top of page

Escândalo começou com inconsistências de R$ 20 bilhões, virou investigação da PF e agora envolve suspeitas de R$ 54 bilhões.


Por Raul Silva para O estopim | 25 de junho de 2026


Imagem ilustrativa com cartões de crédito em contexto sobre a fraude contábil que abalou o varejo brasileiro
O caso veio a público em 11 de janeiro de 2023, quando a companhia informou inconsistências contábeis estimadas em cerca de R$ 20 bilhões. | Foto: Marcello Casal Jr / Agência Brasil

A fraude contábil da Americanas abalou o varejo brasileiro porque expôs, ao mesmo tempo, uma empresa centenária, bancos credores, investidores, auditorias, órgãos de controle e o mercado de capitais. O caso veio a público em 11 de janeiro de 2023, quando a companhia informou inconsistências contábeis estimadas em cerca de R$ 20 bilhões. Em 2024, a Polícia Federal tratou o episódio como a maior fraude da história do mercado financeiro brasileiro, então estimada em R$ 25,3 bilhões. Agora, com a segunda fase da Operação Disclosure, a apuração alcança supostas fraudes de aproximadamente R$ 54 bilhões.


O escândalo começou oficialmente com um fato relevante divulgado pela Americanas em janeiro de 2023. A companhia informou que havia identificado inconsistências em lançamentos contábeis ligados à conta de fornecedores e a financiamentos de compras. Na prática, dívidas que deveriam aparecer de forma clara nas demonstrações financeiras não estavam adequadamente refletidas nos balanços.


O anúncio teve efeito imediato. As ações despencaram, a confiança no caixa da empresa evaporou e a Americanas entrou em recuperação judicial poucos dias depois, com créditos estimados em R$ 43 bilhões analisados pela CVM em processos administrativos abertos naquele período.


Um dos pontos centrais da investigação é o chamado risco sacado. Esse tipo de operação é usado no varejo quando um banco antecipa ao fornecedor o valor que a empresa compradora pagaria no futuro. Em tese, é um instrumento financeiro legítimo.


O problema investigado é outro: se essas operações foram usadas para esconder endividamento e melhorar artificialmente os resultados da Americanas. A PF afirma que, na apuração, aparecem operações de risco sacado relacionadas a supostas fraudes contábeis praticadas ao longo de anos.


Leia também


Em linguagem simples, a pergunta é: a empresa comprava de fornecedores, o banco antecipava o pagamento e a dívida ficava fora do lugar correto no balanço? É isso que investigadores, peritos e reguladores buscam demonstrar com documentos, registros contábeis e mensagens internas.


Outro ponto investigado é a verba de propaganda cooperada, conhecida como VPC. No varejo, a VPC pode ser um acordo comercial legítimo entre fornecedor e lojista para financiar campanhas, exposição de produtos e ações promocionais.


No caso Americanas, a suspeita é que contratos de VPC tenham sido registrados sem lastro econômico. Ou seja, valores teriam sido contabilizados como se existissem operações reais por trás, mesmo sem correspondência concreta no caixa ou na relação comercial. A Agência Brasil, com base em nota da PF, informou que a segunda fase da Operação Disclosure investiga contratos de VPC supostamente contabilizados sem lastro econômico.


A lógica apontada pelas investigações é que dívidas poderiam ter sido escondidas e receitas ou reduções de despesas poderiam ter sido registradas de forma artificial. Isso teria melhorado indicadores financeiros, como lucro, endividamento e geração de caixa.


Esse tipo de maquiagem contábil tem efeito em cadeia. O investidor olha para números aparentemente melhores. Bancos concedem crédito avaliando uma fotografia financeira que pode estar distorcida. Executivos podem receber bônus com base em metas. Fornecedores negociam com uma empresa que parece mais saudável do que realmente é.


Por isso, o caso ultrapassa a Americanas. Ele afeta confiança, governança, auditoria, regulação e responsabilidade de administradores.


A primeira fase da Operação Disclosure foi deflagrada em 27 de junho de 2024. Naquele momento, a PF afirmou que o grupo investigado seria responsável por fraude estimada em R$ 25,3 bilhões. A operação cumpriu mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão contra ex-diretores da Americanas.


