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Por Raul Silva para O estopim | 18 de junho de 2026



Documentos financeiros citados no caso Banco Master indicam que dois deputados federais do Progressistas pelo Piauí pagaram faturas de cartão de crédito em nome do senador Ciro Nogueira (PP-PI) em junho de 2024. Os registros atribuem os pagamentos a Átila Lira e Júlio Arcoverde, aliados políticos de Ciro no estado.


Homem de terno e gravata, com máscara caída na orelha, sentado em auditório com cadeiras ao fundo e expressão satisfeita.
Ciro Nogueira é citado em apuração sobre faturas de cartão pagas por deputados do PP no caso Banco Master | Foto: Reprodução/Agência Senado

Os valores somam cerca de R$ 17 mil. Átila Lira aparece associado ao pagamento de um boleto de R$ 3.457 referente a cartão do BRB em nome de Ciro. Júlio Arcoverde é citado no pagamento de outra fatura, de R$ 13.693,54.


O dado abre uma frente delicada para o presidente nacional do PP porque envolve despesas pessoais quitadas por parlamentares do mesmo partido. A questão central é saber qual foi a origem dos recursos, por que os deputados teriam feito os pagamentos e se houve contrapartida política, reembolso ou outro tipo de ajuste privado formalizado.


O caso não se resume ao valor das faturas. Para os investigadores, os pagamentos precisam ser analisados dentro de um conjunto maior de movimentações financeiras atribuídas ao senador e ao seu entorno político.


A suspeita se soma a informações sobre possíveis benefícios recebidos por Ciro Nogueira em sua relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Relatórios da Polícia Federal já apontaram pagamentos mensais atribuídos ao senador, além de despesas com viagens, hospedagens e refeições no exterior.


Nesse contexto, as faturas pagas por deputados do PP ganham relevância porque mostram uma relação financeira direta entre aliados políticos e gastos privados de Ciro. Mesmo que os valores sejam menores do que outras cifras citadas no caso, o episódio expõe uma pergunta simples: por que parlamentares do mesmo grupo político pagariam contas pessoais de um senador?


Átila Lira negou ter feito o pagamento e afirmou que a informação poderia decorrer de erro no registro bancário. Júlio Arcoverde disse que o pagamento poderia estar ligado a algum pedido feito a Ciro durante viagem internacional.


Ciro Nogueira, por sua vez, já classificou questionamentos sobre o caso como absurdos e evitou detalhar publicamente os registros financeiros atribuídos a ele.


As respostas ainda deixam lacunas. Se houve erro bancário, será necessário demonstrar como o nome do deputado apareceu vinculado ao pagamento. Se houve encomenda, favor pessoal ou reembolso de viagem, a comprovação documental passa a ser essencial para afastar suspeitas.


Outro eixo do caso é a compatibilidade entre a renda declarada de Ciro e o volume de movimentações financeiras associado à sua conta. Registros citados na imprensa apontam valores mensais muito superiores aos rendimentos líquidos declarados pelo senador como pessoa física.


Esse contraste é relevante porque despesas de cartão, repasses de terceiros e pagamentos cruzados ajudam a identificar se a movimentação financeira tem origem regular, se corresponde ao padrão declarado ou se pode indicar entrada de recursos não explicados.


A PF trabalha com a hipótese de que parte dos benefícios atribuídos a Ciro estaria conectada a interesses privados do Banco Master e de Daniel Vorcaro. Ainda não há condenação. O que existe é uma investigação em curso, com registros financeiros, mensagens, comprovantes e cruzamento de dados.


O documento oficial anexado ao caso analisado por O estopim trata de outro recorte da Operação Compliance Zero, envolvendo o senador Jaques Wagner. Ele não cita Ciro Nogueira. Ainda assim, ajuda a entender como a Polícia Federal vem estruturando a investigação sobre o Banco Master.


A decisão do ministro André Mendonça, no Supremo Tribunal Federal, afirma que a Compliance Zero examina uma organização estruturada em núcleos voltados a fraudes financeiras, cooptação de agentes públicos, ocultação patrimonial, lavagem de dinheiro e obstrução da fiscalização estatal.


O documento também registra que a PF utiliza mensagens eletrônicas, áudios, chamadas de voz, documentos contratuais, comprovantes de transferência, registros societários, metadados, planilhas de pagamentos e comunicações extraídas de celulares apreendidos em fases anteriores da operação.


Esse método explica por que pagamentos aparentemente pontuais, como faturas de cartão, podem ganhar peso dentro de uma investigação maior. Isoladamente, uma fatura pode parecer detalhe. Cruzada com renda, mensagens, vínculos políticos, interesses legislativos e benefícios pagos por empresários, ela pode indicar um padrão.


