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Em Gravatá, delegados e delegadas discutem o Plano Nacional de Educação, os riscos da política de premiação docente, o avanço do conservadorismo nas escolas e a defesa da diversidade como parte do plano de lutas da educação pública em Pernambuco.



Por Raul Silva para O estopim | 28 de Maio de 2026


Painel no 12º Congresso do SINTEPE com quatro debatedores, dois aplaudindo, mesa vermelha e fundo com o texto do evento.
Primeira mesa do dia com os professores Flávio Brayner da UFPE e Pedro Silva do IPEA | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O segundo dia do 12° Congresso do Sintepe, realizado nesta quarta-feira (27), no Hotel Canárius, em Gravatá, no Agreste de Pernambuco, concentrou parte das discussões mais estratégicas da programação ao colocar no centro do debate o futuro da escola pública, a valorização dos trabalhadores em educação, a disputa em torno do Plano Nacional de Educação, a crítica aos sistemas de premiação docente, o enfrentamento ao conservadorismo nas escolas e a defesa dos direitos humanos, de gênero e diversidade.


Com o tema “Educação, democracia, soberania e justiça socioambiental”, o encontro reúne delegados, suplentes, observadores e convidados de diferentes regiões do Estado entre os dias 26 e 29 de maio. O congresso é a principal instância deliberativa do sindicato e tem como objetivo atualizar o plano de lutas da categoria a partir da conjuntura política, educacional e sindical.


A programação do segundo dia reforçou que o debate sobre educação pública em Pernambuco não se limita à pauta salarial, embora a remuneração siga como eixo incontornável da valorização profissional. As falas dos palestrantes e as intervenções da base apontaram para uma leitura mais ampla: defender a escola pública exige financiamento, carreira, condições de trabalho, liberdade pedagógica, gestão democrática, proteção contra violências políticas e reconhecimento da diversidade que compõe a comunidade escolar.


Mesa de debate no 12º Congresso do SINTPE, com cinco palestrantes em palco vermelho e fundo com lema sobre educação e democracia.
Mesa dedicada ao PNE com o professor Heleno Araújo e as professora Dalila Andrade e Iana Gomes | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A mesa dedicada ao Plano Nacional de Educação reuniu o professor Heleno Araújo, a professora Dalila Andrade, da Universidade Federal de Minas Gerais, e a professora Iana Gomes, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O debate partiu de uma constatação comum aos três eixos apresentados: o PNE não pode ser tratado como um documento distante da vida cotidiana das escolas.


Na discussão, o plano apareceu como instrumento de disputa sobre que projeto de educação o país pretende sustentar nos próximos anos. O PNE define metas sobre financiamento, acesso, permanência, qualidade, formação, carreira, gestão democrática e redução de desigualdades. Por isso, para o movimento sindical, sua execução depende de pressão social, acompanhamento permanente e capacidade de transformar metas legais em políticas públicas reais.


Heleno Araújo, dirigente histórico da educação e nome ligado à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação e à Internacional da Educação, situou o PNE dentro de uma agenda maior de democracia e soberania. A leitura apresentada no debate associa a defesa do plano à necessidade de participação popular, valorização dos profissionais e enfrentamento das desigualdades regionais e sociais que ainda atravessam a escola pública brasileira.


Essa abordagem conecta o tema nacional à realidade concreta da rede estadual de Pernambuco. Para os trabalhadores em educação, discutir PNE significa discutir piso, carreira, concurso público, infraestrutura escolar, formação continuada, saúde do trabalhador, gestão democrática e permanência estudantil. Não se trata apenas de acompanhar metas em relatórios oficiais, mas de verificar se elas chegam às salas de aula, às bibliotecas, aos laboratórios, às cozinhas, às quadras e às secretarias escolares.


Homem fala ao microfone em palco vermelho do 12º Congresso do SINTEPE, com laptop, telão e slides ao fundo.
Professor Heleno Araújo em sua fala sobre a LDB | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

Um dos pontos mais sensíveis do segundo dia foi a crítica aos sistemas de premiação docente. A discussão questionou políticas que substituem valorização permanente por bonificações pontuais, rankings, metas padronizadas e competição entre escolas ou profissionais.


