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Guerra Híbrida | América Latina | Tecnologia


A “Operação Absolute Resolve” não derrubou apenas o comando militar em Caracas; ela detonou uma corrida frenética pela preservação da informação e do patrimônio. Enquanto caças F-22 sobrevoavam o Palácio de Miraflores, a população travava sua própria batalha nas telas dos smartphones.


Da Redação de O Estopim | Caracas / Brasília — 04 de janeiro de 2026


Proteção digital em momentos de crise - VPNs e wallets na Venezuela | Imagem: oestopim.com
Proteção digital em momentos de crise - VPNs e wallets na Venezuela | Imagem: oestopim.com

Na madrugada deste sábado (3), o céu de Caracas foi iluminado não pelas luzes da cidade, mas pelas explosões da Operação Absolute Resolve. A incursão militar dos Estados Unidos, que culminou na captura cinematográfica de Nicolás Maduro e Cilia Flores em Fuerte Tiuna, trouxe consigo um efeito colateral imediato e devastador: um apagão coordenado que atingiu os estados de Caracas, Miranda, Aragua, Nueva Esparta e La Guaira.


No entanto, no vácuo de poder e eletricidade que se seguiu, um fenômeno silencioso tomou conta do país. Dados de tráfego de rede monitorados nas últimas 24 horas revelam que a sociedade civil venezuelana, calejada por anos de crise, ativou um protocolo de emergência digital. Ocorre, neste momento, uma explosão de downloads de VPNs (Redes Virtuais Privadas), aplicativos de Proxy e Wallets (carteiras de criptomoedas).


Para o venezuelano comum, a guerra não é apenas sobre quem senta na cadeira presidencial; é sobre furar o cerco da censura e impedir que suas economias desapareçam junto com o regime.


O Grande Firewall de Caracas e a busca pela verdade VPN


Assim que as primeiras denotações atingiram a base aérea de La Carlota, a infraestrutura de internet da Venezuela entrou em colapso parcial. A queda foi física — devido ao corte de energia nos nós de transmissão — mas também lógica. O provedor estatal CANTV iniciou bloqueios agressivos contra redes sociais e portais de notícias estrangeiros na tentativa de conter imagens da rendição de forças leais a Maduro.


Em resposta, aplicativos como NordVPN, ExpressVPN e Psiphon dispararam para o topo das lojas de aplicativos (acessadas via dados móveis intermitentes).


"Não sabíamos se Maduro estava vivo, morto ou em Nova York. A TV estatal passava desenhos animados enquanto ouvíamos as bombas. Só conseguimos ver o vídeo de Trump anunciando a captura quando ligamos a VPN para simular uma conexão fora da Venezuela," relatou Carlos, um estudante de engenharia residente em Chacao, via Bridgefy (um app de mensagens offline).

O uso de VPNs tornou-se uma questão de segurança física. Com o medo de represálias por parte dos "Colectivos" (paramilitares chavistas) ou de forças de ocupação, navegar anonimamente virou o único escudo contra a espionagem.


Pânico Bancário e a "Cripto-Dolarização" Forçada


Se a busca por VPNs foi motivada pelo medo do escuro, a busca por Wallets foi motivada pelo medo da fome. Com o anúncio de Donald Trump de que os EUA "geririam" a Venezuela temporariamente e a incerteza sobre quem controla o Banco Central da Venezuela (BCV), o sistema bancário tradicional paralisou.


O medo de um "corralito" (congelamento de contas) ou de que o Bolívar Soberano perdesse o restante de seu valor ínfimo levou a uma migração em massa para o USDT (Tether) — uma criptomoeda pareada ao dólar.


Plataformas como Binance, Trust Wallet e Reserve viram um pico de atividade. O "Dólar Binance" tornou-se, na prática, a única moeda funcional em Caracas nas últimas 30 horas. Comerciantes que abriram suas portas em meio ao caos estão recusando bolívares e aceitando pagamentos exclusivamente via transferências cripto P2P (ponto a ponto).


A "Limpeza Digital" e o fim do VenApp


Um movimento paradoxal acompanha os novos downloads: uma onda massiva de desinstalações. O alvo é o VenApp, aplicativo criado pelo governo Maduro para "serviços públicos", mas que foi amplamente utilizado como ferramenta de vigilância e delação de opositores após as eleições de 2024.


