Diário de leitura #02 | Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves
- Raul Silva

- há 4 dias
- 16 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
Diário de leitura de Raul Silva
Um defeito de cor — capítulo 2
Leitura realizada entre quinta-feira, 09/04/2026, e domingo, 19/04/2026

Antes de registrar as entradas destes dias, preciso dizer uma coisa que não me abandonou em nenhum momento da leitura do capítulo 2: eu não entrei nele como quem simplesmente vira a página de uma narrativa. Entrei carregando o peso da origem dessa voz. Continuo lendo Kehinde sob o impacto daquele manuscrito sobrevivente, daquela história quase perdida, daquele texto que chega a nós depois de ter passado tão perto do descarte, da destruição, do esquecimento. Isso muda tudo. Mesmo quando o capítulo 2 se abre com a paisagem da Bahía, com a cidade aparecendo ao longe, com o fascínio infantil diante do desembarque, eu não consigo esquecer que essa beleza é contada por uma voz que quase não chegou até nós. E isso, para mim, já é uma chave importante de leitura: a história negra, sobretudo a história negra feminina, no Brasil, teve de sobreviver à violência dos fatos e à violência posterior do apagamento.
Quinta-feira, 09/04/2026
Comecei hoje o capítulo 2, e a primeira sensação foi de espanto estético. Depois do horror do porão e da travessia, a cidade surge diante de Kehinde como um colar de contas. Essa imagem me pegou imediatamente. É muito bela. É quase encantatória. A curva da cidade abraçando o mar, as casas brancas no alto, as construções coloridas, o verde que desce pelas encostas, o azul do mar. Fiquei muito impressionado com a escolha de Ana Maria Gonçalves de fazer a chegada ao Brasil passar primeiro pelo assombro visual, pelo encantamento. Não é uma chegada descrita de forma burocrática nem simplesmente aterrorizada. É uma chegada atravessada por um olhar infantil ainda capaz de deslumbramento.
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E talvez seja justamente isso que mais dói. Porque o capítulo começa me lembrando de uma coisa essencial: o sistema escravista não se instalou num mundo sem beleza. Ele se instalou num mundo bonito. Num litoral luminoso. Numa cidade viva. Numa língua sonora. Numa paisagem sedutora. E isso torna a violência ainda mais indecente. O mal não chega sempre em cenário de ruína. Às vezes ele se acomoda dentro da beleza, se beneficia dela, se protege nela.
A língua portuguesa, ou “a língua do Brasil”, como Kehinde a ouve, aparece como música. Eu parei muito nesse ponto. Para uma menina arrancada da própria terra, a língua do opressor não vem primeiro como ordem ou ameaça. Vem como melodia. Isso é de uma sofisticação literária espantosa. Porque o capítulo mostra como a dominação também captura os sentidos. Primeiro o ouvido se encanta. Depois o corpo é catalogado. Primeiro o mundo parece aberto. Depois ele se fecha como propriedade.
Passei bastante tempo pensando também na cena do porto. Kehinde vê muitos pretos, muitos tons de pele, muitos corpos diferentes, e por um instante tem a impressão de ver uma África inteira concentrada ali. Essa passagem me comoveu profundamente. Há um instante quase enganoso de comunidade. Quase uma miragem de reencontro. Mas eu, leitor, já sei que aquela multidão é também produto da maquinaria do tráfico. Ou seja: o que para ela parece acolhimento é, em grande parte, o resultado de um gigantesco sequestro transatlântico.
Hoje terminei a leitura do primeiro bloco do capítulo com esse pensamento martelando: o Brasil entra na consciência de Kehinde primeiro como fascínio. E isso é terrível, porque o fascínio vem acoplado à captura.
Sexta-feira, 10/04/2026
Retomei a leitura com mais calma e fui ficando cada vez mais perturbado com o porto. Ontem eu tinha me deixado levar pela beleza da imagem; hoje comecei a ver a engrenagem. Os homens negros carregando caixas, tonéis, mercadorias, os músculos em movimento, o canto coordenando o trabalho, a força transformada em espetáculo funcional da economia colonial. Kehinde vê aquilo com curiosidade e até com admiração, e eu entendo por quê. Ela é uma criança, e o texto respeita radicalmente o ponto de vista dela. Mas a mim, leitor adulto, aquilo me pareceu um dos retratos mais precisos do modo como a escravidão se naturaliza na paisagem.
