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Custódia do ex-diretor da Abin e ex-deputado condenado por tentativa de golpe abre nova frente entre cooperação internacional, discurso de perseguição e disputa sobre asilo político


Por Raul Silva para O estopim | 13 de abril de 2026




Homem de terno escuro e gravata fala ao microfone, com expressão séria. Fundo azul. Ambiente formal, possivelmente uma conferência.
Ex-deputado Alexandre Ramagem que estava foragido da justiça brasileira foi preso pelo ICE nos EUA | Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados

A detenção de Alexandre Ramagem pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos, o ICE, nesta segunda-feira, recoloca no centro do debate um tema que ultrapassa a biografia do ex-diretor da Abin e ex-deputado federal: até onde vai a capacidade do Estado brasileiro de fazer valer, fora de suas fronteiras, decisões judiciais ligadas à trama golpista que tentou corroer a ordem democrática após a eleição de 2022.


O estopim deste novo capítulo está menos no gesto policial em si e mais no que ele simboliza. Ramagem não era um réu periférico. Ao contrário. Sua trajetória conectou aparato de inteligência, núcleo político bolsonarista, disputa eleitoral, tentativa de deslegitimação do sistema de votação e, mais tarde, fuga para os Estados Unidos depois da condenação. Sua detenção, portanto, não é um episódio isolado. É a continuação internacional de uma crise brasileira.


Confirmada por autoridades brasileiras e noticiada pela imprensa internacional, a custódia ocorre meses depois de o governo do Brasil formalizar o pedido de extradição do ex-parlamentar aos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, aliados de Ramagem sustentam a versão de que a ação teria nascido de uma abordagem por infração leve de trânsito e que o ex-deputado teria pedido de asilo pendente. Até aqui, porém, o ponto decisivo é outro: não há explicação pública conclusiva sobre qual foi o fundamento imediato da ação do ICE.


Alexandre Ramagem foi detido em território norte-americano e aparece como caso sob custódia migratória, segundo relatos convergentes de autoridades brasileiras e da cobertura jornalística desta segunda-feira. A Polícia Federal e o Ministério da Justiça e Segurança Pública confirmaram a ocorrência da prisão.


Também está documentado que o governo brasileiro já havia formalizado, no fim de janeiro, o pedido de extradição aos Estados Unidos. O ofício enviado ao Supremo Tribunal Federal informa que a solicitação foi entregue pela embaixada brasileira em Washington ao Departamento de Estado em 30 de dezembro de 2025. Não há prazo público para a análise desse pedido.


Outro dado central é o contexto penal. Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado. Depois, perdeu o mandato parlamentar. Segundo informações oficiais já divulgadas, ele deixou o Brasil em setembro de 2025, pela fronteira com a Guiana, e seguiu para os Estados Unidos antes da execução da pena.


Homem com colete "POLICE ICE" de costas, diante de bandeira dos EUA rachada e logo "U.S. Customs and Border Protection". Atmosfera séria.
Agente do ICE diante de um fundo com a bandeira dos EUA e o emblema da proteção de fronteiras, simbolizando a fiscalização e controle imigratório. | Foto: Reprodução

Há uma diferença decisiva entre fato confirmado e versão interessada. O fato confirmado é a detenção pelo ICE. A versão interessada, até agora sem confirmação pública independente, é a de que tudo começou apenas com uma infração leve de trânsito em Orlando e de que o caso seria estritamente burocrático do ponto de vista migratório.


Essa diferença importa porque ela define o enquadramento da notícia. Se a causa imediata foi apenas uma abordagem policial de rotina, o caso pode caminhar inicialmente pela trilha migratória comum. Se houve acionamento decorrente da cooperação entre Brasil e Estados Unidos, o peso político e judicial da detenção é outro. As duas possibilidades não são mutuamente excludentes, mas hoje não há transparência suficiente para cravar qual delas prevalece.


Também não há, até este momento, documentação pública detalhada que permita verificar em que estágio está eventual pedido de asilo, nem se esse elemento produz efeito imediato capaz de travar uma remoção ou apenas abrir uma disputa administrativa e judicial mais longa.


