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No novo episódio do podcast, jornalista, escritor e professor afirma que não é mais possível separar J. K. Rowling de sua obra diante de sua atuação pública e financeira contra direitos de pessoas trans


31 de março de 2026

Por Murilo Alencar



Três jovens com trajes de bruxos caminham por corredor de pedra. À direita, mulher de cabelos ruivos com joias azuis sorri.
Cena da série Harry Potter repleta de magia e amizade, com J.K. Rowling, a criadora do universo bruxo, ao lado. | Foto: Reprodução/Getty Images

O lançamento do trailer da nova série de Harry Potter recolocou a franquia no centro do debate cultural global. Mas, para além da euforia nostálgica e do apelo comercial de uma nova adaptação televisiva, o retorno do universo criado por J. K. Rowling também reabre um dilema que há anos atravessa leitores, espectadores e professores: até que ponto ainda é possível consumir essa obra como se sua autora estivesse ausente do processo, neutra no debate público ou dissociada dos efeitos políticos do próprio nome?


É essa a pergunta que estrutura o novo episódio do podcast Teoria Literária, apresentado por Raul Silva. Em tom incomum até para um crítico acostumado a defender a leitura como enfrentamento e não como interdição, o episódio assume uma posição nítida: o apresentador se declara contrário à nova série e defende o boicote ao projeto.


A decisão, segundo ele, não nasce de impulso ou de adesão automática ao vocabulário do cancelamento. Nasce, ao contrário, de uma combinação entre pesquisa, releitura e responsabilidade ética. O episódio foi motivado por questionamentos repetidos de alunos, por cobranças antigas de espectadores de O estopim e de ouvintes do Teoria Literária e, sobretudo, pela percepção de que o lançamento do trailer tornava inevitável uma resposta pública mais clara.


“Eu raramente diria a alguém para não ler uma obra”, afirma Raul no programa. “Mas aqui há uma exceção, porque não estamos lidando com uma autora morta, distante, absorvida apenas pela história da literatura. Estamos lidando com uma autora viva, poderosa, atuante e empenhada em transformar seu prestígio em instrumento de ataque a uma comunidade vulnerabilizada.”

A força da argumentação está justamente em escapar da simplificação. O episódio não reduz Harry Potter a propaganda explícita de preconceito, nem tenta apagar o impacto real que a saga teve na formação de uma geração de leitores. Ao contrário: reconhece seu peso editorial, seu poder de sedução narrativa e sua função de porta de entrada para a literatura longa. A ruptura, por isso mesmo, é apresentada como dolorosa. Não há satisfação em romper com um universo que mobilizou afeto, imaginação e pertencimento. Há, sim, a defesa de que a nostalgia não pode funcionar como salvo-conduto moral.


Assista ao episódio completo e entenda melhor a posição do nosso editor-chefe.

No centro do episódio está a crítica à atuação pública de J. K. Rowling em relação às pessoas trans. O programa relembra falas e postagens da autora amplamente repercutidas ao longo dos últimos anos, como o deboche à expressão “people who menstruate”, sua insistência no argumento de que “se sexo não é real” a experiência das mulheres seria apagada, e a estrutura mais ampla de seu discurso, centrada em uma definição biologizante de identidade e em suspeitas recorrentes sobre políticas de inclusão.


Para Raul Silva, o problema não se resume ao direito individual de ter opinião. O que está em jogo é o peso concreto de uma das autoras mais famosas do planeta empregando seu alcance para ampliar um ambiente de pânico moral em torno de pessoas trans. Em outras palavras: quando uma voz com esse alcance insiste em transformar uma minoria em objeto permanente de dúvida, fiscalização e disputa de legitimidade, o efeito não permanece no plano do comentário. Ele reverbera na escola, na linguagem pública, na legislação, nos serviços e no convívio social.


O episódio também enfatiza que a questão ultrapassa o nível simbólico. Rowling não apenas fala: ela financia. O programa lembra a repercussão de sua doação para a campanha da organização For Women Scotland e discute a criação do J.K. Rowling Women’s Fund, estrutura voltada a apoiar juridicamente ações em defesa do que a autora chama de “direitos baseados em sexo”. Para Raul, esse ponto altera decisivamente o debate sobre separação entre autora e obra. Se a autora continua vinculada à franquia, lucrando com ela e convertendo capital econômico e cultural em atuação político-jurídica, então o consumo da nova série deixa de ser um gesto inocente.