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O canto dos carregadores é bonito. O movimento é bonito. A coreografia do trabalho parece bonita. Só que a beleza ali já foi apropriada pela engrenagem colonial. O corpo negro canta e carrega. O porto prospera. A cidade funciona. A mercadoria circula. E por trás disso está o que Cida Bento ajuda a nomear tão bem quando fala no pacto da branquitude: um sistema em que os privilégios não são apenas individuais, mas estruturais, cumulativos, protegidos entre si. O branco que lucra não precisa aparecer chicoteando o tempo inteiro. Basta que o mundo esteja organizado de tal forma que o esforço, a força, o canto e o corpo negro façam a riqueza circular enquanto a autoridade branca permanece naturalizada.
Fiquei pensando muito que o capítulo 2 é um laboratório da branquitude. Ela aparece no dono, no funcionário do armazém, no poder de compra, no direito de nomear, na possibilidade de circular à sombra de um pára-sol enquanto outros remam, carregam, obedecem, transportam. O privilégio branco não está só na posse direta da pessoa escravizada; está na própria atmosfera de legitimidade que envolve esse gesto.
O mais cruel é que Kehinde ainda não vê tudo isso dessa maneira. E é exatamente por isso que o capítulo me machuca tanto. Eu leio a cena em duas camadas: a do encanto dela e a da minha consciência histórica. Entre uma e outra há um abismo.
Sábado, 11/04/2026
Hoje avancei até a parte do armazém e da escolha. Precisei parar várias vezes. Há uma frase interior de Kehinde que me destruiu: a alegria por ter sido aceita, por ter sido escolhida, por não virar carneiro. É uma alegria racional dentro do universo dela. Depois de tudo que viveu, ser escolhida pode parecer uma forma de continuar existindo. Pode parecer uma pequena salvação. Pode parecer o adiamento de um destino ainda mais obscuro.
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Mas é justamente aí que o capítulo me esmaga. Porque a escravidão produziu uma situação histórica em que ser comprado podia parecer melhor do que permanecer no limbo da mercadoria encalhada. Isso é monstruoso. A ordem colonial era tão profundamente desumanizante que a seleção por um comprador podia surgir como alívio. A criança comemora o fato de ainda não ser descartada. Eu fechei o livro por alguns minutos depois disso.
Passei um bom tempo pensando no que isso diz sobre as nossas formas de poder ainda hoje. Quantas vezes os sistemas violentos se tornam tão totais que a vítima é empurrada a chamar de oportunidade aquilo que é apenas um modo menos brutal de submissão? Não é a mesma coisa, evidentemente, mas a lógica histórica me parece persistente: transformar violência em horizonte normal de vida e, depois, apresentar pequenos graus de suavização como privilégio, ascensão ou mérito.
Esse capítulo, lido pela chave de Cida Bento, mostra isso de maneira muito forte. O pacto da branquitude não opera apenas pela imposição; opera também pela fabricação de cenários em que os sujeitos negros são obrigados a desejar a versão menos cruel da opressão. Ser comprada, ser escolhida, ser levada para uma casa “melhor”, ser posta em tarefa “menos pesada”. Tudo isso são gradações internas da violência, não sua negação.
E eu sigo impressionado com a inteligência literária de Ana Maria Gonçalves: ela não faz Kehinde filosofar em termos que não seriam os dela. Quem faz essa leitura sou eu, esmagado pelo contraste entre a lógica infantil da sobrevivência e a lógica histórica da mercadoria humana.
Domingo, 12/04/2026
Hoje cheguei ao momento em que Kehinde precisa dizer o nome e o mundo branco responde que não existe nenhuma Kehinde. Existe aí uma das violências mais profundas do capítulo, e talvez uma das mais duradouras. O sequestro do nome. A recusa do nome africano. A exigência de um nome cristão. A regularização colonial da identidade. Luísa. Luísa Gama.
