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Senadora de Pernambuco afirma que derrubada do veto ao PL 2.162/2023 beneficia diretamente Jair Bolsonaro e reacende disputa entre Congresso, governo e Supremo sobre os crimes contra a democracia


Por Raul Silva para O estopim | 2 de maio de 2026



Mulher fala em pódio no Senado, com microfones e bandeira do Brasil ao fundo. Ela usa óculos e veste roupa escura. Cena formal.
A senadora Teresa Leitão discursa em plenário do Senado | Jefferson Rudy/Agência Senado

O estopim da nova crise institucional em Brasília foi a derrubada, pelo Congresso Nacional, do veto total do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamado PL da Dosimetria, o Projeto de Lei 2.162/2023. Em vídeo publicado em suas redes sociais, a senadora Teresa Leitão (PT-PE) fez uma crítica frontal à votação e afirmou que a proposta foi pensada e aprovada para beneficiar uma pessoa específica: Jair Bolsonaro, pai do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).


A fala da parlamentar pernambucana se insere num embate que já ultrapassou a fronteira da técnica penal. O que está em disputa não é apenas a forma de calcular penas ou o ritmo de progressão de regime. O conflito envolve a memória política dos atos de 8 de janeiro de 2023, a autoridade das decisões do Supremo Tribunal Federal, a capacidade do Executivo de conter derrotas no Congresso e a tentativa do bolsonarismo de reorganizar sua força institucional às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.


A senadora sustentou que a tramitação do veto teve caráter excepcional. Segundo Teresa, o projeto entrou como um “paraquedista” na pauta, embora houvesse outros vetos aguardando análise. Ela também afirmou que a condução da Mesa do Congresso inicialmente permitia efeitos mais amplos do texto, inclusive sobre crimes hediondos e organizações criminosas, antes de parte desses dispositivos ser considerada prejudicada durante a sessão.


“Foi um paraquedista”, afirmou a senadora, ao criticar a prioridade dada à matéria. Em outro ponto, Teresa foi mais direta ao apontar o alvo político da proposta: na avaliação dela, a dosimetria aprovada tem “direção única” e mira Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo no processo da trama golpista.


O Congresso derrubou o veto presidencial em 30 de abril de 2026. Na Câmara dos Deputados, foram 318 votos contra o veto, 144 a favor da manutenção e 5 abstenções. No Senado Federal, o placar foi de 49 votos pela rejeição do veto e 24 pela manutenção. Com isso, o texto vetado seguirá para promulgação pelo próprio Congresso, ressalvados os dispositivos considerados prejudicados pela Presidência da Mesa.


O PL da Dosimetria altera trechos da Lei de Execução Penal e do Código Penal. Embora o texto tenha uma redação geral, sua repercussão política está diretamente ligada aos condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro e pela tentativa de golpe de Estado. Entre os possíveis beneficiados está Jair Bolsonaro, condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses de prisão.


A decisão do Congresso não produz, por si só, a revisão automática das penas. Após a promulgação, defesas de condenados poderão pedir a aplicação da nova lei ao Supremo ou ao juízo responsável pela execução penal. Do outro lado, o PT e setores do governo avaliam levar o caso ao STF para questionar a constitucionalidade da norma e o procedimento adotado na derrubada do veto.


A fala de Teresa Leitão tem dois eixos. O primeiro é jurídico e procedimental: a senadora questiona a forma como a votação foi conduzida. O segundo é político: ela acusa a maioria parlamentar de usar uma regra penal de aparência geral para atingir um objetivo concreto, a redução do impacto da condenação de Bolsonaro.


Segundo a senadora, a proposta não nasceu como uma reforma ampla, debatida com calma, audiências públicas e estudo de impacto sobre o sistema prisional. Pelo contrário, apareceu no centro da pauta em meio a uma disputa política intensa, com pressão direta de setores bolsonaristas para reduzir as penas dos condenados pela tentativa de ruptura institucional.


Na visão de Teresa, mesmo depois de a Mesa retirar trechos que poderiam alcançar criminosos comuns, como condenados por crimes hediondos e organizações de facções, o problema central permaneceu. Para ela, a lei continuou carregando uma finalidade específica: aliviar a situação penal do ex-presidente.