A crítica não rejeita avaliação pública nem acompanhamento de resultados. O centro do argumento é outro: quando a política educacional reduz qualidade a desempenho em indicadores estreitos, a escola passa a responder mais à lógica da mensuração do que às necessidades reais dos estudantes. Esse modelo tende a desconsiderar diferenças territoriais, desigualdades socioeconômicas, condições de trabalho e a natureza coletiva do processo pedagógico.


Dalila Andrade contribuiu para esse debate ao tratar o trabalho docente como parte de uma estrutura que envolve carreira, formação, tempo de planejamento, saúde, estabilidade, remuneração e autonomia profissional. A valorização, nessa perspectiva, não pode aparecer como prêmio eventual concedido a quem atinge determinada meta. Ela precisa ser política de Estado, com continuidade, orçamento e reconhecimento do conjunto dos trabalhadores da educação.


A preocupação discutida no congresso é que políticas de premiação podem produzir efeitos contrários ao discurso oficial de melhoria. Ao estimular competição, elas enfraquecem a cooperação entre escolas. Ao premiar resultados finais sem enfrentar condições desiguais de partida, podem penalizar justamente unidades que atendem populações mais vulneráveis. Ao individualizar responsabilidades, podem esconder falhas estruturais do poder público.


Mulher fala ao microfone em palco vermelho no 12º Congresso do SINTEPE, com telão vermelho ao fundo.
Professora Iana Gomes em sua explanação dos dados sobre o avanço do conservadorismo nas escolas | Foto: Raul Silva/O estopim+

A professora Iana Gomes levou ao debate a reflexão sobre o avanço do conservadorismo nas escolas e suas conexões com políticas educacionais, currículo, liberdade de ensinar e direitos humanos. A discussão mostrou que a escola pública se tornou um dos espaços centrais da disputa política no país.


Nos últimos anos, campanhas contra discussões de gênero, diversidade, raça, desigualdade e direitos humanos buscaram constranger professores, limitar práticas pedagógicas e transformar conflitos sociais em perseguição a educadores. No congresso, esse tema apareceu como ameaça concreta à liberdade de cátedra, à gestão democrática e ao papel da escola como ambiente de formação cidadã.


A relação entre conservadorismo e premiação docente também foi colocada em perspectiva. Em ambos os casos, a escola é pressionada por forças externas que tentam reduzir sua complexidade. De um lado, indicadores e metas podem estreitar o sentido de qualidade. De outro, movimentos conservadores tentam impor silêncio sobre temas que atravessam a vida dos estudantes. A defesa feita no debate aponta para uma escola que ensina conteúdos, mas também forma sujeitos capazes de conviver com a diferença, reconhecer direitos e participar da democracia.


Mulher fala ao microfone com um braço erguido em palco vermelho, diante de painéis com texto como Clientelismo e Mérito.
Professora Denise Botelho (UFRPE) em sua fala sobre mulheres | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

A mesa dedicada ao debate de gênero ampliou a leitura do congresso sobre democracia. A presença de Denise Botelho (UFRPE), educadora e militante do movimento LGBTQIAPN+, reforçou que a defesa da educação pública passa também pelo enfrentamento à violência, à discriminação e à exclusão de estudantes e profissionais que fogem dos padrões historicamente impostos por estruturas conservadoras.


A discussão deslocou o tema da diversidade do campo simbólico para o campo concreto das políticas educacionais. Uma escola democrática precisa proteger estudantes LGBTQIAPN+, mulheres, pessoas trans, travestis, pessoas negras, indígenas, quilombolas, pessoas com deficiência e todos os grupos que sofrem violações dentro e fora do ambiente escolar.


Na prática, isso exige formação dos profissionais, protocolos contra violência, acolhimento, currículo comprometido com direitos humanos e atuação institucional contra o assédio moral, a transfobia, a LGBTfobia, o racismo e a misoginia. O debate também expôs que neutralidade, quando usada para silenciar violações, não protege a escola. Ao contrário, pode naturalizar desigualdades.


