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Olavo de Carvalho e o assassinato da filosofia: quando a erudição performática virou tecnologia de guerra cultural

Por Murilo Alencar

12 de abril de 2026



Homem de óculos e camisa xadrez gesticula animadamente com as mãos para cima. Fundo com estante de livros, expressão alegre.
O Astrólogo Olavo de Carvalho | Foto: Reprodução

A trajetória pública de Olavo de Carvalho ocupa um lugar singular na história recente da direita brasileira. Não apenas porque ele se apresentou como um intelectual insurgente contra o sistema universitário, a imprensa tradicional e a cultura política liberal-progressista, mas porque transformou a própria ideia de filosofia em um instrumento de mobilização ideológica. Sua força não esteve somente no conteúdo das teses que defendia, mas no método com que as apresentava: a simplificação agressiva, a mudança de contexto, a demonização do adversário e a apropriação de autores canônicos como selo de autoridade.


É nesse ponto que a crítica mais séria ao olavismo precisa começar. O problema não foi apenas que Olavo tivesse posições conservadoras ou reacionárias. O problema foi ter operado, com grande eficácia comunicacional, uma substituição de regime intelectual. Em vez de leitura rigorosa, ofereceu fidelidade. Em vez de investigação, ofereceu revelação. Em vez de filosofia como campo de perguntas difíceis, ofereceu filosofia como munição de guerra cultural.


No Brasil da radicalização política, isso teve efeitos concretos. Olavo ajudou a formar uma geração de seguidores e influenciadores para os quais citar um clássico não significava entrar em diálogo com uma tradição, mas usar um nome prestigioso como arma simbólica. O filósofo deixava de ser interlocutor e passava a funcionar como escudo retórico. A filosofia, nesse ambiente, deixava de ser exercício de complexidade para se converter em pedagogia do inimigo.



O caso de Aristóteles é ilustrativo. Na tradição aristotélica, a política está ligada à deliberação sobre o justo, ao exame prudencial das formas de governo, ao estudo do regime e ao papel do logos na organização da vida comum. O ser humano é definido como animal político não porque viva em guerra permanente, mas porque realiza sua natureza em comunidade, argumentação, linguagem e responsabilidade pelo bem comum. Ao recorrer ao nome de Aristóteles como atestado de profundidade civilizacional, o olavismo muitas vezes apagou exatamente aquilo que há de mais decisivo no pensador grego: a prudência, a medida, o juízo prático e a recusa do simplismo.


Com Kant, a contradição é ainda mais eloquente. O núcleo do esclarecimento kantiano está na autonomia: sair da menoridade, abandonar a dependência de tutores e ousar usar a própria razão. O uso público da razão, em Kant, não é um detalhe lateral, mas a própria condição de uma cultura política madura. O olavismo, no entanto, construiu boa parte de sua pedagogia pública na direção oposta. Seu modo de formação intelectual esteve frequentemente baseado na suspeita total em relação às mediações institucionais e na confiança concentrada no intérprete carismático. Trata-se de uma inversão poderosa: um movimento que se dizia antidoutrinário acabou, em muitos casos, reorganizando outra forma de tutela.


Voltaire também foi arrastado para dentro dessa operação. Símbolo da crítica ao fanatismo, à perseguição religiosa e ao abuso do poder legitimado por dogmas, Voltaire integra uma tradição de combate à sacralização arbitrária da autoridade. Ao transformar o Iluminismo em mera origem da decadência moral ocidental, o olavismo reduziu uma constelação histórica complexa a um espantalho útil para a guerra ideológica. O efeito foi paradoxal. Enquanto acusava o racionalismo moderno de dissolver a civilização, ajudava a produzir um ambiente de fanatização afetiva em que a divergência se tornava pecado político e o dissenso passava a ser lido como evidência de corrupção moral.


Mas é com Antonio Gramsci que a máquina olavista encontra sua formulação política mais eficiente. Gramsci foi convertido em arquiteto de uma infiltração total da esquerda sobre cultura, educação, imprensa e artes. Nessa releitura, hegemonia deixa de ser categoria histórica e teórica para se tornar nome de uma conspiração difusa, onipresente e quase infalível. Só que o pensamento gramsciano é muito mais sofisticado. Hegemonia, em Gramsci, envolve direção intelectual e moral, disputa de consenso, sociedade civil, luta por legitimidade e relação entre coerção e consentimento. Não se trata de um comando secreto centralizado, mas de uma análise das formas pelas quais o poder se enraíza socialmente.


A ironia histórica é das mais expressivas. Ao denunciar uma suposta guerra cultural gramsciana em curso, o próprio olavismo operou uma disputa de tipo hegemônico. Formou quadros, construiu linguagem, atacou instituições produtoras de sentido, produziu comunidade de crença e disputou o senso comum. Em outras palavras, acusava o inimigo de fazer exatamente aquilo que procurava fazer do lado oposto. O que se apresentava como antídoto contra a hegemonia tornou-se, na prática, uma estratégia concorrente de hegemonia.



Esse processo teve profundo impacto sociopolítico. Ao longo dos anos, o olavismo ajudou a consolidar no Brasil uma cultura de anti-intelectualismo organizado. Não apenas crítica às falhas reais da universidade, da imprensa ou da tecnocracia, mas deslegitimação sistemática da ideia mesma de mediação qualificada. O especialista passou a ser suspeito por definição. A instituição passou a ser vista como aparelho corrompido por natureza. O método, em vez de garantia mínima de seriedade, passou a ser tratado como máscara de dominação.


Esse rebaixamento do debate público foi decisivo para o ambiente político que alimentou o bolsonarismo. A agressividade verbal, o desprezo pelas formas institucionais, a transformação do confronto em prova de autenticidade e a suspeita total contra qualquer instância moderadora não nasceram com Olavo, mas ganharam nele uma sistematização pedagógica. Seu discurso forneceu linguagem, enquadramentos e afetos para um campo político em expansão. Seu legado, portanto, não se mede apenas por livros vendidos ou vídeos assistidos, mas pelo estilo de relação com a verdade e com a política que ajudou a difundir.


No fundo, o que estava em jogo era a erosão de um pacto civilizatório elementar: o de que os conflitos públicos, por mais duros que sejam, ainda precisam reconhecer algum valor na linguagem comum, na evidência, na distinção entre crítica e delírio, entre interpretação e invenção. Quando esse pacto se desfaz, a política perde densidade democrática e ganha tonalidade sectária.


É por isso que a crítica a Olavo de Carvalho não pode ser reduzida a uma disputa de preferências ideológicas. O ponto central é outro. Trata-se de compreender como uma forma de apropriação distorcida da tradição filosófica ajudou a corroer o espaço público brasileiro. Não por excesso de filosofia, mas por sua instrumentalização. Não por erudição demais, mas por uma erudição performática, montada para encantar seguidores e humilhar adversários.


Olavo de Carvalho não assassinou a filosofia sozinho. Nenhum indivíduo tem esse poder. Mas ajudou, sim, a normalizar um método de assassiná-la simbolicamente todos os dias: transformando autores em totens, conceitos em munição e pensamento em obediência. O efeito mais duradouro dessa operação talvez não seja a permanência literal de suas teses, mas a sobrevida do seu estilo. E um estilo político que ensina a suspeitar de tudo, exceto do próprio intérprete, segue sendo um risco real para qualquer democracia.


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