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Essa parte me atravessou de um modo muito íntimo. Porque o texto deixa claro que a mudança não é apenas administrativa. Não é apenas uma nova forma de chamá-la. É um ataque à continuidade de si. O nome dado pela mãe e pela avó, reconhecido pelos voduns, por Nana, por Xangô, por Oxum, pelos Ibêjis, e sobretudo ligado a Taiwo, é empurrado para a clandestinidade. O nome africano precisa sobreviver no sagrado e no secreto. Para os brancos, ela vira outra coisa. Para dentro, continua sendo Kehinde.
Eu reli esse trecho várias vezes. E quanto mais eu lia, mais ele me parecia um resumo brutal da história brasileira. Quantas identidades negras foram obrigadas a existir em duplicidade? Um nome para o arquivo do senhor, outro para o íntimo. Uma língua para obedecer, outra para rezar. Um rosto para sobreviver, outro para lembrar. A branquitude, aqui, aparece como poder de certificar a existência. Quem nomeia autoriza. Quem registra domina. Quem impõe o nome impõe também a moldura do mundo.
Fiquei muito mexido também pelo fato de que o sobrenome “Gama” entra aí como marca de posse, genealogia forçada, inscrição branca na carne negra. É um ponto delicadíssimo do romance, e não consegui ler sem pensar no modo como o Brasil inteiro foi construído por essas sobreposições violentas: nomes brancos, heranças brancas, arquivos brancos, legitimidades brancas, enquanto a memória negra ia sendo empurrada para a margem, para o terreiro, para a oralidade, para o segredo, para o “dentro”.
Hoje terminei a leitura com uma frase ressoando em mim: o corpo pode ser rebatizado, mas a alma resiste. Só que resistir não significa sair ileso. E é isso que me dói.
Segunda-feira, 13/04/2026
Hoje fiquei longamente na parte da travessia para a primeira casa, em Itaparica. É uma sequência lindíssima e profundamente violenta ao mesmo tempo. Kehinde olha a ilha e vê África de novo: a areia branca, as palmeiras, os morros, as florestas. A paisagem abre nela uma espécie de eco. Isso me comoveu muito, porque o capítulo mostra a imaginação tentando costurar uma terra nova com os restos da terra perdida. Como se a menina precisasse produzir semelhanças para não enlouquecer.
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Mas logo o texto mostra quem manda naquele cenário. O pára-sol aberto sobre o dono. Os pretos remando. O desembarque hierarquizado. A casa bela. O caminho bonito. Tudo isso sustentado pelo trabalho compulsório de corpos negros. É impossível não ver aí a anatomia do privilégio branco. O branco não apenas possui; ele é servido. Ele não apenas manda; ele é resguardado do sol. Ele não apenas usufrui; ele transforma o conforto em segunda natureza. E isso continua me impressionando na leitura do capítulo: a casa-grande aparece não como exceção monstruosa, mas como centro naturalizado do mundo colonial.
Fiquei pensando no quanto essa naturalização permanece entre nós. O pacto da branquitude descrito por Cida Bento não é só uma conivência ideológica abstrata. Ele é também uma pedagogia do espaço: quem ocupa o centro, quem está à sombra, quem carrega, quem rema, quem observa, quem é observado, quem tem nome, quem é renomeado, quem parece pertencer naturalmente ao conforto. O capítulo 2 faz essa pedagogia aparecer em estado quase puro.
Também me chamou a atenção o fascínio de Kehinde pelas mulheres bem vestidas e pela imagem de felicidade que elas passam. Essa imagem é importantíssima. Ela não deseja, num primeiro momento, o poder abstrato; deseja a forma visível da felicidade. Roupa, postura, presença, liberdade aparente. E o capítulo vai me mostrando, aos poucos, que no mundo colonial a felicidade branca é uma encenação sustentada por uma violência que o olhar infantil ainda não decodifica inteiramente.
Terça-feira, 14/04/2026
Hoje me detive na vida dentro da casa. E aqui o capítulo ganha uma outra temperatura, mais abafada, mais doméstica, mais venenosa. A figura da sinhá Ana Felipa me perturbou muito. Desde a perda do filho, ela não tira o luto, anda com o rosário na mão, castiga por nada, obriga todos a rezar, transforma a casa num ambiente de culpa, medo e devoção pervertida. Eu fiquei pensando o quanto esse capítulo é cruel ao mostrar que o sofrimento branco, no mundo escravista, não produz necessariamente empatia. Pode produzir mais autoritarismo. Mais necessidade de mando. Mais violência distribuída.