Mas o episódio não fica apenas no campo extraliterário. Uma de suas contribuições mais relevantes está na releitura crítica dos próprios livros de Harry Potter. O argumento é que, embora a saga condene a ideologia da pureza de sangue em sua superfície narrativa, ela preserva um mundo profundamente hierárquico, aristocrático e pouco interessado em transformação estrutural. A escravidão dos elfos domésticos, por exemplo, é encenada como injustiça, mas frequentemente tratada com comicidade ou neutralizada pela própria lógica do enredo, que apresenta personagens submetidos como se desejassem sua subordinação. Hermione, quando tenta problematizar esse regime, é muitas vezes enquadrada como excessiva, inconveniente ou deslocada.


Outro eixo explorado é o dos duendes e da economia mágica. O episódio trata esse tema com cautela, sem reduzir a leitura a uma acusação mecânica de intenção antissemita, mas reconhecendo que a associação entre duendes, banco, tesouro, segredo e suspeita histórica permite leituras críticas há muito levantadas por leitores e estudiosos. A questão, diz Raul, não precisa ser resolvida pela intenção declarada da autora para existir como problema de recepção. Ela existe no modo como certos imaginários se organizam e reaparecem.


ASSISTA AO EPISÓDIO COMPLETO E ENTENDA MELHOR A POSIÇÃO DO NOSSO EDITOR-CHEFE



Também entram em cena os padrões de linguagem ligados ao corpo. O podcast chama atenção para a recorrência de descrições em que gordura, feiura, descontrole físico e repulsa moral aparecem articulados. Lida hoje, fora do clima cultural dos anos 1990 e 2000 que naturalizava esse tipo de construção, essa linguagem revela um componente cruel que parte do público já não consegue ignorar.


A análise avança, então, para um ponto particularmente sensível: a continuidade desse imaginário em obras posteriores da autora. Ao discutir Sangue Revolto, da série Cormoran Strike, o episódio evita simplificações, mas afirma que o romance mobiliza uma imagem cultural historicamente tóxica — a da feminilidade como disfarce ameaçador, a do “homem vestido de mulher” como expediente de engano e terror. Ainda que nem toda leitura apressada sobre o livro seja tecnicamente precisa, Raul sustenta que o problema está no repertório simbólico acionado, sobretudo quando a autora já havia se colocado publicamente numa cruzada contra o reconhecimento trans.


É nesse ponto que o episódio articula crítica literária e história política. Ao discutir a perseguição de pessoas trans e dissidentes de gênero em projetos autoritários do século XX, especialmente sob regimes obcecados por pureza, normalização e vigilância do corpo, Raul Silva não afirma que J. K. Rowling seja literalmente o nazismo. O argumento é mais rigoroso: certas formas atuais de essencialismo biológico, policiamento identitário e construção de pânico moral ecoam lógicas historicamente associadas a projetos autoritários e nazifascistas. Trata-se menos de identidade total e mais de afinidade estrutural de linguagem: a minoria transformada em ameaça, a diferença convertida em perigo, a dissidência tratada como corrosão da ordem.


O efeito do episódio está em nomear uma conclusão que muitos ex-fãs evitam formular em voz alta: Harry Potter já não pode mais ser consumido por todos como abrigo imaginário sem fricção ética. Há leitores que seguirão tentando separar obra e autora. Há outros que decidirão permanecer com a memória afetiva, mas não com o consumo novo. E há quem, como Raul Silva, tenha chegado ao ponto de ruptura.


Ao final, o apresentador reafirma que não verá a série, não fará cobertura celebratória da adaptação e defenderá o boicote. A conclusão não aparece como slogan, mas como síntese de um percurso argumentativo.


“A fantasia me ensinou a proteger os vulneráveis”, diz ele. “É por isso mesmo que eu não posso fingir neutralidade aqui.”

Em tempos de franquias que exigem adesão automática e de nostalgias convertidas em blindagem moral, o episódio do Teoria Literária escolhe um caminho mais raro: o de lembrar que a crítica literária não serve apenas para admirar estruturas narrativas, mas também para perguntar quem fala, a serviço de que mundo, e com quais consequências.


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Murilo Alencar é editor e crítico literário, com atuação em literatura comparada e sociologia da cultura. No O estopim, escreve sobre o que a vida literária revela do país: seus mecanismos de consagração, suas ausências e suas disputas por voz.

Como “1984” e “A Revolução dos Bichos” foram apropriados pela nova direita para atacar a esquerda — e por que isso é uma distorção



Dizer que “estamos vivendo em 1984” se tornou uma das frases mais repetidas nas redes sociais e nos discursos públicos da nova direita, tanto no Brasil quanto em outros contextos ocidentais. Essa frase, que parece carregar um alerta legítimo, é frequentemente esvaziada de conteúdo e instrumentalizada de forma estratégica por discursos que, ironicamente, reproduzem as práticas que Orwell denunciava com veemência.