No plano jurídico norte-americano, a detenção pelo ICE não se confunde automaticamente com extradição. São trilhas que podem dialogar politicamente, mas não são idênticas. Em regra, a frente migratória passa pelo Departamento de Segurança Interna e pela Justiça migratória. Quando o governo entende que um estrangeiro deve responder a procedimento de remoção, o processo se inicia com uma notificação formal e segue para análise de um juiz de imigração, que pode examinar a removibilidade e eventual pedido de proteção contra a retirada do país.


A frente extradicional, por sua vez, tem outra natureza. Ela envolve a solicitação formal feita por um Estado a outro, tramitação diplomática e exame judicial dentro das regras aplicáveis ao acordo bilateral e à legislação americana. Em termos práticos, isso significa que a detenção de Ramagem pode produzir uma convergência entre as duas esferas, mas essa convergência não é automática.


Traduzindo para o leitor: estar sob custódia do ICE não significa, por si só, embarque imediato para o Brasil. Significa, isso sim, que a permanência dele em território americano entrou numa zona crítica de revisão institucional.


Para o governo brasileiro e para o sistema de Justiça, o caso tem valor simbólico e operacional. Simbólico porque a responsabilização dos articuladores da ruptura democrática perde coerência se quadros centrais conseguem transformar o exterior em abrigo seguro. Operacional porque o êxito, ainda que parcial, de mecanismos de cooperação internacional reforça a autoridade das decisões do STF.


Para o bolsonarismo, a batalha é outra. O esforço é converter uma condenação por tentativa de golpe numa narrativa de perseguição política, buscando deslocar a discussão do campo penal para o campo ideológico. O asilo, nesse contexto, deixa de ser apenas instrumento jurídico e passa a funcionar como peça de comunicação política. Não se trata apenas de permanecer nos Estados Unidos. Trata-se de produzir a imagem de exilado.


Para os Estados Unidos, o caso também é sensível. Ele cruza política migratória, relações diplomáticas e o custo de hospedar personagens estrangeiros associados a ataques institucionais em seus países de origem. Em outras palavras, a pergunta americana não é apenas quem é Ramagem, mas que tipo de precedente o tratamento dado a ele pode criar.


A prisão de Ramagem fora do Brasil ilumina uma verdade incômoda sobre a crise institucional brasileira: os efeitos do bolsonarismo radicalizado deixaram de caber apenas nas fronteiras nacionais. A trama golpista produziu desdobramentos transnacionais, seja pela circulação de personagens, seja pelo uso de redes políticas e ideológicas internacionais para tentar blindar condenados.


Há ainda um dado estrutural. Ramagem ocupou posto estratégico de inteligência no governo Bolsonaro. Isso confere ao episódio densidade distinta. Quando um ex-chefe de inteligência, condenado por participação em ação contra a ordem democrática, foge e acaba detido no exterior, a notícia não fala apenas de um indivíduo. Ela fala da degradação de mecanismos estatais que deveriam proteger a República e que, em vez disso, foram arrastados para dentro da disputa de facção.


No curto prazo, há pelo menos três cenários plausíveis.


  • O primeiro é a liberação sob condições, caso a frente migratória avance mais rapidamente do que a extradicional e a defesa consiga sustentar algum tipo de proteção provisória.

  • O segundo é a manutenção da custódia com aprofundamento da cooperação entre autoridades brasileiras e americanas, o que aproximaria o caso de um desfecho favorável à entrega ao Brasil.

  • O terceiro é um impasse prolongado, com judicialização, disputa sobre asilo, recursos e forte exploração política do caso pelos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.


Nenhum desses cenários é neutro. Todos carregam efeitos sobre a percepção pública da força das instituições brasileiras, da confiabilidade da cooperação internacional e da capacidade da extrema direita de fabricar mártires a partir de réus condenados.


Mais do que o destino pessoal de Alexandre Ramagem, o que está em disputa é a mensagem institucional do caso. Se a democracia brasileira condena, mas não consegue executar; se a cooperação internacional é acionada, mas não produz consequência; se a fuga vira apenas etapa tática de um roteiro político, o sinal emitido é de fragilidade.