A segunda fase foi deflagrada em 25 de junho de 2026, em conjunto com o Ministério Público Federal. Segundo a Agência Brasil, foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo, e a 10ª Vara Federal Criminal do Rio determinou o sequestro de bens e valores de investigados até o limite de R$ 54 bilhões.


As apurações apontam, em tese, crimes de manipulação de mercado e associação criminosa. A investigação não equivale a condenação. Os citados e investigados têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.


A Comissão de Valores Mobiliários abriu inquéritos e processos administrativos para apurar irregularidades relacionadas às inconsistências contábeis divulgadas pela Americanas em 11 de janeiro de 2023, possível uso de informação privilegiada e atuação de auditorias independentes.


Esse ponto é central porque a Americanas era uma companhia aberta. Empresas listadas em Bolsa têm deveres de transparência com acionistas, investidores, credores e o mercado. Quando uma fraude desse tamanho aparece, a pergunta inevitável é: onde falharam os controles?


A crise levou a Americanas à recuperação judicial. O plano foi aprovado por credores em dezembro de 2023 e homologado em fevereiro de 2024, segundo a linha do tempo de Relações com Investidores da própria companhia.


Em março de 2026, a Reuters informou que a Americanas pediu à Justiça do Rio de Janeiro o encerramento da recuperação judicial, dizendo ter cumprido obrigações previstas no processo. A empresa havia buscado reestruturar cerca de R$ 43 bilhões em dívidas, vendeu ativos e fechou mais de 170 lojas no país.


A Americanas passou a sustentar que foi vítima de fraude praticada por antigos administradores. Em 2024, a Reuters informou que relatório de comitê independente apontou registros indevidos em contas de fornecedores, verbas publicitárias fictícias e operações financeiras refletidas de forma incorreta no balanço. A companhia disse que os responsáveis já não estavam na empresa e que compartilhava os achados com autoridades.

Ex-executivos citados em investigações negam irregularidades. Defesas mencionadas pela Reuters afirmaram que acusações eram baseadas em premissas não provadas ou que os investigados colaboravam com as autoridades.


A Americanas não era uma empresa pequena ou desconhecida. Era uma das marcas mais presentes no cotidiano dos brasileiros, com lojas físicas, comércio eletrônico, relação com grandes bancos e milhares de fornecedores.


Quando uma companhia desse porte revela um rombo bilionário, o efeito vai além dos acionistas. Fornecedores perdem previsibilidade, bancos revisam crédito, trabalhadores temem fechamento de lojas, consumidores veem incerteza e o mercado passa a cobrar explicações de auditorias, conselhos e reguladores.


O que acontece agora


A segunda fase da Operação Disclosure deve produzir novas análises de documentos, aparelhos eletrônicos, registros bancários e contábeis. O Ministério Público Federal poderá pedir novas diligências, oferecer denúncia ou arquivar partes da apuração, conforme as provas.


A Americanas tenta encerrar a recuperação judicial e recompor sua operação. A Justiça e os órgãos reguladores ainda precisam responder a uma questão maior: como uma fraude dessa escala atravessou anos sem ser barrada pelos mecanismos de controle?


O estopim — O começo da notícia!

Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi

Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, economia, poder público e interesse social, com foco em contexto, checagem e responsabilidade editorial.

Operação financeira é comum no varejo, mas entrou no caso Americanas por suspeita de uso para esconder dívidas.


Por Raul Silva para O estopim | 25 de junho de 2026


Esquema visual mostra como funciona o risco sacado entre varejista, banco e fornecedor no caso Americanas

O risco sacado entrou no centro do caso Americanas porque a Polícia Federal investiga se operações financeiras usadas para antecipar pagamentos a fornecedores foram registradas de forma irregular nos balanços da companhia. A operação, comum no varejo e lícita quando informada corretamente, virou ponto de apuração criminal porque pode ter ajudado a ocultar endividamento e distorcer a real situação financeira da empresa.