A fala de Denise Botelho se integrou ao eixo central do congresso ao tratar diversidade como dimensão da democracia. A escola pública, nesse sentido, não é apenas lugar de matrícula. É espaço de permanência, reconhecimento, segurança e construção de cidadania.


Homem de terno fala ao microfone em palco vermelho no 12º Congresso do SINTEPE, com mesa de debatedores ao fundo.
Professor Flávio Brayner do IPEA | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

As diretoras Marília Cibelli e Katiane Cavalcanti aparecem nos registros públicos do segundo dia como parte da condução política dos debates. A presença delas reforça a função do congresso como espaço de mediação entre análise conjuntural, formulação sindical e experiência concreta da categoria nas escolas.


Esse ponto é decisivo. Em um congresso sindical, a palestra não encerra a discussão. Ela organiza problemas, apresenta diagnósticos e provoca a base a transformar reflexão em encaminhamento. As intervenções dos delegados e delegadas são parte do processo que define resoluções, prioridades e formas de mobilização.


No segundo dia, as discussões indicaram que o plano de lutas do Sintepe deve dialogar com uma agenda ampla: defesa do PNE, valorização da carreira, combate à precarização, crítica às políticas de bônus, enfrentamento ao conservadorismo, proteção da liberdade pedagógica, defesa da diversidade e cobrança por melhores condições de funcionamento da rede estadual.


Mulher de blusa azul-escura, olhar sério, diante de fundo branco com bandeira desfocada.
Governadora Raquel Lyra, recentemente denunciada pelo Sintepe ao MPPE e ao TCE-PE por possíveis fraudes em pagamentos de reformas em escolas da rede pública de Pernambuco que nunca foram realizadas | Foto: Raul Silva/Agência O estopim+

O debate nacional ganha contornos específicos em Pernambuco. A rede estadual convive com desafios que envolvem infraestrutura, remuneração, carreira, gestão, contratos, saúde dos profissionais, permanência estudantil e desigualdades territoriais. Quando o congresso discute PNE, premiação docente e conservadorismo, não fala apenas de conceitos. Fala das condições reais de trabalho em escolas espalhadas pela Região Metropolitana do Recife, Zona da Mata, Agreste e Sertão.


A categoria chega ao congresso com uma pauta que exige respostas do poder público. A defesa da escola pública aparece ligada à fiscalização de investimentos, à execução de reformas, ao cumprimento de direitos, à garantia de condições materiais e ao reconhecimento dos trabalhadores em educação como sujeitos centrais da política educacional.


Nesse sentido, o segundo dia funcionou como uma espécie de ponte entre diagnóstico e ação. Os palestrantes trouxeram fundamentos políticos e acadêmicos. A base sindical trouxe a experiência do cotidiano. A síntese que emerge desse encontro é que a qualidade da educação pública não se constrói com slogans, nem com premiações isoladas, nem com censura pedagógica. Ela depende de financiamento, democracia e trabalho valorizado.


Cartaz vermelho do 12º Congresso do Sintepe, com fotos de pessoas e igrejas, e texto branco e amarelo.
12° Congresso do SINTEPE | Fonte: Sintepe

O 12º Congresso do Sintepe segue até sexta-feira, 29 de maio. Até lá, os participantes devem consolidar avaliações, propostas e encaminhamentos que orientarão a atuação do sindicato no próximo período.


O segundo dia deixou evidente que a disputa pela educação pública em Pernambuco passa por uma agenda que combina questões materiais e democráticas. Salário, carreira e condições de trabalho são inseparáveis de currículo, liberdade pedagógica, diversidade, participação social e justiça socioambiental.


Ao reunir professores, professoras, trabalhadores administrativos, dirigentes sindicais, pesquisadores e militantes sociais, o congresso reafirma que a escola pública é um dos principais territórios de disputa do país. A questão que atravessa as mesas e plenárias é direta: sem democracia na educação, não há democracia plena na sociedade.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do portal O estopim. Atua na cobertura de política, educação, direitos sociais e temas de interesse público, com foco em apuração, contexto e impacto para a vida coletiva.

