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Senadora de Pernambuco afirma que derrubada do veto ao PL 2.162/2023 beneficia diretamente Jair Bolsonaro e reacende disputa entre Congresso, governo e Supremo sobre os crimes contra a democracia


Por Raul Silva para O estopim | 2 de maio de 2026



Mulher fala em pódio no Senado, com microfones e bandeira do Brasil ao fundo. Ela usa óculos e veste roupa escura. Cena formal.
A senadora Teresa Leitão discursa em plenário do Senado | Jefferson Rudy/Agência Senado

O estopim da nova crise institucional em Brasília foi a derrubada, pelo Congresso Nacional, do veto total do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamado PL da Dosimetria, o Projeto de Lei 2.162/2023. Em vídeo publicado em suas redes sociais, a senadora Teresa Leitão (PT-PE) fez uma crítica frontal à votação e afirmou que a proposta foi pensada e aprovada para beneficiar uma pessoa específica: Jair Bolsonaro, pai do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).


A fala da parlamentar pernambucana se insere num embate que já ultrapassou a fronteira da técnica penal. O que está em disputa não é apenas a forma de calcular penas ou o ritmo de progressão de regime. O conflito envolve a memória política dos atos de 8 de janeiro de 2023, a autoridade das decisões do Supremo Tribunal Federal, a capacidade do Executivo de conter derrotas no Congresso e a tentativa do bolsonarismo de reorganizar sua força institucional às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.


A senadora sustentou que a tramitação do veto teve caráter excepcional. Segundo Teresa, o projeto entrou como um “paraquedista” na pauta, embora houvesse outros vetos aguardando análise. Ela também afirmou que a condução da Mesa do Congresso inicialmente permitia efeitos mais amplos do texto, inclusive sobre crimes hediondos e organizações criminosas, antes de parte desses dispositivos ser considerada prejudicada durante a sessão.


“Foi um paraquedista”, afirmou a senadora, ao criticar a prioridade dada à matéria. Em outro ponto, Teresa foi mais direta ao apontar o alvo político da proposta: na avaliação dela, a dosimetria aprovada tem “direção única” e mira Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo no processo da trama golpista.


O Congresso derrubou o veto presidencial em 30 de abril de 2026. Na Câmara dos Deputados, foram 318 votos contra o veto, 144 a favor da manutenção e 5 abstenções. No Senado Federal, o placar foi de 49 votos pela rejeição do veto e 24 pela manutenção. Com isso, o texto vetado seguirá para promulgação pelo próprio Congresso, ressalvados os dispositivos considerados prejudicados pela Presidência da Mesa.


O PL da Dosimetria altera trechos da Lei de Execução Penal e do Código Penal. Embora o texto tenha uma redação geral, sua repercussão política está diretamente ligada aos condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro e pela tentativa de golpe de Estado. Entre os possíveis beneficiados está Jair Bolsonaro, condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses de prisão.


A decisão do Congresso não produz, por si só, a revisão automática das penas. Após a promulgação, defesas de condenados poderão pedir a aplicação da nova lei ao Supremo ou ao juízo responsável pela execução penal. Do outro lado, o PT e setores do governo avaliam levar o caso ao STF para questionar a constitucionalidade da norma e o procedimento adotado na derrubada do veto.


A fala de Teresa Leitão tem dois eixos. O primeiro é jurídico e procedimental: a senadora questiona a forma como a votação foi conduzida. O segundo é político: ela acusa a maioria parlamentar de usar uma regra penal de aparência geral para atingir um objetivo concreto, a redução do impacto da condenação de Bolsonaro.


Segundo a senadora, a proposta não nasceu como uma reforma ampla, debatida com calma, audiências públicas e estudo de impacto sobre o sistema prisional. Pelo contrário, apareceu no centro da pauta em meio a uma disputa política intensa, com pressão direta de setores bolsonaristas para reduzir as penas dos condenados pela tentativa de ruptura institucional.


Na visão de Teresa, mesmo depois de a Mesa retirar trechos que poderiam alcançar criminosos comuns, como condenados por crimes hediondos e organizações de facções, o problema central permaneceu. Para ela, a lei continuou carregando uma finalidade específica: aliviar a situação penal do ex-presidente.


