Caso Americanas: entenda a fraude contábil que abalou o varejo brasileiro
- Raul Silva

- há 2 horas
- 5 min de leitura
Escândalo começou com inconsistências de R$ 20 bilhões, virou investigação da PF e agora envolve suspeitas de R$ 54 bilhões.
Por Raul Silva para O estopim | 25 de junho de 2026

A fraude contábil da Americanas abalou o varejo brasileiro porque expôs, ao mesmo tempo, uma empresa centenária, bancos credores, investidores, auditorias, órgãos de controle e o mercado de capitais. O caso veio a público em 11 de janeiro de 2023, quando a companhia informou inconsistências contábeis estimadas em cerca de R$ 20 bilhões. Em 2024, a Polícia Federal tratou o episódio como a maior fraude da história do mercado financeiro brasileiro, então estimada em R$ 25,3 bilhões. Agora, com a segunda fase da Operação Disclosure, a apuração alcança supostas fraudes de aproximadamente R$ 54 bilhões.
O escândalo começou oficialmente com um fato relevante divulgado pela Americanas em janeiro de 2023. A companhia informou que havia identificado inconsistências em lançamentos contábeis ligados à conta de fornecedores e a financiamentos de compras. Na prática, dívidas que deveriam aparecer de forma clara nas demonstrações financeiras não estavam adequadamente refletidas nos balanços.
O anúncio teve efeito imediato. As ações despencaram, a confiança no caixa da empresa evaporou e a Americanas entrou em recuperação judicial poucos dias depois, com créditos estimados em R$ 43 bilhões analisados pela CVM em processos administrativos abertos naquele período.
Um dos pontos centrais da investigação é o chamado risco sacado. Esse tipo de operação é usado no varejo quando um banco antecipa ao fornecedor o valor que a empresa compradora pagaria no futuro. Em tese, é um instrumento financeiro legítimo.
O problema investigado é outro: se essas operações foram usadas para esconder endividamento e melhorar artificialmente os resultados da Americanas. A PF afirma que, na apuração, aparecem operações de risco sacado relacionadas a supostas fraudes contábeis praticadas ao longo de anos.
Leia também
Em linguagem simples, a pergunta é: a empresa comprava de fornecedores, o banco antecipava o pagamento e a dívida ficava fora do lugar correto no balanço? É isso que investigadores, peritos e reguladores buscam demonstrar com documentos, registros contábeis e mensagens internas.
Outro ponto investigado é a verba de propaganda cooperada, conhecida como VPC. No varejo, a VPC pode ser um acordo comercial legítimo entre fornecedor e lojista para financiar campanhas, exposição de produtos e ações promocionais.
No caso Americanas, a suspeita é que contratos de VPC tenham sido registrados sem lastro econômico. Ou seja, valores teriam sido contabilizados como se existissem operações reais por trás, mesmo sem correspondência concreta no caixa ou na relação comercial. A Agência Brasil, com base em nota da PF, informou que a segunda fase da Operação Disclosure investiga contratos de VPC supostamente contabilizados sem lastro econômico.
A lógica apontada pelas investigações é que dívidas poderiam ter sido escondidas e receitas ou reduções de despesas poderiam ter sido registradas de forma artificial. Isso teria melhorado indicadores financeiros, como lucro, endividamento e geração de caixa.
Esse tipo de maquiagem contábil tem efeito em cadeia. O investidor olha para números aparentemente melhores. Bancos concedem crédito avaliando uma fotografia financeira que pode estar distorcida. Executivos podem receber bônus com base em metas. Fornecedores negociam com uma empresa que parece mais saudável do que realmente é.
Por isso, o caso ultrapassa a Americanas. Ele afeta confiança, governança, auditoria, regulação e responsabilidade de administradores.
A primeira fase da Operação Disclosure foi deflagrada em 27 de junho de 2024. Naquele momento, a PF afirmou que o grupo investigado seria responsável por fraude estimada em R$ 25,3 bilhões. A operação cumpriu mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão contra ex-diretores da Americanas.
A segunda fase foi deflagrada em 25 de junho de 2026, em conjunto com o Ministério Público Federal. Segundo a Agência Brasil, foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo, e a 10ª Vara Federal Criminal do Rio determinou o sequestro de bens e valores de investigados até o limite de R$ 54 bilhões.
As apurações apontam, em tese, crimes de manipulação de mercado e associação criminosa. A investigação não equivale a condenação. Os citados e investigados têm direito à defesa, ao contraditório e à presunção de inocência.
A Comissão de Valores Mobiliários abriu inquéritos e processos administrativos para apurar irregularidades relacionadas às inconsistências contábeis divulgadas pela Americanas em 11 de janeiro de 2023, possível uso de informação privilegiada e atuação de auditorias independentes.
Esse ponto é central porque a Americanas era uma companhia aberta. Empresas listadas em Bolsa têm deveres de transparência com acionistas, investidores, credores e o mercado. Quando uma fraude desse tamanho aparece, a pergunta inevitável é: onde falharam os controles?
A crise levou a Americanas à recuperação judicial. O plano foi aprovado por credores em dezembro de 2023 e homologado em fevereiro de 2024, segundo a linha do tempo de Relações com Investidores da própria companhia.
Em março de 2026, a Reuters informou que a Americanas pediu à Justiça do Rio de Janeiro o encerramento da recuperação judicial, dizendo ter cumprido obrigações previstas no processo. A empresa havia buscado reestruturar cerca de R$ 43 bilhões em dívidas, vendeu ativos e fechou mais de 170 lojas no país.
A Americanas passou a sustentar que foi vítima de fraude praticada por antigos administradores. Em 2024, a Reuters informou que relatório de comitê independente apontou registros indevidos em contas de fornecedores, verbas publicitárias fictícias e operações financeiras refletidas de forma incorreta no balanço. A companhia disse que os responsáveis já não estavam na empresa e que compartilhava os achados com autoridades.
Ex-executivos citados em investigações negam irregularidades. Defesas mencionadas pela Reuters afirmaram que acusações eram baseadas em premissas não provadas ou que os investigados colaboravam com as autoridades.
A Americanas não era uma empresa pequena ou desconhecida. Era uma das marcas mais presentes no cotidiano dos brasileiros, com lojas físicas, comércio eletrônico, relação com grandes bancos e milhares de fornecedores.
Quando uma companhia desse porte revela um rombo bilionário, o efeito vai além dos acionistas. Fornecedores perdem previsibilidade, bancos revisam crédito, trabalhadores temem fechamento de lojas, consumidores veem incerteza e o mercado passa a cobrar explicações de auditorias, conselhos e reguladores.
O que acontece agora
A segunda fase da Operação Disclosure deve produzir novas análises de documentos, aparelhos eletrônicos, registros bancários e contábeis. O Ministério Público Federal poderá pedir novas diligências, oferecer denúncia ou arquivar partes da apuração, conforme as provas.
A Americanas tenta encerrar a recuperação judicial e recompor sua operação. A Justiça e os órgãos reguladores ainda precisam responder a uma questão maior: como uma fraude dessa escala atravessou anos sem ser barrada pelos mecanismos de controle?
O estopim — O começo da notícia!
Acesse o nosso perfil no Instagram e veja essa e outras notícias: @oestopim_ & @muira.ubi
Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, economia, poder público e interesse social, com foco em contexto, checagem e responsabilidade editorial.
8.png)









Comentários