Se, ao contrário, o processo avançar com base em devido processo legal, transparência mínima e coordenação entre Estados, o episódio pode se tornar um marco de responsabilização real, e não apenas simbólica, dos agentes que apostaram na ruptura.


Em política, a forma também é substância. E, neste caso, a forma como Brasil e Estados Unidos tratarão Ramagem dirá muito sobre o valor concreto que ambos atribuem à defesa da institucionalidade democrática.


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Raul Silva é jornalista político e analista de conjuntura de O estopim. Escreve sobre instituições, democracia, relações de poder e os efeitos sociais das decisões tomadas no topo da República.


IN FUX WE TRUST | A pergunta "onde estava a jurisprudência de Fux no julgamento de Lula?" expõe uma das contradições mais gritantes na atuação de um ministro do Supremo Tribunal Federal nos últimos anos. A análise comparativa entre os votos de Luiz Fux nos casos envolvendo Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro revela não apenas uma mudança radical de postura jurídica, mas questiona fundamentalmente os critérios que orientam a aplicação da justiça no Brasil quando os réus pertencem a espectros políticos opostos.


O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Reprodução
O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Reprodução

O Fux Punitivista: rigor implacável contra Lula


Em 4 de abril de 2018, durante uma das sessões mais tensas da história do STF, Fux votou categoricamente contra a concessão do habeas corpus preventivo a Lula, contribuindo para o placar de 6 votos a 5 que autorizou a prisão do ex-presidente. Seu voto foi técnico, direto e implacável.


"A presunção de inocência cessa a partir do momento em que, através de decisão judicial, se considera o paciente culpado. Um acordão condenatório, que não é ilegal, que não é injusto, assenta de forma inequívoca a culpa do réu", declarou Fux, estabelecendo uma interpretação restritiva do princípio constitucional da presunção de inocência.

Para Fux, à época, o dispositivo constitucional que prevê que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado "não tem nada a ver com a prisão, absolutamente nada a ver com a prisão". O ministro foi enfático:


"Esse dispositivo não tem a menor vinculação com a execução provisória de segunda instância".

O aspecto mais revelador do voto de Fux contra Lula foi sua justificativa baseada na "legitimidade democrática" da prisão em segunda instância.


"O Supremo fixou tese jurídica de que presunção de inocência não inibe execução provisória da pena. Essa interpretação passou a usufruir de legitimidade democrática das decisões judiciais", argumentou.

Fux foi além, afirmando que a interpretação literal da Constituição sobre presunção de inocência:


"só tem um resultado: levar o Judiciário a níveis alarmantes de insatisfação perante os destinatários das nossas decisões". Para ele, "quando estão em jogo questões morais, razões de ordem pública, é preciso saber o que a sociedade pensa disso".

A postura rigorosa de Fux não se limitou ao caso Lula. Durante o julgamento do Mensalão em 2012, ele foi um dos ministros mais alinhados ao relator Joaquim Barbosa, votando sistematicamente pela condenação dos réus.


No Mensalão, Fux condenou:

  • 12 réus ligados a partidos da base aliada por lavagem de dinheiro, corrupção passiva e formação de quadrilha

  • José Dirceu, José Genoíno e outros líderes petistas por formação de quadrilha, afirmando que houve "um projeto delinquencial" que durou mais de dois anos

  • João Paulo Cunha e Henrique Pizzolato por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro

  • Marcos Valério e seu grupo por corrupção ativa e peculato


Durante a Lava Jato, Fux manteve o perfil rigoroso, defendendo a operação até mesmo após as revelações da Vaza Jato. "Ninguém pode esquecer o que ocorreu no Brasil, no mensalão, na Lava Jato", declarou em junho de 2022, complementando:


"Cada ato de corrupção é um colégio que fica sem merenda para as crianças. Cada ato de corrupção é um hospital sem leito".