A obra de George Orwell, especialmente 1984 e A Revolução dos Bichos, foi ressignificada nas últimas décadas por vozes que buscam instrumentalizar sua crítica ao totalitarismo para sustentar narrativas antiprogressistas, anti-intelectuais e, muitas vezes, francamente antidemocráticas. Esse processo de apropriação simbólica, embora eficaz do ponto de vista retórico e midiático, constitui uma grave distorção — não apenas da obra de Orwell, mas de seu pensamento político, de sua trajetória pessoal e do contexto histórico em que produziu seus textos, especialmente no período pós-guerra. Para além do erro de leitura, estamos diante de uma operação ideológica que transforma um autor engajado em liberdade crítica num estandarte vazio e moldável ao sabor de interesses reacionários.


Orwell, nascido Eric Arthur Blair, foi um socialista democrático convicto. Sua filiação ao Partido Trabalhista Independente e sua atuação voluntária na Guerra Civil Espanhola ao lado do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), onde chegou a ser ferido em combate, não deixam margem para dúvidas quanto ao seu alinhamento político e sua coragem intelectual. Em seu célebre ensaio Por Que Escrevo, Orwell afirma categoricamente:


“Cada linha de trabalho sério que escrevi desde 1936 foi, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático.”

Essa frase, muitas vezes esquecida ou propositalmente omitida por seus detratores, é essencial para compreender a natureza de sua crítica. A crítica ao autoritarismo — seja ele de origem comunista, fascista ou capitalista — nunca foi, portanto, uma rejeição da esquerda em si, mas uma denúncia das formas como ideologias podem ser pervertidas quando se tornam dogmas e instrumentos de dominação. Não há espaço, em sua obra, para um niilismo político que iguale todas as formas de poder ou para um cinismo reacionário que instrumentalize sua denúncia como arma contra qualquer pensamento progressista.



A nova direita, no entanto, sobretudo em sua expressão digital e memética, descontextualizou essa crítica e a reconverteu em ataque direto à esquerda como um todo. Como apontam estudiosos como Alex Woloch (Universidade de Stanford), John Rodden (autor de A Política da Reputação Literária) e Dorian Lynskey (autor de O Ministério da Verdade), Orwell foi convertido em símbolo conservador por meio de um processo de simplificação extrema e recorte seletivo.


Elementos como o Grande Irmão, o duplipensar e o Ministério da Verdade passaram a ser empregados como metáforas vagas para tudo aquilo que incomoda a sensibilidade da direita contemporânea: políticas públicas inclusivas, regulação da mídia, ações afirmativas, universidades, imprensa investigativa e movimentos sociais. Essa instrumentalização retórica se baseia em slogans fáceis, que dispensam leitura aprofundada e promovem uma falsa equivalência entre vigilância estatal e qualquer tipo de política pública progressista. E ao fazer isso, apagam-se os contextos históricos específicos que alimentaram as obras de Orwell, criando uma leitura superficial, despolitizada e profundamente anacrônica.


O que se vê, portanto, não é um esforço honesto de interpretação, mas sim uma estratégia deliberada de distorção. Essa apropriação não acontece apenas no plano simbólico, mas se traduz em práticas discursivas concretas: influenciadores bolsonaristas no Brasil, militantes da direita alternativa nos Estados Unidos e colunistas de extrema-direita europeus invocam Orwell como “patrono” da resistência conservadora contra o que chamam de “totalitarismo cultural da esquerda”.


Em fóruns como 4chan, Reddit, Gab, X (antigo Twitter) e outros espaços digitais, memes com frases retiradas de 1984 ilustram supostos abusos do “globalismo”, da “ideologia de gênero” e do “marxismo cultural” — expressões que, por si só, já operam como categorias fantasmáticas de uma guerra cultural paranoica e infundada. Esses memes são muitas vezes acompanhados de ilustrações que transformam Orwell em uma figura quase mitológica da liberdade individual, ignorando deliberadamente suas posições socialistas e seu compromisso com a justiça social. Esse processo cria uma espécie de fetichização do autor, que passa a existir mais como imagem do que como pensamento, como símbolo vazio do que como autor complexo.



