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Por Clarice Drummond para O estopim Cultura | 18 de Fevereiro de 2026


A Acadêmicos de Niterói entrou na Marquês de Sapucaí, no domingo (15), com um enredo biográfico sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atravessou a Avenida sob holofotes políticos incomuns para uma estreante no Grupo Especial e, três dias depois, saiu da apuração em último lugar. O rebaixamento veio rápido. O debate sobre os limites da arte veio antes. O questionamento sobre a imparcialidade dos jurados, agora, precisa vir com nome, sobrenome e método: onde a escola perdeu pontos, o que o regulamento exige de um julgador, que tipo de justificativa a Liesa precisa oferecer ao público e como o carnaval carioca lida, historicamente, com vieses que atravessam raça, religião e política.


Desfile da Acadêmicos de Niterói homenageou o presidente Lula | Foto: Alex Ferro / Riotour
Desfile da Acadêmicos de Niterói homenageou o presidente Lula | Foto: Alex Ferro / Riotour

A manchete que se espalhou é simples. Escola que falou de Lula na Avenida foi rebaixada. O problema é que o carnaval raramente é simples. E quando uma escola resolve colocar o dedo na ferida, a ferida precisa ser examinada com lupa.


O que aconteceu na apuração, em números pode falar muito sobre o julgamento


A classificação final do Grupo Especial do Rio Carnaval 2026 colocou a Acadêmicos de Niterói na 12ª posição, com 264,6 pontos. Em um sistema cujo teto é 270,0, o número diz mais do que parece: a escola perdeu 5,4 pontos em relação à nota máxima possível e ficou 2,8 pontos atrás da 11ª colocada, a Mocidade Independente de Padre Miguel.


A fotografia do mapa de notas é dura porque não se resume a um erro pontual. A Niterói perdeu décimos em todos os nove quesitos julgados. O seu melhor desempenho foi em Samba-enredo, com 29,9, incluindo ao menos uma nota 10. Já as maiores perdas se concentraram no conjunto visual e na narrativa: Fantasias somou 29,0 e Alegorias e adereços fechou em 29,1. Em um carnaval em que muitas escolas flertam com o 30,0 em vários quesitos, esses números não são só “um décimo aqui e outro ali”. Eles configuram um padrão.


Como ficaram os nove quesitos da Acadêmicos de Niterói no mapa de notas:

  • Comissão de frente: 29,5

  • Bateria: 29,4

  • Mestre-sala e porta-bandeira: 29,4

  • Alegorias e adereços: 29,1

  • Harmonia: 29,5

  • Fantasias: 29,0

  • Enredo: 29,3

  • Evolução: 29,5

  • Samba-enredo: 29,9



A apuração também registrou uma punição administrativa anterior à leitura das notas: a Acadêmicos de Niterói foi multada em R$ 80 mil por problemas na dispersão. A penalidade, financeira, não tirou pontos, mas ajuda a compreender que a noite da estreante não foi tecnicamente imune a falhas operacionais.


A leitura fria desses dados leva a uma conclusão inicial. A escola não caiu por uma queda de braço em um único quesito. Caiu por um conjunto de avaliações que, somadas, formaram o rebaixamento.


A leitura política, no entanto, começa exatamente onde termina a leitura fria: como uma escola que chegou ao Grupo Especial como estreante, com uma comunidade mobilizada e um enredo de alta visibilidade, perde em todos os quesitos de forma tão constante que abre um abismo de quase três pontos para a penúltima colocada?


Presidente Lula foi ao desfile e tirou fotos com integrantes da escola após a passagem pela avenida | Foto: Ricardo Stuckert/PR
Presidente Lula foi ao desfile e tirou fotos com integrantes da escola após a passagem pela avenida | Foto: Ricardo Stuckert/PR

O enredo que virou alvo antes mesmo de virar desfile


“Do alto do mulungu surge a esperança: Lula o operário do Brasil” não foi um enredo neutro. E isso não é um defeito. É uma escolha estética e narrativa.

A sinopse apresentada no Livro Abre-alas da Liesa é explícita ao reivindicar o carnaval como linguagem política, ao defender a legitimidade da homenagem e, sobretudo, ao fazer um pedido incomum, quase um aviso, ao júri: que a escola fosse julgada “sem pré concepções ou resistências” e que o desfile não fosse reduzido ao “peso da bandeira” que ele carrega. A frase é reveladora porque admite, no papel, aquilo que todo carnavalesco experiente sabe nos bastidores. Há enredos que chegam à pista já marcados por amor e ódio antes do primeiro surdo.


