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Liquidação do Banco Pleno expõe rastro do caso Master e coloca R$ 4,9 bilhões na conta do FGC

Por Vitória Régis para O estopim Economia | 19 de fevereiro de 2026


Ontem (18), o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno e estendeu o regime à Pleno Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM). A justificativa oficial fala em deterioração de liquidez, descumprimento de normas e desobediência a determinações do regulador.


Liquidação do Banco Pleno | Foto: Reprodução/Divulgação
Liquidação do Banco Pleno | Foto: Reprodução/Divulgação

Na prática, é o ponto final de um banco pequeno no tamanho, mas grande no barulho. E o barulho não veio do nada: o Pleno nasceu como Voiter, passou pela órbita do Banco Master e foi comprado, em 2025, por um ex-sócio do controlador do Master. O resultado é um dominó que mistura crédito consignado, captação agressiva via CDB, investigação policial e uma conta socializada, via Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que ajuda a explicar por que a confiança no sistema financeiro é sempre cobrada do lado mais fraco.


O que significa liquidação extrajudicial, fora do juridiquês


Liquidação extrajudicial é quando o Banco Central tira a instituição do jogo: interrompe as atividades, afasta administradores, nomeia um liquidante e abre um processo para levantar ativos e dívidas. Os credores entram na fila para receber, na ordem definida pela regra. Para quem tem dinheiro parado em produtos cobertos pelo FGC, o reembolso depende do envio da lista de credores pelo liquidante ao fundo.


É diferente do Regime Especial de Administração Temporária (RAET), que é um modo de intervenção que mantém o banco funcionando sob comando indicado pelo regulador. Na liquidação, o banco fecha a porta de vez.



Quem era o Banco Pleno e como ele virou peça do quebra-cabeça


O Pleno tem uma genealogia típica do sistema financeiro brasileiro, onde banco troca de nome como quem troca de fachada.


  1. Lá atrás, a origem está no Banco Indusval, com foco em crédito corporativo e agronegócio.

  2. Em 2019, o banco adotou o nome Banco Voiter, tentando se reposicionar como mais leve e digital.

  3. No início de 2024, o Voiter foi incorporado ao conglomerado do Banco Master.

  4. Em julho de 2025, o Banco Central autorizou a transferência de controle para Augusto Ferreira Lima, ex-CEO e ex-sócio do Banco Master, que rebatizou o Voiter como Banco Pleno.


O ponto central é este: a separação societária não apagou a herança financeira e reputacional. O Pleno ficou altamente dependente de captação via depósitos a prazo, especialmente CDB, e carregou um passivo pesado para um banco que tentava ganhar musculatura num mercado já desconfiado.


O dinheiro que entrou caro e o crédito que não virou fôlego


Antes da liquidação, a engrenagem do Pleno tinha um coração frágil: ele dependia de captar dinheiro no varejo pagando mais que os rivais, para tentar construir uma carteira de crédito rentável.


Quando o mercado percebe que um banco está esticando demais a corda, a primeira reação é simples: o dinheiro some. Investidores tentam vender papéis, títulos passam a circular no mercado secundário com taxas muito acima do CDI, e a instituição entra no modo sobrevivência.


Esse é o retrato clássico de crise de liquidez: não é, necessariamente, falta total de patrimônio no papel, mas falta de caixa no tempo certo para pagar o que vence.


O elo com o Banco Master: pessoas, ativos e uma investigação no meio do caminho


O Banco Master virou sinônimo de crise a partir de novembro de 2025, quando a Operação Compliance Zero colocou o caso no centro do noticiário. As apurações apontaram suspeitas de gestão temerária e emissão de créditos e títulos falsos, com estimativas de fraudes bilionárias. No meio desse enredo, surge também o Banco de Brasília (BRB), que chegou a anunciar intenção de compra do Master em 2025 e depois virou alvo de questionamentos judiciais e investigativos.


O Pleno entra nessa história por três portas.


  • A primeira é a porta societária. O banco foi integrado ao grupo Master e, depois, vendido a um ex-sócio e ex-executivo relevante da casa.

  • A segunda é a porta operacional. Parte do “modelo” de crescimento, baseado em captação agressiva e venda de narrativas de oportunidade, se parece com práticas que ganharam lupa no caso Master.

  • A terceira é a porta do risco sistêmico. Quando um escândalo bancário estoura, o mercado não separa a tinta do carimbo. Tudo que teve contato vira suspeito. E, no mundo financeiro, suspeita vira taxa mais alta, crédito mais raro e corrida silenciosa para a saída.


A conta do FGC: quando o risco vira tarifa social


O Banco Pleno comunicou ter uma base estimada de 160 mil credores com depósitos elegíveis ao pagamento de garantia, somando R$ 4,9 bilhões.


O FGC cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ por instituição ou conglomerado, com teto total de R$ 1 milhão por pessoa em quatro anos, caso ocorram vários eventos de liquidação ou intervenção no período.


Essa proteção é importante para evitar pânico, mas tem um lado pouco dito: ela também funciona como anestesia para o risco de quem emite CDB a taxas sedutoras. Na prática, o sistema cria um incentivo perverso. Bancos médios e pequenos pagam mais para captar, atraem poupadores em busca de rendimento e transferem parte do dano para um fundo financiado pelo próprio sistema bancário, que repassa custo, cedo ou tarde, para o crédito e tarifas do país inteiro.


Agora some os episódios: segundo apurações divulgadas pela imprensa, as liquidações ligadas ao caso Master já projetam um custo total perto de R$ 51,8 bilhões ao FGC. Se esse número estiver correto, ele representa algo como dois quintos do montante que o fundo tinha em caixa no primeiro semestre, antes de virar caixa eletrônico de crise.