Mobilização de 26 de março reúne estudantes e trabalhadores da educação, enquanto SINTEPE contesta o índice de 40% usado pelo governo para vender valorização da categoria; gestão destaca obras, nomeações e programas, mas segue cobrada por resultados concretos na carreira e no cotidiano escolar


Por Helena Valente para O estopim | 26 de março de 2026


Multidão de manifestantes em camisas vermelhas protestam segurando bandeiras e faixas por respeito e valorização. Ambiente externo.
Professores de Pernambuco cobram respeito e valorização de Raquel Lyra que, apesar das propagandas e estratégias narrativas, não entrega o que exibe nos anúncios do governo na TV | Foto: Sintepe Digital

A mobilização do Dia Nacional da Paralisação dos Estudantes, realizada nesta quinta-feira (26), recolocou a educação no centro da disputa política em Pernambuco. Em meio a atos em defesa da escola pública, gratuita e de qualidade, estudantes, professores e demais profissionais da rede estadual passaram a ecoar uma crítica que já vinha crescendo: a de que o governo Raquel Lyra construiu uma narrativa de valorização da educação mais robusta do que os efeitos concretos percebidos por quem vive a escola. O ponto mais sensível está no reajuste salarial da categoria e no desgaste provocado pela diferença entre o discurso oficial e os números apresentados pelo Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco, o SINTEPE.


Estudantes e profissionais da educação ocupam a mesma trincheira


O texto de apoio à paralisação estudantil enviado à reportagem sintetiza o tom da mobilização. A mensagem afirma que o dia 26 de março começou com estudantes nas ruas, nas escolas e nas praças de todo o país, levantando suas vozes em defesa da educação pública. O documento também registra o apoio de professores e demais profissionais da educação, que associam a luta estudantil à defesa de escolas com estrutura digna, valorização de quem ensina e de quem aprende, condições reais de ensino e respeito à escola pública.


O dado político mais relevante desse encontro é que ele amplia o alcance da insatisfação. Quando estudantes e trabalhadores da educação se reconhecem na mesma pauta, o debate deixa de ser apenas corporativo e passa a envolver a qualidade do serviço prestado à população. O desgaste, nesse caso, atinge diretamente o governo estadual, que há mais de três anos tenta se apresentar como protagonista de uma virada na educação pernambucana.


Raquel Lyra mente: a disputa pelos números do reajuste


O centro do conflito está na forma como o governo apresenta os ganhos salariais da categoria. Em material divulgado pelo SINTEPE, a presidenta da entidade, Ivete Caetano, afirma que o reajuste acumulado nos últimos quatro anos não foi de 40%, como sustentou o governo do Estado. Segundo o sindicato, o reajuste com repercussão efetiva na carreira, isto é, aquele que alcança todas e todos os profissionais da educação sem excluir segmentos, foi de apenas 16%.


Grupo de pessoas com camisetas vermelhas e bandeiras protestam animadamente ao ar livre. Fundo com cartaz "Alepe Mulher". Muita energia.
Reajuste além de obrigatório ao Governo de Raquel Lyra só foi conquistado graças a luta dos professores e após paralizações na Rede e agora a Governadora tenta vender a narrativa de que foi fruto da valorização que seu governo dá a categoria, o que, segundo eles, não é totalmente verdade e os números comprovam | Foto: Sintepe Digital

Ainda de acordo com a entidade, mesmo quando se considera o reajuste de 13,5% concedido em 2023, que não teria contemplado mais de 52 mil trabalhadoras e trabalhadores da educação, o acumulado chega a 31,7%, e não a 40%. A diferença não é apenas contábil. Ela revela uma divergência sobre o que pode ou não ser apresentado como valorização real.


Na prática, a crítica sindical é a de que o governo soma percentuais de naturezas diferentes, com impactos distintos sobre a folha e sobre a carreira, para construir um saldo político mais favorável. É esse tipo de operação que transforma um anúncio administrativo em peça de propaganda. Quando isso ocorre numa área tão sensível quanto a educação, o ruído deixa de ser apenas técnico e passa a afetar a confiança da categoria e da sociedade.


