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Por Raul Silva para O estopim | 9 de abril de 2026



Três homens de meia-idade em close com expressões sérias. Todos usam ternos escuros e gravatas coloridas. Fundo neutro.
Pré-candidatos à Presidência, o presidente Lula, o senador Flávio Bolsonaro e o governador Ronaldo Caiado destacam-se na política nacional enquanto planejam suas campanhas. | Foto: Montagem com fotos de Brenno Carvalho/Agência O Globo

A nova pesquisa Meio/Ideia, realizada entre 3 e 7 de abril, mostra que a corrida presidencial de 2026 entra em uma fase de maior incerteza. Depois do fim da janela partidária e do período de desincompatibilização para parte dos pré-candidatos, 51,4% dos entrevistados dizem que ainda podem mudar de voto até outubro. O dado, somado ao empate técnico entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro em um dos cenários de segundo turno, indica uma eleição aberta, com espaço real para reorganização das forças políticas nos próximos meses.


O principal achado do levantamento não é apenas a liderança de Lula no primeiro turno estimulado, com 40,4%, diante de 37% de Flávio Bolsonaro. O dado mais relevante é a erosão da convicção do eleitor. Em janeiro, 64,5% se declaravam decididos. Em abril, esse grupo caiu para 48,6%. A curva se inverteu, e os eleitores disponíveis para trocar de candidato passaram a ser maioria.


Gráfico mostra queda na decisão de voto de 64,5% a 51,4% e aumento de indecisos de 35,5% a 48,6%, de jan a abr/2026.
Evolução da decisão de voto de janeiro a abril de 2026: A proporção de eleitores decididos diminui de 64,5% para 48,6%, enquanto a porcentagem de eleitores que ainda podem mudar seu voto aumenta de 35,5% para 51,4%. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Essa mudança ajuda a explicar por que o quadro permanece instável mesmo depois de uma etapa importante do calendário eleitoral. A janela partidária terminou em 3 de abril, e os prazos de desincompatibilização passaram a incidir em abril para parte dos ocupantes de cargos públicos, o que tende a reduzir a zona cinzenta sobre quem de fato pretende disputar a Presidência. Ainda assim, a definição institucional não se converteu em cristalização do voto.


No cenário estimulado de primeiro turno, Lula aparece na dianteira, mas sem uma vantagem capaz de encerrar a disputa. Flávio Bolsonaro concentra a maior parte do voto de direita já transferido, porém ainda opera em terreno menos consolidado do que o do presidente. Entre os eleitores de Lula, 73,4% dizem estar decididos. Entre os de Flávio, esse índice cai para 39,6%.


Gráfico de barras horizontais mostra Lula com 40,4% e Flávio Bolsonaro com 37% no 1º turno. Outros candidatos têm percentuais menores.
Cenário eleitoral do 1º turno estimulado: Lula lidera com 40,4%, seguido por Flávio Bolsonaro com 37,0%. Outros candidatos apresentam porcentagens menores, enquanto 8,5% dos entrevistados ainda não sabem em quem votar. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

A espontânea reforça esse retrato. Lula marca 32,6%, enquanto Flávio tem 19,4%. Jair Bolsonaro ainda aparece com 6%, mesmo fora do jogo formal. Isso sugere que uma parcela do eleitorado bolsonarista continua dispersa, seja por resistência à transferência automática do capital político, seja por espera estratégica de novos movimentos no campo conservador.


Em termos práticos, Lula tem hoje um eleitorado mais consistente. Flávio, por sua vez, demonstra maior capacidade de competitividade numérica imediata, mas com base mais fluida. É uma diferença decisiva para entender a campanha: um candidato pode estar perto no placar e, ainda assim, depender mais de reacomodações do que de fidelidade consolidada.


O levantamento mostra que a direita ainda não concluiu seu processo de aglutinação. Ronaldo Caiado aparece com 6,5% no cenário estimulado, enquanto Romeu Zema e Renan Santos marcam 3% cada. Aldo Rebelo surge com 0,6%. O número mais eloquente, porém, está no grau de firmeza desses eleitorados. Entre os apoiadores de Caiado, 69,4% ainda admitem mudar de voto. Entre os de Zema, o índice chega a 80%.


Isso significa que a disputa no campo conservador está longe de resolvida. Há voto disponível, mas ainda sem travamento definitivo. Para Lula, esse quadro tem duas leituras possíveis. A primeira é positiva: a fragmentação adversária dificulta a formação de uma maioria estável já no primeiro turno. A segunda é mais arriscada: uma eventual convergência mais adiante pode reduzir rapidamente a vantagem hoje observada.


É no segundo turno que a pesquisa ganha maior densidade política. Contra Flávio Bolsonaro, Lula marca 45,5%, e o adversário, 45,8%. A diferença de 0,3 ponto percentual configura empate técnico dentro da margem de erro. Contra Caiado, Lula vence por 45% a 39%. Contra Zema, a vantagem é de 44,7% a 38,7%. Diante de Renan Santos e Aldo Rebelo, a distância cresce ainda mais.


Gráfico de barras horizontais mostra porcentagens de votos no 2º turno. Flávio empata; Lula e Adversário em azul e verde. Texto indica disputa equilibrada.
Gráfico comparativo do 2º turno mostra empate com Flávio Bolsonaro e vantagem dos adversários sobre outros candidatos. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

A leitura é objetiva. O nome que hoje apresenta maior potência eleitoral contra Lula é Flávio Bolsonaro. Não porque tenha o eleitorado mais sólido, mas porque já ocupa o ponto de maior eficiência na transferência do campo bolsonarista para um cenário competitivo. Ao mesmo tempo, a alta volatilidade do seu apoio indica que esse desempenho ainda pode crescer ou encolher de forma relevante.