A narrativa escolhida percorreu a trajetória do retirante nordestino, do operário, do líder sindical, do presidente e do personagem atravessado por crises políticas recentes. O desfile encenou a passagem da faixa para Dilma Rousseff e o impeachment de 2016. Houve crítica direta ao bolsonarismo em forma de alegoria, com Jair Bolsonaro representado como palhaço atrás de grades. A escola também montou uma ala que chamou de “neoconservadores em conserva”, reunindo símbolos e estereótipos de uma oposição social e política ao lulismo.


No samba-enredo, a escola apostou em uma estrutura que alterna épica popular, memória política e moral de fábula. Há referências a fome, trabalho, religião e democracia. O refrão que cita o nome do homenageado foi cantado como grito de arquibancada e como escolha de dramaturgia.


Nada disso é “mentira” ou “invenção gratuita” no sentido estrito. O enredo trabalha com fatos históricos amplamente documentados e com interpretações políticas que estão no centro do debate público brasileiro há anos. A migração nordestina, as greves do ABC, a construção do PT, a presidência e o impeachment de Dilma, a polarização recente. O carnaval não é tribunal, mas também não é peça de ficção desligada do mundo.


O ponto central é outro: se a escola se apoiou em fatos concretos e em debate público real, por que o sistema que a julga parece incapaz de separar técnica de temperatura política?


Da tentativa de veto ao rebaixamento: a linha do tempo da pressão


Antes de a Acadêmicos de Niterói pisar na Avenida, o enredo já estava sendo disputado no campo jurídico.


A Justiça Federal rejeitou ações populares apresentadas por parlamentares de oposição que questionavam repasses públicos ligados ao carnaval e tentavam impor limites ao conteúdo do desfile, incluindo pedidos para impedir “ataques pessoais” e até para proibir a transmissão por rádio e TV. No Tribunal Superior Eleitoral, duas representações pediram liminar para barrar o desfile sob a tese de propaganda antecipada. O TSE negou as liminares por unanimidade e registrou um ponto essencial para esta discussão: restringir previamente uma manifestação artística por suspeita genérica seria censura judicial prévia.


Ou seja, houve tentativa formal de censura. O Judiciário, nesse primeiro momento, não comprou a tese.


Depois do desfile, a própria escola divulgou nota alegando perseguição política e tentativas de interferência artística, afirmando ter enfrentado pressões para alterar enredo e samba. A equipe de Janja Lula da Silva também citou receio de “perseguição” como motivo para ela não desfilar.


Esse conjunto de fatos não prova, por si só, que o júri puniu a escola por ideologia. Mas ele demonstra uma coisa incontornável: a Acadêmicos de Niterói desfilou sob um cerco público, institucional e midiático que outras escolas raramente enfrentam.


E quando o manual do julgador exige “distanciamento crítico” e proíbe influência de opinião pública, a pergunta inevitável é: como blindar uma avaliação quando o desfile já é tratado como caso de Estado?


O que o manual exige dos jurados e por que isso importa agora


O Manual do Julgador do Carnaval 2026 é claro em dois pontos que se tornaram centrais diante do caso Niterói.


  • Primeiro: cada jurado deve se ater “única e exclusivamente” ao quesito que julga, sem se deixar influenciar pela totalidade do desfile e sem levar em conta reação do público, opinião de comentaristas, popularidade da escola ou qualquer elemento externo.

  • Segundo: todas as notas, inclusive as máximas, devem ser justificadas por escrito, com clareza e objetividade. Justificativa vaga não é detalhe. É falha de procedimento. E falha de procedimento contamina a credibilidade do resultado.


O carnaval carioca sempre conviveu com a tensão entre subjetividade e régua técnica. O próprio manual reconhece que julgar expressão artística tem uma camada inevitável de subjetividade. O antídoto, então, não é fingir neutralidade. É produzir transparência.


Por isso, o rebaixamento da Acadêmicos de Niterói precisa ser acompanhado de uma exigência objetiva: que as justificativas para a sequência de notas abaixo do padrão máximo sejam públicas, compreensíveis, coerentes entre si e comparáveis com a régua aplicada às demais escolas.