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Esse aspecto me parece central. Porque muitas leituras simplificadas da casa-grande às vezes constroem a sinhá apenas como vítima de um sistema patriarcal. E ela é também isso, em alguma medida. Mas o romance não a absolve. Ana Felipa sofre, sim, mas sofre ocupando uma posição de poder racial. Sua dor não a aproxima automaticamente dos corpos negros que a servem; ao contrário, ela transforma sua dor em instrumento de punição sobre eles.
Eu fiquei muito impressionado com a tábua no bolso, com as pancadas nas mãos, com as rezas obrigatórias, com a mesa posta inclusive para o marido ausente. É um universo de teatralidade mórbida. Tudo ali me parece ao mesmo tempo íntimo e político. A religião católica, nesse espaço, aparece menos como consolo e mais como disciplina. O rosário na mão da sinhá não a impede de ser cruel; em certo sentido, organiza a crueldade.
Pensei muito hoje na branquitude como autorização moral. A casa branca sofre, mas continua tendo licença para descarregar sua dor sobre corpos negros. Esse é um dos privilégios mais perversos do sistema: a possibilidade de viver a própria crise sem perder o direito de humilhar o outro. A dor branca continua amparada. A dor negra continua subordinada.
Quarta-feira, 15/04/2026
Hoje cheguei à entrada de Verenciana no capítulo, e foi impossível continuar indiferente. A forma como Kehinde a vê é muito forte: alta, bela, jovem, altiva, grávida, não desviando os olhos da sinhá. Verenciana entra na narrativa como presença. E justamente por isso sua destruição posterior se torna ainda mais brutal. O capítulo, com muita inteligência, não a reduz a um caso. Primeiro ele a faz existir. Faz o leitor vê-la.
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Também fiquei muito perturbado com o papel de Eufrásio nessa engrenagem. O texto mostra algo historicamente desconfortável, mas necessário: a violência escravista não era executada apenas por mãos brancas. Ela se distribuía, se delegava, se terceirizava, se capilarizava. Isso, no entanto, não diminui a responsabilidade estrutural da branquitude. Ao contrário. Mostra a sua eficácia. O sistema branco é tão poderoso que consegue organizar a violência de modo a fazê-la circular por múltiplos agentes, preservando no topo o benefício, o direito e a legitimidade dos senhores.
Verenciana está grávida do sinhô José Carlos. A notícia acende um inferno doméstico. A beleza dela, a juventude dela, a gravidez dela, tudo passa a ser visto como afronta pela sinhá. E eu não consegui deixar de pensar como o corpo da mulher negra escravizada vira aqui campo de batalha total: desejo do senhor, inveja da senhora, cobiça do capataz, punição da casa. Não há descanso possível. Ela é desejada, vigiada, usada, odiada, julgada, capturada. A maternidade, que poderia ser promessa de vida, aparece cercada de ameaça desde o início.
Hoje, sinceramente, li essas páginas com um nó na garganta. Porque não se trata apenas de escravidão como regime econômico. Trata-se de uma erotização do poder e de uma administração racial dos afetos. O amor branco, o casamento branco, o luto branco, o ciúme branco, tudo pode ser reorganizado às custas do corpo negro.
Quinta-feira, 16/04/2026
Hoje foi o dia mais duro da leitura até agora. Li a cena da violência contra Verenciana e precisei interromper várias vezes. A maneira como Ana Felipa circula em torno dela, insultando, sorrindo, perguntando se ela sente medo, é de uma crueldade quase insuportável. E o pior é que a crueldade não é histérica; ela é deliberada. Calculada. Cerimonial. A senhora reza antes. Ajoelha diante do oratório. Depois sai para o quintal e produz o terror. Isso me abalou profundamente.
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Eu sabia que o capítulo caminhava para algo terrível, mas não estava preparado para o grau da barbaridade. E talvez o que mais me devastou tenha sido a forma como Kehinde, ainda criança, assiste a isso. Mais uma vez o romance faz passar a violência pelo filtro de um olhar que ainda não dispõe de todas as categorias para compreendê-la. Isso multiplica o horror.