A pesquisa também ajuda a entender o humor material do eleitor. Sete em cada dez brasileiros afirmam que o custo de vida aumentou no último ano. Quatro em cada dez dizem estar mais endividados. E 74,7% classificam custo de vida e endividamento como temas muito importantes ou importantes na hora de votar.


Gráfico de barras mostrando a pressão econômica como fator eleitoral: custo de vida 70,4%, endividamento 40%, tema relevante no voto 74,7%.
Avaliação do governo Lula: 70,4% dos entrevistados percebem aumento no custo de vida, 40% sentem maior endividamento, e 74,7% consideram esses temas importantes na decisão de voto. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Esse bloco de dados dialoga diretamente com a avaliação do governo. Na medição geral, Lula soma 46,4% de ruim ou péssimo, contra 32,2% de ótimo ou bom. Na economia, o saldo negativo também é superior ao positivo. Na segurança pública, a diferença piora e o governo registra seu pior desempenho setorial, com 53,9% de ruim ou péssimo.


Gráfico de barras mostra avaliação do governo nas áreas Geral, Economia e Segurança. Cores indicam Ótimo/Bom, Regular, Ruim/Péssimo.
Avaliação do governo: segurança pública recebe a pior avaliação, com 53,9% considerando ruim/péssimo, enquanto a economia tem 44,6% de avaliação negativa e a geral 46,4%. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Em uma eleição nacional, percepção econômica e sensação de ordem cotidiana costumam funcionar como chaves de decisão tardia. Quando mais da metade do eleitorado declara que ainda pode mudar de voto, essas variáveis ganham peso adicional. Não se trata apenas de rejeição ideológica ou identidade partidária. Trata-se de custo de vida, dívida e sensação de perda de controle sobre a rotina.


Outro aspecto relevante do levantamento é a presença de temas institucionais no imaginário do eleitor. Para 42,5% dos entrevistados, a maior ameaça à democracia brasileira hoje é a concentração de poder no Judiciário. O índice supera com folga a corrupção dos políticos, a polarização, a desinformação e a influência estrangeira nas eleições.


Gráfico de barras mostrando ameaças à democracia segundo entrevistados. "Poder no Judiciário" lidera com 42,5%. Título: "Para os entrevistados, principal ameaça à democracia está no Judiciário".
Para os entrevistados, a principal ameaça à democracia é o "Poder no Judiciário", com 42,5%, seguido pela "Corrupção dos políticos" com 16,5%. | Fonte: Pesquisa Meio/Ideia de abril de 2026

Na pergunta sobre anistia após os atos de 8 de janeiro, 41% se dizem contra qualquer tipo de perdão. Mas a soma dos favoráveis chega a 53%, dividida entre anistia ampla, inclusive para Jair Bolsonaro e militares, e anistia restrita aos manifestantes, sem alcançar lideranças. O tema, portanto, não está resolvido socialmente. Ele segue aberto e pode ser mobilizado tanto pelo campo conservador quanto por setores que apostam no discurso de pacificação.


Esses números sugerem que a eleição de 2026 não será decidida apenas entre economia e rejeição partidária. Haverá também uma disputa de narrativa sobre sistema de Justiça, limites institucionais, memória do 8 de janeiro e legitimidade da mediação internacional sobre o processo eleitoral.


A pesquisa oferece três conclusões firmes. A primeira é que Lula continua competitivo e lidera o primeiro turno estimulado. A segunda é que Flávio Bolsonaro, hoje, é o adversário mais forte para um eventual segundo turno. A terceira é que a maioria do eleitorado ainda não fechou posição.


Mas há também limites claros. Pesquisa é fotografia, não roteiro definitivo. O levantamento capta um momento em que o cardápio de candidaturas ficou mais nítido, mas ainda não entrou na fase mais intensa de campanha, alianças, exposição publicitária, debates e eventual deslocamento de apoios regionais. Em outras palavras, o cenário está menos nebuloso do que no começo do ano, mas segue longe de uma consolidação.


A implicação política é evidente. Lula chega ao meio do primeiro semestre com vantagem competitiva, porém sem margem para acomodação. A direita, por sua vez, já tem um nome capaz de ameaçar o presidente, mas ainda depende de coesão, disciplina e retenção de voto para transformar potencial em maioria.


A pesquisa Meio/Ideia ouviu 1.500 pessoas entre 3 e 7 de abril de 2026, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o protocolo BR-00605/2026-BRASIL.


O retrato de abril deixa um diagnóstico central: a eleição presidencial de 2026 está aberta porque o eleitor está aberto. E, quando o eleitor ainda não travou sua decisão, a campanha deixa de ser apenas disputa entre nomes e passa a ser uma guerra por sensação de segurança, memória política, autoridade institucional e capacidade de falar ao bolso.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo de O estopim. Atua na cobertura de política, eleições, dados públicos e temas de interesse coletivo.

O domingo, 21 de setembro de 2025, marcou um dos dias mais significativos da mobilização democrática brasileira recente, com manifestações simultâneas em pelo menos 33 cidades contra a PEC da Blindagem e o PL da Anistia. Entre os destaques desse movimento nacional pela democracia, a cidade de Arcoverde, no sertão pernambucano, protagonizou uma das mobilizações mais representativas do interior do país, reunindo diversas forças políticas de esquerda em defesa dos princípios democráticos e do Estado de Direito.


Manifestação contra a PEC da Blindagem e PL da Anistia - Fonte: Reprodução
Manifestação contra a PEC da Blindagem e PL da Anistia - Fonte: Reprodução

Mobilização nacional e internacional contra a Blindagem


As manifestações, convocadas pela Frente Povo Sem Medo e Frente Brasil Popular, reuniram milhares de pessoas em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Recife e outras 28 cidades. O movimento, que ganhou dimensões internacionais, contou com protestos em Londres, Berlim, Paris e Lisboa, demonstrando a repercussão global da questão democrática brasileira.


