual, a atração de quadros e o reposicionamento de aliados para consolidar o PSD como eixo da base reeleitoral de Raquel. O partido já vinha acumulando expectativa de crescimento na Alepe e reforçou a ofensiva também na Câmara dos Deputados. O caso mais simbólico dos últimos dias foi o da filiação de Guilherme Uchoa Jr., que deixou o PSB e ingressou no PSD em ato com Raquel Lyra e Gilberto Kassab.


Dois indivíduos em destaque lado a lado, ambos com expressões sérias. Fundo desfocado colorido. Ambiente profissional.
João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD) em destaque. | Foto: Júlia Aguiar/1-8-2025 e Diego Nigro/Valor/31-10-2022

Ao mesmo tempo, o entorno da governadora trabalha para ampliar a musculatura do bloco com siglas satélites e nomes regionais. No interior, a filiação de Anderson Luiz ao PSD, em Caruaru, foi tratada como parte da preparação de uma chapa mais competitiva para a Assembleia.


Do outro lado, o PSB tenta preservar a imagem de partido em expansão e de principal eixo oposicionista em Pernambuco. O partido recebeu a deputada federal Maria Arraes, fortaleceu seu discurso de crescimento durante ato nacional de filiações em Brasília e busca agregar nomes com densidade eleitoral para manter peso tanto na Câmara quanto na Alepe. A legenda também virou destino de pré-candidatos vinculados ao entorno de João Campos e ao campo anti-Raquel.


A janela também reabriu espaços para legendas que não estão no centro da polarização estadual, mas querem sobreviver com influência real.


O MDB deu seu lance mais visível com a filiação do presidente da Alepe, Álvaro Porto, num movimento que fortaleceu o partido e, ao mesmo tempo, aprofundou o esvaziamento do PSDB em Pernambuco. A entrada de Álvaro, articulada em Brasília, foi lida como uma tentativa de recolocar o MDB no jogo com mais densidade institucional e mais valor de mercado para a composição de 2026.


O PSDB, por sua vez, reagiu ao baque ao retornar à base de Raquel Lyra com nova direção e ao receber o deputado federal Pastor Eurico, que deixou o PL. Ainda que distante do protagonismo de ciclos anteriores, o partido tenta evitar irrelevância e preservar algum poder de negociação.


Já o PRD aproveitou a janela para dar um salto de visibilidade com a filiação do deputado federal Fernando Rodolfo, que deixou o PL e assumiu o comando da federação PRD-Solidariedade em Pernambuco. A leitura predominante é de que a sigla tentará negociar seu tamanho como força auxiliar do campo governista.


No PT, o movimento tem um ritmo diferente. A sigla passou parte do mês concentrada na definição da aliança com João Campos para o governo estadual, mas também vem trabalhando para fortalecer sua disputa proporcional. Um exemplo foi a filiação de Breno Araújo em Serra Talhada, em ato que reuniu lideranças petistas e marcou a tentativa de ampliar a presença do partido no interior.


A diferença, no caso do PT, é que a janela não é tratada apenas como disputa por nomes disponíveis. Ela está subordinada à estratégia maior de combinar palanque para Lula, composição majoritária e chapas competitivas para Câmara e Assembleia.


Mais do que siglas, a disputa nessa janela partidária é por território


A aparência da janela é a de uma dança de cadeiras. O conteúdo é mais profundo. Cada filiação recente ajuda a responder três perguntas centrais.


A primeira é quem terá bancada suficiente para falar grosso nas negociações de abril em diante.


A segunda é quais partidos conseguirão formar chapas proporcionais com densidade real, evitando o risco de nominatas frágeis, pouco competitivas ou concentradas demais em um só polo regional.


A terceira é quem chega mais forte ao momento de travar a disputa por vice, Senado, tempo de televisão, estrutura municipal e distribuição de recursos.


Três homens são mostrados lado a lado. À esquerda, um de terno com expressão neutra. Ao centro e à direita, expressões sérias. Fundo neutro.
Ex-presidente do PRD confirma que a troca de comando do partido em Pernambuco foi acertada com Luciano Bivar, mostrando coesão na transição de liderança. | Foto: Reprodução/Blog Dantas Barreto

É por isso que a movimentação dos últimos dias não pode ser lida como mero ritual cartorial. Ela é uma fase de pré-campanha. E, em Pernambuco, funciona também como um campo de medição entre dois projetos já em rota de colisão. O de Raquel Lyra, que tenta converter a força do governo em base partidária sólida, e o de João Campos, que tenta apresentar o PSB como centro natural de uma frente mais ampla contra a reeleição da governadora.


Os próximos dias tendem a revelar menos uma grande surpresa isolada e mais o desenho concreto do equilíbrio de forças. Partidos médios devem concluir ajustes de sobrevivência. Siglas grandes tentarão fechar a janela exibindo crescimento. Lideranças regionais vão medir onde há mais espaço, mais recursos e mais perspectiva de mandato. E os dois principais campos da eleição estadual seguirão tratando cada nova filiação como prova de vitalidade política.


Neste domingo, portanto, a fotografia ainda está em movimento. Mas o sentido dela já é claro. Os partidos correm para filiar novos nomes porque sabem que, antes mesmo do início oficial da campanha, a eleição começa pela capacidade de reunir gente, território, bancada e projeto.


Em Pernambuco, a janela partidária deixou de ser apenas um prazo do calendário eleitoral. Virou o primeiro grande teste de força de 2026.


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Raul Silva é jornalista, escritor e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, sociedade e cultura, com foco em contexto, interesse público e verificação dos fatos.

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