Essa crítica toca num ponto sensível da teoria democrática. Leis devem ser gerais, impessoais e orientadas pelo interesse público. Quando uma maioria parlamentar aprova uma norma com destinatário político identificável, a pergunta deixa de ser apenas penal e passa a ser republicana: o Congresso está legislando para o país ou para um grupo de aliados?


Homem de terno observa painel eletrônico verde com textos em amarelo. Ambiente de plenário, ar sério, papéis sobre a mesa.
O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, durante a sessão que derrubou o veto do presidente Lula ao PL da Dosimetria | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Parlamentares favoráveis ao PL da Dosimetria afirmam que a proposta corrige excessos nas condenações e busca responder a penas consideradas desproporcionais. A oposição bolsonarista e parte do Centrão sustentam que muitos réus do 8 de janeiro receberam punições altas demais para condutas praticadas num mesmo contexto fático.


Esse argumento encontrou eco em setores que defendem “pacificação” política. Para esse campo, a dosimetria não seria anistia, mas apenas ajuste técnico para evitar que crimes derivados de um mesmo episódio se somem de modo excessivo. A diferença, porém, é que a anistia declara perdão político, enquanto a dosimetria altera o cálculo da pena. Na prática política, a distinção pode ser menos nítida do que parece no papel.


Críticos do projeto, como Teresa Leitão, dizem que a proposta funciona como anistia indireta. O raciocínio é simples: se a lei reduz substancialmente o tempo de pena dos condenados por tentativa de golpe, ela enfraquece o efeito pedagógico e institucional das decisões judiciais que responsabilizaram os ataques à democracia.


A derrubada do veto é também uma derrota política para Lula. O presidente havia vetado integralmente o texto em janeiro de 2026 sob o argumento de inconstitucionalidade e contrariedade ao interesse público. Ao derrubar o veto, o Congresso impôs sua maioria e deixou claro que a correlação de forças em Brasília está mais favorável ao bloco conservador e ao Centrão do que ao Palácio do Planalto.


O gesto parlamentar, porém, não encerra a disputa. Ao contrário, desloca o conflito para o Supremo. Como as condenações dos principais envolvidos na trama golpista foram impostas pelo STF, caberá à Corte decidir, se provocada, até onde uma nova lei pode interferir nos efeitos práticos dessas condenações.


Essa é a arena mais delicada. De um lado, o Congresso tem competência para legislar em matéria penal. De outro, a Constituição impõe limites ao uso da lei quando há desvio de finalidade, violação da separação de poderes ou tentativa de neutralizar decisões judiciais por meio de casuísmo legislativo.


Estátua de justiça em frente a um moderno edifício de vidro e concreto sob céu azul claro. Sensação de formalidade e tranquilidade.
Acervo arquivístico do STF | Fonte: Site oficial do CNJ

A fala de Teresa Leitão também expõe uma estratégia mais ampla do bolsonarismo. Desde a condenação de Jair Bolsonaro, seus aliados vêm buscando três caminhos simultâneos: a narrativa de perseguição política, a reorganização eleitoral em torno de Flávio Bolsonaro e a tentativa legislativa de reduzir os efeitos jurídicos da punição.


A dosimetria se encaixa nesse terceiro eixo. Ela não absolve Bolsonaro, mas pode diminuir sua pena e antecipar benefícios na execução penal. Politicamente, isso permite ao bolsonarismo apresentar a derrubada do veto como vitória, sem assumir formalmente a impopularidade de uma anistia plena aos responsáveis pela tentativa de golpe.


É nessa fresta que Teresa Leitão finca sua crítica. Para ela, o nome técnico do projeto encobre uma operação política. “Dosimetria” soa como cálculo jurídico, mas, na leitura da senadora, o que está em curso é uma disputa sobre impunidade, memória democrática e força institucional da extrema direita.