Avenida Paulista - Ato contra a PEC da Blindagem - Foto: Reprodução TV Globo
Avenida Paulista - Ato contra a PEC da Blindagem - Foto: Reprodução TV Globo

Em São Paulo, o Monitor do Debate Político da USP contabilizou 42,4 mil pessoas no ápice da manifestação na Avenida Paulista, número ligeiramente superior ao registrado no ato bolsonarista de 7 de setembro. No Rio de Janeiro, artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e Djavan se apresentaram em Copacabana, transformando o protesto em um grande ato cultural.


A PEC da Blindagem, aprovada pela Câmara dos Deputados em 16 de setembro, estabelece que parlamentares só podem ser investigados criminalmente com autorização de suas respectivas casas legislativas, em votação secreta. Críticos apontam que, quando regra similar vigorou entre 1988 e 2001, apenas uma investigação foi autorizada entre mais de 250 solicitações.


Recife e Pernambuco na linha de frente


Em Pernambuco, as manifestações ganharam especial relevância. No Recife, cerca de 50 mil pessoas, segundo organizadores, participaram de uma passeata que saiu do Ginásio Pernambucano, na Rua da Aurora, e seguiu até o Marco Zero. O ato teve caráter político-cultural, com dois trios elétricos apresentando atrações da cultura popular pernambucana.


Ato no Recife contra anistia e PEC da Blindagem reuniu 50 mil pessoas, segundo organizadores — Foto: Ezequiel Quirino/TV Globo
Ato no Recife contra anistia e PEC da Blindagem reuniu 50 mil pessoas, segundo organizadores — Foto: Ezequiel Quirino/TV Globo

A capital pernambucana registrou um contraste político significativo: enquanto o prefeito João Campos (PSB) se posicionou publicamente contra a PEC da Blindagem, sua bancada partidária na Câmara dos Deputados votou a favor da proposta. "Sou totalmente contrário à PEC da Blindagem. Não votei e não orientei a bancada do PSB na Câmara a votar a favor", declarou o prefeito, tentando se distanciar da decisão partidária que incluiu o voto favorável de seu próprio irmão, o deputado Pedro Campos.


Um dos aspectos mais notáveis do cenário político pernambucano foi a ausência de posicionamento inicial da governadora Raquel Lyra (PSD) sobre a PEC da Blindagem. Somente após pressão da imprensa e da sociedade civil, em 19 de setembro, Lyra se manifestou contrária à proposta, afirmando que "não dialoga com o sentimento do povo".


Contudo, sua posição tardia contrastou com a atuação de seu partido, o PSD, que orientou voto favorável à PEC na Câmara. A situação se tornou ainda mais emblemática considerando que Lyra migrou do PSDB para o PSD em março de 2025, após divergências com a linha política nacional tucana. Seu partido anterior, o PSDB, também não se posicionou claramente contra a medida no âmbito nacional.


A governadora, que se elegeu com forte apoio popular em 2022, enfrentou críticas por não ter se manifestado espontaneamente contra uma proposta que atinge diretamente os princípios democráticos que defendeu durante sua campanha eleitoral.


Arcoverde: um símbolo da Resistência Democrática


Entre todas as manifestações realizadas no interior do país, Arcoverde se destacou como um verdadeiro símbolo da luta democrática. A cidade do sertão pernambucano concentrou uma das mobilizações mais plurais e representativas, reunindo praticamente todo o espectro da esquerda política local.


Manifestação em Arcoverde PE - Foto: Raul Silva (O estopim)
Manifestação em Arcoverde PE - Foto: Raul Silva (O estopim)

O ato na cidade contou com uma mobilização contundente contra a PEC da Blindagem e o PL da Anistia. Entre os presentes ao ato estavam militantes do PT, PCdoB, PV, PSOL, Unidade Popular (UP) e PCBR, bem como artistas, professores, a Juventude Petista, representantes da CTB e CNTE, com destaque para lideranças políticas locais como Alexandre Gomes (PCdoB), Draiton Albuquerque (PT/Sindicato dos Bancários), professora Sueli Maria (PT/Sintepe/CNTE), Guilherme Ribeiro (presidente do PT de Arcoverde), Anne Cavalcante (UP), Preto Monte (PSOL de Recife), e Leandro Macedo (PCBR).


O presidente da Câmara de Vereadores de Arcoverde, Luciano Pacheco (MDB), fez uma participação rápida no evento, demonstrando apoio institucional à causa democrática. Pacheco, eleito em janeiro de 2025 para presidir o Legislativo municipal no biênio 2025-2026, é formado em Direito e possui longa trajetória política no município.



Por outro lado, a ausência do prefeito Zeca Cavalcanti (Podemos) foi notória e simbólica. Assim como sua aliada política, a governadora Raquel Lyra, o gestor municipal não se posicionou publicamente sobre a PEC da Blindagem ou o PL da Anistia, contrastando com a postura de diversos prefeitos e governadores pelo país que se manifestaram contrariamente às propostas.


Em contrapartida, a vereadora Célia Galindo (Podemos), decana da Câmara Municipal com 10 mandatos consecutivos, se posicionou frontalmente contra a PEC através de entrevista anterior ao evento. "Nós, representantes do povo, temos que ser exemplo e não exceção. A Constituição é clara: todos são iguais perante a lei", declarou a parlamentar, criticando duramente o que chamou de "PEC da Bandidagem".