Temendo que os dados do aplicativo caiam nas mãos erradas — seja de vingadores anti-chavistas ou de agências de inteligência dos EUA — ou que o app seja usado para localizar militantes do partido governista, milhões de venezuelanos estão apagando o software e limpando seus rastros digitais. É a "higiene cibernética" de uma população que aprendeu que, em uma mudança de regime, o histórico do celular pode ser uma sentença de morte.


A ajuda que vem do espaço


Em meio ao blecaute que deixou hospitais operando com geradores e famílias incomunicáveis, uma intervenção externa adicionou uma nova camada à complexidade do cenário. A Starlink, empresa de satélites de Elon Musk, anunciou a liberação de sinal de internet gratuito para a Venezuela até 3 de fevereiro.


A medida, embora celebrada por muitos como humanitária, é vista por analistas como parte integrante da estratégia de estabilização dos EUA, visando quebrar o monopólio de informação da infraestrutura estatal venezuelana e permitir a coordenação da oposição liderada (teoricamente) por figuras que agora tentam preencher o vácuo de poder.


O que vem a seguir?


Enquanto Delcy Rodríguez tenta manter a aparência de governo e Trump promete reconstruir a indústria petrolífera com empresas americanas, o povo venezuelano vota com seus polegares nas telas de vidro.


Eles votam pela criptografia, pela descentralização financeira e pelo acesso irrestrito à informação. A Venezuela de 4 de janeiro de 2026 é um país onde as instituições físicas ruíram, e a única soberania que resta ao cidadão reside em uma carteira digital e um servidor proxy criptografado.\


 
 
 

Por Raul Silva para O estopim | 03 de janeiro de 2026


CARACAS — O amanhecer de 3 de janeiro de 2026 ficará marcado como o fim de uma era na Venezuela e o início de um novo e incerto capítulo na geopolítica das Américas. Em uma operação relâmpago que durou menos de três horas, forças de elite dos Estados Unidos capturaram o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, retirando-os do Palácio de Miraflores e transportando-os para o navio de assalto anfíbio USS Iwo Jima.


Imagens que circulam nas redes sociais mostram colunas de fumaça em Caracas, na Venezuela - Foto: Reprodução
Imagens que circulam nas redes sociais mostram colunas de fumaça em Caracas, na Venezuela - Foto: Reprodução

A "Operação Resolução Absoluta" (Operation Absolute Resolve) não foi um evento isolado, mas o ponto culminante de doze meses de uma estratégia de pressão máxima imposta pelo segundo mandato de Donald Trump, que redefiniu o combate ao narcotráfico como um conflito armado convencional.


O ataque à Caracas: 150 aeronaves e escuridão total


A operação começou às 02h01 (horário local), quando um ataque cibernético massivo e ações de guerra eletrônica mergulharam Caracas na escuridão, desativando os sistemas de defesa aérea venezuelanos. Sob a cobertura da noite, helicópteros do 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais (os "Night Stalkers") voaram a apenas 30 metros de altura sobre o Mar do Caribe para inserir operadores da Delta Force na capital.


Mais de 150 aeronaves, incluindo caças F-22 e bombardeiros B-1B Lancer, saturaram o espaço aéreo para dar cobertura à extração. Embora Trump tenha declarado que não houve mortes americanas, a operação deixou um rastro de destruição: relatórios iniciais apontam para pelo menos 40 mortos entre militares venezuelanos e civis, com explosões ouvidas em várias partes da capital.

Horas depois, uma foto de Maduro a bordo do navio americano, vendado e usando fones de proteção auditiva, circulou o mundo, confirmando a eficácia brutal da incursão.


2025: O ano da escalada


Para entender como os EUA chegaram à invasão direta, é preciso recuar para janeiro de 2025. Ao reassumir a Casa Branca, Trump assinou ordens executivas classificando cartéis e gangues como o Tren de Aragua como "Organizações Terroristas Estrangeiras" (FTOs).


Essa designação jurídica foi a chave mestra. Ela permitiu que a administração tratasse o governo venezuelano não como um Estado soberano rival, mas como o hospedeiro de uma insurgência terrorista.