Risco sacado é uma operação em que uma empresa compradora, como uma varejista, usa um banco para antecipar o pagamento devido a um fornecedor. O fornecedor recebe antes do prazo. O banco paga esse fornecedor e, depois, cobra da empresa compradora.


Na prática, há três partes envolvidas: a empresa que comprou mercadorias, o fornecedor que tem dinheiro a receber e o banco que antecipa o valor.


Essa operação também pode aparecer no mercado com nomes como financiamento a fornecedores, antecipação de recebíveis de fornecedores ou supplier finance. Ela pode ser útil para dar liquidez ao fornecedor e ampliar prazo de pagamento para a empresa compradora.


Imagine que uma varejista compra R$ 10 milhões em produtos e deveria pagar o fornecedor em 90 dias. O fornecedor, porém, precisa de dinheiro antes. Um banco antecipa o pagamento ao fornecedor, com desconto ou cobrança financeira, e passa a receber da varejista na data combinada.


Até aqui, a operação pode ser legítima. O problema começa quando a contabilidade não mostra com clareza que a empresa passou a ter uma obrigação financeira relevante. Se esse valor aparece apenas como conta comum a pagar, e não como dívida financeira, o balanço pode parecer menos endividado do que realmente está.


Leia também


O ponto sensível não é a existência do risco sacado. O ponto é como ele é registrado e divulgado.


Quando uma operação muda a natureza da obrigação, saindo de uma dívida comercial com fornecedor para uma dívida com banco, isso pode afetar indicadores como endividamento, prazo médio de pagamento, fluxo de caixa e resultado financeiro. Se a informação não fica clara, investidores, credores e fornecedores podem tomar decisões com base em um retrato incompleto da empresa.


O Conselho Regional de Contabilidade de São Paulo, ao tratar das normas internacionais sobre o tema, registrou que a discussão não era se o passivo deveria ser reconhecido, mas onde ele deveria aparecer: em contas a pagar a fornecedores ou como obrigação com banco.


No caso Americanas, a PF afirma que investiga supostas fraudes contábeis praticadas ao longo de anos, relacionadas a operações de risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada, a VPC, supostamente contabilizados sem lastro econômico. Na segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada nesta quinta-feira, 25 de junho de 2026, a corporação informou que a apuração envolve suspeitas estimadas em aproximadamente R$ 54 bilhões.


A PF também informou que foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo, e que a 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro determinou o sequestro de bens e valores de investigados até o limite de R$ 54 bilhões. As apurações apontam, em tese, indícios de manipulação de mercado e associação criminosa.


Na primeira fase da Operação Disclosure, em junho de 2024, a PF afirmou que investigava a participação de ex-diretores da Americanas em fraudes contábeis que chegavam a R$ 25,3 bilhões, conforme fato relevante divulgado pela própria empresa. A investigação teve apoio técnico da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM.


Naquele momento, a Agência Brasil informou, com base na PF, que os então diretores da Americanas teriam praticado fraudes contábeis relacionadas a risco sacado. A mesma apuração também citava supostas fraudes envolvendo contratos de VPC que, segundo a corporação, nunca teriam existido.


A CVM abriu investigações sobre as inconsistências contábeis divulgadas pela Americanas em 11 de janeiro de 2023. A autarquia informou que promoveu inspeção na sede da companhia no Rio de Janeiro para compreender detalhes relacionados, inclusive, a operações de risco sacado e VPC, além das respectivas contabilizações realizadas pela empresa.


Em janeiro de 2026, a CVM instaurou dois novos inquéritos. Um deles mira a atuação de bancos e administradores que mantinham relações comerciais com a Americanas, B2W e Lojas Americanas. O outro apura o cumprimento de deveres fiduciários por membros de conselhos, comitês e estruturas de governança.


Não. Risco sacado não é fraude por si só.


A fraude, quando existe, está no uso da operação para esconder dívida, manipular indicadores, registrar valores sem base econômica ou induzir investidores e credores a erro. Por isso, o caso Americanas não trata apenas de uma ferramenta financeira, mas da suspeita de que essa ferramenta teria sido usada dentro de uma engrenagem contábil irregular.