O contexto Político Nacional


As manifestações ocorreram em um momento de grave tensão política nacional. A PEC da Blindagem foi aprovada na Câmara com 353 votos favoráveis contra 134 contrários no primeiro turno, e 344 a 133 no segundo. Entre os deputados pernambucanos, 19 dos 25 votaram favoravelmente à proposta.


Paralelamente, o Congresso também aprovou a urgência para o PL da Anistia, que pode beneficiar condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal.


No Senado, a PEC encontra forte resistência. O senador Otto Alencar (PSD-BA), presidente da Comissão de Constituição e Justiça, prometeu pautar a proposta na semana seguinte às manifestações "para sepultar de vez esse assunto". O relator Alessandro Vieira (MDB-SE) já sinalizou parecer pela rejeição.


Repercussões e Significado Histórico


As manifestações de 21 de setembro de 2025 representaram um marco na resistência democrática brasileira contemporânea. A mobilização simultânea em dezenas de cidades, com apoio de artistas, intelectuais, movimentos sociais e partidos políticos, demonstrou a vitalidade da sociedade civil brasileira na defesa das instituições democráticas.


Arcoverde, ao concentrar uma das mobilizações mais representativas do interior brasileiro, consolidou-se como um símbolo da resistência democrática no sertão pernambucano. A cidade, com cerca de 75 mil habitantes, mostrou que a defesa da democracia transcende os grandes centros urbanos e encontra eco nas mais diversas regiões do país.


O contraste entre a mobilização popular e o silêncio de autoridades como o prefeito Zeca Cavalcanti e o posicionamento tardio da governadora Raquel Lyra evidenciou as tensões políticas existentes mesmo entre gestores que se apresentam como democráticos.


As manifestações também revelaram a capacidade de articulação das forças progressistas brasileiras, que conseguiram organizar protestos coordenados nacionalmente em poucas semanas, mobilizando desde grandes centros urbanos até cidades do interior, passando por comunidades brasileiras no exterior.


Perspectivas futuras


Com a PEC da Blindagem seguindo para o Senado e o PL da Anistia em tramitação acelerada, o movimento democrático brasileiro demonstrou estar organizado e vigilante. As manifestações de setembro estabeleceram um precedente importante: a sociedade brasileira não aceitará passivamente retrocessos democráticos ou tentativas de blindagem da classe política contra a Justiça.


Arcoverde, com sua mobilização exemplar, inseriu-se definitivamente no mapa da resistência democrática nacional, provando que a luta pela manutenção do Estado de Direito encontra eco em todos os cantos do Brasil. A cidade do sertão pernambucano, berço de importantes lideranças políticas regionais, reafirmou sua vocação histórica de protagonismo nos momentos decisivos da vida nacional.


O dia 21 de setembro de 2025 ficará registrado como um marco da democracia brasileira, e Arcoverde poderá se orgulhar de ter estado na linha de frente dessa batalha histórica pela preservação dos valores republicanos e democráticos do país.

A trama Golpista

Como uma organização criminosa liderada por Jair Bolsonaro tentou quebrar a democracia brasileira e agora enfrenta a Justiça no julgamento histórico que começou nesta terça-feira no STF

A trama Golpista

Por Redação d'O estopim - 2 de setembro de 2025


Às 9h desta terça-feira, 2 de setembro de 2025, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal inicia o que pode ser considerado o julgamento mais importante para a democracia brasileira desde o fim da ditadura militar. No banco dos réus, oito pessoas, incluindo o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, respondem por uma das mais sofisticadas tentativas de golpe de Estado já documentadas na história republicana do país.


A investigação da Polícia Federal, condensada em mais de 3.000 páginas de relatórios, e a denúncia da Procuradoria-Geral da República revelam uma trama que começou muito antes das eleições de 2022 e culminou na invasão dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023 - um plano minuciosamente arquitetado para manter Bolsonaro no poder a qualquer custo, inclusive com a eliminação física de autoridades e candidatos eleitos.


As Origens: Quando a Democracia Entrou na Mira

A trama Golpista

A história começa em 29 de julho de 2021, quase um ano e três meses antes das eleições presidenciais. Naquele dia, durante uma transmissão ao vivo no Palácio da Alvorada, Jair Bolsonaro iniciou o que os investigadores chamariam posteriormente de "execução prática" de um plano para desacreditar o sistema eleitoral brasileiro.


Cronologia da Trama Golpista no Brasil (2021-2023)
Cronologia da Trama Golpista no Brasil (2021-2023)

"As eleições de 2022, se não tivermos o voto impresso, uma forma de auditar o voto, pode esquecer. Não vai ter eleição", declarou o então presidente, lançando as bases de uma narrativa que seria repetida exaustivamente nos meses seguintes.


Mas o marco definitivo da escalada golpista veio em 7 de setembro de 2021. Durante os atos de celebração da Independência, Bolsonaro subiu no trio elétrico em Brasília e proferiu ameaças diretas ao Supremo Tribunal Federal: "Eu não mais me submeto a decisões emanadas de Alexandre de Moraes. Só Deus me tira dali", bradou para uma multidão que aplaudia.


Segundo a investigação da Polícia Federal, essas declarações públicas eram apenas a ponta de um iceberg muito maior. Nos bastidores, uma sofisticada organização criminosa já operava para criar as condições necessárias para uma ruptura institucional.


A Anatomia de uma Conspiração: Os Seis Núcleos do Golpe

A trama Golpista

A Polícia Federal identificou que a organização criminosa operou através de seis núcleos especializados, cada um com funções específicas no projeto de poder:


Estrutura da Organização Criminosa segundo a Polícia Federal
Estrutura da Organização Criminosa segundo a Polícia Federal

1. Núcleo de Desinformação e Ataques ao Sistema Eleitoral


Coordenado por figuras como Filipe Martins, assessor especial da Presidência, e José Eduardo de Oliveira e Silva, este núcleo foi responsável por disseminar sistematicamente informações falsas sobre fraudes eleitorais. O grupo utilizou o que os investigadores chamam de técnicas da "milícia digital": alto volume de disseminação, uso de múltiplos canais, repetição constante e emprego de autoridades para dar credibilidade às narrativas falsas.