A metamorfose Garantista: Fux no caso Bolsonaro


A transformação de Fux tornou-se evidente em 2025, especialmente nos casos relacionados ao 8 de janeiro e à trama golpista. "Confesso que em determinadas ocasiões me deparo com uma pena exacerbada", admitiu Fux durante sessão da Primeira Turma, sinalizando sua nova filosofia jurídica.


O caso mais emblemático foi o de Débora dos Santos, condenada por Alexandre de Moraes a 14 anos por pichar "perdeu, mané" na estátua da Justiça. Fux pediu vista e propôs apenas um ano e seis meses de reclusão. "Dosimetria não é matemática. A dosimetria exige equidade, exige humanidade", declarou, estabelecendo uma filosofia diametralmente oposta à que aplicou no caso Lula.


No julgamento da trama golpista, Fux tem sistematicamente divergido de Alexandre de Moraes:

  1. Competência: Defende que o julgamento deveria ocorrer no plenário completo, não na Primeira Turma

  2. Delação de Mauro Cid: Questiona a "liberdade psíquica" do delator

  3. Medidas Cautelares: Foi o único a votar contra a tornozeleira eletrônica de Bolsonaro

  4. Dosimetria: Propõe penas mais brandas, seguindo uma "filosofia humanizada"


"Dosimetria não é aritmética, não há critérios matemáticos para fixação da pena. Por isso que juízes não podem ser substituídos por inteligência artificial, porque, se fosse matemática, teríamos, nesse mundo caótico, julgamentos destituídos de análise equânime, humana", declarou Fux no voto sobre Dino.

Esta declaração contrasta frontalmente com sua posição no caso Lula, quando afirmou que "um acordão condenatório assenta de forma inequívoca a culpa do réu", sem espaço para "análise equânime, humana".


Critérios jurídicos ou políticos?


Em 2018, Fux justificou a prisão de Lula com base na "legitimidade democrática" da decisão, argumentando que o STF deveria considerar "o que a sociedade pensa" sobre questões morais. Contudo, em 2025, diante de um contexto em que parte significativa da sociedade demanda punição rigorosa aos golpistas, Fux adota postura oposta, defendendo "humanidade" e "equidade" na dosimetria.


A contradição mais gritante reside na interpretação da presunção de inocência:


No caso Lula (2018):

  • "A presunção de inocência cessa quando se considera o paciente culpado"

  • "Esse dispositivo não tem nada a ver com a prisão"


No caso Bolsonaro (2025):

  • "Dosimetria exige equidade, exige humanidade"

  • Questiona provas e delações com base em garantias constitucionais

  • Defende análise "humana" de cada caso específico


Fux, que em 2018 afirmou que "a jurisprudência do tribunal tem que ser íntegra, estável", em 2025 adota postura que contradiz frontalmente seus próprios precedentes. Especialistas questionam essa mudança. "É um juiz que tem um histórico punitista e, neste caso, tem adotado posturas mais garantistas", observa o criminalista Fábio Tofic Simantob.


As tentativas de justificativa


Defensores da mudança de Fux argumentam que se trata de uma "evolução" natural, um "ajuste para evitar erros do passado". Segundo esta interpretação, "há quem veja nessa mudança um ajuste para evitar erros do passado, quando seu rigor no Mensalão e na Lava Jato foi celebrado por parte da população, mas criticado por juristas que apontaram punitivismo e fragilidades técnicas".


A interlocutores, Fux tem afirmado que sua postura atual representa um "exercício de moderação necessário ao STF". Contudo, esta justificativa não explica por que tal "moderação" não foi aplicada no caso Lula, que também enfrentava um contexto de polarização política extrema.


Analistas apontam que a aproximação de Fux com Bolsonaro durante sua presidência do STF (2020-2022) pode ter influenciado sua mudança de postura. "A aproximação se iniciou em 2020, quando Fux presidia a Corte; e Bolsonaro, o País. Os laços se consolidaram neste ano, a partir dos contrapontos apresentados pelo ministro ao colega Alexandre de Moraes".


A crítica jurídica: onde estava a jurisprudência?


A principal crítica à atuação de Fux reside na ausência de critérios técnicos consistentes que justifiquem a mudança radical de postura. No caso Lula, aplicou interpretação restritiva de garantias constitucionais; no caso Bolsonaro, defende interpretação ampla das mesmas garantias.