54 pessoas fizeram parte do corpo de jurados | Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval/Divulgação
54 pessoas fizeram parte do corpo de jurados | Foto: Eduardo Hollanda/Rio Carnaval/Divulgação

A imparcialidade é um dever. A dúvida é um dado


Quando uma escola perde pontos em todos os quesitos, existem três caminhos possíveis. O primeiro é o mais óbvio: houve um conjunto real de falhas técnicas e o júri apenas registrou o que a pista apresentou.


O segundo é o mais delicado: houve falhas, mas a régua pesou mais para uma escola do que para as outras, algo que costuma aparecer quando se compara justificativas semelhantes para notas diferentes.


O terceiro é o mais grave: o julgamento foi atravessado por fatores externos, conscientes ou inconscientes, e puniu o enredo que incomodou mais do que os erros que apareceram.


Hoje, sem a leitura pública e detalhada dos cadernos de justificativas, qualquer afirmação categórica sobre qual dos três caminhos venceu é precipitada. Mas isso não significa que o debate deva ser abafado. Significa que ele deve ser conduzido com critério.


E o primeiro critério é simples: se o manual manda o jurado ignorar “o peso da bandeira”, o júri precisa provar, no papel, que ignorou.


Quando o carnaval é julgado por gente, vieses aparecem


O questionamento sobre parcialidade no julgamento do Rio não nasce com a Acadêmicos de Niterói.


Há histórico recente de críticas públicas a decisões de jurados que tocaram em preconceitos de raça, religião e classe, e que expuseram o quanto a avaliação “técnica” pode reproduzir hierarquias sociais.


Em 2025, por exemplo, a Unidos de Padre Miguel perdeu décimos porque uma jurada registrou “excesso de termos em iorubá” como justificativa para desconto em Samba-enredo. A reação foi imediata, com críticas de racismo religioso e manifestações públicas que expuseram uma contradição. O iorubá está na raiz da cultura do samba e nas religiões de matriz africana, e tratá-lo como ruído de compreensão coloca o julgador em uma posição de filtro cultural que não é neutra.


Em 2023, o então presidente da Liesa foi alvo de denúncias após fazer, em podcast, uma fala considerada racista ao questionar a identidade racial de um carnavalesco da Portela. O episódio não é detalhe de bastidor. Ele é sintoma do ambiente institucional.


Esse tipo de histórico não autoriza acusar qualquer jurado, individualmente, de perseguição política no caso Niterói. Mas ele torna irresponsável tratar o debate como paranoia de torcedor. O carnaval já viu, mais de uma vez, o julgamento ser criticado por reproduzir preconceitos ou por falhar em compreender linguagens negras e populares.


É por isso que a imparcialidade não pode ser um mantra repetido em coletiva de imprensa. Ela precisa ser uma prática auditável.


A parte que dói: por que incomodou tanto?


A Acadêmicos de Niterói não homenageou um personagem neutro. Homenageou o presidente em exercício em ano eleitoral, em um país polarizado, e ainda cutucou figuras e símbolos do bolsonarismo e do neoconservadorismo.


A escola, do ponto de vista do carnaval como fenômeno cultural, fez o que as escolas fazem há décadas: transformou política em narrativa, crítica em alegoria, biografia em mito popular. A Avenida sempre foi tribuna. Às vezes tribuna de louvor, às vezes tribuna de denúncia.


A diferença é que, desta vez, a tentativa de impor limites à obra veio antes mesmo do ensaio técnico. O desfile foi tratado como ameaça. E uma obra tratada como ameaça costuma ser punida não apenas nos tribunais, mas também no imaginário.


Quando o rebaixamento chega logo depois, é legítimo perguntar se a escola foi julgada apenas pelo que mostrou na pista ou também pelo que simbolizou fora dela.


E é legítimo perguntar se doeu em quem merecia doer. Porque o enredo de Niterói não inventou fome, não inventou desigualdade, não inventou a guerra cultural, não inventou a disputa por memória histórica. O desfile apenas colocou isso na Sapucaí, com a linguagem que o conservadorismo costuma temer: a linguagem popular, cantada e vista por milhões.


Liga das Escolas de Samba | Foto: Reprodução/Redes Sociais
Liga das Escolas de Samba | Foto: Reprodução/Redes Sociais

O que precisa ser cobrado da Liesa e do corpo de jurados


Se a Liesa quer que o carnaval seja reconhecido como competição justa e não como jogo de poder, algumas respostas precisam deixar de ser tabus.


  1. Publicação imediata e integral das justificativas, com padronização de linguagem, para permitir comparação entre escolas.