Um dos episódios mais emblemáticos foi a reunião de 18 de julho de 2022 com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada. Bolsonaro apresentou alegações infundadas sobre vulnerabilidades do sistema eletrônico de votação, numa clara tentativa de desacreditar as eleições junto à comunidade internacional.


2. Núcleo Responsável por Incitar Militares a Aderirem ao Golpe


Liderado pelo general Walter Souza Braga Netto, este núcleo tinha como objetivo cooptar comandantes militares para apoiar a ruptura institucional. Os investigadores descobriram que militares de forças especiais, apelidados de "Kids Pretos", foram mobilizados para pressionar o Alto Comando do Exército.


Uma reunião crucial ocorreu em 28 de novembro de 2022, numa residência em Brasília, onde oficiais de forças especiais planejaram ações para "influenciar positivamente" seus comandantes a aderir ao golpe. O coronel Bernardo Romão Corrêa Netto chegou a afirmar em mensagens: "Thomaz, Richard e Stumpf tinham que ser exonerados, presos, sei lá, qualquer merda, antes do GFG [General Freire Gomes] passar o Comando EB".


3. Núcleo Jurídico


Composto por advogados e juristas como Amauri Feres Saad, este núcleo elaborou as minutas de decretos que dariam aparência legal ao golpe. O grupo trabalhou na fundamentação jurídica para medidas como a decretação de Estado de Defesa e a intervenção no Tribunal Superior Eleitoral.


4. Núcleo Operacional de Apoio às Ações Golpistas


Este núcleo fornecia suporte logístico e operacional para as ações da organização. Incluía militares e civis que atuavam na coordenação de manifestações, distribuição de materiais e articulação entre diferentes grupos.


5. Núcleo de Inteligência Paralela


Liderado por Alexandre Rodrigues Ramagem, ex-diretor da ABIN, este núcleo utilizou a estrutura de inteligência do Estado para monitorar opositores, produzir informações falsas e apoiar as narrativas golpistas. Ramagem chegou a elaborar anotações pessoais com estratégias para interferir em investigações da Polícia Federal.


6. Núcleo Operacional para Cumprimento de Medidas Coercitivas


O mais sinistro dos núcleos, composto por militares de forças especiais, foi responsável pelo planejamento de ações violentas, incluindo planos para sequestrar ou assassinar autoridades. Este grupo elaborou o documento "Punhal Verde Amarelo", um detalhado plano operacional para eliminar o ministro Alexandre de Moraes e os candidatos eleitos Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin.


O Núcleo Crucial: Bolsonaro no Centro da Teia

A trama Golpista

Na estrutura hierárquica identificada pelos investigadores, Jair Messias Bolsonaro ocupava inequivocamente a posição de líder da organização criminosa. A denúncia da Procuradoria-Geral da República é categórica:


"O então presidente da República exerceu a liderança e teve pleno domínio da organização criminosa".

Jair Bolsonaro - Reprodução: Reuters
Jair Bolsonaro - Reprodução: Reuters

As evidências do protagonismo de Bolsonaro são abundantes:

  • Controle das Narrativas: Bolsonaro não apenas disseminava pessoalmente as alegações de fraude eleitoral, como coordenava a produção e distribuição desses conteúdos. Em reunião ministerial de 5 de julho de 2022, um general teria dito: "o que tiver que ser feito tem que ser feito antes das eleições", numa clara referência à necessidade de criar condições para questionar o resultado eleitoral.

  • Comando das Articulações: O ex-presidente participou diretamente de reuniões onde foram apresentadas as minutas do decreto golpista. Em 7 de dezembro de 2022, no Palácio do Alvorada, Bolsonaro reuniu os comandantes das Forças Armadas e o ministro da Defesa para apresentar o decreto que subverteria o Estado Democrático de Direito.

  • Conhecimento dos Planos Violentos: Segundo os investigadores, Bolsonaro tinha conhecimento dos planos para eliminar autoridades. O general Mario Fernandes, ex-secretário-executivo da Secretaria-geral da Presidência, confessou em depoimento ao STF ter sido o autor do plano "Punhal Verde Amarelo", que previa o assassinato de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes.

  • Persistência Após o Fracasso: Mesmo depois que os comandantes militares recusaram apoio ao decreto golpista, Bolsonaro manteve a articulação através de outros canais, culminando nos eventos de 8 de janeiro de 2023.


As Acusações Contra Bolsonaro


A denúncia da PGR imputa a Jair Bolsonaro três crimes:

  1. Organização Criminosa (art. 2º da Lei 12.850/2013): Como líder de uma associação de mais de quatro pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas para cometer crimes.

  2. Tentativa de Abolição Violenta do Estado Democrático de Direito (art. 359-L do Código Penal): Por tentar suprimir ou modificar o regime democrático mediante violência ou grave ameaça.

  3. Tentativa de Golpe de Estado (art. 359-M do Código Penal): Por tentar assumir o comando de tropas ou assumir o exercício de função pública constitucionalmente atribuída a outrem.


O Ministério Público enfatiza que a tentativa de golpe é crime consumado, independentemente do sucesso da empreitada. "Não há justificativa plausível para questionar a legitimidade de eleições livres, diretas, secretas, universais e periódicas, realizadas com observância de todas as garantias legais e constitucionais", afirma a denúncia.