O princípio da isonomia, base do Estado de Direito, exige que casos similares recebam tratamento similar. A diferença de tratamento entre Lula e Bolsonaro por parte de Fux levanta questionamentos sérios sobre a imparcialidade judicial.


"O ministro Luiz Fux é, na composição atual, o que menos concede ordens em habeas corpus, por exemplo", observa o ex-defensor público federal Caio Paiva, destacando o histórico restritivo de Fux em questões de garantias individuais.


A mudança radical de postura de Fux compromete a legitimidade institucional do STF, alimentando narrativas de que a Corte aplica "pesos e medidas" diferentes conforme a orientação política dos réus.


A dimensão política da contradição


A mudança de Fux não passou despercebida pelos grupos políticos. Durante a Lava Jato, o slogan "In Fux We Trust" (No Fux, nós confiamos) era popular entre apoiadores da operação. Em 2025, "o slogan chegou a ser reabilitado por lideranças de direita" devido às suas divergências com Moraes.


A contradição de Fux contribui para a percepção pública de que existe "justiça seletiva" no STF, onde réus de esquerda recebem tratamento mais rigoroso que réus de direita. Esta percepção mina a credibilidade das instituições democráticas.


A mudança de postura de Fux alimenta a polarização política, fornecendo argumentos tanto para críticos quanto para defensores do STF. Grupos de esquerda apontam a contradição como prova de parcialidade; grupos de direita celebram a "moderação" do ministro.


A mudança de Fux tem gerado tensões na Primeira Turma. Durante a sessão de terça-feira, ele criticou intervenções de colegas, evidenciando seu desconforto com a dinâmica estabelecida. Moraes reagiu firmemente: "Esse aparte foi pedido a mim, não a Vossa Excelência".


A postura divergente de Fux, embora legítima do ponto de vista processual, tem impacto na colegialidade do tribunal. "Ainda que represente uma posição minoritária no STF sobre os processos do golpe, a expectativa é que os votos de Fux continuem fixando um contraponto às discussões".


A jurisprudência perdida


A pergunta "onde estava a jurisprudência de Fux no julgamento de Lula?" não tem resposta técnica satisfatória. A análise comparativa demonstra que os critérios aplicados pelo ministro em cada caso são diametralmente opostos, sem justificativa jurídica consistente.


No caso Lula:

  • Interpretação restritiva da presunção de inocência

  • Defesa da prisão em segunda instância

  • Priorização da "legitimidade democrática" sobre garantias individuais

  • Postura punitivista baseada no "combate à corrupção"


No caso Bolsonaro:

  • Interpretação ampla de garantias constitucionais

  • Defesa da "humanização" da dosimetria

  • Questionamento de provas e delações

  • Postura garantista baseada na "equidade"


Esta contradição levanta questões fundamentais sobre a natureza da jurisdição constitucional no Brasil. Se um ministro do STF pode mudar radicalmente sua interpretação da Constituição conforme a orientação política do réu, qual é o valor da segurança jurídica e da isonomia?


A "jurisprudência" de Fux no caso Lula estava onde sempre deveria estar: na aplicação consistente de critérios técnicos baseados na Constituição, independentemente da pessoa do réu ou do contexto político. Sua ausência no caso Bolsonaro não representa "evolução" ou "moderação", mas sim a erosão dos princípios fundamentais que devem orientar a jurisdição constitucional.


Como bem observou o próprio Fux em 2018, "a jurisprudência do tribunal tem que ser íntegra, estável". A ironia é que, ao abandonar esta máxima no caso Bolsonaro, ele próprio contribuiu para a instabilidade jurisprudencial que tanto criticava. A questão não é se Fux estava certo em 2018 ou está certo em 2025, mas sim se é aceitável que um ministro do STF aplique critérios jurídicos diferentes conforme suas preferências políticas do momento.