Essa crítica toca num ponto sensível da teoria democrática. Leis devem ser gerais, impessoais e orientadas pelo interesse público. Quando uma maioria parlamentar aprova uma norma com destinatário político identificável, a pergunta deixa de ser apenas penal e passa a ser republicana: o Congresso está legislando para o país ou para um grupo de aliados?


Homem de terno observa painel eletrônico verde com textos em amarelo. Ambiente de plenário, ar sério, papéis sobre a mesa.
O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, durante a sessão que derrubou o veto do presidente Lula ao PL da Dosimetria | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Parlamentares favoráveis ao PL da Dosimetria afirmam que a proposta corrige excessos nas condenações e busca responder a penas consideradas desproporcionais. A oposição bolsonarista e parte do Centrão sustentam que muitos réus do 8 de janeiro receberam punições altas demais para condutas praticadas num mesmo contexto fático.


Esse argumento encontrou eco em setores que defendem “pacificação” política. Para esse campo, a dosimetria não seria anistia, mas apenas ajuste técnico para evitar que crimes derivados de um mesmo episódio se somem de modo excessivo. A diferença, porém, é que a anistia declara perdão político, enquanto a dosimetria altera o cálculo da pena. Na prática política, a distinção pode ser menos nítida do que parece no papel.


Críticos do projeto, como Teresa Leitão, dizem que a proposta funciona como anistia indireta. O raciocínio é simples: se a lei reduz substancialmente o tempo de pena dos condenados por tentativa de golpe, ela enfraquece o efeito pedagógico e institucional das decisões judiciais que responsabilizaram os ataques à democracia.


A derrubada do veto é também uma derrota política para Lula. O presidente havia vetado integralmente o texto em janeiro de 2026 sob o argumento de inconstitucionalidade e contrariedade ao interesse público. Ao derrubar o veto, o Congresso impôs sua maioria e deixou claro que a correlação de forças em Brasília está mais favorável ao bloco conservador e ao Centrão do que ao Palácio do Planalto.


O gesto parlamentar, porém, não encerra a disputa. Ao contrário, desloca o conflito para o Supremo. Como as condenações dos principais envolvidos na trama golpista foram impostas pelo STF, caberá à Corte decidir, se provocada, até onde uma nova lei pode interferir nos efeitos práticos dessas condenações.


Essa é a arena mais delicada. De um lado, o Congresso tem competência para legislar em matéria penal. De outro, a Constituição impõe limites ao uso da lei quando há desvio de finalidade, violação da separação de poderes ou tentativa de neutralizar decisões judiciais por meio de casuísmo legislativo.


Estátua de justiça em frente a um moderno edifício de vidro e concreto sob céu azul claro. Sensação de formalidade e tranquilidade.
Acervo arquivístico do STF | Fonte: Site oficial do CNJ

A fala de Teresa Leitão também expõe uma estratégia mais ampla do bolsonarismo. Desde a condenação de Jair Bolsonaro, seus aliados vêm buscando três caminhos simultâneos: a narrativa de perseguição política, a reorganização eleitoral em torno de Flávio Bolsonaro e a tentativa legislativa de reduzir os efeitos jurídicos da punição.


A dosimetria se encaixa nesse terceiro eixo. Ela não absolve Bolsonaro, mas pode diminuir sua pena e antecipar benefícios na execução penal. Politicamente, isso permite ao bolsonarismo apresentar a derrubada do veto como vitória, sem assumir formalmente a impopularidade de uma anistia plena aos responsáveis pela tentativa de golpe.


É nessa fresta que Teresa Leitão finca sua crítica. Para ela, o nome técnico do projeto encobre uma operação política. “Dosimetria” soa como cálculo jurídico, mas, na leitura da senadora, o que está em curso é uma disputa sobre impunidade, memória democrática e força institucional da extrema direita.


A intervenção de Teresa Leitão carrega também um significado regional. Primeira mulher eleita senadora por Pernambuco, ela fala a partir de um estado que tem tradição de participação política intensa e memória viva de lutas democráticas. Ao se posicionar contra o PL da Dosimetria, a parlamentar busca associar Pernambuco ao campo de defesa institucional, numa conjuntura em que o Nordeste permanece como base estratégica do lulismo e alvo permanente da disputa simbólica nacional.


Não se trata apenas de uma fala partidária. É uma tentativa de marcar posição num debate em que o vocabulário jurídico muitas vezes esconde o conflito real. A pergunta que atravessa o episódio é direta: como uma democracia deve tratar quem tentou destruí-la?