Os Demais Protagonistas do Núcleo Central


Além de Bolsonaro, outros sete réus compõem o núcleo central julgado pela Primeira Turma do STF:


General Walter Souza Braga Netto - Imagem: Sergio Lima - 16.fev.18/AFP
General Walter Souza Braga Netto - Imagem: Sergio Lima - 16.fev.18/AFP

Walter Souza Braga Netto

Ex-ministro da Defesa e candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro, Braga Netto foi identificado como coordenador-geral da organização criminosa. Os investigadores descobriram que ele ordenou ataques sistemáticos contra comandantes militares que se opuseram ao golpe. Em mensagem de 15 de dezembro de 2022, Braga Netto orientou: "Senta o pau no Batista Junior... traidor da pátria. Dai para frente. Inferniza a vida dele e da família".


General Augusto Heleno Ribeiro Pereira.Foto: Marcos Corrêa/PR
General Augusto Heleno Ribeiro Pereira.Foto: Marcos Corrêa/PR

Augusto Heleno Ribeiro Pereira

Ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Heleno participou ativamente da articulação política do golpe e da elaboração das justificativas legais para as medidas excepcionais.







Alexandre Ramagem Rodrigues, diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência)
Alexandre Ramagem Rodrigues, diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência)

Alexandre Rodrigues Ramagem

Ex-diretor da ABIN, Ramagem utilizou a estrutura de inteligência do Estado para apoiar a trama golpista. Suas anotações pessoais revelam estratégias para interferir em investigações e produzir conteúdo favorável à narrativa de fraude eleitoral.






Ex-ministro Anderson Torres em depoimento à CPI dos Atos Golpistas — Foto: WALLACE MARTINS/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Ex-ministro Anderson Torres em depoimento à CPI dos Atos Golpistas — Foto: WALLACE MARTINS

Anderson Gustavo Torres

Ex-ministro da Justiça e Segurança Pública, Torres participou da articulação para utilizar as forças policiais federais em apoio ao projeto golpista.








O tenente-coronel Mauro Cid - Foto: Geraldo Magela/Agência Senado
O tenente-coronel Mauro Cid - Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Mauro César Barbosa Cid

Ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Cid foi peça-chave na articulação entre os diferentes núcleos da organização. Suas mensagens de WhatsApp, recuperadas pela Polícia Federal, documentam detalhadamente o planejamento golpista.






General Almir Garnier Santos - Foto: Marcos Corrêa/PR
General Almir Garnier Santos - Foto: Marcos Corrêa/PR

Almir Garnier Santos

Ex-comandante da Marinha, foi o único entre os três comandantes militares a apoiar explicitamente o golpe. Segundo as investigações, Garnier chegou a colocar tropas à disposição para o cumprimento do decreto golpista.





Ex-comandante do exército - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Ex-comandante do exército - Marcelo Camargo/Agência Brasil

Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira

Ex-ministro da Defesa, participou das reuniões onde o decreto golpista foi apresentado aos comandantes militares.









O Plano Sinistro: "Punhal Verde Amarelo"


Entre todas as descobertas da investigação, talvez nenhuma seja mais chocante que o documento encontrado em poder do general Mario Fernandes, intitulado "Punhal Verde Amarelo". Trata-se de um detalhado plano operacional para sequestrar ou assassinar o ministro Alexandre de Moraes e eliminar os candidatos eleitos Lula e Alckmin.


O documento, com características de manual terrorista, incluía:

  • Levantamento detalhado da rotina e segurança de Alexandre de Moraes: horários, itinerários, composição da equipe de segurança, veículos utilizados e pontos vulneráveis.

  • Plano para envenenar Lula: O documento previa a eliminação do presidente eleito por envenenamento, considerado um método que deixaria menos evidências.

  • Assassinato de Geraldo Alckmin: O vice-presidente eleito também seria eliminado para "extinguir a chapa vencedora" das eleições.

  • Aceitação de "baixas colaterais": O plano previa explicitamente que haveria mortes, inclusive de militares envolvidos, classificadas como "passíveis e aceitáveis".


O general Mario Fernandes confessou em depoimento ao STF ter sido o autor do plano: "O pensamento foi meu", declarou em julho de 2025. O documento chegou a ser impresso no Palácio do Planalto em dezembro de 2022, demonstrando que havia conhecimento em altos escalões do governo.


O plano saiu do papel em 15 de dezembro de 2022, quando os "Kids Pretos" executaram a chamada "Operação Copa 2022". Militares de forças especiais estavam posicionados em Brasília para prender ou executar Alexandre de Moraes. A operação só foi abortada quando ficou claro que Bolsonaro não conseguiria o apoio necessário dos comandantes militares.


A Resistência Democrática: Quando os Militares Disseram Não


Um dos aspectos mais relevantes revelados pela investigação foi a resistência oferecida pelos principais comandantes militares ao projeto golpista. Essa resistência foi determinante para impedir a consumação do golpe.


General Freire Gomes: O Comandante Legalista


General Marco Antônio Freire Gomes  • Romério Cunha/VPR
General Marco Antônio Freire Gomes  • Romério Cunha/VPR

O então comandante do Exército, general Júlio César de Arruda, conhecido como Freire Gomes, foi alvo de intensa pressão para aderir ao golpe. Em depoimento à Polícia Federal, Freire Gomes confirmou que chegou a advertir Bolsonaro de que, caso atentasse contra o regime democrático, seria obrigado a prender o próprio presidente.


A recusa de Freire Gomes gerou uma campanha sistemática de ataques orquestrada por Braga Netto. O ex-ministro da Defesa chegou a afirmar: "a culpa pelo que está acontecendo e acontecerá é do Gen FREIRE GOMES. Omissão e indecisão não cabem a um combatente", e ordenou: "Oferece a cabeça dele. Cagão".


