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Por Raul Silva para O estopim | 2 de abril de 2026



Homem de verde e bermuda preta algemado, escoltado por policial ao lado de carro da polícia em uma rua. Ambiente urbano, clima tenso.
Homem sendo detido durante a Operação Átomo 82. | Foto: PCPE

A Polícia Civil de Pernambuco prendeu suspeitos e aprofundou a investigação sobre um esquema de roubo de cargas de chumbo e adulteração de veículos que operava em rotas estratégicas do estado. A ofensiva, batizada de Operação Átomo 82, foi deflagrada em 31 de março de 2026 e teve detalhes apresentados no dia seguinte, após o cumprimento de três mandados de prisão e 17 mandados de busca e apreensão em Cabo de Santo Agostinho, Jaboatão dos Guararapes, Escada e Belo Jardim. Segundo a corporação, o grupo atuava de forma armada, rendia motoristas, desviava a carga durante o trajeto e usava veículos adulterados para dificultar a identificação policial.


O que a investigação da Polícia Civil aponta


De acordo com a Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas, a apuração começou em 2025, depois que uma empresa de logística relatou três crimes com o mesmo padrão de execução. A partir daí, a polícia passou a reunir elementos que indicam a existência de uma organização com divisão de funções, apoio material e estrutura para interceptar caminhões que saíam do Porto de Suape transportando chumbo.


Segundo o delegado Mamedes Xavier, os caminhoneiros eram abordados durante o percurso, mantidos sob o domínio da quadrilha e liberados apenas depois da transferência da carga para outros veículos. A suspeita central é a de um esquema que não dependia apenas da força bruta na estrada, mas de planejamento prévio, conhecimento de rota, apoio logístico e articulação para escoar a mercadoria roubada.


A polícia também informou que há indícios de participação de empresários no esquema. Pelo menos dois são investigados por suposto fornecimento de veículos de grande porte, apoio financeiro e estrutura para a prática dos crimes. Os nomes não foram divulgados oficialmente, e por isso ainda não há posicionamento público das defesas.


Veículos adulterados entram no centro da apuração


Um dos pontos mais sensíveis do caso é a adulteração de veículos usada para dar cobertura ao desvio das cargas e à circulação da quadrilha. Esse tipo de recurso costuma cumprir mais de uma função em operações criminosas. Ele ajuda a mascarar a origem dos automóveis, dificulta o rastreamento e reduz o tempo de resposta das forças de segurança.


Durante as buscas, os investigadores apreenderam materiais que agora passarão por perícia. Entre os itens recolhidos, segundo a polícia, estão armamentos e equipamentos eletrônicos usados para bloquear sinais de rastreadores. Em operações de roubo de carga, esse detalhe é decisivo. Sem monitoramento em tempo real, a chance de localização rápida do caminhão ou da mercadoria cai, e o grupo ganha tempo para ocultar a carga, dispersar os envolvidos e apagar vestígios.


A hipótese de participação de funcionários da empresa vítima ainda não foi descartada, mas a investigação não apresentou, até agora, confirmação pública sobre esse elo. O foco atual recai sobre a estrutura externa que teria permitido a repetição dos crimes.


Por que o caso pesa para além da página policial


O alvo do grupo não era uma carga qualquer. O chumbo é um insumo industrial, e o ataque recorrente a esse tipo de mercadoria atinge diretamente a cadeia logística, encarece operações e pressiona custos que podem se espalhar por diferentes etapas do transporte e da produção.


O caso também atinge um ponto estratégico do estado. Suape encerrou 2025 como o sexto maior porto público do Brasil, com 24,25 milhões de toneladas movimentadas, liderança nacional em granéis líquidos e posição consolidada como hub logístico do Nordeste. A dimensão do porto ajuda a entender por que corredores ligados ao complexo exigem monitoramento permanente. Quando uma organização criminosa consegue operar no entorno de uma infraestrutura desse porte, o problema deixa de ser episódico e passa a interessar à economia, ao setor de seguros, ao transporte rodoviário e à política de segurança pública.


A operação ocorre num momento em que o debate sobre segurança logística voltou a ganhar força no país. Levantamentos divulgados em março de 2026 apontam que o Brasil registrou 8.570 ocorrências de roubo de carga em 2025, uma queda em relação ao ano anterior, mas ainda com prejuízo direto estimado em R$ 900 milhões. O problema segue economicamente pesado mesmo com a retração estatística.