Fiquei pensando muito na mutilação dos olhos de Verenciana. É um gesto simbólico e material ao mesmo tempo. Não basta punir o corpo. É preciso atingir o olhar. Tirar a visão. Destruir a possibilidade de ver e de ser vista como sujeito inteiro. Os olhos, aqui, me parecem o centro do castigo porque Verenciana não tinha baixado os olhos diante da sinhá. Havia ali altivez. Havia reciprocidade de olhar. E a casa-grande não suporta reciprocidade. O mundo da branquitude escravista exige que o negro seja visto, mas não devolva plenamente o olhar. Quando devolve, quando sustenta, quando não se curva, a punição vem com fúria.
Hoje pensei muito na frase tantas vezes repetida de que a escravidão desumanizou tanto o senhor quanto o escravizado, mas me irritei com a comodidade moral dessa formulação. Porque, sim, há uma degradação ética do senhor. Só que o preço não foi simétrico. A degradação moral de Ana Felipa não equivale à mutilação física e existencial de Verenciana. A primeira segue amparada pelo poder da casa. A segunda perde quase tudo.
Sexta-feira, 17/04/2026
Passei o dia relendo as páginas posteriores à agressão, aquelas em que a casa negra se organiza em torno da tentativa de salvar Verenciana. E aí o capítulo me ofereceu uma camada nova, dolorosa e luminosa ao mesmo tempo. Depois da barbárie branca, vem o cuidado negro. Depois da mutilação, vem a rede. Esméria, Rosa Mina, Valério Moçambique, os orixás, os remédios, as ervas, os panos, a vigília, a oração. Isso me tocou demais.
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A presença de Valério Moçambique, com suas sementes, seus colares, seus cantos em iorubá, me parece uma das passagens mais importantes do capítulo. Porque ali o romance mostra que a vida negra escravizada não era só sofrimento passivo. Havia também repertórios próprios de cura, interpretação, comunidade e resistência. Mesmo sob violência extrema, a cosmologia africana continua oferecendo sentido. Não resolve tudo. Não desfaz o crime. Mas sustenta o mundo para que ele não desabe completamente.
Também me impactou a reação de Kehinde, rezando com seus orixás escondidos. Esse gesto me pareceu belíssimo. Ela ainda é criança, mas já intui que possui uma reserva interior que o mundo branco não controla totalmente. E eu voltei a pensar na questão do nome. Kehinde, os orixás, o segredo, o sagrado: tudo isso forma uma espécie de subterrâneo de si. O mundo colonial tenta nomear, classificar, batizar, domesticar. Mas há uma corrente mais profunda que escapa.
Hoje fiquei pensando em como o pacto da branquitude depende também da ocultação dessas redes negras de cuidado. A história oficial gosta de contar a casa-grande, o senhor, a produção, o açúcar, a igreja, o império. Mas quantas vidas só continuaram porque existia uma outra tecnologia social feita de rezas, ervas, mãos, colares, escuta, memória e solidariedade? Se o Brasil existe, existe também porque pessoas negras inventaram modos de reparar o irreparável enquanto o poder branco administrava a ferida.
Sábado, 18/04/2026
Hoje cheguei à cena dos olhos de Verenciana no pote de geleia. É uma das coisas mais monstruosas que já li na literatura brasileira. E o que me deixou quase sem ar foi perceber que o capítulo não a constrói como explosão gratuita, mas como culminação lógica daquele universo doméstico apodrecido. O horror entra na mesa do café da manhã. O grotesco entra na intimidade conjugal. A violência se torna iguaria, recado, chantagem, punição e reconciliação.
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Não consegui ler essa cena sem fechar o livro e ficar em silêncio. Há algo de profundamente revelador no fato de Ana Felipa usar justamente a geleia preferida do marido. Como se dissesse: a tua doçura é feita disto. O teu gosto é sustentado por isto. O teu conforto conjugal repousa sobre isto. E, de fato, logo depois o casal parece mais feliz do que nunca. Isso me gelou. Porque o capítulo mostra com uma clareza atroz que a família branca pode se recompor sobre a destruição de uma mulher negra. A paz conjugal branca é reconstruída ao preço da mutilação negra.