Consequências econômicas do caso


1) Crédito mais caro para quem já paga caro


Quando o risco de bancos médios vira manchete, há três reações previsíveis. Primeiro, investidores pedem taxas maiores para emprestar a esses bancos. Segundo, esses bancos repassam custo para o crédito que concedem. Terceiro, quem toma crédito na ponta, do comércio no interior aos trabalhadores no consignado, sente o aperto. Na prática, o spread bancário aumenta por medo, não por produtividade.


2) Concentração bancária e “seleção natural” guiada por reputação


Episódios assim aceleram um movimento antigo: dinheiro corre para instituições maiores e mais conhecidas, mesmo que elas paguem menos. Para pequenos e médios, sobra o dilema: pagar caro para captar ou encolher. O resultado é uma concentração ainda maior em poucos bancos, com menos concorrência real e mais poder para definir preços.


3) O Nordeste no centro do mapa


Augusto Ferreira Lima ganhou projeção no consignado, com ligação a operações que miram servidores públicos e benefícios, um tipo de crédito muito presente em estados do Nordeste, onde o funcionalismo e o benefício previdenciário têm peso grande na renda local.


O problema é que consignado, embora tenha desconto em folha, não é vacina contra má gestão. Quando a estratégia depende de captar sem parar, qualquer ruído vira terremoto. E o terremoto não fica na Faria Lima: chega na taxa do empréstimo, no limite do cartão, no orçamento de quem vive com salário contado.


4) Confiança e a economia real


A confiança é uma infraestrutura invisível. Quando um banco quebra, pequenos negócios adiam investimentos, famílias seguram consumo, empresas de crédito apertam análise. É a economia real pagando a conta de um modelo de captação que virou esporte.


O papel do Banco Central: regulador, bombeiro e juiz administrativo


O Banco Central tem três papéis simultâneos nesses casos.


  1. Supervisão e prevenção: fiscalizar, exigir capital, limitar riscos, barrar operações e, se necessário, determinar ajustes antes que a instituição vire um problema.

  2. Resolução: quando o estrago já está feito, escolher o mecanismo adequado, como intervenção, RAET ou liquidação, nomear interventor ou liquidante, garantir o processo ordenado e evitar contágio.

  3. Responsabilização: decretada a liquidação, entram medidas como indisponibilidade de bens de controladores e administradores e a abertura de apurações administrativas, com possibilidade de comunicações a outros órgãos.


O caso Pleno, pela proximidade com o caso Master, adiciona um quarto papel, não escrito em manual: o de sinalizador político do sistema. Ao liquidar uma instituição controlada por ex-sócio do Master, o Banco Central passa a mensagem de que o “domínio do carimbo” não vai blindar ninguém. Resta saber se essa mensagem vai virar regra ou só um capítulo de crise.


Linha do tempo do caso, com os marcos essenciais


  • 2019: Voiter assume o lugar do antigo Indusval.

  • Início de 2024: Voiter entra no conglomerado do Banco Master.

  • Março a maio de 2025: tentativa de reorganização e negociações em torno do Master ganham escrutínio jurídico.

  • Julho de 2025: Banco Central autoriza a transferência do controle do Voiter para Augusto Ferreira Lima. Nasce o Banco Pleno.

  • Novembro de 2025: Operação Compliance Zero e agravamento do caso Master, com regimes especiais atingindo instituições do grupo.

  • Janeiro de 2026: novas medidas de resolução atingem empresas ligadas ao caso.

  • 18 de fevereiro de 2026: Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Banco Pleno e da Pleno DTVM.


Como visualizar os dados, sem precisar de planilha


Gráfico 1 (barras): “Conta projetada do FGC no caso Master”. Uma barra para o Banco Master, outra para o Will Bank, outra para o Banco Pleno. A barra do Master domina o gráfico, e a soma ultrapassa a marca de R$ 50 bilhões.
Gráfico 1 (barras): “Conta projetada do FGC no caso Master”. Uma barra para o Banco Master, outra para o Will Bank, outra para o Banco Pleno. A barra do Master domina o gráfico, e a soma ultrapassa a marca de R$ 50 bilhões.

Gráfico 2 (pizza): “De onde vinha o passivo do Pleno”. A maior fatia é CDB. Uma fatia menor é letras financeiras. O restante se divide em outras obrigações.
Gráfico 2 (pizza): “De onde vinha o passivo do Pleno”. A maior fatia é CDB. Uma fatia menor é letras financeiras. O restante se divide em outras obrigações.

Gráfico 3 (linha): “Confiança do mercado, por proxy”. A linha sobe quando as taxas no secundário se aproximam do CDI, e dispara quando investidores começam a exigir prêmios muito maiores.
Gráfico 3 (linha): “Confiança do mercado, por proxy”. A linha sobe quando as taxas no secundário se aproximam do CDI, e dispara quando investidores começam a exigir prêmios muito maiores.

O que o credor precisa saber para não virar presa de golpe


  1. O FGC não cobra taxa para pagar garantia.

  2. Desconfie de links enviados por WhatsApp e de “intermediários” oferecendo agilizar reembolso.

  3. Acompanhe comunicados do liquidante e do FGC, e use aplicativo oficial quando disponível.

  4. Se você tem valores acima do teto do FGC, a parte excedente vira crédito na massa falida e entra no processo de liquidação.


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Vitória Régis

Vitória Régis é editora de Economia e Mercados de O estopim. Economista, passou por bancos de investimento e hoje trabalha para traduzir o economês e blindar o leitor das armadilhas do sistema financeiro, com atenção especial ao Nordeste.

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