No recorte regional, o dado é ainda mais sensível para Pernambuco. O estado aparece entre os mais atingidos do país e a BR-101 concentra parte relevante das perdas registradas no Nordeste. Isso ajuda a explicar por que a repressão a grupos especializados precisa combinar investigação qualificada, inteligência, ação sobre receptadores e maior proteção dos corredores logísticos.


Há, portanto, um contraste importante. Pernambuco fechou 2025 com o menor índice geral de roubos em 15 anos, segundo a Secretaria de Defesa Social. Ainda assim, crimes com maior grau de organização, capacidade financeira e impacto econômico continuam a exigir respostas específicas. O caso da Átomo 82 se encaixa exatamente nesse ponto. Menos roubos em termos gerais não significam, necessariamente, menor sofisticação das quadrilhas que permanecem ativas.


O que vem pela frente


O material apreendido será periciado e pode abrir novas frentes de investigação. A tendência é que a polícia avance agora sobre quatro eixos. O primeiro é a identificação de outros integrantes da organização. O segundo é o rastreamento do destino final da carga desviada. O terceiro envolve a apuração financeira, para saber quem financiava as ações e como o grupo sustentava sua logística. O quarto eixo é a checagem de eventual ramificação com receptação, adulteração de sinais identificadores e outras fraudes patrimoniais.


Mais do que anunciar prisões, a operação lança luz sobre uma engrenagem maior. O roubo de cargas não se resume ao momento da abordagem na rodovia. Ele depende de planejamento, de compradores, de veículos preparados para a ocultação do crime e, em muitos casos, de informação privilegiada. Quando esses elementos aparecem juntos, o que se vê é um crime patrimonial com traços claros de profissionalização.


A ofensiva da Polícia Civil expõe um tema que costuma receber menos atenção do que deveria. A segurança pública não se mede apenas pela redução de indicadores gerais, mas também pela capacidade do Estado de reagir a núcleos criminosos que atacam setores estratégicos da economia. Quando o crime alcança rotas ligadas a portos, indústrias e grandes operadores logísticos, o prejuízo vai além da carga roubada. Ele afeta confiança, contrato, prazo, seguro e investimento.


A Operação Átomo 82 ainda está em fase de desdobramento, mas já revela um ponto essencial para Pernambuco. O combate ao roubo de cargas precisa continuar olhando para as estradas, sem perder de vista a retaguarda financeira, empresarial e operacional que sustenta esse mercado ilegal.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação em segurança pública, política e temas de interesse público.


Após denúncias de uso político da Polícia Civil para monitorar a Prefeitura do Recife, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a entrada da Polícia Federal no caso. Em pronunciamento contundente, o prefeito João Campos afirma que servidores foram seguidos e carros oficiais rastreados.


Por Raul Silva | Recife, Pernambuco | 31 de janeiro de 2026


Raquel Lyra e João Campos lado a lado: eles devem ser adversários nas urnas em 2026 | Foto: Ricardo Stuckert/PR
Raquel Lyra e João Campos lado a lado: eles devem ser adversários nas urnas em 2026 | Foto: Ricardo Stuckert/PR

O cenário político de Pernambuco foi abalado por uma grave crise institucional que culminou, nesta semana, com a intervenção da instância máxima do judiciário brasileiro. O Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que a Polícia Federal (PF) assuma a investigação sobre a existência de uma suposta "polícia paralela" operando dentro da estrutura do Governo do Estado de Pernambuco.


O caso, que envolve acusações de espionagem ilegal, perseguição política e uso da máquina pública para fins eleitorais, gerou uma reação imediata do prefeito do Recife, João Campos (PSB). Em vídeo divulgado em suas redes sociais, o gestor municipal não poupou críticas à gestão estadual e detalhou o modus operandi do que chamou de atividade "clandestina e criminosa".


O começo de tudo: A Denúncia STF


A controvérsia teve início após reportagens veiculadas pela imprensa nacional revelarem indícios de que agentes da Polícia Civil de Pernambuco estariam sendo desviados de suas funções constitucionais para monitorar adversários políticos do atual governo estadual.