Ciro Nogueira não é apenas senador. Ele é presidente nacional do Progressistas e principal liderança do partido no Piauí. Átila Lira e Júlio Arcoverde pertencem ao mesmo campo político.


Essa proximidade não prova irregularidade, mas aumenta a obrigação de transparência. Quando parlamentares ligados ao mesmo grupo aparecem pagando despesas pessoais de seu principal líder, a explicação precisa ser objetiva, documentada e compatível com a legislação.


O caso também atinge a imagem do PP porque envolve uma estrutura partidária concentrada em torno de Ciro. Ainda que os pagamentos tenham explicações privadas, o episódio mistura partido, mandato e finanças pessoais em uma zona de risco político.


A pergunta principal não é apenas quem pagou as faturas. É por que pagou.


Se houve erro, ele precisa ser demonstrado. Se houve favor pessoal, é preciso explicar origem, motivo e eventual reembolso. Se houve pagamento sem contrapartida clara, o caso pode reforçar suspeitas de benefício econômico indevido a agente público.


Por enquanto, as citações não equivalem a condenação. Ciro Nogueira, Átila Lira e Júlio Arcoverde têm direito à defesa e à apresentação de documentos. Mas os registros colocam o senador diante de uma questão pública incontornável: despesas pessoais de um líder partidário foram quitadas por deputados aliados, em meio a uma investigação que já examina pagamentos, benefícios e interesses associados ao Banco Master.


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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim, com foco em política, investigação, poder e temas de interesse público.

Senadora de Pernambuco afirma que derrubada do veto ao PL 2.162/2023 beneficia diretamente Jair Bolsonaro e reacende disputa entre Congresso, governo e Supremo sobre os crimes contra a democracia


Por Raul Silva para O estopim | 2 de maio de 2026



Mulher fala em pódio no Senado, com microfones e bandeira do Brasil ao fundo. Ela usa óculos e veste roupa escura. Cena formal.
A senadora Teresa Leitão discursa em plenário do Senado | Jefferson Rudy/Agência Senado

O estopim da nova crise institucional em Brasília foi a derrubada, pelo Congresso Nacional, do veto total do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao chamado PL da Dosimetria, o Projeto de Lei 2.162/2023. Em vídeo publicado em suas redes sociais, a senadora Teresa Leitão (PT-PE) fez uma crítica frontal à votação e afirmou que a proposta foi pensada e aprovada para beneficiar uma pessoa específica: Jair Bolsonaro, pai do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).


A fala da parlamentar pernambucana se insere num embate que já ultrapassou a fronteira da técnica penal. O que está em disputa não é apenas a forma de calcular penas ou o ritmo de progressão de regime. O conflito envolve a memória política dos atos de 8 de janeiro de 2023, a autoridade das decisões do Supremo Tribunal Federal, a capacidade do Executivo de conter derrotas no Congresso e a tentativa do bolsonarismo de reorganizar sua força institucional às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.


A senadora sustentou que a tramitação do veto teve caráter excepcional. Segundo Teresa, o projeto entrou como um “paraquedista” na pauta, embora houvesse outros vetos aguardando análise. Ela também afirmou que a condução da Mesa do Congresso inicialmente permitia efeitos mais amplos do texto, inclusive sobre crimes hediondos e organizações criminosas, antes de parte desses dispositivos ser considerada prejudicada durante a sessão.


“Foi um paraquedista”, afirmou a senadora, ao criticar a prioridade dada à matéria. Em outro ponto, Teresa foi mais direta ao apontar o alvo político da proposta: na avaliação dela, a dosimetria aprovada tem “direção única” e mira Jair Bolsonaro, condenado pelo Supremo no processo da trama golpista.


O Congresso derrubou o veto presidencial em 30 de abril de 2026. Na Câmara dos Deputados, foram 318 votos contra o veto, 144 a favor da manutenção e 5 abstenções. No Senado Federal, o placar foi de 49 votos pela rejeição do veto e 24 pela manutenção. Com isso, o texto vetado seguirá para promulgação pelo próprio Congresso, ressalvados os dispositivos considerados prejudicados pela Presidência da Mesa.


O PL da Dosimetria altera trechos da Lei de Execução Penal e do Código Penal. Embora o texto tenha uma redação geral, sua repercussão política está diretamente ligada aos condenados pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro e pela tentativa de golpe de Estado. Entre os possíveis beneficiados está Jair Bolsonaro, condenado pelo STF a 27 anos e 3 meses de prisão.