A intervenção de Teresa Leitão carrega também um significado regional. Primeira mulher eleita senadora por Pernambuco, ela fala a partir de um estado que tem tradição de participação política intensa e memória viva de lutas democráticas. Ao se posicionar contra o PL da Dosimetria, a parlamentar busca associar Pernambuco ao campo de defesa institucional, numa conjuntura em que o Nordeste permanece como base estratégica do lulismo e alvo permanente da disputa simbólica nacional.


Não se trata apenas de uma fala partidária. É uma tentativa de marcar posição num debate em que o vocabulário jurídico muitas vezes esconde o conflito real. A pergunta que atravessa o episódio é direta: como uma democracia deve tratar quem tentou destruí-la?


Com a derrubada do veto, o próximo passo formal é a promulgação do texto pelo Congresso. Depois disso, a disputa deve seguir por dois caminhos. No campo jurídico, defesas de condenados podem pedir revisão de penas. No campo institucional, partidos contrários ao projeto devem acionar o STF para tentar barrar ou limitar os efeitos da nova regra.


No campo político, a votação fortalece o discurso bolsonarista de revanche e amplia a pressão sobre o governo Lula. Ao mesmo tempo, dá à esquerda um argumento poderoso para mobilizar sua base: a tese de que a maioria parlamentar está convertendo poder legislativo em instrumento de proteção de aliados condenados por atacar a democracia.


A fala de Teresa Leitão, não é apenas reação a uma votação. É um alerta sobre a qualidade republicana da lei. Num país que ainda tenta processar os traumas do 8 de janeiro e da Ditadura Militar, a dosimetria virou mais que um cálculo de pena. Virou um teste de memória institucional.


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Raul Silva é jornalista político sênior de O estopim, especialista em Ciência Política, instituições democráticas e relações entre poder, território e sociedade no Nordeste brasileiro.


Por Raul Silva para O estopim | 11 de abril de 2026




O novo levantamento do Datafolha, divulgado neste sábado, 11 de abril de 2026, redesenha a corrida presidencial ao mostrar um país mais dividido, mais desconfiado e menos disposto a entregar vantagem confortável a qualquer um dos polos. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores com 16 anos ou mais, em 137 municípios, entre 7 e 9 de abril, com margem de erro de dois pontos percentuais. No retrato mais sensível do momento, Luiz Inácio Lula da Silva aparece com 39% no primeiro turno, contra 35% de Flávio Bolsonaro, e empata tecnicamente no segundo turno com o senador do PL, que marca 46% ante 45% do presidente.


Duas pessoas em trajes formais falam em ambientes distintos. À esquerda, fundo com cortina cinza; à direita, pessoas ao fundo.
Pré-candidatos Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) em destaque. | Foto: Fotomontagem Gazeta do Povo (Ricardo Stuckert/PR e Andressa Anholete/Agência Senado

A fotografia eleitoral não se resume ao duelo entre governo e oposição. A pesquisa também mostra uma deterioração ampla de confiança nas instituições, recorde de desconfiança em relação ao Supremo Tribunal Federal, insegurança elevada em relação ao processo eleitoral e sinais de desgaste social que atravessam economia doméstica, endividamento com apostas online e até o humor do país diante da Copa do Mundo de 2026. O dado central é que a disputa entrou na fase em que a rejeição pesa tanto quanto a intenção de voto.


A pesquisa Datafolha foi registrada no TSE sob o protocolo BR-03770/2026. As entrevistas foram presenciais e ocorreram entre 7 e 9 de abril de 2026. O levantamento ouviu 2.004 eleitores em 137 municípios. A margem de erro é de 2 pontos percentuais e o nível de confiança é de 95%.


Gráfico de barras horizontal mostra intenção de votos para presidente: Lula 20%, Bolsonaro 14%, indecisos 52%, em 11/04/2026.
A pesquisa de voto espontâneo para presidente, realizada em 11 de abril de 2026, revela que 52% dos eleitores estão indecisos, enquanto Lula e Jair Bolsonaro lideram entre os mencionados, com 20% e 14%, respectivamente. | Fonte: Datafolha

No voto espontâneo, quando o eleitor responde sem ver a lista de candidatos, mais da metade do eleitorado ainda não apresenta escolha consolidada. São 52% de indecisos ou entrevistados que não citaram nenhum nome. Lula tem 20% e Jair Bolsonaro, embora inelegível, aparece com 14%, o que sinaliza que a memória política do campo conservador continua ancorada no ex-presidente. Tarcísio de Freitas, Ciro Gomes, o “atual presidente” e o “candidato do PT” aparecem com 1% cada.