A democracia brasileira exige mais de seus magistros constitucionais: exige coerência, isonomia e, sobretudo, fidelidade aos princípios constitucionais independentemente de quem senta no banco dos réus. Enquanto essa exigência não for atendida, a legitimidade do STF continuará em questão, e a pergunta sobre onde estava a jurisprudência permanecerá como símbolo da crise de credibilidade que assola o Judiciário brasileiro.

O julgamento da tentativa de golpe de Estado no Brasil atinge hoje (10), seu momento mais aguardado: o voto do ministro Luiz Fux, terceiro a se manifestar na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal. Com o placar já em 2 a 0 pela condenação de Jair Bolsonaro e outros sete réus - após os votos de Alexandre de Moraes e Flávio Dino -, Fux encontra-se numa posição única para consolidar a maioria ou abrir divergências que poderiam impactar significativamente o desfecho do processo. Sua manifestação ocorre em um contexto de crescente radicalização da extrema-direita contra o STF, simbolizada pelos ataques do governador Tarcísio de Freitas ao relator Alexandre de Moraes, numa escalada de desinformação deliberada que visa deslegitimar as instituições democráticas brasileiras.


Ministro Luiz Fux - Foto: Rosinei Coutinho/STF
Ministro Luiz Fux - Foto: Rosinei Coutinho/STF

A metamorfose Jjurídica de Luiz Fux: do Punitivismo ao Garantismo


A trajetória de Luiz Fux no STF representa uma das transformações mais notáveis na corte constitucional brasileira. Durante o julgamento do Mensalão em 2012, Fux alinhou-se ao grupo mais rigoroso, liderado pelo então relator Joaquim Barbosa, votando pela condenação de 24 réus por participação no esquema de corrupção. Sua postura punitivista se consolidou durante a Operação Lava Jato, quando se tornou um dos principais defensores da operação no STF.


"Ninguém pode esquecer o que ocorreu no Brasil, no mensalão, na Lava Jato", declarou Fux em junho de 2022, quando ainda defendia a validade das investigações mesmo após as revelações da Vaza Jato. "Cada ato de corrupção é um colégio que fica sem merenda para as crianças. Cada ato de corrupção é um hospital sem leito", completou o ministro, demonstrando sua convicção punitivista da época.

Entre 2014 e 2016, Fux defendeu fervorosamente a prisão após condenação em segunda instância e foi contra o habeas corpus que buscava evitar a prisão de Lula em 2018. Em abril de 2021, foi um dos três ministros que se posicionaram contra a anulação das condenações impostas ao ex-presidente pela 13ª Vara Federal de Curitiba.


A transformação de Fux começou a se delinear a partir de 2020, quando assumiu a presidência do STF, período em que se aproximou de Bolsonaro. Contudo, foi neste ano de 2025 que sua mudança de postura se tornou evidente, especialmente nos casos relacionados ao 8 de janeiro e à trama golpista.


O primeiro sinal claro da nova postura foi sua manifestação sobre as penas impostas aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023.


"Confesso que em determinadas ocasiões me deparo com uma pena exacerbada", admitiu Fux durante sessão da Primeira Turma.

O caso mais emblemático foi o de Débora Rodrigues dos Santos, condenada por Alexandre de Moraes a 14 anos de prisão por pichar "perdeu, mané" na estátua da Justiça. Fux pediu vista e propôs uma pena de apenas um ano e seis meses de reclusão.


"Dosimetria não é matemática. A dosimetria exige equidade, exige humanidade", declarou Fux, estabelecendo sua nova filosofia jurídica. Para o ministro, "se a dosimetria é inaugurada pelo legislador, a fixação da pena é do magistrado. E o magistrado o faz à luz da sua sensibilidade, do seu sentimento em relação a cada caso concreto".

Esta transformação não passou despercebida pelos analistas jurídicos.


"É um juiz que tem um histórico punitista e, neste caso, tem adotado posturas mais garantistas", observa o criminalista Fábio Tofic Simantob, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo.

As divergências anunciadas: sinais de tensão na Primeira Turma


Desde o início do processo, Fux tem sinalizado divergências com Alexandre de Moraes em questões fundamentais. Durante a sessão de terça-feira, após apenas sete minutos de fala do relator, Fux interrompeu Moraes para avisar que "voltaria às preliminares" quando fosse sua vez de votar.