A decisão do Congresso não produz, por si só, a revisão automática das penas. Após a promulgação, defesas de condenados poderão pedir a aplicação da nova lei ao Supremo ou ao juízo responsável pela execução penal. Do outro lado, o PT e setores do governo avaliam levar o caso ao STF para questionar a constitucionalidade da norma e o procedimento adotado na derrubada do veto.


A fala de Teresa Leitão tem dois eixos. O primeiro é jurídico e procedimental: a senadora questiona a forma como a votação foi conduzida. O segundo é político: ela acusa a maioria parlamentar de usar uma regra penal de aparência geral para atingir um objetivo concreto, a redução do impacto da condenação de Bolsonaro.


Segundo a senadora, a proposta não nasceu como uma reforma ampla, debatida com calma, audiências públicas e estudo de impacto sobre o sistema prisional. Pelo contrário, apareceu no centro da pauta em meio a uma disputa política intensa, com pressão direta de setores bolsonaristas para reduzir as penas dos condenados pela tentativa de ruptura institucional.


Na visão de Teresa, mesmo depois de a Mesa retirar trechos que poderiam alcançar criminosos comuns, como condenados por crimes hediondos e organizações de facções, o problema central permaneceu. Para ela, a lei continuou carregando uma finalidade específica: aliviar a situação penal do ex-presidente.


Essa crítica toca num ponto sensível da teoria democrática. Leis devem ser gerais, impessoais e orientadas pelo interesse público. Quando uma maioria parlamentar aprova uma norma com destinatário político identificável, a pergunta deixa de ser apenas penal e passa a ser republicana: o Congresso está legislando para o país ou para um grupo de aliados?


Homem de terno observa painel eletrônico verde com textos em amarelo. Ambiente de plenário, ar sério, papéis sobre a mesa.
O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, durante a sessão que derrubou o veto do presidente Lula ao PL da Dosimetria | Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

Parlamentares favoráveis ao PL da Dosimetria afirmam que a proposta corrige excessos nas condenações e busca responder a penas consideradas desproporcionais. A oposição bolsonarista e parte do Centrão sustentam que muitos réus do 8 de janeiro receberam punições altas demais para condutas praticadas num mesmo contexto fático.


Esse argumento encontrou eco em setores que defendem “pacificação” política. Para esse campo, a dosimetria não seria anistia, mas apenas ajuste técnico para evitar que crimes derivados de um mesmo episódio se somem de modo excessivo. A diferença, porém, é que a anistia declara perdão político, enquanto a dosimetria altera o cálculo da pena. Na prática política, a distinção pode ser menos nítida do que parece no papel.


Críticos do projeto, como Teresa Leitão, dizem que a proposta funciona como anistia indireta. O raciocínio é simples: se a lei reduz substancialmente o tempo de pena dos condenados por tentativa de golpe, ela enfraquece o efeito pedagógico e institucional das decisões judiciais que responsabilizaram os ataques à democracia.


A derrubada do veto é também uma derrota política para Lula. O presidente havia vetado integralmente o texto em janeiro de 2026 sob o argumento de inconstitucionalidade e contrariedade ao interesse público. Ao derrubar o veto, o Congresso impôs sua maioria e deixou claro que a correlação de forças em Brasília está mais favorável ao bloco conservador e ao Centrão do que ao Palácio do Planalto.


O gesto parlamentar, porém, não encerra a disputa. Ao contrário, desloca o conflito para o Supremo. Como as condenações dos principais envolvidos na trama golpista foram impostas pelo STF, caberá à Corte decidir, se provocada, até onde uma nova lei pode interferir nos efeitos práticos dessas condenações.


Essa é a arena mais delicada. De um lado, o Congresso tem competência para legislar em matéria penal. De outro, a Constituição impõe limites ao uso da lei quando há desvio de finalidade, violação da separação de poderes ou tentativa de neutralizar decisões judiciais por meio de casuísmo legislativo.


Estátua de justiça em frente a um moderno edifício de vidro e concreto sob céu azul claro. Sensação de formalidade e tranquilidade.
Acervo arquivístico do STF | Fonte: Site oficial do CNJ

A fala de Teresa Leitão também expõe uma estratégia mais ampla do bolsonarismo. Desde a condenação de Jair Bolsonaro, seus aliados vêm buscando três caminhos simultâneos: a narrativa de perseguição política, a reorganização eleitoral em torno de Flávio Bolsonaro e a tentativa legislativa de reduzir os efeitos jurídicos da punição.


A dosimetria se encaixa nesse terceiro eixo. Ela não absolve Bolsonaro, mas pode diminuir sua pena e antecipar benefícios na execução penal. Politicamente, isso permite ao bolsonarismo apresentar a derrubada do veto como vitória, sem assumir formalmente a impopularidade de uma anistia plena aos responsáveis pela tentativa de golpe.