O número mostra um eleitorado ainda pouco mobilizado formalmente, mas preso aos dois polos que dominam a política nacional desde a última década. Mesmo sem disputar, Jair Bolsonaro segue funcionando como referência simbólica do campo conservador. Lula, por sua vez, mantém liderança na lembrança espontânea, mas distante de um patamar que indique conforto.


Gráfico de barras mostrando intenções de voto no 1º turno. Lula 39%, Flávio 35%. Barras azuis, fundo branco. Texto no topo.
Gráfico de intenção de voto no 1º turno mostra Lula (PT) com 39% e Flávio (PL) com 35%, indicando uma disputa acirrada. Decisões de eleitores indecisos (4%) e votos brancos/nulos (10%) podem ser cruciais no resultado final. | Fonte: Datafolha

No cenário estimulado de primeiro turno, Lula lidera com 39%, seguido por Flávio Bolsonaro, com 35%. Ronaldo Caiado marca 5%, Romeu Zema registra 4%, Renan Santos tem 2%, Aldo Rebelo e Cabo Daciolo aparecem com 1% cada. Brancos, nulos e nenhum somam 10%, enquanto 4% dizem não saber.


O número mais importante não é apenas a liderança de Lula, mas o tamanho da vantagem. A diferença de quatro pontos está dentro de uma zona politicamente desconfortável para um incumbente que busca a reeleição. O presidente conserva a dianteira, mas não impõe distância segura. Flávio, por sua vez, mostra que herdou parcela relevante do espólio bolsonarista e conseguiu converter lembrança orgânica do pai em intenção de voto estimulada.


Gráfico de barras comparando cenários de 2° turno: Flávio x Lula, Lula x Caiado, Lula x Zema. Percentuais em azul, laranja, verde e vermelho.
Cenários do segundo turno apontam disputa acirrada, com Candidato 1 e Candidato 2 em empate técnico, tornando o resultado crucial para o Planalto. | Fonte: levantamento Datafolha de 11 de abril de 2026.

É no segundo turno que a pesquisa ganha peso estratégico. No principal cenário testado, Flávio Bolsonaro tem 46% e Lula, 45%. Como a margem de erro é de dois pontos, o quadro é de empate técnico. Ainda assim, a ultrapassagem numérica tem efeito político imediato. Ela desmonta a narrativa de vantagem estável do presidente e obriga o governo a reconhecer que a corrida entrou em território de risco real.


Nos cenários contra Ronaldo Caiado e Romeu Zema, Lula aparece com 45%, enquanto ambos marcam 42%. A diferença é pequena e também fica dentro da margem de erro. O ponto comum é a estabilidade do presidente em torno dos 45%, índice que funciona ao mesmo tempo como piso e teto. Há um núcleo duro consolidado, mas há também dificuldade clara de expansão.


Gráfico de barras comparando rejeição e conhecimento de candidatos. Barras azuis (rejeição) e laranja (conhecimento) variam de 16% a 99%.
Nível de rejeição impede avanços significativos entre os dois candidatos favoritos, Lula e Flávio. | Fonte: Datafolha

Se o primeiro turno mostra força competitiva, a rejeição mostra o limite estrutural dos candidatos. Lula lidera também nesse indicador, com 48%, seguido de perto por Flávio Bolsonaro, com 46%. Depois deles, todos os demais aparecem bem abaixo. Cabo Daciolo tem 19%, Zema e Renan Santos, 17%, Caiado e Aldo Rebelo, 16%.


Em tese, esses números poderiam sugerir espaço para uma alternativa moderada. Mas o mesmo levantamento mostra que Lula é conhecido por 99% do país e Flávio por 93%, enquanto Caiado é conhecido por 46%, Zema por 44%, Aldo por 33% e Renan Santos por 24%. Em outras palavras, parte da baixa rejeição desses nomes decorre simplesmente de baixa exposição nacional. À medida que uma campanha nacional elevaria a visibilidade, a resistência também tenderia a subir.


