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A queda de Caracas: Da "guerra ao narcotráfico" à captura de Maduro – a crônica da Operação Resolução Absoluta

Por Raul Silva para O estopim | 03 de janeiro de 2026


CARACAS — O amanhecer de 3 de janeiro de 2026 ficará marcado como o fim de uma era na Venezuela e o início de um novo e incerto capítulo na geopolítica das Américas. Em uma operação relâmpago que durou menos de três horas, forças de elite dos Estados Unidos capturaram o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, retirando-os do Palácio de Miraflores e transportando-os para o navio de assalto anfíbio USS Iwo Jima.


Imagens que circulam nas redes sociais mostram colunas de fumaça em Caracas, na Venezuela - Foto: Reprodução
Imagens que circulam nas redes sociais mostram colunas de fumaça em Caracas, na Venezuela - Foto: Reprodução

A "Operação Resolução Absoluta" (Operation Absolute Resolve) não foi um evento isolado, mas o ponto culminante de doze meses de uma estratégia de pressão máxima imposta pelo segundo mandato de Donald Trump, que redefiniu o combate ao narcotráfico como um conflito armado convencional.


O ataque à Caracas: 150 aeronaves e escuridão total


A operação começou às 02h01 (horário local), quando um ataque cibernético massivo e ações de guerra eletrônica mergulharam Caracas na escuridão, desativando os sistemas de defesa aérea venezuelanos. Sob a cobertura da noite, helicópteros do 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais (os "Night Stalkers") voaram a apenas 30 metros de altura sobre o Mar do Caribe para inserir operadores da Delta Force na capital.


Mais de 150 aeronaves, incluindo caças F-22 e bombardeiros B-1B Lancer, saturaram o espaço aéreo para dar cobertura à extração. Embora Trump tenha declarado que não houve mortes americanas, a operação deixou um rastro de destruição: relatórios iniciais apontam para pelo menos 40 mortos entre militares venezuelanos e civis, com explosões ouvidas em várias partes da capital.

Horas depois, uma foto de Maduro a bordo do navio americano, vendado e usando fones de proteção auditiva, circulou o mundo, confirmando a eficácia brutal da incursão.


2025: O ano da escalada


Para entender como os EUA chegaram à invasão direta, é preciso recuar para janeiro de 2025. Ao reassumir a Casa Branca, Trump assinou ordens executivas classificando cartéis e gangues como o Tren de Aragua como "Organizações Terroristas Estrangeiras" (FTOs).


Essa designação jurídica foi a chave mestra. Ela permitiu que a administração tratasse o governo venezuelano não como um Estado soberano rival, mas como o hospedeiro de uma insurgência terrorista.


A Guerra no Mar (Setembro – Outubro 2025) A tensão tornou-se cinética no segundo semestre. Em setembro, a Marinha dos EUA iniciou uma campanha de interdição letal. Diferente das operações antidrogas tradicionais, as novas regras de engajamento permitiam disparar para destruir.


  • Em 2 de setembro, o primeiro ataque fatal destruiu uma lancha rápida, matando 11 pessoas.


  • Em 2 de outubro, Trump declarou formalmente que os cartéis eram "combatentes ilegais" e que os EUA estavam em um "conflito armado não-internacional", contornando a necessidade de processos judiciais para o uso de força letal.


  • O mês de outubro viu um pico de violência, com ataques navais quase diários e a chegada do porta-aviões USS Gerald R. Ford à região, sinalizando que o bloqueio era total.


A Frente Psicológica e "Ya Casi Venezuela" Paralelamente à força militar, uma guerra psicológica foi travada. Erik Prince, fundador da Blackwater, liderou o movimento "Ya Casi Venezuela", arrecadando fundos e prometendo a queda do regime. Embora se apresentasse como uma iniciativa privada, a campanha serviu para desestabilizar a paranoia interna em Caracas e normalizar a ideia de uma intervenção armada perante o público americano.


O prelúdio final: dezembro de 2025


Nas semanas que antecederam a captura, a administração Trump removeu as luvas. Em 29 de dezembro, a CIA conduziu o primeiro ataque de drone confirmado em solo venezuelano, atingindo uma instalação portuária supostamente usada para tráfico.


No dia 1º de janeiro de 2026, Maduro apareceu na televisão estatal em uma última tentativa de demonstrar controle, declarando-se aberto a negociar acordos sobre tráfico de drogas. A resposta americana veio 48 horas depois, na forma de forças especiais descendo sobre o Fuerte Tiuna.


O dia seguinte: "Nós vamos administrar o país"


O aspecto mais controverso da operação surgiu na coletiva de imprensa pós-captura em Mar-a-Lago. O Presidente Trump anunciou que os Estados Unidos iriam "administrar o país" ("run the country") temporariamente até que uma transição segura pudesse ocorrer.


"Vamos fazer o petróleo fluir", declarou Trump, indicando que as receitas do petróleo venezuelano seriam usadas para reembolsar os custos da operação americana.

Politicamente, Washington optou por um pragmatismo surpreendente. Em vez de entregar o poder imediatamente a Edmundo González (vencedor das eleições de 2024 segundo a oposição) ou María Corina Machado — a quem Trump desqualificou afirmando que "não tem o respeito" necessário —, o Secretário de Estado Marco Rubio iniciou negociações com Delcy Rodríguez, a vice-presidente do regime deposto. Rodríguez, agora tecnicamente presidente interina, encontra-se na difícil posição de cooperar com a força ocupante enquanto tenta manter a coesão das forças armadas venezuelanas.


Reações globais: o mundo dividido


A audácia da operação fraturou a diplomacia internacional:


  • Brasil e Colômbia: O presidente Lula condenou a ação como uma violação "inaceitável" da soberania e um "precedente perigoso". A Colômbia, temendo uma onda de refugiados, mobilizou tropas para a fronteira.


  • Rússia e China: Ambos condenaram o ataque como "agressão armada" e violação da Carta da ONU, convocando reuniões de emergência no Conselho de Segurança.


  • Europa: A União Europeia, através de Kaja Kallas, manteve uma postura cautelosa, pedindo "moderação" e reiterando a ilegitimidade de Maduro, mas sem endossar explicitamente a invasão.


Com Maduro indiciado por narcoterrorismo em Nova York e as forças navais dos EUA controlando a costa venezuelana, a "Operação Resolução Absoluta" encerra o longo impasse chavista, mas abre as portas para um experimento de construção nacional liderado pelos EUA em uma região historicamente avessa a intervenções diretas.

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