  2. Transparência ativa sobre formação e critérios dos jurados, incluindo treinamento para evitar vieses discriminatórios, em especial contra expressões de matriz africana e contra narrativas políticas.

  3. Mecanismo de auditoria independente, ao menos para casos de rebaixamento e desempate, com revisão de consistência entre justificativa e nota.

  4. Revisão pública das regras de dispersão e dos impactos operacionais entre escolas, já que há relatos de que problemas na saída de pista podem afetar a entrada da escola seguinte.

  5. Diversidade no corpo de jurados e nos espaços de decisão. Não como gesto simbólico, mas como correção de lente. Quem avalia também carrega repertório cultural.


Essas medidas não são “mimo” para escola rebaixada. São política de credibilidade do espetáculo.


Também é papel do público entender o que é, de fato, passível de recurso. O Regulamento do Grupo Especial 2026 prevê impugnações por infringência às regras operacionais até as 13h da Quarta-feira de Cinzas, para decisão antes da abertura dos envelopes de julgamento. Já os recursos formais, sem efeito suspensivo, tendem a se concentrar em penalidades administrativas aplicadas pela organização, com prazos e trâmites internos na Liesa. Na prática, é raro que um recurso altere notas de jurados. É justamente por isso que a transparência das justificativas, no papel, pesa tanto.


O carnaval que pune a coragem vira um carnaval menor


A Acadêmicos de Niterói pode ter cometido falhas técnicas. Isso é parte do jogo, especialmente para uma estreante que pisa no Grupo Especial com orçamento, logística e pressão diferentes do que viveu na Série Ouro.


Mas o rebaixamento, do jeito que aconteceu, pede mais do que a explicação genérica de que “faltou chão”. Pede prova. Pede papel. Pede justificativa.


Porque quando uma escola que ousa narrar o Brasil real cai de imediato, e cai com um conjunto de notas que parece indicar reprovação total, o carnaval corre o risco de passar uma mensagem perigosa: temas críticos são tolerados até o ponto em que incomodam demais.


E aí a pergunta deixa de ser apenas sobre a Acadêmicos de Niterói.


A pergunta passa a ser sobre o próprio Rio Carnaval: quem pode contar a história do país na Avenida e sair ileso?


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Clarice Drummond

Sobre a autora: Clarice Drummond é jornalista e crítica carnavalesca. Pesquisadora apaixonada pelas escolas de samba do Rio e de São Paulo, ela cobre a folia como fenômeno cultural, político e artístico o ano inteiro, dissecando quesitos e enredos com rigor técnico e emoção.

Na terceira reportagem da série "Sob Escuta", revelamos como o Palácio do Campo das Princesas teria montado uma "milícia digital" para assassinar reputações, intimidar deputados e blindar a governadora Raquel Lyra das investigações sobre seus contratos bilionários.


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Milícia Digital no Governo de Pernambuco???Resumo em Áudio gerado por IA Gemini - Com supervisão do Jornalismo de O estopim

Por Heitor Lemos Especialista em Sociedade e Comportamento Político | 29 de janeiro de 2026


Se nas ruas a vigilância se dava através de rastreadores clandestinos e arapongas, nas redes sociais a guerra assumiu uma face ainda mais covarde e industrial. A denúncia que estremece a política local aponta para a existência de uma estrutura coordenada, operada de dentro do próprio gabinete da governadora Raquel Lyra, dedicada a uma única função: destruir quem ousa questionar. Não estamos falando de militância espontânea ou de calorosos debates ideológicos. Estamos falando, segundo documentos oficiais e investigações legislativas, de uma milícia digital financiada com dinheiro do contribuinte pernambucano para espalhar desinformação, pânico moral e ódio contra adversários políticos.


Dani Portela alvo de fake news em relatórios supostamente forjados por ex-assessor de Raquel Lyra | Foto: Reprodução
Dani Portela alvo de fake news em relatórios supostamente forjados por ex-assessor de Raquel Lyra | Foto: Reprodução

O Gabinete do Ódio e a Indústria da Difamação


A tática não é nova, mas sua aplicação institucionalizada no governo de Pernambuco choca pela audácia. Enquanto Brasília ainda pune os responsáveis pelo "Gabinete do Ódio" federal, Pernambuco parece ter importado o know-how da destruição de reputações. O objetivo estratégico é claro: criar uma cortina de fumaça digital que impeça o cidadão de ver a realidade administrativa e, principalmente, de questionar para onde vão os recursos do Estado.