Com a derrubada do veto, o próximo passo formal é a promulgação do texto pelo Congresso. Depois disso, a disputa deve seguir por dois caminhos. No campo jurídico, defesas de condenados podem pedir revisão de penas. No campo institucional, partidos contrários ao projeto devem acionar o STF para tentar barrar ou limitar os efeitos da nova regra.


No campo político, a votação fortalece o discurso bolsonarista de revanche e amplia a pressão sobre o governo Lula. Ao mesmo tempo, dá à esquerda um argumento poderoso para mobilizar sua base: a tese de que a maioria parlamentar está convertendo poder legislativo em instrumento de proteção de aliados condenados por atacar a democracia.


A fala de Teresa Leitão, não é apenas reação a uma votação. É um alerta sobre a qualidade republicana da lei. Num país que ainda tenta processar os traumas do 8 de janeiro e da Ditadura Militar, a dosimetria virou mais que um cálculo de pena. Virou um teste de memória institucional.


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Raul Silva é jornalista político sênior de O estopim, especialista em Ciência Política, instituições democráticas e relações entre poder, território e sociedade no Nordeste brasileiro.


Custódia do ex-diretor da Abin e ex-deputado condenado por tentativa de golpe abre nova frente entre cooperação internacional, discurso de perseguição e disputa sobre asilo político


Por Raul Silva para O estopim | 13 de abril de 2026




Homem de terno escuro e gravata fala ao microfone, com expressão séria. Fundo azul. Ambiente formal, possivelmente uma conferência.
Ex-deputado Alexandre Ramagem que estava foragido da justiça brasileira foi preso pelo ICE nos EUA | Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados

A detenção de Alexandre Ramagem pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos, o ICE, nesta segunda-feira, recoloca no centro do debate um tema que ultrapassa a biografia do ex-diretor da Abin e ex-deputado federal: até onde vai a capacidade do Estado brasileiro de fazer valer, fora de suas fronteiras, decisões judiciais ligadas à trama golpista que tentou corroer a ordem democrática após a eleição de 2022.


O estopim deste novo capítulo está menos no gesto policial em si e mais no que ele simboliza. Ramagem não era um réu periférico. Ao contrário. Sua trajetória conectou aparato de inteligência, núcleo político bolsonarista, disputa eleitoral, tentativa de deslegitimação do sistema de votação e, mais tarde, fuga para os Estados Unidos depois da condenação. Sua detenção, portanto, não é um episódio isolado. É a continuação internacional de uma crise brasileira.


Confirmada por autoridades brasileiras e noticiada pela imprensa internacional, a custódia ocorre meses depois de o governo do Brasil formalizar o pedido de extradição do ex-parlamentar aos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, aliados de Ramagem sustentam a versão de que a ação teria nascido de uma abordagem por infração leve de trânsito e que o ex-deputado teria pedido de asilo pendente. Até aqui, porém, o ponto decisivo é outro: não há explicação pública conclusiva sobre qual foi o fundamento imediato da ação do ICE.


Alexandre Ramagem foi detido em território norte-americano e aparece como caso sob custódia migratória, segundo relatos convergentes de autoridades brasileiras e da cobertura jornalística desta segunda-feira. A Polícia Federal e o Ministério da Justiça e Segurança Pública confirmaram a ocorrência da prisão.


Também está documentado que o governo brasileiro já havia formalizado, no fim de janeiro, o pedido de extradição aos Estados Unidos. O ofício enviado ao Supremo Tribunal Federal informa que a solicitação foi entregue pela embaixada brasileira em Washington ao Departamento de Estado em 30 de dezembro de 2025. Não há prazo público para a análise desse pedido.


Outro dado central é o contexto penal. Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado. Depois, perdeu o mandato parlamentar. Segundo informações oficiais já divulgadas, ele deixou o Brasil em setembro de 2025, pela fronteira com a Guiana, e seguiu para os Estados Unidos antes da execução da pena.


Homem com colete "POLICE ICE" de costas, diante de bandeira dos EUA rachada e logo "U.S. Customs and Border Protection". Atmosfera séria.
Agente do ICE diante de um fundo com a bandeira dos EUA e o emblema da proteção de fronteiras, simbolizando a fiscalização e controle imigratório. | Foto: Reprodução

Há uma diferença decisiva entre fato confirmado e versão interessada. O fato confirmado é a detenção pelo ICE. A versão interessada, até agora sem confirmação pública independente, é a de que tudo começou apenas com uma infração leve de trânsito em Orlando e de que o caso seria estritamente burocrático do ponto de vista migratório.