Segundo as denúncias, a inteligência policial estaria focada em passos da administração da Prefeitura do Recife, criando um sistema de vigilância sem qualquer respaldo jurídico. Não havia inquéritos abertos, boletins de ocorrência (B.O.) ou ordens judiciais que justificassem tais monitoramentos. A gravidade da situação — que sugere uma quebra da impessoalidade e legalidade administrativa — levou o STF a retirar a competência da investigação da esfera estadual, transferindo-a para a Polícia Federal para garantir isenção.


João Campos em Redes Sociais afirma que o STF ordenou a investigação do procedimento da Polícia Civil que culminou no escândalo sobre a possibilidade de espionagem por parte do gabinete da governadora Raquel Lyra | Fonte: Reprodução/Instagram

A reação de João Campos: "Inaceitável"


No vídeo anexado a esta reportagem, João Campos aparece com um semblante sério e indignado. Ele inicia sua fala confirmando a decisão da corte suprema e definindo o alvo da investigação com clareza:


"A polícia paralela montada pelo governo do estado de Pernambuco. O Supremo Tribunal Federal acabou de determinar uma investigação a ser conduzida pela Polícia Federal depois que a imprensa nacional divulgou o que estava acontecendo de forma clandestina e criminosa em Pernambuco."

Para o prefeito, a decisão do STF valida as suspeitas de que a estrutura de segurança pública do estado foi aparelhada. A ênfase dada por Campos recai sobre a ilegalidade procedimental. Em um Estado Democrático de Direito, qualquer investigação policial deve ser precedida de uma formalidade legal. No entanto, segundo o relato do gestor, o que ocorreu foi o oposto:


"Parte da polícia civil sendo utilizada para fins eleitorais e políticos. Sem nenhum ato formal, sem B.O., sem inquérito."

O Modus Operandi: perseguição e rastreamento


Um dos pontos mais alarmantes do pronunciamento de João Campos é a descrição detalhada das ações táticas realizadas contra sua equipe. O prefeito relata que o monitoramento não foi apenas digital ou burocrático, mas físico e ostensivo, lembrando práticas de regimes autoritários.


Ele descreve táticas de intimidação e espionagem direta contra o patrimônio e os servidores municipais:


"Carro oficial da prefeitura sendo rastreado, servidores sendo seguidos. Tudo de forma clandestina e criminosa. Isso é inaceitável."

Essa fala sugere que a suposta "polícia paralela" utilizou recursos de inteligência e tempo de serviço dos agentes para seguir fisicamente funcionários da prefeitura, configurando um desvio de finalidade grotesco, considerando os índices de violência que o estado enfrenta e que necessitam da atenção da polícia.


Confiança na Polícia Federal e nas Instituições


Apesar da gravidade das acusações contra o governo estadual, João Campos demonstrou confiança na correção dos rumos através da intervenção federal. A transferência do caso para a Polícia Federal é vista como a garantia de que a corporação local — que estaria contaminada ou sob ordens políticas, segundo a denúncia — não interfira na apuração dos fatos.


"A justiça brasileira está agindo. E eu tenho certeza que a Polícia Federal vai fazer um trabalho sério e correto pra que isso nunca mais se repita em Pernambuco e em todo o Brasil."

O contexto político e o "Recado" final


O caso ocorre em um momento de acirramento político, mas João Campos buscou, ao final de sua declaração, desvincular o escândalo da imagem do povo pernambucano. Ele enquadra a situação como uma anomalia criada por um grupo específico no poder, e não como um reflexo da cultura do estado.


Ao encerrar o vídeo, o prefeito adota um tom de defesa da honra do estado e de intolerância contra o abuso de poder:


"Porque o nosso estado é muito maior do que tudo isso. E o povo pernambucano não tolera uma perseguição e um ato criminoso como esse."

Próximos Passos


Com a determinação do STF, a Polícia Federal deverá instaurar inquérito imediato para apurar:


  1. A autoria das ordens: Quem dentro do governo do estado determinou o monitoramento?

  2. A materialidade: Provas de rastreamento, relatórios de inteligência não oficiais e depoimentos dos agentes envolvidos.

  3. O uso de recursos públicos: Se houve gasto de verba estadual para custear essas operações políticas.


O Governo do Estado de Pernambuco ainda não se pronunciou detalhadamente sobre a abertura da investigação federal, mas o caso já é tratado como um dos mais graves episódios recentes de uso da máquina pública para fins políticos no Nordeste.

