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Notícia de fato contra Alfredo Gaspar aponta estupro de vulnerável e suspeita de compra de silêncio e leva crise da CPMI do INSS à PF

Por Raul Silva para O estopim | 29 de março de 2026



O deputado federal Alfredo Gaspar de Mendonça Neto (PL-AL), relator da CPMI do INSS, virou alvo de uma notícia de fato protocolada na Polícia Federal por Lindbergh Farias (PT-RJ) e Soraya Thronicke (Podemos-MS). A peça sustenta, em tese, a necessidade de apuração de um possível estupro de vulnerável contra uma menina de 13 anos, do qual teria resultado uma gravidez e o nascimento de uma criança, além de uma posterior tentativa de silenciamento por meio de intermediação e valores que, segundo o documento, somariam R$ 470 mil. Gaspar nega as acusações, diz que a história foi atribuída a ele de forma falsa, afirma que o caso mencionado envolve um primo e promete reação judicial e política.


Homem fala em microfone em reunião formal com cinco pessoas de terno ao redor de mesa com pilhas de papel e laptops. Fundo geométrico.
O deputado Alfredo Gaspar apresenta seu relatório em uma sessão da CMPI, enquanto o senador Carlos Viana e o deputado Paulo Pimenta acompanham atentamente. | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

O caso rompeu a última barreira entre a guerra política da comissão e a esfera criminal. O que começou como confronto verbal no plenário da CPMI terminou com um pedido formal de investigação à PF, exposição nacional de uma acusação gravíssima e disputa pública sobre paternidade, DNA, cronologia dos fatos e identidade dos envolvidos. O centro do problema, porém, é mais profundo: há uma denúncia formalizada que fala em possível violência sexual contra menor de 14 anos e em tentativa de impedir que os fatos chegassem às autoridades. Isso, por si só, exige apuração rigorosa, técnica e urgente.


O que diz a notícia de fato


A notícia de fato assinada por Lindbergh e Soraya foi apresentada em 27 de março com pedido de tramitação sob sigilo, preservação probatória e proteção integral para vítima, criança e testemunhas. Logo na abertura, a peça afirma tratar de fatos de “extrema gravidade” relacionados, em tese, a crime sexual contra vulnerável, com possível nascimento de criança e elementos de ocultação posterior.


O documento registra que chegaram aos parlamentares “informações graves, acompanhadas de registros documentais e conversas” que indicariam, em tese, a prática de estupro de vulnerável contra uma menina que tinha 13 anos na época. Em outro trecho, a peça afirma que da violência teria resultado uma gravidez, com posterior nascimento de uma criança, e que os autores receberam dados mínimos de identificação para conferência pela autoridade competente em autos apartados e sigilosos.


A notícia de fato vai além da acusação sexual. Ela sustenta que uma pessoa interposta teria atuado como intermediadora em tratativas destinadas a impedir a comunicação do caso às autoridades. Segundo a peça, essas tratativas fariam referência a R$ 70 mil já pagos e a novas negociações de R$ 400 mil, sempre com a finalidade de assegurar silêncio e garantir impunidade.


Os próprios autores do documento registram que não pretendem substituir a investigação estatal nem formular “juízo definitivo de culpabilidade”. Ainda assim, pedem à PF providências imediatas: preservação de mensagens, metadados, aparelhos, extratos financeiros, registros telemáticos, documentos de maternidade, certidão de nascimento da criança, além da oitiva reservada dos envolvidos e avaliação de inclusão em programa de proteção a vítimas e testemunhas.


Políticos em coletiva, cercados por microfones de diversas emissoras, no Senado Federal. Painel histórico ao fundo. Atmosfera séria.
Deputado Lindbergh Farias e senadora Soraya Thronicke falam à imprensa no Senado Federal, acusando Alfredo Gaspar de estupro. | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Da acusação política à exigência de investigação criminal contra Alfredo Gaspar


A explosão pública do caso ocorreu durante a 38ª reunião da CPMI do INSS, em 27 de março. O registro oficial das notas taquigráficas do Senado mostra o momento em que, em meio ao tumulto da sessão, Lindbergh Farias chama Alfredo Gaspar de “estuprador”, provocando reação imediata do relator, da presidência da comissão e de outros parlamentares.