"Desde o recebimento da denúncia, por uma questão de coerência, eu sempre ressalvei e fui vencido nessas disposições", declarou o ministro.

A principal divergência refere-se à competência da Primeira Turma para julgar o caso. Fux defende que a análise deveria ter sido feita pelo plenário completo do STF, com todos os 11 ministros, não apenas pelos cinco da Primeira Turma.


"Ou nós estamos julgando pessoas que não exercem mais função pública e não têm mais foro de prerrogativa do Supremo, ou nós estamos julgando pessoas que têm essa prerrogativa. E o local correto seria, efetivamente, o plenário do STF", argumentou em sessão anterior.

Outro ponto de divergência é a validade da colaboração premiada do tenente-coronel Mauro Cid. Fux tem questionado publicamente a "liberdade psíquica" do delator, citando seus múltiplos depoimentos contraditórios.


"A voluntariedade em delações premiadas não depende da liberdade de locomoção, mas da 'liberdade psíquica' do colaborador", defendeu o ministro em 2022, estabelecendo precedente que agora pode ser invocado contra a delação de Cid.

Os advogados de Bolsonaro têm se agarrado a esse argumento, sustentando que Cid teria perdido a liberdade psíquica diante das pressões sofridas, o que invalidaria sua colaboração.


A tensão entre Fux e seus colegas ficou evidente durante a sessão de terça-feira, quando ele criticou a intervenção de Flávio Dino durante o voto de Moraes.


"Conforme combinamos lá na sala, porque o voto é muito extenso, a gente perde o fio da meada", reclamou Fux, evidenciando seu desconforto com a dinâmica estabelecida.

Moraes reagiu firmemente:


"Esse aparte foi pedido a mim, não a Vossa Excelência".

Dino, por sua vez, respondeu com ironia:


"Eu o tranquilizo, ministro Fux, que não pedirei de Vossa Excelência. Pode dormir em paz".

Expectativas para o voto de hoje: cenários e Implicações


O Que Esperar de Fux? – As expectativas sobre o voto de Fux hoje são múltiplas e complexas. A percepção nos bastidores de Brasília é de que o ministro não pedirá vista do processo - o que poderia adiar o julgamento por até 90 dias -, mas deve divergir de Moraes em pontos específicos.


  • Primeiro cenário: Fux pode votar pela condenação de Bolsonaro, mas divergir sobre quais crimes cada réu seria considerado culpado, eventualmente propondo a absorção do crime de tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito pelo crime de tentativa de golpe de Estado.

  • Segundo cenário: O ministro pode propor penas menores para alguns réus, seguindo a linha já estabelecida por Dino, que sugeriu punições mais brandas para Alexandre Ramagem, Augusto Heleno e Paulo Sérgio Nogueira.

  • Terceiro cenário: Fux pode questionar fundamentalmente a validade das provas baseadas na delação de Mauro Cid, o que seria mais problemático para a acusação.


Uma eventual divergência de Fux tem implicações estratégicas importantes. Se ele divergir sozinho, o impacto no julgamento será limitado. Porém, se conseguir convencer outro ministro - Cármen Lúcia ou Cristiano Zanin -, abre-se a possibilidade de embargos infringentes, recurso exclusivo de decisões não unânimes que permite reexaminar o mérito.


"Imagino que Fux acompanhará a Primeira Turma na condenação, mas divergirá no cálculo da pena. Não me parece impossível que ele absolva Bolsonaro e outros réus de algumas acusações, mas não de todas", prevê o ex-defensor público federal Caio Paiva, atualmente coordenador do JusBrasil.

O perfil estratégico de Fux: imprevisibilidade como Característica


Luiz Fux é frequentemente descrito como o ministro mais "imprevisível" do STF.


"Ao longo de sua trajetória no Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux alternou inovações e conservadorismo em igual medida. Ora linha dura contra a corrupção, ora atento à dosimetria das penas", observa análise especializada.

Esta imprevisibilidade pode ser estratégica.