A operação dessa engrenagem coincide, não por acaso, com o momento de maior fragilidade da gestão. Quando a Assembleia Legislativa (Alepe) decidiu instalar a CPI do Bilhão para investigar os vultosos contratos de publicidade do governo, a máquina de ataque foi ligada na potência máxima. A comunicação estatal, que deveria servir para informar sobre vacinação ou obras, converteu-se em trincheira de guerrilha partidária.


OS JOGADORES E O MODUS OPERANDI


Para entender como essa máquina opera, é preciso dissecar seus protagonistas e métodos, que beiram o amadorismo criminoso.


O Operador na lan house


No centro do furacão está Manoel Pires Medeiros Neto. Jornalista e ocupante de cargos de altíssima confiança no gabinete da governadora, ele foi flagrado em uma situação digna de filmes de espionagem de baixo orçamento. A Superintendência de Inteligência Legislativa rastreou a origem de uma denúncia anônima e difamatória contra a deputada Dani Portela, autora do pedido da CPI. O rastro digital levou a uma lan house em um shopping do Recife. As câmeras de segurança não mentem: lá estava o assessor especial do governo, usando um computador público para tentar incriminar uma parlamentar eleita.


Manoel Pires Medeiros Neto apontado como um dos integrantes da milícia digital do gabinete da Governadora, no dia em que teria forjado relatórios sobre Dani Portela em lan house | Foto: Reprodução/Câmeras de Segurança
Manoel Pires Medeiros Neto apontado como um dos integrantes da milícia digital do gabinete da Governadora, no dia em que teria forjado relatórios sobre Dani Portela em lan house | Foto: Reprodução/Câmeras de Segurança

A vítima preferencial


Dani Portela não foi escolhida ao acaso. Mulher, negra e de oposição, ela cometeu o "crime" de exigir transparência sobre o contrato de R$ 1,2 bilhão em publicidade. A resposta do sistema não foi enviar planilhas ou notas fiscais, mas sim desfechar uma campanha de violência política de gênero e raça. O ataque visava não apenas a sua atuação parlamentar, mas a sua integridade pessoal e familiar, em uma tentativa clara de silenciamento pelo terror psicológico.


A rede de "Perfis Fantasmas"


A investigação aponta que a milícia digital opera em duas frentes. De um lado, perfis "chapa-branca" como @portaldeprefeitura e @petaligadooficial bombardeiam a rede com elogios exagerados à governadora Raquel Lyra, criando uma realidade paralela de sucesso administrativo. Do outro, uma miríade de contas anônimas e recém-criadas espalha veneno, memes ofensivos e mentiras contra críticos. A suspeita que paira sobre a "CPI do Bilhão" é que parte da verba publicitária oficial pode estar sendo drenada para financiar, via impulsionamento pago, essa rede de difamação.


IMPACTO NO BRASIL: A Democracia Sequestrada


O que acontece hoje no governo de Pernambuco é um alerta vermelho para a democracia brasileira.


  1. Institucionalização do Ódio: Quando o Estado usa sua máquina para atacar um poder fiscalizador (o Legislativo), rompe-se o equilíbrio republicano.


  2. Violência Política: O caso Dani Portela mostra que a disputa política foi substituída pela tentativa de aniquilação do outro. Isso afasta mulheres e minorias da política, empobrecendo a representação democrática.


  3. Opacidade Financeira: Se a comunicação oficial serve para encobrir a verdade em vez de revelá-la, como o cidadão pode confiar em qualquer dado divulgado pelo governo Raquel Lyra?


A descoberta do assessor da governadora em uma lan house fabricando dossiês falsos seria cômica se não fosse trágica. Ela revela o nível de degradação moral a que chegou o núcleo de poder do Palácio do Campo das Princesas. Enquanto tentam vender a imagem de uma gestão técnica e moderna, nos bastidores recorrem a práticas medievais de linchamento público.


A milícia digital de Pernambuco não é apenas uma ferramenta eleitoral. Ela é a confissão de incompetência de um governo que, incapaz de convencer pelos atos, precisa destruir quem aponta seus fracassos.


Acompanhe a série "Sob Escuta"


Este texto é a terceira parte da investigação exclusiva de O estopim Política sobre os porões do poder em Pernambuco. Já falamos dos rastreadores e da milícia digital. Na próxima reportagem, vamos abrir a caixa-preta que motivou todos esses ataques: o contrato de R$ 1,2 bilhão em publicidade e a "CPI do Bilhão".