A pesquisa ainda indica um obstáculo adicional para o bolsonarismo. Segundo os recortes compilados pelo Datafolha, 61% rejeitam candidaturas que prometam anistia a Jair Bolsonaro e a aliados condenados por tramas contra a democracia. Isso limita a margem de ampliação de Flávio para além da própria base.


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Os recortes demográficos compilados no relatório merecem atenção porque mostram erosão em terrenos antes mais seguros para o lulismo. No Nordeste, Lula ainda lidera com folga, 53% a 25% sobre Flávio Bolsonaro. Ainda assim, a vantagem é menor do que em medições anteriores citadas na pesquisa Datafolha, um sinal de alerta para a coordenação petista.


Entre as mulheres, Lula também mantém a dianteira, com 41% contra 26%. O problema para o Planalto é que o campo conservador reduziu a distância num segmento em que o bolsonarismo original costumava sofrer resistência muito maior. O relatório também aponta que o presidente vai melhor entre católicos, enquanto Flávio concentra força mais robusta no eleitorado evangélico.


No campo da chamada terceira via, Caiado e Zema continuam sem escala nacional, mas mantêm nichos de competitividade regional e socioeconômica. Caiado cresce no Centro-Oeste e entre famílias de renda intermediária. Zema melhora desempenho entre os mais ricos. Esses bolsões, por si só, não os colocam no centro da disputa, mas podem influenciar alianças e transferências no segundo turno.


Gráfico de barras mostrando rejeição e conhecimento de candidatos. Barras azuis e laranjas indicam percentuais. Título: Rejeição eleitoral.
Rejeição elevada e nível de conhecimento dos candidatos demonstram desafio para o governo. | Fonte: Pesquisa Datafolha

A avaliação da administração federal ajuda a explicar o encurtamento eleitoral. Segundo o levantamento, 40% classificam o governo Lula III como ruim ou péssimo, 32% o consideram ótimo ou bom, 26% o veem como regular e 1% não soube responder. Quando a pergunta recai sobre o desempenho pessoal do presidente, a desaprovação chega a 49%, ante 47% de aprovação.


Esse quadro não implica colapso eleitoral automático, mas restringe a capacidade de o governo transformar políticas públicas em capital político de curto prazo. Um presidente pode vencer com avaliação dividida, mas dificilmente atravessa uma campanha longa sem que a desaprovação influencie debate sobre custo de vida, serviços públicos e credibilidade administrativa.


Gráfico de barras horizontais em azul mostrando sinais de desgaste institucional e humor social. Percentuais variam de 27% a 79%.
Pesquisa aponta sinais de desgaste institucional; 79% reprovam ministros do STF em casos de parentes, e 69% expressam insegurança sobre urnas e processo eleitoral. | Fonte: Datafolha

O levantamento vai além da corrida presidencial e mede um mal-estar institucional profundo. A desconfiança no STF chega a 43%, patamar recorde segundo o Datafolha. Apenas 16% dizem ter muita confiança na Corte. A avaliação direta do trabalho dos ministros também é negativa. São 39% os que classificam a atuação do tribunal como ruim ou péssima, contra 23% que a consideram ótima ou boa.


Outro dado de forte impacto político e ético é o repúdio à participação de ministros do STF em julgamentos que envolvam clientes de escritórios ligados a parentes. O índice de desaprovação chega a 79%. No ambiente eleitoral, 69% dizem sentir algum grau relevante de insegurança em relação ao processo eleitoral e às urnas.


A crise de confiança não fica restrita ao Judiciário. O Datafolha aponta 36% de desconfiança em relação ao Judiciário como um todo, 36% de desconfiança na imprensa, 27% de ceticismo absoluto em relação às Forças Armadas e baixa confiança sólida em grandes empresas. Esse ambiente favorece discursos de contestação sistêmica e dificulta a construção de consensos públicos mínimos.