Se eu precisasse explicar a alguém, em uma única cena, o que entendo por pacto da branquitude, eu talvez escolhesse esta. Não porque haja ali uma reunião explícita de brancos combinando privilégios. Mas porque a lógica está toda presente: o corpo negro é o lugar onde a casa branca negocia suas tensões internas. A mulher branca pune. O homem branco se horroriza por um instante. Depois o sistema segue. Depois a cozinha limpa. Depois o casamento recompõe sua superfície. Depois ninguém comenta. O silêncio também faz parte do pacto.
Hoje senti vergonha histórica. Não uma vergonha vazia, performática, mas uma vergonha pesada diante da permanência disso tudo entre nós. Porque o capítulo mostra um mecanismo que não desapareceu completamente: a vida branca protegida pela naturalização do sofrimento negro. Muda a forma, muda a linguagem, muda a legalidade, mas algo dessa estrutura persiste. Quem sofre primeiro? Quem é visto como dano colateral? Quem continua sustentando o conforto dos outros? Quem pode transformar o horror alheio em detalhe doméstico?
Domingo, 19/04/2026
Terminei hoje a releitura do capítulo 2 para fechar este diário, e a sensação final é muito nítida: este é o capítulo da chegada ao Brasil, sim, mas é também o capítulo da aprendizagem do regime branco. No capítulo 1, o horror era a captura, o massacre, a travessia, o porão. No capítulo 2, o horror ganha forma social mais refinada. Ganha casa, mesa, nome, roupa, hierarquia, rotina, catequese, capataz, senhora, papéis, compra, beleza, paisagem, serviço. O capítulo 2 mostra a escravidão já instalada como mundo.
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E é por isso que ele me parece tão importante. Porque aqui o romance revela com precisão como a branquitude colonial não se resume ao ato bruto de possuir pessoas. Ela é um ecossistema. Ela é o dono à sombra do pára-sol. É a cidade bela sustentada por corpos negros. É o armazém que registra e rebatiza. É o sobrenome que apaga origem e impõe linhagem. É a casa-grande que se quer centro de ordem e civilização. É a sinhá que usa a religião para disciplinar. É o senhor que deseja a escravizada e continua senhor. É o casamento branco que se recompõe sobre uma atrocidade. É o silêncio em torno do crime depois que a cena termina.
Saio do capítulo 2 com a impressão de que Ana Maria Gonçalves faz uma das coisas mais difíceis na literatura: ela nos obriga a ver como a beleza e a barbárie podem coexistir no mesmo quadro. Salvador pode ser um colar de contas. A língua pode soar como música. A ilha pode lembrar África. A casa pode ser linda. E, ainda assim, tudo isso pode estar assentado sobre um alicerce de terror. Talvez o maior mérito do capítulo seja justamente este: ele me impede de romantizar qualquer traço da paisagem colonial sem sentir o gosto de sangue por trás.
Também termino esta leitura muito impressionado com a resistência interior de Kehinde. Ela é rebatizada, mas continua sendo Kehinde. Ela é lançada num mundo novo, mas continua se apresentando ao sagrado pelo nome verdadeiro. Isso me parece uma das linhas mais fortes do capítulo inteiro: a colonização tenta ocupar tudo, mas nunca ocupa tudo. Há restos. Há núcleos de permanência. Há segredo. Há fé. Há memória.
Ao fechar o capítulo 2, penso que o Brasil branco herdou os dividendos desse mundo: terra, nome, centralidade, arquivo, herança, legitimidade, propriedade, linguagem do mando, presunção de inocência histórica. E nós ainda vivemos entre os frutos tardios dessa acumulação. Ler este capítulo como Raul, leitor branco formado por uma sociedade que ainda distribui privilégios de forma racializada, é sentir o desconforto de quem reconhece que o passado não passou. O pacto da branquitude não é uma abstração teórica para mim aqui; é um mecanismo narrado em detalhe, em gesto, em objeto, em mesa posta, em sobrenome dado, em pára-sol aberto, em olhos arrancados.
Fecho estas anotações com a convicção de que o capítulo 2 de Um defeito de cor não apenas conta a chegada de Kehinde ao Brasil. Ele conta a instalação do Brasil dentro de Kehinde. E esse Brasil que entra nela — belo, musical, colorido, promissor à primeira vista — logo revela seu núcleo duro: um país construído para que alguns mandem, nomeiem e usufruam, enquanto outros sustentam tudo com o próprio corpo.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com atuação em política, poder local e fiscalização do setor público.
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