O caso importa porque uma companhia aberta depende da confiança do mercado. Balanços financeiros orientam decisões de bancos, acionistas, fornecedores, trabalhadores e consumidores.


Se uma dívida bilionária aparece de modo incompleto ou distorcido, o preço das ações pode ser artificialmente influenciado, o risco de crédito pode ser subestimado e a empresa pode continuar captando recursos sem que o mercado conheça sua real situação.


A Americanas afirmou anteriormente que foi vítima de uma fraude praticada por antigos administradores e que tem interesse em esclarecer os fatos e responsabilizar judicialmente os envolvidos. Ex-executivos citados em apurações negam irregularidades, e defesas já disseram que acusações se baseiam em premissas não comprovadas. Investigação não é condenação.


O que acontece agora


A PF deve analisar documentos, celulares, computadores, registros contábeis e comunicações apreendidas na segunda fase da Operação Disclosure. O Ministério Público Federal poderá pedir novas diligências, oferecer denúncia ou arquivar partes da apuração, conforme o conjunto de provas.


A CVM também seguirá com processos administrativos e inquéritos próprios, que podem gerar responsabilizações no mercado de capitais. O ponto central será demonstrar se houve erro contábil, falha de governança, omissão, fraude deliberada ou combinação desses fatores.


O estopim — O começo da notícia!

Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi

Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, economia, poder público e interesse social, com foco em contexto, checagem e responsabilidade editorial.

Fraudes como a da Americanas ampliam cobrança por transparência, controle interno, auditoria independente e responsabilização.


Por Raul Silva para O estopim | 25 de junho de 2026


Ilustração mostra balanço financeiro sob análise após grandes fraudes corporativas no mercado brasileiro
Ilustração mostra balanço financeiro sob análise após grandes fraudes corporativas no mercado brasileiro | Foto: Reprodução

Grandes fraudes corporativas não terminam quando a operação policial acaba. Elas deixam um rastro de prejuízo, desconfiança e perguntas incômodas: quem sabia, quem deveria saber e quais controles falharam antes do colapso? No caso Americanas, a segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira, 25 de junho de 2026, elevou a pressão sobre mercado financeiro, auditorias e governança ao apurar supostas fraudes contábeis estimadas em cerca de R$ 54 bilhões.


A Polícia Federal informou que a nova fase cumpre nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo, além de decisão de sequestro de bens e valores de investigados até o limite de R$ 54 bilhões. Segundo a PF, as suspeitas envolvem operações de risco sacado e contratos de verba de propaganda cooperada, a VPC, supostamente contabilizados sem lastro econômico.


A primeira fase da Operação Disclosure, em junho de 2024, já havia classificado o caso como a maior fraude da história do mercado financeiro brasileiro, então estimada em R$ 25,3 bilhões. Naquela etapa, a PF mirou ex-diretores da Americanas e informou que a investigação contava com apoio técnico da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM.


Depois de fraudes bilionárias, bancos, investidores e analistas tendem a olhar menos para o lucro isolado e mais para a qualidade desse lucro. A pergunta deixa de ser apenas “quanto a empresa ganhou?” e passa a ser “de onde veio esse resultado, quanto dele virou caixa e qual dívida ficou escondida no caminho?”.


Esse movimento aumenta a cobrança por notas explicativas mais claras, demonstrações financeiras menos opacas e detalhamento de operações que afetam capital de giro, fornecedores, caixa, dívida e risco de liquidez. A IFRS Foundation registrou que novas exigências de divulgação sobre financiamento a fornecedores buscam dar transparência sobre onde esses passivos aparecem no balanço e como afetam fluxos de caixa e risco de liquidez.


Leia também


No Brasil, a CVM abriu consulta pública em 2025 para alinhar pronunciamentos contábeis do Comitê de Pronunciamentos Contábeis às normas do IASB, com proposta de vigência a partir de 2026. A convergência regulatória mostra que a resposta a grandes fraudes também passa por atualizar regras de divulgação e reduzir brechas de interpretação.


A auditoria independente deixa de ser vista como etapa formal de fechamento de balanço e passa a ser cobrada como barreira real contra distorções relevantes. O parecer do auditor não pode funcionar como carimbo burocrático.