Para não perder o próximo capítulo explosivo, salve oestopim.com nos seus favoritos e busque por "governo de Pernambuco", "Raquel Lyra" e "milícia digital" nos seus agregadores de notícias. A verdade incomoda, mas é a única coisa que nos liberta.


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O estopim — O começo da notícia!

Na segunda reportagem da série "Sob Escuta - Pernambuco em Disputa", mergulhamos nos detalhes técnicos, jurídicos e políticos da operação clandestina da Polícia Civil que usou rastreadores, reconhecimento facial e grupos de WhatsApp para monitorar opositores da governadora Raquel Lyra, inaugurando uma era de "Tecno-Coronelismo".


Por Heitor Lemos Especialista em Sociedade e Comportamento Político | 27 de janeiro de 2026


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Tecno-coronelismo e espionagem política em PernambucoResumo em Áudio gerado por IA Gemini - Com supervisão do Jornalismo de O estopim

Polícia Civil durante operação oficial não ligada a denúncia | Foto ilustrativa
Polícia Civil durante operação oficial não ligada a denúncia | Foto ilustrativa

Enquanto Brasília ainda tenta digerir os escombros políticos e jurídicos da "Abin paralela", Pernambuco assiste ao nascimento de seu próprio monstro nos porões da segurança pública estadual. A chamada Operação "Nova Missão" não consta em nenhum diário oficial, não possui número de portaria, não gerou inquérito policial e desconhece completamente o controle externo do Ministério Público. Ela existiu, segundo um conjunto robusto de denúncias e provas materiais que vieram à tona, em um submundo digital onde delegados e agentes da Polícia Civil de Pernambuco teriam atuado não como servidores do Estado, mas como arapongas de um projeto de poder pessoal. O alvo dessa engrenagem não era o crime organizado que assola a Região Metropolitana ou as facções que dominam o tráfico no interior, mas sim o coração político da Prefeitura do Recife e a articulação de João Campos.


ANÁLISE DE CONTEXTO: O Fantasma da Polícia Paralela


A "Nova Missão" surge como um sintoma agudo e visível de um descontrole institucional que parece ter contaminado o governo de Pernambuco. Diferente de uma investigação formal, onde cada passo deixa um rastro auditável e passível de contestação pela defesa, esta operação nasceu e cresceu nas sombras da criptografia de um grupo de WhatsApp. Isso reflete uma mudança perigosa na cultura policial do estado.


Trecho das conversas do grupo de WhatsApp | Fonte: TV Record
Trecho das conversas do grupo de WhatsApp | Fonte: TV Record

É fundamental entender a gravidade e as implicações históricas disso. Em um Estado Democrático de Direito, a polícia detém o monopólio da força e da investigação, mas só pode invadir a privacidade de um cidadão sob duas condições: a existência de indícios de crime e uma autorização judicial robusta e fundamentada. Quando agentes do Estado decidem, por conta própria ou, pior, por ordem superior informal, instalar rastreadores e usar softwares de reconhecimento facial contra adversários políticos da governadora Raquel Lyra, rompe-se a barreira sagrada entre a segurança pública e a milícia política. O que se desenha não é combate à corrupção ou zelo pela coisa pública, mas sim lawfare em sua forma mais pura e bruta: o uso das leis e dos aparatos legais para deslegitimar e asfixiar um inimigo político.



Estamos diante da privatização da soberania. A inteligência policial, custeada pelos impostos de todos os pernambucanos, deixa de servir à sociedade para servir a um grupo político que se vê ameaçado pelas urnas. É a atualização do velho coronelismo, onde o jagunço foi substituído pelo analista de dados e a tocaia na estrada de terra deu lugar ao monitoramento via satélite.


O MODUS OPERANDI: Rastreadores e Big Brother


A metodologia aplicada na "Nova Missão" revela um aparato tecnológico sofisticado sendo usado para fins mesquinhos e partidários. A engrenagem funcionou, segundo o que foi revelado pela imprensa e por fontes internas, combinando alta tecnologia de vigilância com a velha tática de perseguição física.