Essa diferença importa porque ela define o enquadramento da notícia. Se a causa imediata foi apenas uma abordagem policial de rotina, o caso pode caminhar inicialmente pela trilha migratória comum. Se houve acionamento decorrente da cooperação entre Brasil e Estados Unidos, o peso político e judicial da detenção é outro. As duas possibilidades não são mutuamente excludentes, mas hoje não há transparência suficiente para cravar qual delas prevalece.


Também não há, até este momento, documentação pública detalhada que permita verificar em que estágio está eventual pedido de asilo, nem se esse elemento produz efeito imediato capaz de travar uma remoção ou apenas abrir uma disputa administrativa e judicial mais longa.


No plano jurídico norte-americano, a detenção pelo ICE não se confunde automaticamente com extradição. São trilhas que podem dialogar politicamente, mas não são idênticas. Em regra, a frente migratória passa pelo Departamento de Segurança Interna e pela Justiça migratória. Quando o governo entende que um estrangeiro deve responder a procedimento de remoção, o processo se inicia com uma notificação formal e segue para análise de um juiz de imigração, que pode examinar a removibilidade e eventual pedido de proteção contra a retirada do país.


A frente extradicional, por sua vez, tem outra natureza. Ela envolve a solicitação formal feita por um Estado a outro, tramitação diplomática e exame judicial dentro das regras aplicáveis ao acordo bilateral e à legislação americana. Em termos práticos, isso significa que a detenção de Ramagem pode produzir uma convergência entre as duas esferas, mas essa convergência não é automática.


Traduzindo para o leitor: estar sob custódia do ICE não significa, por si só, embarque imediato para o Brasil. Significa, isso sim, que a permanência dele em território americano entrou numa zona crítica de revisão institucional.


Para o governo brasileiro e para o sistema de Justiça, o caso tem valor simbólico e operacional. Simbólico porque a responsabilização dos articuladores da ruptura democrática perde coerência se quadros centrais conseguem transformar o exterior em abrigo seguro. Operacional porque o êxito, ainda que parcial, de mecanismos de cooperação internacional reforça a autoridade das decisões do STF.


Para o bolsonarismo, a batalha é outra. O esforço é converter uma condenação por tentativa de golpe numa narrativa de perseguição política, buscando deslocar a discussão do campo penal para o campo ideológico. O asilo, nesse contexto, deixa de ser apenas instrumento jurídico e passa a funcionar como peça de comunicação política. Não se trata apenas de permanecer nos Estados Unidos. Trata-se de produzir a imagem de exilado.


Para os Estados Unidos, o caso também é sensível. Ele cruza política migratória, relações diplomáticas e o custo de hospedar personagens estrangeiros associados a ataques institucionais em seus países de origem. Em outras palavras, a pergunta americana não é apenas quem é Ramagem, mas que tipo de precedente o tratamento dado a ele pode criar.


A prisão de Ramagem fora do Brasil ilumina uma verdade incômoda sobre a crise institucional brasileira: os efeitos do bolsonarismo radicalizado deixaram de caber apenas nas fronteiras nacionais. A trama golpista produziu desdobramentos transnacionais, seja pela circulação de personagens, seja pelo uso de redes políticas e ideológicas internacionais para tentar blindar condenados.


Há ainda um dado estrutural. Ramagem ocupou posto estratégico de inteligência no governo Bolsonaro. Isso confere ao episódio densidade distinta. Quando um ex-chefe de inteligência, condenado por participação em ação contra a ordem democrática, foge e acaba detido no exterior, a notícia não fala apenas de um indivíduo. Ela fala da degradação de mecanismos estatais que deveriam proteger a República e que, em vez disso, foram arrastados para dentro da disputa de facção.


No curto prazo, há pelo menos três cenários plausíveis.


  • O primeiro é a liberação sob condições, caso a frente migratória avance mais rapidamente do que a extradicional e a defesa consiga sustentar algum tipo de proteção provisória.

  • O segundo é a manutenção da custódia com aprofundamento da cooperação entre autoridades brasileiras e americanas, o que aproximaria o caso de um desfecho favorável à entrega ao Brasil.