O que o governo mostra e o que ainda não resolve


Seria impreciso dizer que a gestão Raquel Lyra nada fez na área. As páginas públicas do Governo de Pernambuco e da Secretaria de Educação destacam investimentos em infraestrutura, construção de creches, entrega de ônibus escolares, distribuição de notebooks, realização de eventos literários, pagamento de bônus e nomeações de professores. O programa Juntos pela Educação também segue sendo apresentado como a principal vitrine da política educacional do governo.


Essas iniciativas existem e têm peso administrativo. O problema é outro. Elas não encerram, por si só, as cobranças sobre salário, carreira, condições de trabalho e coerência entre discurso e realidade. Uma gestão pode inaugurar quadras, abrir editais, entregar equipamentos e ampliar a rede de serviços. Ainda assim, permanecer vulnerável a críticas quando a base da educação considera que segue subvalorizada, excluída de parte dos reajustes ou obrigada a conviver com precarização.


É justamente aí que a crítica ao governo Raquel Lyra ganha consistência. O erro político da gestão não está apenas em enfrentar uma categoria organizada. Está em tentar converter toda ação administrativa em prova suficiente de valorização, mesmo quando o cotidiano da rede ainda produz contestação. Em vez de reduzir a tensão, essa estratégia pode aprofundá-la, porque aumenta a distância entre a comunicação oficial e a experiência concreta de quem está no chão da escola.



A Alepe vira novo campo de prova para o governo


Segundo o material do SINTEPE, o projeto de lei do reajuste da educação já está em tramitação na Assembleia Legislativa de Pernambuco e foi encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça. Isso desloca parte do conflito para o Legislativo, onde a disputa passa a ser também sobre narrativa pública, custo político e capacidade de articulação do Palácio do Campo das Princesas.


Nesse ambiente, o governo será pressionado a demonstrar com mais clareza o alcance real do reajuste que anuncia. Já a oposição e os movimentos ligados à educação tendem a explorar a divergência entre o percentual divulgado oficialmente e os números apresentados pela categoria. A questão central deixa de ser apenas qual índice cabe no orçamento. Passa a ser também qual versão dos fatos resiste melhor ao escrutínio público.


O problema de fundo é a confiança


A educação é uma área em que governos costumam buscar resultados de imagem com rapidez. Obras rendem fotografias. Entregas rendem agenda positiva. Programas com nomes fortes rendem marca política. Mas educação não se sustenta apenas com vitrine. Ela exige continuidade, financiamento, diálogo com a base e valorização profissional que faça sentido no contracheque, na progressão e no ambiente escolar.


Grupo de pessoas segurando placas de protesto em praça, com cartazes em vermelho e preto. Ambiente urbano ao fundo, emoções sérias.
As manifestações e atos públicos de hoje aconteceram em todo país e ganharam apoio e adesão em todo o estado de Pernambuco, incluindo Arcoverde | Foto: Michael Andrade/Agência O estopim+

O que a paralisação estudantil de 26 de março expõe, em Pernambuco, é que o governo Raquel Lyra ainda não conseguiu pacificar a percepção sobre sua política educacional. Ao contrário. A mobilização mostra que permanece aberta uma frente de desconfiança. Estudantes denunciam descaso, precarização e falta de compromisso com a escola pública. Trabalhadores da educação contestam números, cobram respeito à carreira e afirmam que o reajuste anunciado não contempla integralmente a categoria.


Quando esse conjunto de vozes passa a se sobrepor ao discurso oficial, o sinal para o governo é claro. Não basta investir e comunicar. É preciso convencer. E convencer, nesse caso, depende menos de marketing institucional e mais de transparência, negociação efetiva e reconhecimento material de quem sustenta a educação pública todos os dias.


O que está em jogo daqui para frente


A tramitação do reajuste na Alepe tende a ser apenas uma etapa de um conflito maior. O embate envolve remuneração, carreira, prioridade orçamentária e credibilidade política. Também envolve o direito da sociedade de saber se a valorização anunciada pelo governo corresponde, de fato, ao que chega aos profissionais da educação.


Se o Palácio insistir em tratar a contestação como mero ruído de oposição ou resistência sindical previsível, corre o risco de agravar o próprio desgaste. Porque, na educação, o problema raramente começa no ato público. O ato é só a parte visível de uma insatisfação acumulada. O estopim, quase sempre, já veio antes.


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