Mesmo tipo de rastreador usado na vigilância ilegal (similar as AirTags da Apple)
Mesmo tipo de rastreador usado na vigilância ilegal (similar as AirTags da Apple) | Fonte: TV Record

O Rastreador no Carro da Família


Delegado Isaias Gonçalves - Diretor de Inteligência da Polícia Civil de PE apontado como comprador do rastreador usado na vigilância
Delegado Isaias Gonçalves - Diretor de Inteligência da Polícia Civil de PE apontado como comprador do rastreador usado na vigilância | Fonte: TV Record

O ponto central e mais tangível da denúncia envolve a instalação clandestina de um rastreador veicular no carro de Eduardo Monteiro. Eduardo não é político, mas é irmão de Gustavo Monteiro, secretário de Articulação Política do Recife e aliado de primeira hora de João Campos. Sem ordem judicial, esse dispositivo transformou o veículo da família em um farol para os arapongas, permitindo a construção de um "padrão de vida" das vítimas.


Agentes puderam acompanhar, em tempo real e por semanas a fio, todos os deslocamentos do alvo. Isso inclui visitas a residências de lideranças comunitárias, idas a reuniões políticas sigilosas em escritórios não oficiais e até compromissos estritamente familiares, como buscar filhos na escola ou ir ao médico. Cada parada no mapa servia para desenhar a rede de contatos do secretário, antecipando alianças e expondo vulnerabilidades pessoais que poderiam ser usadas em dossiês futuros. A violação aqui transcende a política; ela atinge a esfera mais íntima da dignidade humana, gerando um terror psicológico na família monitorada.



O Olho Digital e o Reconhecimento Facial


Mais assustador ainda, do ponto de vista das liberdades civis, é o uso relatado de softwares de reconhecimento facial, como o sistema associado ao banco de dados da Clearview AI ou similares. Essa ferramenta, restrita em muitos países democráticos e banida em várias cidades americanas por seu potencial invasivo e distópico, teria sido usada para localizar alvos em shoppings, restaurantes e espaços públicos do Recife.


Fonte interna da Polícia Civil confirma o uso dos rastreadores e do software de reconhecimento facial de uso exclusivo das forças de segurança o qual o Gov. Raquel Lyra adquiriu 8 licenças em 2025 | Fonte: TV Record

A tecnologia, que deveria servir para capturar homicidas foragidos ou terroristas em meio a multidões, foi aparentemente desviada para saber onde um secretário municipal tomava café ou com quem ele conversava em uma praça de alimentação. O uso dessa ferramenta sem controle judicial cria um "Panóptico" digital em Pernambuco: qualquer cidadão que cruze o caminho de um opositor do governo pode ter seu rosto escaneado, identificado e catalogado em um banco de dados paralelo, sem jamais saber que foi vigiado. É o fim do anonimato em praça pública por decreto informal do Executivo.


O grupo de WhatsApp como QG


A burocracia estatal, com seus formulários, carimbos e protocolos de segurança, foi substituída pela agilidade e informalidade de um grupo de mensagens instantâneas. Batizado sugestivamente de "Nova Missão", o chat servia para a troca frenética de fotos de placas, prints de localização, mapas de calor e atualizações de vigilância minuto a minuto.



A linguagem informal observada nos prints vazados, com termos operacionais como "alvo", "posição", "na cola" e "positivo", denota uma operação militarizada voltada para civis. O grupo operava totalmente à margem dos sistemas oficiais da Secretaria de Defesa Social (SDS), como o SEI ou os sistemas de inquérito eletrônico. Isso é estratégico: ao manter a operação no WhatsApp, os envolvidos evitam que os dados fiquem registrados nos servidores do governo, blindando-se de pedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) ou de auditorias da Corregedoria. É a clandestinidade operando dentro da oficialidade.


OS ALVOS E OS OPERADORES


A lista de monitorados, confirmada até agora, foca cirurgicamente na estrutura política que ameaça a reeleição e a hegemonia da governadora Raquel Lyra. Gustavo Monteiro não é um alvo aleatório escolhido ao acaso. Como Secretário de Articulação, ele é a ponte vital entre a gestão do Recife, a Câmara Municipal e a base política nos bairros. Monitorá-lo significa antecipar os movimentos de João Campos, saber quem está aderindo ao projeto do PSB e quem está insatisfeito. É espionagem industrial aplicada à política.