Brigadeiro Baptista Junior: A Aeronáutica Contra o Golpe


O tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, comandante da Aeronáutica, (Força Aérea Brasileira/Divulgação)   Leia mais em: https://veja.abril.com.br/coluna/radar/comandante-da-fab-curte-mensagens-com-pedidos-golpistas-no-twitter/
O tenente-brigadeiro do ar Carlos de Almeida Baptista Junior, comandante da Aeronáutica, (Força Aérea Brasileira/Divulgação)

O comandante da Aeronáutica, brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, foi ainda mais incisivo em sua oposição. Em depoimento, relatou que alertou constantemente Bolsonaro de que não existia qualquer fraude no sistema eletrônico de votação e que a Aeronáutica jamais apoiaria qualquer tentativa de manutenção irregular no poder.


Baptista Junior também se tornou alvo de ataques sistemáticos. Braga Netto chegou a orientar: "Senta o pau no Batista Junior... traidor da pátria... Inferniza a vida dele e da família".


A Exceção: Almirante Garnier


O único entre os três comandantes a apoiar o golpe foi o almirante Almir Garnier Santos, da Marinha. Segundo as investigações, Garnier chegou a colocar tropas à disposição de Bolsonaro e foi por isso elogiado pelos golpistas, que o chamavam de "patriota".


Eduardo Bolsonaro e a Guerra Econômica dos EUA




O deputado federal pediu licença do cargo e atualmente mora nos Estados Unidos com a esposa e os filhos - (crédito: Reprodução/Instagram @bolsonarosp)
O deputado federal pediu licença do cargo e atualmente mora nos Estados Unidos com a esposa e os filhos - (crédito: Reprodução/Instagram @bolsonarosp)

Enquanto no Brasil a trama golpista se desenrolava, nos Estados Unidos, Eduardo Nantes Bolsonaro, filho do ex-presidente e deputado federal, trabalhava numa frente complementar: a tentativa de criar um caos econômico no país através de sanções internacionais.


A Procuradoria-Geral da República instaurou inquérito específico contra Eduardo Bolsonaro em maio de 2025, acusando-o de três crimes: coação no curso do processo, obstrução de investigação de organização criminosa e abolição violenta do Estado Democrático de Direito.


Segundo a investigação, Eduardo Bolsonaro vem, desde o início de 2025, "reiterada e publicamente, afirmando que está se dedicando a conseguir do governo dos Estados Unidos a imposição de sanções contra integrantes do Supremo Tribunal Federal, da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal".


As ameaças incluem:

  • Cassação de vistos de entrada nos EUA

  • Bloqueio de bens e valores que autoridades brasileiras possam ter em território americano

  • Proibição de relações comerciais com pessoas físicas e jurídicas americanas


A estratégia de Eduardo Bolsonaro tem um objetivo claro: criar uma crise econômica e institucional no Brasil que force a saída do presidente Lula e abra caminho para o retorno de seu pai ao poder. A PGR identificou que essas ações têm "manifesto tom intimidatório" e visam "embaraçar o andamento do julgamento" da ação penal contra Jair Bolsonaro.


8 de Janeiro: O Ápice da Violência


Quando todos os outros planos falharam, a organização criminosa recorreu à violência direta. Em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse de Lula, milhares de pessoas invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília.



Extremistas invadiram sedes dos Poderes: mesmo identificada por setores de Inteligência, ação não foi brecada pelas forças policiais — Foto: Cristiano Mariz
Extremistas invadiram sedes dos Poderes: mesmo identificada por setores de Inteligência, ação não foi brecada pelas forças policiais — Foto: Cristiano Mariz

A investigação revelou que os atos de 8 de janeiro não foram espontâneos, mas resultado direto da atuação da organização criminosa. O financiamento, a logística e o estímulo para as invasões foram coordenados pelos núcleos golpistas.


Os danos materiais superaram R$ 20 milhões, mas o custo democrático foi incalculável. Pela primeira vez na história republicana, os símbolos máximos da democracia brasileira foram atacados fisicamente por grupos que rejeitavam o resultado de eleições livres e democráticas.


Alexandre de Moraes: O Guardião da Democracia


No centro de toda a trama golpista estava a figura do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Relator dos principais inquéritos sobre ameaças à democracia, Moraes se tornou o principal alvo dos ataques golpistas.


Como relator do inquérito das fake news e dos atos antidemocráticos, Moraes conduziu investigações que revelaram a extensão das ameaças ao sistema democrático. Suas decisões, sempre respaldadas pelo colegiado do STF, foram fundamentais para preservar as instituições.


Alexandre de Moraes, do STF / Crédito: Gustavo Moreno/STF
Alexandre de Moraes, do STF / Crédito: Gustavo Moreno/STF

A investigação revelou que Moraes era alvo prioritário dos planos violentos. O documento "Punhal Verde Amarelo" detalha minuciosamente como seria executado seu sequestro ou assassinato. O plano chegou a ser colocado em prática em 15 de dezembro de 2022, sendo abortado apenas quando ficou claro que o golpe não teria apoio militar.


Mesmo sob ameaça constante, Moraes manteve a condução das investigações dentro do estrito marco legal. Sua postura firme, mas sempre respaldada em decisões colegiadas, foi fundamental para que as instituições democráticas resistissem aos ataques sistemáticos.


O STF Como Bastião da Democracia


O Supremo Tribunal Federal desempenhou papel crucial na preservação da democracia brasileira durante a crise. Mais do que julgar casos individuais, o STF se posicionou como guardião último das instituições democráticas.