A cena expôs duas camadas do episódio. A primeira foi a da disputa política mais rasteira, marcada por gritos, interrupções e acusações no calor do embate. A segunda, muito mais séria, foi a conversão dessa acusação em peça formal entregue à Polícia Federal horas depois. Quando uma imputação dessa natureza deixa o terreno retórico e ingressa no circuito institucional, o foco precisa sair do espetáculo e ir para a prova.


Também pesa o contexto em que tudo ocorreu. Alfredo Gaspar lia o relatório final da CPMI, um documento de mais de 4 mil páginas que acabou rejeitado pela maioria da comissão. A CPMI terminou sem relatório final aprovado, o que ampliou o ambiente de radicalização e transformou a sessão derradeira num campo de confronto total entre governistas e oposição. Ainda assim, o fato de o caso ter emergido em meio ao caos político não reduz a gravidade do que foi levado à PF. Pelo contrário. A mistura entre denúncia criminal gravíssima e disputa de poder amplia o risco de contaminação do debate público, desinformação e destruição de prova.


Homem de terno azul com expressão séria, sentado em frente a fundo geométrico cinza. Outro homem de terno azul ao fundo.
Deputado Alfredo Gaspar participa da CPMI do INSS no Congresso durante a sessão. | Foto: Reprodução

Gaspar reagiu dizendo que as acusações são “falsas, levianas e absolutamente irresponsáveis”. Em nota pública, afirmou que a ofensiva foi uma tentativa de desviar o foco da CPMI do INSS por meio de ataque pessoal sem respaldo na realidade.


A principal linha de defesa do deputado é a de que o caso mencionado por seus adversários não o envolve. Segundo ele, a história diria respeito a um primo, e não a ele próprio. Para sustentar essa versão, Gaspar divulgou vídeo de uma jovem identificada como Lourilene Pereira da Silva, que diz não ser filha do deputado e afirma ser filha biológica de Maurício Breda, primo de Gaspar. No vídeo compartilhado pelo parlamentar, ela declara que “não é fruto de estupro algum” e menciona o que seria um exame de DNA para comprovar a paternidade.


Essa reação, no entanto, não encerra o caso. Primeiro porque a notícia de fato apresentada à PF sustenta que o episódio denunciado é distinto daquele trazido pelo deputado em sua defesa. Segundo porque a divulgação de um vídeo nas redes sociais não substitui perícia oficial, cadeia de custódia, apuração de documentos e exame técnico da cronologia dos fatos.


A posição de Soraya e o ponto em aberto


Neste domingo, 29 de março, Soraya Thronicke afirmou publicamente que pedirá desculpas a Gaspar caso um exame de DNA não confirme a acusação. Ao mesmo tempo, manteve a avaliação de que havia indícios suficientes para o registro da notícia-crime e reiterou que a apuração precisa avançar.


Esse ponto é decisivo. A crise pública passou a girar em torno de duas narrativas concorrentes. De um lado, a acusação formalizada por dois parlamentares, com referência a documentos, conversas, suspeita de silêncio comprado e pedido de diligências urgentes. De outro, a negativa categórica do deputado, sustentada na versão de que o caso real envolve outro homem da família e numa prova divulgada unilateralmente em rede social.


Entre uma narrativa e outra, o que falta é o que mais importa: investigação oficial. Sem isso, o país assiste a um jogo de versões em que um crime sexual gravíssimo corre o risco de ser instrumentalizado por conveniência política de todos os lados.


Mulher de cabelos claros fala ao microfone, mãos levantadas. Fundo geométrico em tons de cinza. Expressão séria e focada.
Soraya Thronicke | Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

A peça entregue à Polícia Federal aponta diligências objetivas e verificáveis. Não se trata de uma controvérsia abstrata. Há pelo menos cinco eixos que podem ser testados por investigação formal:


  • A existência e autenticidade dos prints, mensagens e metadados citados pelos autores da notícia de fato.