Delegado Wagner Domingues da Diretoria de Inteligência (Dintel), supostamente envolvido na operação ilegal | Fonte: Reprodução/Youtube
Delegado Wagner Domingues da Diretoria de Inteligência (Dintel), supostamente envolvido na operação ilegal | Fonte: Reprodução/Youtube

Do lado de quem opera, os nomes que surgem nas denúncias ocupam postos estratégicos na inteligência da Polícia Civil de Pernambuco. Cita-se, por exemplo, o delegado Wagner Domingues e a estrutura da Diretoria de Inteligência (Dintel). A gravidade reside no fato de que servidores públicos de carreira, pagos pelo contribuinte e treinados pelo Estado, teriam sido desviados de suas funções constitucionais para atender a uma demanda que cheira a encomenda política. Vale ressaltar que, até o momento, não há condenações judiciais e todos têm direito à defesa, mas a mera existência dessas evidências materiais já deveria ser suficiente para derrubar cúpulas inteiras e motivar uma intervenção administrativa rigorosa em qualquer democracia séria. O silêncio ou a complacência da chefia de polícia diante disso soa como confissão de cumplicidade.


A VERSÃO OFICIAL VS. A REALIDADE LEGAL


A defesa do governo de Pernambuco, via notas lacônicas da Secretaria de Defesa Social (SDS), tentou enquadrar o escândalo como uma simples "apuração preliminar" nascida de uma denúncia anônima sobre suposto recebimento de propina ou corrupção. Essa narrativa, contudo, não se sustenta diante de uma análise jurídica básica e serve mais como cortina de fumaça do que como explicação plausível.



  1. Denúncia anônima não é cheque em branco: A jurisprudência dos tribunais superiores (STF e STJ) é unânime e cristalina. Uma denúncia apócrifa pode, no máximo, iniciar uma verificação de procedência (VPI) simples, como checagem de banco de dados. Ela jamais autoriza, por si só, medidas invasivas que restrinjam direitos fundamentais, como a instalação de rastreadores, interceptação telefônica ou quebra de sigilo, sem prévia e fundamentada autorização judicial.


  2. O Inquérito Fantasma e a Árvore Envenenada: A própria SDS admitiu, após forte pressão da imprensa, que não havia inquérito formal aberto no momento da operação. Se não há inquérito, não há controle do Ministério Público, não há juiz natural e não há legalidade. Em termos jurídicos, aplica-se a teoria dos "frutos da árvore envenenada": qualquer prova obtida dessa forma é ilícita e nula. Em termos políticos, é a confissão de que a polícia agiu como jagunço digital, ignorando o Código de Processo Penal para atender a um cronograma eleitoral.


  3. Desvio de Finalidade: Mesmo que houvesse suspeita de crime, a competência para investigar corrupção municipal, quando não há verba federal, seria do DRACCO (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado), e não de um grupo ad hoc de inteligência operando via WhatsApp. A escolha do método e dos agentes reforça a tese de perseguição.


A "Nova Missão" não é apenas um caso de polícia ou um deslize administrativo. É um teste de estresse máximo para as instituições democráticas de Pernambuco. Se ficar comprovado que a estrutura de inteligência do governo Raquel Lyra serve para vigiar opositores, intimidar famílias e monitorar a rotina de rivais em vez de proteger a sociedade da violência, estaremos diante de uma captura total do Estado por interesses privados.


O precedente que se abre é aterrorizante. Hoje é o secretário do Recife; amanhã pode ser um deputado, um jornalista investigativo, um líder sindical ou um juiz. A pergunta que fica no ar, e que assombra o Palácio do Campo das Princesas, é: quem mais está sendo monitorado neste exato momento e cujos nomes ainda não vazaram nos prints de WhatsApp? A caixa de Pandora foi aberta, e o que sai dela tem o potencial de redefinir o futuro político do estado.


Acompanhe a série "Sob Escuta – Pernambuco em Disputa"


Este texto é a segunda parte da série investigativa exclusiva de O estopim Política sobre a erosão democrática em Pernambuco. Nas próximas reportagens, vamos dissecar a "Milícia Digital" que opera no Palácio, a pressão interna sobre os delegados honestos que se recusam a cumprir ordens ilegais e os contratos bilionários de publicidade que financiam essa guerra de narrativas.


Para não perder nenhum detalhe dessa trama que envolve poder, dinheiro e vigilância, salve oestopim.com nos seus favoritos e busque por "governo de Pernambuco", "Raquel Lyra" e "espionagem política" nos agregadores de notícias. A verdade é a única vacina eficaz contra o autoritarismo, e nós continuaremos a aplicá-la, doa a quem doer.

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