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A pesquisa chama atenção para indicadores sociais menos usuais em pesquisas eleitorais. Um deles é o impacto das apostas online sobre o orçamento das famílias. Segundo a compilação, quatro em cada dez apostadores relatam ter entrado em endividamento ou inadimplência severa. O dado ajuda a entender por que parte do mal-estar econômico não se traduz automaticamente em apoio a medidas do governo, mesmo quando há políticas de alívio de renda.


Outro termômetro simbólico aparece no futebol. Apenas 33% acreditam que o Brasil será campeão da Copa do Mundo de 2026. O número funciona como sinal de um país menos confiante até em seus próprios marcadores simbólicos de grandeza nacional.


O cenário de abril não define a eleição de outubro, mas altera o eixo do jogo. O governo entra na fase decisiva sem a gordura que imaginava ter no fim de 2025. O bolsonarismo, por sua vez, prova que encontrou um nome competitivo em Flávio Bolsonaro, mas ainda enfrenta um teto alto de rejeição e a dificuldade de expandir sem reacender o debate sobre anistia e radicalização.


Para Lula, a tarefa mais urgente é recompor vantagem entre mulheres, proteger o Nordeste, reduzir a desaprovação do governo e impedir que o empate técnico no segundo turno se consolide como percepção dominante. Para Flávio, o desafio é ampliar competitividade sem perder o vínculo orgânico com a base do bolsonarismo e sem transformar a memória do pai em âncora de rejeição. Para a terceira via, a pesquisa reforça um diagnóstico duro. Há espaço para ruído, barganha e influência regional, mas ainda não há musculatura para quebrar a polarização.


No fim, o levantamento desenha uma eleição presidencial que será disputada menos no terreno do entusiasmo e mais no da contenção de danos. O país que sai dessa pesquisa não é só o país do empate técnico. É o país da confiança quebrada, da fadiga institucional e da incerteza elevada a seis meses da urna.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim. Atua na cobertura de política, poder e interesse público, com foco em apuração documental, leitura de dados e contextualização dos fatos para o ambiente digital.

Por Raul Silva para O estopim | 9 de abril de 2026



Três homens de meia-idade em close com expressões sérias. Todos usam ternos escuros e gravatas coloridas. Fundo neutro.
Pré-candidatos à Presidência, o presidente Lula, o senador Flávio Bolsonaro e o governador Ronaldo Caiado destacam-se na política nacional enquanto planejam suas campanhas. | Foto: Montagem com fotos de Brenno Carvalho/Agência O Globo

A nova pesquisa Meio/Ideia, realizada entre 3 e 7 de abril, mostra que a corrida presidencial de 2026 entra em uma fase de maior incerteza. Depois do fim da janela partidária e do período de desincompatibilização para parte dos pré-candidatos, 51,4% dos entrevistados dizem que ainda podem mudar de voto até outubro. O dado, somado ao empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro em um dos cenários de segundo turno, indica uma eleição aberta, com espaço real para reorganização das forças políticas nos próximos meses.


O principal achado do levantamento não é apenas a liderança de Lula no primeiro turno estimulado, com 40,4%, diante de 37% de Flávio Bolsonaro. O dado mais relevante é a erosão da convicção do eleitor. Em janeiro, 64,5% se declaravam decididos. Em abril, esse grupo caiu para 48,6%. A curva se inverteu, e os eleitores disponíveis para trocar de candidato passaram a ser maioria.


Gráfico mostra queda na decisão de voto de 64,5% a 51,4% e aumento de indecisos de 35,5% a 48,6%, de jan a abr/2026.
Evolução da decisão de voto de janeiro a abril de 2026: A proporção de eleitores decididos diminui de 64,5% para 48,6%, enquanto a porcentagem de eleitores que ainda podem mudar seu voto aumenta de 35,5% para 51,4%. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Essa mudança ajuda a explicar por que o quadro permanece instável mesmo depois de uma etapa importante do calendário eleitoral. A janela partidária terminou em 3 de abril, e os prazos de desincompatibilização passaram a incidir em abril para parte dos ocupantes de cargos públicos, o que tende a reduzir a zona cinzenta sobre quem de fato pretende disputar a Presidência. Ainda assim, a definição institucional não se converteu em cristalização do voto.