  • O terceiro é um impasse prolongado, com judicialização, disputa sobre asilo, recursos e forte exploração política do caso pelos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.


Nenhum desses cenários é neutro. Todos carregam efeitos sobre a percepção pública da força das instituições brasileiras, da confiabilidade da cooperação internacional e da capacidade da extrema direita de fabricar mártires a partir de réus condenados.


Mais do que o destino pessoal de Alexandre Ramagem, o que está em disputa é a mensagem institucional do caso. Se a democracia brasileira condena, mas não consegue executar; se a cooperação internacional é acionada, mas não produz consequência; se a fuga vira apenas etapa tática de um roteiro político, o sinal emitido é de fragilidade.


Se, ao contrário, o processo avançar com base em devido processo legal, transparência mínima e coordenação entre Estados, o episódio pode se tornar um marco de responsabilização real, e não apenas simbólica, dos agentes que apostaram na ruptura.


Em política, a forma também é substância. E, neste caso, a forma como Brasil e Estados Unidos tratarão Ramagem dirá muito sobre o valor concreto que ambos atribuem à defesa da institucionalidade democrática.


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Raul Silva é jornalista político e analista de conjuntura de O estopim. Escreve sobre instituições, democracia, relações de poder e os efeitos sociais das decisões tomadas no topo da República.


IN FUX WE TRUST | A pergunta "onde estava a jurisprudência de Fux no julgamento de Lula?" expõe uma das contradições mais gritantes na atuação de um ministro do Supremo Tribunal Federal nos últimos anos. A análise comparativa entre os votos de Luiz Fux nos casos envolvendo Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro revela não apenas uma mudança radical de postura jurídica, mas questiona fundamentalmente os critérios que orientam a aplicação da justiça no Brasil quando os réus pertencem a espectros políticos opostos.


O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Reprodução
O ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF). Foto: Reprodução

O Fux Punitivista: rigor implacável contra Lula


Em 4 de abril de 2018, durante uma das sessões mais tensas da história do STF, Fux votou categoricamente contra a concessão do habeas corpus preventivo a Lula, contribuindo para o placar de 6 votos a 5 que autorizou a prisão do ex-presidente. Seu voto foi técnico, direto e implacável.


"A presunção de inocência cessa a partir do momento em que, através de decisão judicial, se considera o paciente culpado. Um acordão condenatório, que não é ilegal, que não é injusto, assenta de forma inequívoca a culpa do réu", declarou Fux, estabelecendo uma interpretação restritiva do princípio constitucional da presunção de inocência.

Para Fux, à época, o dispositivo constitucional que prevê que ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado "não tem nada a ver com a prisão, absolutamente nada a ver com a prisão". O ministro foi enfático:


"Esse dispositivo não tem a menor vinculação com a execução provisória de segunda instância".

O aspecto mais revelador do voto de Fux contra Lula foi sua justificativa baseada na "legitimidade democrática" da prisão em segunda instância.


"O Supremo fixou tese jurídica de que presunção de inocência não inibe execução provisória da pena. Essa interpretação passou a usufruir de legitimidade democrática das decisões judiciais", argumentou.

Fux foi além, afirmando que a interpretação literal da Constituição sobre presunção de inocência:


"só tem um resultado: levar o Judiciário a níveis alarmantes de insatisfação perante os destinatários das nossas decisões". Para ele, "quando estão em jogo questões morais, razões de ordem pública, é preciso saber o que a sociedade pensa disso".

A postura rigorosa de Fux não se limitou ao caso Lula. Durante o julgamento do Mensalão em 2012, ele foi um dos ministros mais alinhados ao relator Joaquim Barbosa, votando sistematicamente pela condenação dos réus.


No Mensalão, Fux condenou:

  • 12 réus ligados a partidos da base aliada por lavagem de dinheiro, corrupção passiva e formação de quadrilha

  • José Dirceu, José Genoíno e outros líderes petistas por formação de quadrilha, afirmando que houve "um projeto delinquencial" que durou mais de dois anos

  • João Paulo Cunha e Henrique Pizzolato por peculato, corrupção passiva e lavagem de dinheiro

  • Marcos Valério e seu grupo por corrupção ativa e peculato


Durante a Lava Jato, Fux manteve o perfil rigoroso, defendendo a operação até mesmo após as revelações da Vaza Jato. "Ninguém pode esquecer o que ocorreu no Brasil, no mensalão, na Lava Jato", declarou em junho de 2022, complementando:


"Cada ato de corrupção é um colégio que fica sem merenda para as crianças. Cada ato de corrupção é um hospital sem leito".