Na segunda reportagem da série "Sob Escuta - Pernambuco em Disputa", mergulhamos nos detalhes técnicos, jurídicos e políticos da operação clandestina da Polícia Civil que usou rastreadores, reconhecimento facial e grupos de WhatsApp para monitorar opositores da governadora Raquel Lyra, inaugurando uma era de "Tecno-Coronelismo".


Por Heitor Lemos Especialista em Sociedade e Comportamento Político | 27 de janeiro de 2026


Audio cover
Tecno-coronelismo e espionagem política em PernambucoResumo em Áudio gerado por IA Gemini - Com supervisão do Jornalismo de O estopim

Polícia Civil durante operação oficial não ligada a denúncia | Foto ilustrativa
Polícia Civil durante operação oficial não ligada a denúncia | Foto ilustrativa

Enquanto Brasília ainda tenta digerir os escombros políticos e jurídicos da "Abin paralela", Pernambuco assiste ao nascimento de seu próprio monstro nos porões da segurança pública estadual. A chamada Operação "Nova Missão" não consta em nenhum diário oficial, não possui número de portaria, não gerou inquérito policial e desconhece completamente o controle externo do Ministério Público. Ela existiu, segundo um conjunto robusto de denúncias e provas materiais que vieram à tona, em um submundo digital onde delegados e agentes da Polícia Civil de Pernambuco teriam atuado não como servidores do Estado, mas como arapongas de um projeto de poder pessoal. O alvo dessa engrenagem não era o crime organizado que assola a Região Metropolitana ou as facções que dominam o tráfico no interior, mas sim o coração político da Prefeitura do Recife e a articulação de João Campos.


ANÁLISE DE CONTEXTO: O Fantasma da Polícia Paralela


A "Nova Missão" surge como um sintoma agudo e visível de um descontrole institucional que parece ter contaminado o governo de Pernambuco. Diferente de uma investigação formal, onde cada passo deixa um rastro auditável e passível de contestação pela defesa, esta operação nasceu e cresceu nas sombras da criptografia de um grupo de WhatsApp. Isso reflete uma mudança perigosa na cultura policial do estado.


Trecho das conversas do grupo de WhatsApp | Fonte: TV Record
Trecho das conversas do grupo de WhatsApp | Fonte: TV Record

É fundamental entender a gravidade e as implicações históricas disso. Em um Estado Democrático de Direito, a polícia detém o monopólio da força e da investigação, mas só pode invadir a privacidade de um cidadão sob duas condições: a existência de indícios de crime e uma autorização judicial robusta e fundamentada. Quando agentes do Estado decidem, por conta própria ou, pior, por ordem superior informal, instalar rastreadores e usar softwares de reconhecimento facial contra adversários políticos da governadora Raquel Lyra, rompe-se a barreira sagrada entre a segurança pública e a milícia política. O que se desenha não é combate à corrupção ou zelo pela coisa pública, mas sim lawfare em sua forma mais pura e bruta: o uso das leis e dos aparatos legais para deslegitimar e asfixiar um inimigo político.



Estamos diante da privatização da soberania. A inteligência policial, custeada pelos impostos de todos os pernambucanos, deixa de servir à sociedade para servir a um grupo político que se vê ameaçado pelas urnas. É a atualização do velho coronelismo, onde o jagunço foi substituído pelo analista de dados e a tocaia na estrada de terra deu lugar ao monitoramento via satélite.


O MODUS OPERANDI: Rastreadores e Big Brother


A metodologia aplicada na "Nova Missão" revela um aparato tecnológico sofisticado sendo usado para fins mesquinhos e partidários. A engrenagem funcionou, segundo o que foi revelado pela imprensa e por fontes internas, combinando alta tecnologia de vigilância com a velha tática de perseguição física.