É nessa fresta que Teresa Leitão finca sua crítica. Para ela, o nome técnico do projeto encobre uma operação política. “Dosimetria” soa como cálculo jurídico, mas, na leitura da senadora, o que está em curso é uma disputa sobre impunidade, memória democrática e força institucional da extrema direita.


A intervenção de Teresa Leitão carrega também um significado regional. Primeira mulher eleita senadora por Pernambuco, ela fala a partir de um estado que tem tradição de participação política intensa e memória viva de lutas democráticas. Ao se posicionar contra o PL da Dosimetria, a parlamentar busca associar Pernambuco ao campo de defesa institucional, numa conjuntura em que o Nordeste permanece como base estratégica do lulismo e alvo permanente da disputa simbólica nacional.


Não se trata apenas de uma fala partidária. É uma tentativa de marcar posição num debate em que o vocabulário jurídico muitas vezes esconde o conflito real. A pergunta que atravessa o episódio é direta: como uma democracia deve tratar quem tentou destruí-la?


Com a derrubada do veto, o próximo passo formal é a promulgação do texto pelo Congresso. Depois disso, a disputa deve seguir por dois caminhos. No campo jurídico, defesas de condenados podem pedir revisão de penas. No campo institucional, partidos contrários ao projeto devem acionar o STF para tentar barrar ou limitar os efeitos da nova regra.


No campo político, a votação fortalece o discurso bolsonarista de revanche e amplia a pressão sobre o governo Lula. Ao mesmo tempo, dá à esquerda um argumento poderoso para mobilizar sua base: a tese de que a maioria parlamentar está convertendo poder legislativo em instrumento de proteção de aliados condenados por atacar a democracia.


A fala de Teresa Leitão, não é apenas reação a uma votação. É um alerta sobre a qualidade republicana da lei. Num país que ainda tenta processar os traumas do 8 de janeiro e da Ditadura Militar, a dosimetria virou mais que um cálculo de pena. Virou um teste de memória institucional.


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Raul Silva é jornalista político sênior de O estopim, especialista em Ciência Política, instituições democráticas e relações entre poder, território e sociedade no Nordeste brasileiro.


Custódia do ex-diretor da Abin e ex-deputado condenado por tentativa de golpe abre nova frente entre cooperação internacional, discurso de perseguição e disputa sobre asilo político


Por Raul Silva para O estopim | 13 de abril de 2026




Homem de terno escuro e gravata fala ao microfone, com expressão séria. Fundo azul. Ambiente formal, possivelmente uma conferência.
Ex-deputado Alexandre Ramagem que estava foragido da justiça brasileira foi preso pelo ICE nos EUA | Foto: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados

A detenção de Alexandre Ramagem pelo Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos, o ICE, nesta segunda-feira, recoloca no centro do debate um tema que ultrapassa a biografia do ex-diretor da Abin e ex-deputado federal: até onde vai a capacidade do Estado brasileiro de fazer valer, fora de suas fronteiras, decisões judiciais ligadas à trama golpista que tentou corroer a ordem democrática após a eleição de 2022.


O estopim deste novo capítulo está menos no gesto policial em si e mais no que ele simboliza. Ramagem não era um réu periférico. Ao contrário. Sua trajetória conectou aparato de inteligência, núcleo político bolsonarista, disputa eleitoral, tentativa de deslegitimação do sistema de votação e, mais tarde, fuga para os Estados Unidos depois da condenação. Sua detenção, portanto, não é um episódio isolado. É a continuação internacional de uma crise brasileira.


Confirmada por autoridades brasileiras e noticiada pela imprensa internacional, a custódia ocorre meses depois de o governo do Brasil formalizar o pedido de extradição do ex-parlamentar aos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, aliados de Ramagem sustentam a versão de que a ação teria nascido de uma abordagem por infração leve de trânsito e que o ex-deputado teria pedido de asilo pendente. Até aqui, porém, o ponto decisivo é outro: não há explicação pública conclusiva sobre qual foi o fundamento imediato da ação do ICE.


Alexandre Ramagem foi detido em território norte-americano e aparece como caso sob custódia migratória, segundo relatos convergentes de autoridades brasileiras e da cobertura jornalística desta segunda-feira. A Polícia Federal e o Ministério da Justiça e Segurança Pública confirmaram a ocorrência da prisão.