A Guerra no Mar (Setembro – Outubro 2025) A tensão tornou-se cinética no segundo semestre. Em setembro, a Marinha dos EUA iniciou uma campanha de interdição letal. Diferente das operações antidrogas tradicionais, as novas regras de engajamento permitiam disparar para destruir.


  • Em 2 de setembro, o primeiro ataque fatal destruiu uma lancha rápida, matando 11 pessoas.


  • Em 2 de outubro, Trump declarou formalmente que os cartéis eram "combatentes ilegais" e que os EUA estavam em um "conflito armado não-internacional", contornando a necessidade de processos judiciais para o uso de força letal.


  • O mês de outubro viu um pico de violência, com ataques navais quase diários e a chegada do porta-aviões USS Gerald R. Ford à região, sinalizando que o bloqueio era total.


A Frente Psicológica e "Ya Casi Venezuela" Paralelamente à força militar, uma guerra psicológica foi travada. Erik Prince, fundador da Blackwater, liderou o movimento "Ya Casi Venezuela", arrecadando fundos e prometendo a queda do regime. Embora se apresentasse como uma iniciativa privada, a campanha serviu para desestabilizar a paranoia interna em Caracas e normalizar a ideia de uma intervenção armada perante o público americano.


O prelúdio final: dezembro de 2025


Nas semanas que antecederam a captura, a administração Trump removeu as luvas. Em 29 de dezembro, a CIA conduziu o primeiro ataque de drone confirmado em solo venezuelano, atingindo uma instalação portuária supostamente usada para tráfico.


No dia 1º de janeiro de 2026, Maduro apareceu na televisão estatal em uma última tentativa de demonstrar controle, declarando-se aberto a negociar acordos sobre tráfico de drogas. A resposta americana veio 48 horas depois, na forma de forças especiais descendo sobre o Fuerte Tiuna.


O dia seguinte: "Nós vamos administrar o país"


O aspecto mais controverso da operação surgiu na coletiva de imprensa pós-captura em Mar-a-Lago. O Presidente Trump anunciou que os Estados Unidos iriam "administrar o país" ("run the country") temporariamente até que uma transição segura pudesse ocorrer.


"Vamos fazer o petróleo fluir", declarou Trump, indicando que as receitas do petróleo venezuelano seriam usadas para reembolsar os custos da operação americana.

Politicamente, Washington optou por um pragmatismo surpreendente. Em vez de entregar o poder imediatamente a Edmundo González (vencedor das eleições de 2024 segundo a oposição) ou María Corina Machado — a quem Trump desqualificou afirmando que "não tem o respeito" necessário —, o Secretário de Estado Marco Rubio iniciou negociações com Delcy Rodríguez, a vice-presidente do regime deposto. Rodríguez, agora tecnicamente presidente interina, encontra-se na difícil posição de cooperar com a força ocupante enquanto tenta manter a coesão das forças armadas venezuelanas.


Reações globais: o mundo dividido


A audácia da operação fraturou a diplomacia internacional:


  • Brasil e Colômbia: O presidente Lula condenou a ação como uma violação "inaceitável" da soberania e um "precedente perigoso". A Colômbia, temendo uma onda de refugiados, mobilizou tropas para a fronteira.


  • Rússia e China: Ambos condenaram o ataque como "agressão armada" e violação da Carta da ONU, convocando reuniões de emergência no Conselho de Segurança.


  • Europa: A União Europeia, através de Kaja Kallas, manteve uma postura cautelosa, pedindo "moderação" e reiterando a ilegitimidade de Maduro, mas sem endossar explicitamente a invasão.


Com Maduro indiciado por narcoterrorismo em Nova York e as forças navais dos EUA controlando a costa venezuelana, a "Operação Resolução Absoluta" encerra o longo impasse chavista, mas abre as portas para um experimento de construção nacional liderado pelos EUA em uma região historicamente avessa a intervenções diretas.

 
 
 

Por Raul Silva para O estopim | 03 de janeiro de 2026


Esqueçam a retórica inflamada sobre "libertação", "narcoterrorismo" ou "direitos humanos". O que testemunhamos na madrugada de 3 de janeiro de 2026, com a captura de Nicolás Maduro e a declaração de que os Estados Unidos irão "governar" a Venezuela interinamente, não foi uma operação de resgate humanitário. Foi a maior operação de aquisição corporativa hostil da história moderna, executada não por advogados em uma sala de reuniões, mas por forças especiais sob a cobertura da escuridão.