A metamorfose Garantista: Fux no caso Bolsonaro


A transformação de Fux tornou-se evidente em 2025, especialmente nos casos relacionados ao 8 de janeiro e à trama golpista. "Confesso que em determinadas ocasiões me deparo com uma pena exacerbada", admitiu Fux durante sessão da Primeira Turma, sinalizando sua nova filosofia jurídica.


O caso mais emblemático foi o de Débora dos Santos, condenada por Alexandre de Moraes a 14 anos por pichar "perdeu, mané" na estátua da Justiça. Fux pediu vista e propôs apenas um ano e seis meses de reclusão. "Dosimetria não é matemática. A dosimetria exige equidade, exige humanidade", declarou, estabelecendo uma filosofia diametralmente oposta à que aplicou no caso Lula.


No julgamento da trama golpista, Fux tem sistematicamente divergido de Alexandre de Moraes:

  1. Competência: Defende que o julgamento deveria ocorrer no plenário completo, não na Primeira Turma

  2. Delação de Mauro Cid: Questiona a "liberdade psíquica" do delator

  3. Medidas Cautelares: Foi o único a votar contra a tornozeleira eletrônica de Bolsonaro

  4. Dosimetria: Propõe penas mais brandas, seguindo uma "filosofia humanizada"


"Dosimetria não é aritmética, não há critérios matemáticos para fixação da pena. Por isso que juízes não podem ser substituídos por inteligência artificial, porque, se fosse matemática, teríamos, nesse mundo caótico, julgamentos destituídos de análise equânime, humana", declarou Fux no voto sobre Dino.

Esta declaração contrasta frontalmente com sua posição no caso Lula, quando afirmou que "um acordão condenatório assenta de forma inequívoca a culpa do réu", sem espaço para "análise equânime, humana".


Critérios jurídicos ou políticos?


Em 2018, Fux justificou a prisão de Lula com base na "legitimidade democrática" da decisão, argumentando que o STF deveria considerar "o que a sociedade pensa" sobre questões morais. Contudo, em 2025, diante de um contexto em que parte significativa da sociedade demanda punição rigorosa aos golpistas, Fux adota postura oposta, defendendo "humanidade" e "equidade" na dosimetria.


A contradição mais gritante reside na interpretação da presunção de inocência:


No caso Lula (2018):

  • "A presunção de inocência cessa quando se considera o paciente culpado"

  • "Esse dispositivo não tem nada a ver com a prisão"


No caso Bolsonaro (2025):

  • "Dosimetria exige equidade, exige humanidade"

  • Questiona provas e delações com base em garantias constitucionais

  • Defende análise "humana" de cada caso específico


Fux, que em 2018 afirmou que "a jurisprudência do tribunal tem que ser íntegra, estável", em 2025 adota postura que contradiz frontalmente seus próprios precedentes. Especialistas questionam essa mudança. "É um juiz que tem um histórico punitista e, neste caso, tem adotado posturas mais garantistas", observa o criminalista Fábio Tofic Simantob.


As tentativas de justificativa


Defensores da mudança de Fux argumentam que se trata de uma "evolução" natural, um "ajuste para evitar erros do passado". Segundo esta interpretação, "há quem veja nessa mudança um ajuste para evitar erros do passado, quando seu rigor no Mensalão e na Lava Jato foi celebrado por parte da população, mas criticado por juristas que apontaram punitivismo e fragilidades técnicas".


A interlocutores, Fux tem afirmado que sua postura atual representa um "exercício de moderação necessário ao STF". Contudo, esta justificativa não explica por que tal "moderação" não foi aplicada no caso Lula, que também enfrentava um contexto de polarização política extrema.


Analistas apontam que a aproximação de Fux com Bolsonaro durante sua presidência do STF (2020-2022) pode ter influenciado sua mudança de postura. "A aproximação se iniciou em 2020, quando Fux presidia a Corte; e Bolsonaro, o País. Os laços se consolidaram neste ano, a partir dos contrapontos apresentados pelo ministro ao colega Alexandre de Moraes".


A crítica jurídica: onde estava a jurisprudência?