No cenário estimulado de primeiro turno, Lula aparece na dianteira, mas sem uma vantagem capaz de encerrar a disputa. Flávio Bolsonaro concentra a maior parte do voto de direita já transferido, porém ainda opera em terreno menos consolidado do que o do presidente. Entre os eleitores de Lula, 73,4% dizem estar decididos. Entre os de Flávio, esse índice cai para 39,6%.


Gráfico de barras horizontais mostra Lula com 40,4% e Flávio Bolsonaro com 37% no 1º turno. Outros candidatos têm percentuais menores.
Cenário eleitoral do 1º turno estimulado: Lula lidera com 40,4%, seguido por Flávio Bolsonaro com 37,0%. Outros candidatos apresentam porcentagens menores, enquanto 8,5% dos entrevistados ainda não sabem em quem votar. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

A espontânea reforça esse retrato. Lula marca 32,6%, enquanto Flávio tem 19,4%. Jair Bolsonaro ainda aparece com 6%, mesmo fora do jogo formal. Isso sugere que uma parcela do eleitorado bolsonarista continua dispersa, seja por resistência à transferência automática do capital político, seja por espera estratégica de novos movimentos no campo conservador.


Em termos práticos, Lula tem hoje um eleitorado mais consistente. Flávio, por sua vez, demonstra maior capacidade de competitividade numérica imediata, mas com base mais fluida. É uma diferença decisiva para entender a campanha: um candidato pode estar perto no placar e, ainda assim, depender mais de reacomodações do que de fidelidade consolidada.


O levantamento mostra que a direita ainda não concluiu seu processo de aglutinação. Ronaldo Caiado aparece com 6,5% no cenário estimulado, enquanto Romeu Zema e Renan Santos marcam 3% cada. Aldo Rebelo surge com 0,6%. O número mais eloquente, porém, está no grau de firmeza desses eleitorados. Entre os apoiadores de Caiado, 69,4% ainda admitem mudar de voto. Entre os de Zema, o índice chega a 80%.


Isso significa que a disputa no campo conservador está longe de resolvida. Há voto disponível, mas ainda sem travamento definitivo. Para Lula, esse quadro tem duas leituras possíveis. A primeira é positiva: a fragmentação adversária dificulta a formação de uma maioria estável já no primeiro turno. A segunda é mais arriscada: uma eventual convergência mais adiante pode reduzir rapidamente a vantagem hoje observada.


É no segundo turno que a pesquisa ganha maior densidade política. Contra Flávio Bolsonaro, Lula marca 45,5%, e o adversário, 45,8%. A diferença de 0,3 ponto percentual configura empate técnico dentro da margem de erro. Contra Caiado, Lula vence por 45% a 39%. Contra Zema, a vantagem é de 44,7% a 38,7%. Diante de Renan Santos e Aldo Rebelo, a distância cresce ainda mais.


Gráfico de barras horizontais mostra porcentagens de votos no 2º turno. Flávio empata; Lula e Adversário em azul e verde. Texto indica disputa equilibrada.
Gráfico comparativo do 2º turno mostra empate com Flávio Bolsonaro e vantagem dos adversários sobre outros candidatos. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

A leitura é objetiva. O nome que hoje apresenta maior potência eleitoral contra Lula é Flávio Bolsonaro. Não porque tenha o eleitorado mais sólido, mas porque já ocupa o ponto de maior eficiência na transferência do campo bolsonarista para um cenário competitivo. Ao mesmo tempo, a alta volatilidade do seu apoio indica que esse desempenho ainda pode crescer ou encolher de forma relevante.


A pesquisa também ajuda a entender o humor material do eleitor. Sete em cada dez brasileiros afirmam que o custo de vida aumentou no último ano. Quatro em cada dez dizem estar mais endividados. E 74,7% classificam custo de vida e endividamento como temas muito importantes ou importantes na hora de votar.