Mas há um problema central nessa leitura: Orwell nunca foi um libertário no sentido contemporâneo da palavra. Ele não defendia um Estado mínimo nem era contrário à ação estatal como promotora de igualdade e justiça social. Sua crítica à burocratização da vida e à manipulação ideológica visava salvaguardar o projeto democrático e igualitário da esquerda, não destruí-lo. A sua adesão ao socialismo democrático exigia a liberdade de imprensa, a transparência do discurso público e a autonomia da consciência individual — elementos que, aliás, são sistematicamente atacados pelos mesmos grupos que hoje se declaram “herdeiros” de Orwell. Sua crítica ao stalinismo jamais significou uma rejeição do socialismo; era, antes, um alerta sobre os riscos de sua degeneração autoritária. Orwell se opunha ao totalitarismo como forma de dominação baseada na mentira, na reescrita da história e na aniquilação da subjetividade humana — exatamente o que certos setores da nova direita têm promovido sob o manto de um anticomunismo reativo e dogmático.


A leitura orwelliana da nova direita também apaga outro aspecto crucial: a crítica à linguagem como ferramenta de poder. O conceito de “novilíngua” não se refere a mudanças linguísticas progressistas nem à busca por linguagem inclusiva, mas à destruição sistemática da complexidade vocabular para empobrecer o pensamento e domesticar a dissidência. Ao confundir propostas de justiça linguística com censura orwelliana, a nova direita inverte completamente o eixo da crítica de Orwell — um verdadeiro exemplo contemporâneo do duplipensar que ele tão agudamente denunciou.


É importante destacar, como argumenta o linguista David Crystal, que as tentativas de controlar a linguagem não são exclusividade de regimes progressistas, mas uma prática comum de qualquer governo autoritário que busca moldar a realidade pela imposição de palavras. O que Orwell denunciava era a imposição de um vocabulário mínimo, que apagava significados e limitava a imaginação — algo que se repete hoje em campanhas que tentam interditar termos como “racismo estrutural”, “feminicídio” ou “patriarcado”, acusando-os de serem expressões da “ideologia”.


É nesse ponto que a apropriação simbólica se torna uma forma de violência intelectual. Como afirmou a pesquisadora Helen Nissenbaum, especialista em ética da tecnologia e vigilância, a linguagem orwelliana foi esvaziada ao ponto de se tornar um “emblema vazio, útil a qualquer projeto ideológico que queira parecer subversivo”. O problema não está apenas em citar Orwell de forma superficial — está em reconfigurar seu legado para servir a um projeto político que ele combatia frontalmente. O uso distorcido de sua obra se converte em arma de guerra cultural, apagando sua complexidade crítica e transformando-o em instrumento de propaganda. A violência não está apenas na leitura errada, mas no fato de que ela substitui o pensamento crítico por slogans que reduzem, empobrecem e deseducam.



E o caso brasileiro merece atenção especial. Desde as manifestações de 2013 até o bolsonarismo militante nas redes sociais, 1984 passou a ser citado como justificativa para ataques ao sistema educacional, à imprensa e às instituições democráticas. Professores universitários foram acusados de “doutrinação ideológica” sob a alegação de que estariam implantando uma realidade “orwelliana”.


Não se trata de simples ignorância interpretativa. Trata-se de uma campanha sistemática de deslegitimação da crítica e da complexidade, substituídas por slogans fáceis, memes simplistas e analogias desonestas. A frase “quem controla o passado, controla o futuro” passou a ser utilizada para justificar revisionismos históricos, enquanto a denúncia do Ministério da Verdade se converteu em ferramenta para desacreditar agências de checagem e veículos jornalísticos tradicionais. Orwell é invocado para atacar quem denuncia notícias falsas — uma ironia que, se não fosse trágica, seria absurda.


Ao fim, o que se revela é que George Orwell foi vítima de um sequestro semântico. Seu nome e suas obras foram instrumentalizados não por afinidade ideológica, mas por sua força simbólica. Como lembra Raymond Williams, crítico marxista britânico, Orwell era uma das vozes mais honestas de sua geração exatamente por se recusar a aceitar dogmas — inclusive os do seu próprio campo. Sua coragem estava na crítica implacável e autônoma, não na adesão cega a qualquer ideologia. Descontextualizar Orwell é, portanto, apagar o seu maior ensinamento: que a linguagem precisa ser clara, que a verdade precisa ser defendida, e que a liberdade só existe onde há espaço para pensar criticamente — mesmo contra as conveniências do seu próprio lado.


Orwell não era um mascote da direita. Era um pensador livre. E resgatar seu legado exige mais do que citações: exige leitura, contexto, crítica e, sobretudo, responsabilidade — especialmente num mundo em que a manipulação do discurso é cada vez mais sofisticada e amplificada por algoritmos e bolhas informacionais. Defender Orwell, hoje, é recusar o uso estratégico de sua obra como fetiche ideológico. É, em última instância, fazer da leitura um ato de resistência e da crítica literária um gesto profundamente político — capaz de atravessar a superfície dos memes e desvelar as estruturas de poder que se escondem por trás da linguagem.

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