A principal crítica à atuação de Fux reside na ausência de critérios técnicos consistentes que justifiquem a mudança radical de postura. No caso Lula, aplicou interpretação restritiva de garantias constitucionais; no caso Bolsonaro, defende interpretação ampla das mesmas garantias.


O princípio da isonomia, base do Estado de Direito, exige que casos similares recebam tratamento similar. A diferença de tratamento entre Lula e Bolsonaro por parte de Fux levanta questionamentos sérios sobre a imparcialidade judicial.


"O ministro Luiz Fux é, na composição atual, o que menos concede ordens em habeas corpus, por exemplo", observa o ex-defensor público federal Caio Paiva, destacando o histórico restritivo de Fux em questões de garantias individuais.


A mudança radical de postura de Fux compromete a legitimidade institucional do STF, alimentando narrativas de que a Corte aplica "pesos e medidas" diferentes conforme a orientação política dos réus.


A dimensão política da contradição


A mudança de Fux não passou despercebida pelos grupos políticos. Durante a Lava Jato, o slogan "In Fux We Trust" (No Fux, nós confiamos) era popular entre apoiadores da operação. Em 2025, "o slogan chegou a ser reabilitado por lideranças de direita" devido às suas divergências com Moraes.


A contradição de Fux contribui para a percepção pública de que existe "justiça seletiva" no STF, onde réus de esquerda recebem tratamento mais rigoroso que réus de direita. Esta percepção mina a credibilidade das instituições democráticas.


A mudança de postura de Fux alimenta a polarização política, fornecendo argumentos tanto para críticos quanto para defensores do STF. Grupos de esquerda apontam a contradição como prova de parcialidade; grupos de direita celebram a "moderação" do ministro.


A mudança de Fux tem gerado tensões na Primeira Turma. Durante a sessão de terça-feira, ele criticou intervenções de colegas, evidenciando seu desconforto com a dinâmica estabelecida. Moraes reagiu firmemente: "Esse aparte foi pedido a mim, não a Vossa Excelência".


A postura divergente de Fux, embora legítima do ponto de vista processual, tem impacto na colegialidade do tribunal. "Ainda que represente uma posição minoritária no STF sobre os processos do golpe, a expectativa é que os votos de Fux continuem fixando um contraponto às discussões".


A jurisprudência perdida


A pergunta "onde estava a jurisprudência de Fux no julgamento de Lula?" não tem resposta técnica satisfatória. A análise comparativa demonstra que os critérios aplicados pelo ministro em cada caso são diametralmente opostos, sem justificativa jurídica consistente.


No caso Lula:

  • Interpretação restritiva da presunção de inocência

  • Defesa da prisão em segunda instância

  • Priorização da "legitimidade democrática" sobre garantias individuais

  • Postura punitivista baseada no "combate à corrupção"


No caso Bolsonaro:

  • Interpretação ampla de garantias constitucionais

  • Defesa da "humanização" da dosimetria

  • Questionamento de provas e delações

  • Postura garantista baseada na "equidade"


Esta contradição levanta questões fundamentais sobre a natureza da jurisdição constitucional no Brasil. Se um ministro do STF pode mudar radicalmente sua interpretação da Constituição conforme a orientação política do réu, qual é o valor da segurança jurídica e da isonomia?


A "jurisprudência" de Fux no caso Lula estava onde sempre deveria estar: na aplicação consistente de critérios técnicos baseados na Constituição, independentemente da pessoa do réu ou do contexto político. Sua ausência no caso Bolsonaro não representa "evolução" ou "moderação", mas sim a erosão dos princípios fundamentais que devem orientar a jurisdição constitucional.


Como bem observou o próprio Fux em 2018, "a jurisprudência do tribunal tem que ser íntegra, estável". A ironia é que, ao abandonar esta máxima no caso Bolsonaro, ele próprio contribuiu para a instabilidade jurisprudencial que tanto criticava. A questão não é se Fux estava certo em 2018 ou está certo em 2025, mas sim se é aceitável que um ministro do STF aplique critérios jurídicos diferentes conforme suas preferências políticas do momento.


A democracia brasileira exige mais de seus magistros constitucionais: exige coerência, isonomia e, sobretudo, fidelidade aos princípios constitucionais independentemente de quem senta no banco dos réus. Enquanto essa exigência não for atendida, a legitimidade do STF continuará em questão, e a pergunta sobre onde estava a jurisprudência permanecerá como símbolo da crise de credibilidade que assola o Judiciário brasileiro.

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