Mesmo tipo de rastreador usado na vigilância ilegal (similar as AirTags da Apple)
Mesmo tipo de rastreador usado na vigilância ilegal (similar as AirTags da Apple) | Fonte: TV Record

O Rastreador no Carro da Família


Delegado Isaias Gonçalves - Diretor de Inteligência da Polícia Civil de PE apontado como comprador do rastreador usado na vigilância
Delegado Isaias Gonçalves - Diretor de Inteligência da Polícia Civil de PE apontado como comprador do rastreador usado na vigilância | Fonte: TV Record

O ponto central e mais tangível da denúncia envolve a instalação clandestina de um rastreador veicular no carro de Eduardo Monteiro. Eduardo não é político, mas é irmão de Gustavo Monteiro, secretário de Articulação Política do Recife e aliado de primeira hora de João Campos. Sem ordem judicial, esse dispositivo transformou o veículo da família em um farol para os arapongas, permitindo a construção de um "padrão de vida" das vítimas.


Agentes puderam acompanhar, em tempo real e por semanas a fio, todos os deslocamentos do alvo. Isso inclui visitas a residências de lideranças comunitárias, idas a reuniões políticas sigilosas em escritórios não oficiais e até compromissos estritamente familiares, como buscar filhos na escola ou ir ao médico. Cada parada no mapa servia para desenhar a rede de contatos do secretário, antecipando alianças e expondo vulnerabilidades pessoais que poderiam ser usadas em dossiês futuros. A violação aqui transcende a política; ela atinge a esfera mais íntima da dignidade humana, gerando um terror psicológico na família monitorada.



O Olho Digital e o Reconhecimento Facial


Mais assustador ainda, do ponto de vista das liberdades civis, é o uso relatado de softwares de reconhecimento facial, como o sistema associado ao banco de dados da Clearview AI ou similares. Essa ferramenta, restrita em muitos países democráticos e banida em várias cidades americanas por seu potencial invasivo e distópico, teria sido usada para localizar alvos em shoppings, restaurantes e espaços públicos do Recife.


Fonte interna da Polícia Civil confirma o uso dos rastreadores e do software de reconhecimento facial de uso exclusivo das forças de segurança o qual o Gov. Raquel Lyra adquiriu 8 licenças em 2025 | Fonte: TV Record

A tecnologia, que deveria servir para capturar homicidas foragidos ou terroristas em meio a multidões, foi aparentemente desviada para saber onde um secretário municipal tomava café ou com quem ele conversava em uma praça de alimentação. O uso dessa ferramenta sem controle judicial cria um "Panóptico" digital em Pernambuco: qualquer cidadão que cruze o caminho de um opositor do governo pode ter seu rosto escaneado, identificado e catalogado em um banco de dados paralelo, sem jamais saber que foi vigiado. É o fim do anonimato em praça pública por decreto informal do Executivo.


O grupo de WhatsApp como QG


A burocracia estatal, com seus formulários, carimbos e protocolos de segurança, foi substituída pela agilidade e informalidade de um grupo de mensagens instantâneas. Batizado sugestivamente de "Nova Missão", o chat servia para a troca frenética de fotos de placas, prints de localização, mapas de calor e atualizações de vigilância minuto a minuto.



A linguagem informal observada nos prints vazados, com termos operacionais como "alvo", "posição", "na cola" e "positivo", denota uma operação militarizada voltada para civis. O grupo operava totalmente à margem dos sistemas oficiais da Secretaria de Defesa Social (SDS), como o SEI ou os sistemas de inquérito eletrônico. Isso é estratégico: ao manter a operação no WhatsApp, os envolvidos evitam que os dados fiquem registrados nos servidores do governo, blindando-se de pedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) ou de auditorias da Corregedoria. É a clandestinidade operando dentro da oficialidade.


OS ALVOS E OS OPERADORES


A lista de monitorados, confirmada até agora, foca cirurgicamente na estrutura política que ameaça a reeleição e a hegemonia da governadora Raquel Lyra. Gustavo Monteiro não é um alvo aleatório escolhido ao acaso. Como Secretário de Articulação, ele é a ponte vital entre a gestão do Recife, a Câmara Municipal e a base política nos bairros. Monitorá-lo significa antecipar os movimentos de João Campos, saber quem está aderindo ao projeto do PSB e quem está insatisfeito. É espionagem industrial aplicada à política.


