Como funciona o risco do caso da Americanas sacado e por que ele entrou no radar da PF
- Raul Silva

- há 2 horas
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Operação financeira é comum no varejo, mas entrou no caso Americanas por suspeita de uso para esconder dívidas.
Por Raul Silva para O estopim | 25 de junho de 2026

O risco sacado entrou no centro do caso Americanas porque a Polícia Federal investiga se operações financeiras usadas para antecipar pagamentos a fornecedores foram registradas de forma irregular nos balanços da companhia. A operação, comum no varejo e lícita quando informada corretamente, virou ponto de apuração criminal porque pode ter ajudado a ocultar endividamento e distorcer a real situação financeira da empresa.
Risco sacado é uma operação em que uma empresa compradora, como uma varejista, usa um banco para antecipar o pagamento devido a um fornecedor. O fornecedor recebe antes do prazo. O banco paga esse fornecedor e, depois, cobra da empresa compradora.
Na prática, há três partes envolvidas: a empresa que comprou mercadorias, o fornecedor que tem dinheiro a receber e o banco que antecipa o valor.
Essa operação também pode aparecer no mercado com nomes como financiamento a fornecedores, antecipação de recebíveis de fornecedores ou supplier finance. Ela pode ser útil para dar liquidez ao fornecedor e ampliar prazo de pagamento para a empresa compradora.
Imagine que uma varejista compra R$ 10 milhões em produtos e deveria pagar o fornecedor em 90 dias. O fornecedor, porém, precisa de dinheiro antes. Um banco antecipa o pagamento ao fornecedor, com desconto ou cobrança financeira, e passa a receber da varejista na data combinada.
Até aqui, a operação pode ser legítima. O problema começa quando a contabilidade não mostra com clareza que a empresa passou a ter uma obrigação financeira relevante. Se esse valor aparece apenas como conta comum a pagar, e não como dívida financeira, o balanço pode parecer menos endividado do que realmente está.
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O ponto sensível não é a existência do risco sacado. O ponto é como ele é registrado e divulgado.
Quando uma operação muda a natureza da obrigação, saindo de uma dívida comercial com fornecedor para uma dívida com banco, isso pode afetar indicadores como endividamento, prazo médio de pagamento, fluxo de caixa e resultado financeiro. Se a informação não fica clara, investidores, credores e fornecedores podem tomar decisões com base em um retrato incompleto da empresa.
O Conselho Regional de Contabilidade de São Paulo, ao tratar das normas internacionais sobre o tema, registrou que a discussão não era se o passivo deveria ser reconhecido, mas onde ele deveria aparecer: em contas a pagar a fornecedores ou como obrigação com banco.
No caso Americanas, a PF afirma que investiga supostas fraudes contábeis praticadas ao longo de anos, relacionadas a operações de risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada, a VPC, supostamente contabilizados sem lastro econômico. Na segunda fase da Operação Disclosure, deflagrada nesta quinta-feira, 25 de junho de 2026, a corporação informou que a apuração envolve suspeitas estimadas em aproximadamente R$ 54 bilhões.
A PF também informou que foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo, e que a 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro determinou o sequestro de bens e valores de investigados até o limite de R$ 54 bilhões. As apurações apontam, em tese, indícios de manipulação de mercado e associação criminosa.
Na primeira fase da Operação Disclosure, em junho de 2024, a PF afirmou que investigava a participação de ex-diretores da Americanas em fraudes contábeis que chegavam a R$ 25,3 bilhões, conforme fato relevante divulgado pela própria empresa. A investigação teve apoio técnico da Comissão de Valores Mobiliários, a CVM.
Naquele momento, a Agência Brasil informou, com base na PF, que os então diretores da Americanas teriam praticado fraudes contábeis relacionadas a risco sacado. A mesma apuração também citava supostas fraudes envolvendo contratos de VPC que, segundo a corporação, nunca teriam existido.
A CVM abriu investigações sobre as inconsistências contábeis divulgadas pela Americanas em 11 de janeiro de 2023. A autarquia informou que promoveu inspeção na sede da companhia no Rio de Janeiro para compreender detalhes relacionados, inclusive, a operações de risco sacado e VPC, além das respectivas contabilizações realizadas pela empresa.
Em janeiro de 2026, a CVM instaurou dois novos inquéritos. Um deles mira a atuação de bancos e administradores que mantinham relações comerciais com a Americanas, B2W e Lojas Americanas. O outro apura o cumprimento de deveres fiduciários por membros de conselhos, comitês e estruturas de governança.
Não. Risco sacado não é fraude por si só.
A fraude, quando existe, está no uso da operação para esconder dívida, manipular indicadores, registrar valores sem base econômica ou induzir investidores e credores a erro. Por isso, o caso Americanas não trata apenas de uma ferramenta financeira, mas da suspeita de que essa ferramenta teria sido usada dentro de uma engrenagem contábil irregular.
O caso importa porque uma companhia aberta depende da confiança do mercado. Balanços financeiros orientam decisões de bancos, acionistas, fornecedores, trabalhadores e consumidores.
Se uma dívida bilionária aparece de modo incompleto ou distorcido, o preço das ações pode ser artificialmente influenciado, o risco de crédito pode ser subestimado e a empresa pode continuar captando recursos sem que o mercado conheça sua real situação.
A Americanas afirmou anteriormente que foi vítima de uma fraude praticada por antigos administradores e que tem interesse em esclarecer os fatos e responsabilizar judicialmente os envolvidos. Ex-executivos citados em apurações negam irregularidades, e defesas já disseram que acusações se baseiam em premissas não comprovadas. Investigação não é condenação.
O que acontece agora
A PF deve analisar documentos, celulares, computadores, registros contábeis e comunicações apreendidas na segunda fase da Operação Disclosure. O Ministério Público Federal poderá pedir novas diligências, oferecer denúncia ou arquivar partes da apuração, conforme o conjunto de provas.
A CVM também seguirá com processos administrativos e inquéritos próprios, que podem gerar responsabilizações no mercado de capitais. O ponto central será demonstrar se houve erro contábil, falha de governança, omissão, fraude deliberada ou combinação desses fatores.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, economia, poder público e interesse social, com foco em contexto, checagem e responsabilidade editorial.
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