Gráfico de barras mostrando a pressão econômica como fator eleitoral: custo de vida 70,4%, endividamento 40%, tema relevante no voto 74,7%.
Avaliação do governo Lula: 70,4% dos entrevistados percebem aumento no custo de vida, 40% sentem maior endividamento, e 74,7% consideram esses temas importantes na decisão de voto. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Esse bloco de dados dialoga diretamente com a avaliação do governo. Na medição geral, Lula soma 46,4% de ruim ou péssimo, contra 32,2% de ótimo ou bom. Na economia, o saldo negativo também é superior ao positivo. Na segurança pública, a diferença piora e o governo registra seu pior desempenho setorial, com 53,9% de ruim ou péssimo.


Gráfico de barras mostra avaliação do governo nas áreas Geral, Economia e Segurança. Cores indicam Ótimo/Bom, Regular, Ruim/Péssimo.
Avaliação do governo: segurança pública recebe a pior avaliação, com 53,9% considerando ruim/péssimo, enquanto a economia tem 44,6% de avaliação negativa e a geral 46,4%. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Em uma eleição nacional, percepção econômica e sensação de ordem cotidiana costumam funcionar como chaves de decisão tardia. Quando mais da metade do eleitorado declara que ainda pode mudar de voto, essas variáveis ganham peso adicional. Não se trata apenas de rejeição ideológica ou identidade partidária. Trata-se de custo de vida, dívida e sensação de perda de controle sobre a rotina.


Outro aspecto relevante do levantamento é a presença de temas institucionais no imaginário do eleitor. Para 42,5% dos entrevistados, a maior ameaça à democracia brasileira hoje é a concentração de poder no Judiciário. O índice supera com folga a corrupção dos políticos, a polarização, a desinformação e a influência estrangeira nas eleições.


Gráfico de barras mostrando ameaças à democracia segundo entrevistados. "Poder no Judiciário" lidera com 42,5%. Título: "Para os entrevistados, principal ameaça à democracia está no Judiciário".
Para os entrevistados, a principal ameaça à democracia é o "Poder no Judiciário", com 42,5%, seguido pela "Corrupção dos políticos" com 16,5%. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Na pergunta sobre anistia após os atos de 8 de janeiro, 41% se dizem contra qualquer tipo de perdão. Mas a soma dos favoráveis chega a 53%, dividida entre anistia ampla, inclusive para Jair Bolsonaro e militares, e anistia restrita aos manifestantes, sem alcançar lideranças. O tema, portanto, não está resolvido socialmente. Ele segue aberto e pode ser mobilizado tanto pelo campo conservador quanto por setores que apostam no discurso de pacificação.


Esses números sugerem que a eleição de 2026 não será decidida apenas entre economia e rejeição partidária. Haverá também uma disputa de narrativa sobre sistema de Justiça, limites institucionais, memória do 8 de janeiro e legitimidade da mediação internacional sobre o processo eleitoral.


A pesquisa oferece três conclusões firmes. A primeira é que Lula continua competitivo e lidera o primeiro turno estimulado. A segunda é que Flávio Bolsonaro, hoje, é o adversário mais forte para um eventual segundo turno. A terceira é que a maioria do eleitorado ainda não fechou posição.


Mas há também limites claros. Pesquisa é fotografia, não roteiro definitivo. O levantamento capta um momento em que o cardápio de candidaturas ficou mais nítido, mas ainda não entrou na fase mais intensa de campanha, alianças, exposição publicitária, debates e eventual deslocamento de apoios regionais. Em outras palavras, o cenário está menos nebuloso do que no começo do ano, mas segue longe de uma consolidação.


A implicação política é evidente. Lula chega ao meio do primeiro semestre com vantagem competitiva, porém sem margem para acomodação. A direita, por sua vez, já tem um nome capaz de ameaçar o presidente, mas ainda depende de coesão, disciplina e retenção de voto para transformar potencial em maioria.


A pesquisa Meio/Ideia ouviu 1.500 pessoas entre 3 e 7 de abril de 2026, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-00605/2026-BRASIL.


O retrato de abril deixa um diagnóstico central: a eleição presidencial de 2026 está aberta porque o eleitor está aberto. E, quando o eleitor ainda não travou sua decisão, a campanha deixa de ser apenas disputa entre nomes e passa a ser uma guerra por sensação de segurança, memória política, autoridade institucional e capacidade de falar ao bolso.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, eleições, dados públicos e temas de interesse coletivo.

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