Delegado Wagner Domingues da Diretoria de Inteligência (Dintel), supostamente envolvido na operação ilegal | Fonte: Reprodução/Youtube
Delegado Wagner Domingues da Diretoria de Inteligência (Dintel), supostamente envolvido na operação ilegal | Fonte: Reprodução/Youtube

Do lado de quem opera, os nomes que surgem nas denúncias ocupam postos estratégicos na inteligência da Polícia Civil de Pernambuco. Cita-se, por exemplo, o delegado Wagner Domingues e a estrutura da Diretoria de Inteligência (Dintel). A gravidade reside no fato de que servidores públicos de carreira, pagos pelo contribuinte e treinados pelo Estado, teriam sido desviados de suas funções constitucionais para atender a uma demanda que cheira a encomenda política. Vale ressaltar que, até o momento, não há condenações judiciais e todos têm direito à defesa, mas a mera existência dessas evidências materiais já deveria ser suficiente para derrubar cúpulas inteiras e motivar uma intervenção administrativa rigorosa em qualquer democracia séria. O silêncio ou a complacência da chefia de polícia diante disso soa como confissão de cumplicidade.


A VERSÃO OFICIAL VS. A REALIDADE LEGAL


A defesa do governo de Pernambuco, via notas lacônicas da Secretaria de Defesa Social (SDS), tentou enquadrar o escândalo como uma simples "apuração preliminar" nascida de uma denúncia anônima sobre suposto recebimento de propina ou corrupção. Essa narrativa, contudo, não se sustenta diante de uma análise jurídica básica e serve mais como cortina de fumaça do que como explicação plausível.



  1. Denúncia anônima não é cheque em branco: A jurisprudência dos tribunais superiores (STF e STJ) é unânime e cristalina. Uma denúncia apócrifa pode, no máximo, iniciar uma verificação de procedência (VPI) simples, como checagem de banco de dados. Ela jamais autoriza, por si só, medidas invasivas que restrinjam direitos fundamentais, como a instalação de rastreadores, interceptação telefônica ou quebra de sigilo, sem prévia e fundamentada autorização judicial.


  2. O Inquérito Fantasma e a Árvore Envenenada: A própria SDS admitiu, após forte pressão da imprensa, que não havia inquérito formal aberto no momento da operação. Se não há inquérito, não há controle do Ministério Público, não há juiz natural e não há legalidade. Em termos jurídicos, aplica-se a teoria dos "frutos da árvore envenenada": qualquer prova obtida dessa forma é ilícita e nula. Em termos políticos, é a confissão de que a polícia agiu como jagunço digital, ignorando o Código de Processo Penal para atender a um cronograma eleitoral.


  3. Desvio de Finalidade: Mesmo que houvesse suspeita de crime, a competência para investigar corrupção municipal, quando não há verba federal, seria do DRACCO (Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado), e não de um grupo ad hoc de inteligência operando via WhatsApp. A escolha do método e dos agentes reforça a tese de perseguição.


A "Nova Missão" não é apenas um caso de polícia ou um deslize administrativo. É um teste de estresse máximo para as instituições democráticas de Pernambuco. Se ficar comprovado que a estrutura de inteligência do governo Raquel Lyra serve para vigiar opositores, intimidar famílias e monitorar a rotina de rivais em vez de proteger a sociedade da violência, estaremos diante de uma captura total do Estado por interesses privados.


O precedente que se abre é aterrorizante. Hoje é o secretário do Recife; amanhã pode ser um deputado, um jornalista investigativo, um líder sindical ou um juiz. A pergunta que fica no ar, e que assombra o Palácio do Campo das Princesas, é: quem mais está sendo monitorado neste exato momento e cujos nomes ainda não vazaram nos prints de WhatsApp? A caixa de Pandora foi aberta, e o que sai dela tem o potencial de redefinir o futuro político do estado.


Acompanhe a série "Sob Escuta – Pernambuco em Disputa"


Este texto é a segunda parte da série investigativa exclusiva de O estopim Política sobre a erosão democrática em Pernambuco. Nas próximas reportagens, vamos dissecar a "Milícia Digital" que opera no Palácio, a pressão interna sobre os delegados honestos que se recusam a cumprir ordens ilegais e os contratos bilionários de publicidade que financiam essa guerra de narrativas.


Para não perder nenhum detalhe dessa trama que envolve poder, dinheiro e vigilância, salve oestopim.com nos seus favoritos e busque por "governo de Pernambuco", "Raquel Lyra" e "espionagem política" nos agregadores de notícias. A verdade é a única vacina eficaz contra o autoritarismo, e nós continuaremos a aplicá-la, doa a quem doer.

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