Trump fala sobre ataque à Venezuela — Foto: Reuters/Jonathan Ernst
Trump fala sobre ataque à Venezuela — Foto: Reuters/Jonathan Ernst

Para entender a verdadeira motivação de Donald Trump, basta ignorar as manchetes sobre ditadura e prestar atenção nas letras miúdas da infraestrutura energética americana e nas próprias palavras do presidente. A verdade é crua, técnica e puramente mercantilista.


A narrativa oficial omite o fato mais crítico da segurança energética dos EUA: o paradoxo do petróleo de xisto. Embora os EUA sejam os maiores produtores de petróleo do mundo, eles produzem o tipo "errado" para suas próprias refinarias. O complexo industrial da Costa do Golfo — a joia da coroa da Chevron, Valero e Exxon — foi construído décadas atrás para processar petróleo pesado e azedo. O petróleo leve de xisto americano é como colocar gasolina de aviação em um motor a diesel; ele não maximiza os lucros dessas usinas.


Com as sanções que cortaram o acesso ao petróleo pesado da Rússia e do Irã, e com a produção do México em declínio, as refinarias americanas estavam famintas. A Venezuela possui as maiores reservas de petróleo pesado do mundo. Ao tomar o controle físico desses campos, Trump não está "salvando venezuelanos"; ele está garantindo a margem de lucro das refinarias do Texas e da Louisiana, assegurando o único insumo que pode manter o preço do diesel e da gasolina artificialmente baixos para o eleitor americano.


Talvez a declaração mais honesta e assustadora de Trump tenha sido a introdução do conceito de "reembolso". Em suas próprias palavras: "Vamos tirar uma tremenda quantidade de riqueza do solo... e isso vai também para os Estados Unidos da América na forma de reembolso pelos danos causados a nós por aquele país".


Isso destrói qualquer pretensão de ajuda humanitária. Trump transformou uma nação soberana em um devedor inadimplente em processo de liquidação. A ideia de que o petróleo venezuelano deve ser extraído para pagar os custos da operação militar americana é uma atualização do saque colonial para o século XXI. Não se trata de reconstruir a Venezuela para os venezuelanos, mas de usar seus recursos para abater a dívida nacional dos EUA e pagar os contratos das empresas americanas que, segundo Trump, "vão entrar, gastar bilhões e começar a ganhar dinheiro".


Há um terceiro interesse silencioso: anular os credores rivais. A China e a Rússia emprestaram dezenas de bilhões de dólares à Venezuela, dívidas garantidas justamente por barris de petróleo futuros. Ao assumir o controle físico da PDVSA e declarar que os EUA vão "gerir" o país, Washington efetivamente confisca a garantia desses empréstimos.


Pequim e Moscou agora assistem, impotentes, enquanto o ativo que garantia seus investimentos é transferido para o controle de empresas americanas. É um xeque-mate financeiro: os EUA não apenas garantem o petróleo para si, mas impõem uma perda total aos seus maiores rivais geopolíticos sem disparar um tiro contra eles.


A recusa de Trump em reconhecer imediatamente um governo de transição civil, preferindo declarar que "nós vamos governar o país" e "fazer a transição de forma adequada" , revela o desprezo pela soberania venezuelana. Se o objetivo fosse a democracia, o poder seria entregue a Edmundo González ou María Corina Machado instantaneamente. Ao manter o controle administrativo, os EUA admitem que a Venezuela é agora, na prática, um protetorado de energia — um território onde a constituição local é subordinada aos interesses de segurança energética de Washington.


Não se iludam. A operação de 3 de janeiro não foi feita porque Maduro era um ditador — o mundo está cheio deles e muitos são aliados dos EUA. Ela foi feita porque a Venezuela é um posto de gasolina estratégico que os Estados Unidos decidiram que não podiam mais deixar sob gestão "hostil". O que estamos vendo é a privatização da política externa, onde a mudança de regime é apenas uma etapa necessária para a reestruturação da cadeia de suprimentos de petróleo pesado. A liberdade da Venezuela pode ser o slogan, mas o fluxo de cru para o Golfo do México é a única missão.

 
 
 
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