"Há quem veja nessa mudança um ajuste para evitar erros do passado, quando seu rigor no Mensalão e na Lava Jato foi celebrado por parte da população, mas criticado por juristas que apontaram punitivismo e fragilidades técnicas".

A interlocutores, Fux tem afirmado que pretende continuar propondo penas mais brandas a réus, "a depender do caso específico". Como informou o colunista Guilherme Amado,


"a postura adotada pelo ministro significa um 'exercício de moderação' necessário ao STF".

Independentemente das mudanças de postura, o conhecimento técnico de Fux é amplamente respeitado. Autor de mais de 20 livros de Direito Processual Civil, presidiu em 2009 a comissão responsável pela reforma do novo Código de Processo Civil, em vigor desde 2016.


"Sua versatilidade intelectual e ambiguidade ganham destaque. Diferenças à parte, seu conhecimento técnico é amplamente respeitado por admiradores e críticos".

As implicações políticas do voto de Fux


O voto de Fux ocorre em um contexto em que Tarcísio de Freitas é considerado "a principal aposta da direita para assumir o espólio de Bolsonaro e disputar a Presidência em 2026". A radicalização do governador paulista representa uma mudança estratégica significativa, abandonando o perfil mais moderado que mantinha antes.


A pressão por anistia no Congresso Nacional ganha força com o apoio explícito de Tarcísio. Durante o ato de 7 de setembro, o governador pressionou diretamente o presidente da Câmara, Hugo Motta, a pautar o projeto de anistia. Contudo, ministros como Flávio Dino já deixaram claro que qualquer tentativa de perdão aos golpistas será declarada inconstitucional.


O voto de Dino expôs a consolidação de uma maioria no STF contra qualquer possibilidade de anistia. Citando nominalmente cinco colegas que já se manifestaram contra anistia em casos similares - Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Luiz Fux, Dias Toffoli e Cármen Lúcia -, Dino demonstrou que o STF tem posição firme sobre o tema.


Entre a técnica jurídica e a defesa democrática


O voto de Luiz Fux hoje representa muito mais que uma manifestação jurídica individual. É um momento de definição sobre o futuro da democracia brasileira e sobre como as instituições respondem aos ataques sistemáticos da extrema-direita. A transformação de Fux - de punitivista a garantista - ocorre paradoxalmente no momento em que sua postura mais moderada poderia ser interpretada como concessão aos golpistas.


A expectativa é de que Fux, mesmo mantendo algumas divergências técnicas com Moraes, vote pela condenação de Bolsonaro e dos demais réus. Sua eventual divergência sobre dosimetria de penas ou sobre questões processuais não deve alterar o resultado final, mas pode fornecer elementos para futuros recursos.


O contexto dos ataques de Tarcísio de Freitas adiciona uma dimensão política inevitável ao julgamento. A resposta institucional coordenada do STF - com manifestações de Barroso, Gilmar Mendes e a promessa de resposta de Moraes - demonstra uma corte disposta a defender suas prerrogativas constitucionais.


A desinformação deliberada propagada pela extrema-direita, exemplificada nas declarações de Tarcísio, representa um desafio contínuo às instituições democráticas. A estratégia de deslegitimação do STF, internacionalização dos ataques e pressão por anistia configura o que o próprio ministro aposentado Celso de Mello chamou de "segundo golpe" contra as instituições.


O voto de Fux, portanto, será observado não apenas por sua dimensão jurídica, mas por seu significado político e institucional. Independentemente de suas divergências técnicas, a expectativa é de que o ministro mantenha a firmeza necessária para defender a democracia brasileira, consolidando uma maioria que já se desenha pela condenação dos responsáveis pela tentativa de golpe de Estado.


A mensagem que emerge deste julgamento transcende as questões jurídicas específicas: o Estado de Direito brasileiro não será intimidado por pressões políticas, internas ou externas, e os responsáveis por atentados contra a democracia serão devidamente punidos. Como bem sintetizou Barroso:


"o julgamento é um reflexo da realidade. Na vida, não adianta querer quebrar o espelho por não gostar da imagem".

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