Em grandes fraudes, o ponto crítico é saber se a auditoria testou premissas, pediu evidências externas, confrontou versões internas, identificou padrões fora do comum e avaliou se operações complexas estavam classificadas corretamente. Quando isso não ocorre, o mercado passa a discutir não apenas a fraude, mas a qualidade do trabalho de auditoria.


A CVM informou que sua força-tarefa sobre a Americanas envolve áreas de empresas, mercado, normas contábeis, auditoria, processos sancionadores e orientação a investidores. A autarquia também relatou o uso de inspeções, documentos, e-mails, conversas em aplicativos e técnicas de Big Data Analytics em apurações relacionadas ao caso.


A governança corporativa é testada justamente quando os números parecem bons demais, quando a pressão por metas aumenta ou quando executivos tratam perguntas como obstáculo. O conselho de administração, o conselho fiscal e os comitês de assessoramento precisam ir além de apresentações prontas.


O IBGC define governança corporativa como um sistema de princípios, regras e processos que orienta a direção e o monitoramento das organizações, com equilíbrio de interesses e geração de valor sustentável. A entidade também destaca princípios como integridade, transparência, equidade, responsabilização e sustentabilidade.


No caso Americanas, a CVM instaurou inquéritos em 2026 para apurar a atuação de bancos e administradores que mantinham relações comerciais com a companhia, além do cumprimento de deveres fiduciários por membros de conselhos, comitês e estruturas de governança. Isso mostra que a investigação regulatória não se limita a quem executou lançamentos contábeis, mas alcança quem financiou, supervisionou, aprovou ou deveria ter questionado operações relevantes.


Fraudes desse porte mudam a régua de confiança. Investidores passam a exigir mais explicação sobre endividamento, transações com bancos, remuneração variável, controles internos, concentração de fornecedores, independência de conselhos e riscos fora do balanço.


No caso de financiamentos a fornecedores, o IASB apontou que investidores querem entender se esses arranjos concentram passivos em um ou poucos financiadores, porque a retirada dessas linhas em momentos de estresse pode pressionar o caixa da empresa e afetar sua capacidade de pagar obrigações.


Regra ajuda, mas não basta. Grandes fraudes raramente dependem de uma única falha. Elas costumam combinar cultura interna permissiva, metas agressivas, remuneração atrelada a resultados, conselhos pouco questionadores, auditorias insuficientes, bancos interessados na operação e investidores que ignoram sinais de alerta enquanto os números parecem positivos.


A resposta, portanto, precisa ser técnica e cultural. A técnica está em regras contábeis mais claras, auditoria mais rigorosa, sistemas de controle e fiscalização efetiva. A cultura está em premiar transparência, proteger denunciantes, registrar divergências e impedir que a busca por resultado destrua a integridade da informação.


Investigação não é condenação. Os investigados no caso Americanas têm direito ao contraditório, à ampla defesa e à presunção de inocência. A apuração da PF e os processos administrativos da CVM ainda precisam produzir conclusões formais, decisões e, quando couber, responsabilizações.


A Americanas tem afirmado que colabora com as autoridades e que é interessada no esclarecimento dos fatos. A avaliação final sobre responsabilidades individuais e institucionais caberá às autoridades competentes, com base em provas.


O que acontece agora


O mercado deve acompanhar três frentes. A primeira é criminal, com análise dos materiais apreendidos pela PF e eventuais medidas do Ministério Público Federal. A segunda é regulatória, com processos e inquéritos da CVM sobre executivos, bancos, conselhos, auditorias e uso de informação privilegiada. A terceira é econômica, com efeitos sobre crédito, governança e percepção de risco em companhias abertas.


O caso Americanas indica que, depois de grandes fraudes, a pergunta central muda. Não basta saber quem fraudou. É preciso saber quem deixou de perguntar, quem aceitou números sem lastro e quem lucrou com a falta de transparência.


O estopim — O começo da notícia!

Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi

Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, economia, poder público e interesse social, com foco em contexto, checagem e responsabilidade editorial.


bottom of page
Logo MPPE
Painel de Transparência Festejos Juninos
Fale Conosco WhatsApp