  • A cronologia registral da criança mencionada, inclusive maternidade, filiação e documentos civis.

  • A origem, destino e forma dos valores de R$ 70 mil e R$ 400 mil citados na peça.

  • A identidade da pessoa intermediadora apontada como elo de uma possível operação de silêncio.

  • A correspondência biológica e documental entre as versões apresentadas publicamente e os fatos efetivamente narrados à PF.


Se os elementos resistirem à checagem, a gravidade penal e política será devastadora. Se não resistirem, o caso também exigirá responsabilização exemplar por eventual acusação infundada. Em qualquer dos cenários, a resposta não pode ser produzida por gritos em comissão, vídeos de rede social ou vazamentos seletivos.


NOTÍCIA DE FATO - COM PEDIDO DE TRAMITAÇÃO SOB SIGILO, PRESERVAÇÃO PROBATÓRIA E ADOÇÃO URGENTE DE PROVIDÊNCIAS DE POLÍCIA JUDICIÁRIA 




O peso jurídico do caso


A peça protocolada na PF invoca o artigo 217-A do Código Penal, que trata do estupro de vulnerável. O documento ainda menciona o reforço recente dado pela Lei nº 15.353/2026, sancionada em 8 de março, que tornou explícita a presunção absoluta de vulnerabilidade de menores de 14 anos e afastou interpretações relativizadoras baseadas em consentimento, experiência sexual anterior, relacionamento afetivo ou gravidez decorrente da violência.


Na prática, isso significa que, em tese, eventual alegação de relação “consensual” não afastaria a incidência do tipo penal caso a vítima tivesse menos de 14 anos à época. O documento também aponta, em tese, possível fraude processual, caso se confirmem as suspeitas de intermediação financeira e construção de obstáculo à persecução penal.


O escândalo não está apenas no bate-boca que transformou a reta final da CPMI do INSS em vale-tudo. O verdadeiro estopim está no conteúdo do documento formalizado à PF e no que ele sugere: uma denúncia de violência sexual contra adolescente, seguida por possível engrenagem de abafamento.


É esse ponto que separa jornalismo de torcida. Não cabe absolver nem condenar antecipadamente. Cabe registrar, com precisão, que existe uma acusação formal e documentada, que o acusado nega, que há divergência frontal sobre os fatos centrais e que a única saída institucional compatível com a gravidade do caso é uma apuração célere, protegida de manipulação e centrada na prova.


Se a política brasileira transformou o episódio em trincheira, a Polícia Federal e os órgãos de persecução têm o dever de retirá-lo do terreno do espetáculo e devolvê-lo ao campo onde crimes dessa natureza devem ser tratados: o da investigação séria, do sigilo necessário, da proteção das vítimas e da verdade material.


O que já se pode afirmar, com segurança, é o seguinte:

  • houve uma notícia de fato protocolada por Lindbergh Farias e Soraya Thronicke na Polícia Federal;

  • o documento pede investigação sobre estupro de vulnerável, ocultação dos fatos e possível compra de silêncio;

  • a sessão da CPMI registrou oficialmente o momento em que Lindbergh chamou Gaspar de “estuprador”;

  • Alfredo Gaspar negou a acusação e apresentou publicamente uma versão alternativa baseada em paternidade atribuída a um primo;

  • Soraya afirmou que manterá a acusação até a investigação, mas disse que pedirá desculpas se um exame de DNA desmentir a narrativa apresentada por ela e por Lindbergh.


O restante ainda depende de prova. E é justamente por isso que o caso não pode ser normalizado como mais um barraco do Congresso.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim, com foco em política, poder e interesse público. Atua na cobertura de temas que exigem apuração documental, contextualização e vigilância sobre os mecanismos de ocultação de fatos relevantes.

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