Ministros da Suprema Corte brasileira - Fellipe Sampaio/STF
Ministros da Suprema Corte brasileira - Fellipe Sampaio/STF

O Tribunal tomou decisões fundamentais:

  • Validação das eleições de 2022 contra contestações infundadas

  • Condenação dos atos de 8 de janeiro como atentados à democracia

  • Autorização das investigações que desvendaram toda a trama golpista


A conduta do STF demonstrou que as instituições brasileiras, forjadas pela Constituição de 1988, possuem mecanismos de defesa eficazes contra tentativas autoritárias. A separação de poderes funcionou como anteparo contra os ataques ao sistema democrático.


O julgamento que começa nesta terça-feira na Primeira Turma do STF transcende a responsabilização individual dos acusados. Trata-se de um momento definidor para a democracia brasileira pelos seguintes motivos:


1. Precedente Jurídico

O julgamento estabelecerá precedente definitivo sobre os limites do exercício do poder no Brasil. Uma eventual condenação deixará claro que nem mesmo ex-presidentes estão acima da lei e que tentativas de golpe serão punidas com rigor.


2. Fortalecimento Institucional

A condução do julgamento demonstra a maturidade das instituições brasileiras. O fato de um ex-presidente ser julgado pelos mesmos crimes que qualquer cidadão reforça o princípio da igualdade perante a lei.


3. Proteção da Democracia

Uma condenação servirá como elemento dissuasório para futuras tentativas autoritárias. Estabelecerá que golpes de Estado, mesmo quando fracassam, têm consequências penais graves.


4. Reparação Histórica

O julgamento representa uma oportunidade de reparação histórica pelos danos causados às instituições democráticas e à sociedade brasileira. É uma chance de reafirmar os valores democráticos.


5. Exemplo Internacional

O Brasil está sendo observado pela comunidade internacional. Um julgamento justo e rigoroso reforçará a imagem do país como democracia sólida e servirá de exemplo para outras nações enfrentando desafios similares.


Os Impactos para a Democracia Brasileira


As revelações sobre a tentativa de golpe já produziram impactos duradouros na democracia brasileira:


Paradoxalmente, os ataques às instituições resultaram no seu fortalecimento. O Congresso Nacional, o STF, o TSE e as Forças Armadas demonstraram capacidade de resistir a pressões autoritárias.


Praça dos Três Poderes em Brasília
Praça dos Três Poderes em Brasília

A sociedade brasileira tomou consciência da fragilidade da democracia. A mobilização social em defesa das instituições em momentos críticos demonstrou o amadurecimento cívico do país.


Os eventos revelaram a necessidade de reformas para fortalecer a democracia:

  • Regulamentação das redes sociais para combater desinformação

  • Fortalecimento dos órgãos de controle para impedir uso indevido da máquina pública

  • Maior transparência nos processos eleitorais


O país ainda enfrenta o desafio de superar a polarização extrema criada pela trama golpista. O julgamento pode contribuir para esse processo ao estabelecer os fatos com clareza e impor consequências aos responsáveis.


Lições para o Futuro


A tentativa de golpe de Estado no Brasil oferece lições importantes para a preservação da democracia:


1. Vigilância Constante

A democracia exige vigilância constante da sociedade. Sinais de autoritarismo devem ser identificados e combatidos precocemente.


2. Fortalecimento Institucional

As instituições democráticas precisam ser constantemente fortalecidas e aperfeiçoadas para resistir a ataques futuros.


3. Educação Cívica

É fundamental investir na educação cívica da população para criar cidadãos conscientes de seus direitos e deveres democráticos.


4. Combate à Desinformação

A desinformação é uma arma poderosa contra a democracia e precisa ser combatida através de regulamentação adequada e educação digital.


5. Defesa dos Valores Democráticos

Os valores democráticos não podem ser considerados garantidos. Precisam ser ativamente defendidos e promovidos.


O Brasil na encruzilhada da história


Quando os ministros da Primeira Turma do STF se reuniram nesta terça-feira para iniciar o julgamento de Jair Bolsonaro e seus correligionários, não estavam apenas decidindo sobre o destino individual de oito pessoas. Estavam, sim, escrevendo um capítulo fundamental da história democrática brasileira.


A investigação da Polícia Federal e a denúncia da Procuradoria-Geral da República revelaram uma conspiração de proporções assustadoras: uma organização criminosa que operou a partir dos mais altos escalões do poder, utilizou a máquina pública para fins privados, articulou com militares para quebrar a ordem constitucional e planejou eliminar fisicamente opositores políticos.


Que essa trama tenha sido descoberta, investigada e levada a julgamento demonstra a robustez das instituições brasileiras. Que os principais comandantes militares tenham recusado apoio ao golpe mostra que as lições da ditadura militar foram aprendidas pelas Forças Armadas. Que a sociedade tenha se mobilizado em defesa da democracia revela o amadurecimento cívico do país.


Mas a história ainda não terminou. O julgamento que se inicia hoje dirá se o Brasil está definitivamente vacinado contra aventuras autoritárias ou se precisará permanecer em vigilância constante. Uma coisa, porém, já está clara: a democracia brasileira foi testada ao limite e resistiu. E isso, por si só, já é uma vitória histórica.


O veredicto da Primeira Turma do STF não julgará apenas os réus no banco dos acusados. Julgará a própria capacidade da democracia brasileira de se defender, se renovar e se fortalecer diante dos desafios do século XXI. E, pelos indícios revelados ao longo de quase três anos de investigação, essa democracia está mais forte do que nunca.


Esta reportagem foi baseada em documentos oficiais da Polícia Federal, denúncia da Procuradoria-Geral da República, decisões do Supremo Tribunal Federal e fontes jornalísticas verificadas. Todos os fatos narrados estão devidamente documentados nos autos dos inquéritos e ações penais em curso.

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