Também está documentado que o governo brasileiro já havia formalizado, no fim de janeiro, o pedido de extradição aos Estados Unidos. O ofício enviado ao Supremo Tribunal Federal informa que a solicitação foi entregue pela embaixada brasileira em Washington ao Departamento de Estado em 30 de dezembro de 2025. Não há prazo público para a análise desse pedido.


Outro dado central é o contexto penal. Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado. Depois, perdeu o mandato parlamentar. Segundo informações oficiais já divulgadas, ele deixou o Brasil em setembro de 2025, pela fronteira com a Guiana, e seguiu para os Estados Unidos antes da execução da pena.


Homem com colete "POLICE ICE" de costas, diante de bandeira dos EUA rachada e logo "U.S. Customs and Border Protection". Atmosfera séria.
Agente do ICE diante de um fundo com a bandeira dos EUA e o emblema da proteção de fronteiras, simbolizando a fiscalização e controle imigratório. | Foto: Reprodução

Há uma diferença decisiva entre fato confirmado e versão interessada. O fato confirmado é a detenção pelo ICE. A versão interessada, até agora sem confirmação pública independente, é a de que tudo começou apenas com uma infração leve de trânsito em Orlando e de que o caso seria estritamente burocrático do ponto de vista migratório.


Essa diferença importa porque ela define o enquadramento da notícia. Se a causa imediata foi apenas uma abordagem policial de rotina, o caso pode caminhar inicialmente pela trilha migratória comum. Se houve acionamento decorrente da cooperação entre Brasil e Estados Unidos, o peso político e judicial da detenção é outro. As duas possibilidades não são mutuamente excludentes, mas hoje não há transparência suficiente para cravar qual delas prevalece.


Também não há, até este momento, documentação pública detalhada que permita verificar em que estágio está eventual pedido de asilo, nem se esse elemento produz efeito imediato capaz de travar uma remoção ou apenas abrir uma disputa administrativa e judicial mais longa.


No plano jurídico norte-americano, a detenção pelo ICE não se confunde automaticamente com extradição. São trilhas que podem dialogar politicamente, mas não são idênticas. Em regra, a frente migratória passa pelo Departamento de Segurança Interna e pela Justiça migratória. Quando o governo entende que um estrangeiro deve responder a procedimento de remoção, o processo se inicia com uma notificação formal e segue para análise de um juiz de imigração, que pode examinar a removibilidade e eventual pedido de proteção contra a retirada do país.


A frente extradicional, por sua vez, tem outra natureza. Ela envolve a solicitação formal feita por um Estado a outro, tramitação diplomática e exame judicial dentro das regras aplicáveis ao acordo bilateral e à legislação americana. Em termos práticos, isso significa que a detenção de Ramagem pode produzir uma convergência entre as duas esferas, mas essa convergência não é automática.


Traduzindo para o leitor: estar sob custódia do ICE não significa, por si só, embarque imediato para o Brasil. Significa, isso sim, que a permanência dele em território americano entrou numa zona crítica de revisão institucional.


Para o governo brasileiro e para o sistema de Justiça, o caso tem valor simbólico e operacional. Simbólico porque a responsabilização dos articuladores da ruptura democrática perde coerência se quadros centrais conseguem transformar o exterior em abrigo seguro. Operacional porque o êxito, ainda que parcial, de mecanismos de cooperação internacional reforça a autoridade das decisões do STF.


Para o bolsonarismo, a batalha é outra. O esforço é converter uma condenação por tentativa de golpe numa narrativa de perseguição política, buscando deslocar a discussão do campo penal para o campo ideológico. O asilo, nesse contexto, deixa de ser apenas instrumento jurídico e passa a funcionar como peça de comunicação política. Não se trata apenas de permanecer nos Estados Unidos. Trata-se de produzir a imagem de exilado.


Para os Estados Unidos, o caso também é sensível. Ele cruza política migratória, relações diplomáticas e o custo de hospedar personagens estrangeiros associados a ataques institucionais em seus países de origem. Em outras palavras, a pergunta americana não é apenas quem é Ramagem, mas que tipo de precedente o tratamento dado a ele pode criar.


A prisão de Ramagem fora do Brasil ilumina uma verdade incômoda sobre a crise institucional brasileira: os efeitos do bolsonarismo radicalizado deixaram de caber apenas nas fronteiras nacionais. A trama golpista produziu desdobramentos transnacionais, seja pela circulação de personagens, seja pelo uso de redes políticas e ideológicas internacionais para tentar blindar condenados.


Há ainda um dado estrutural. Ramagem ocupou posto estratégico de inteligência no governo Bolsonaro. Isso confere ao episódio densidade distinta. Quando um ex-chefe de inteligência, condenado por participação em ação contra a ordem democrática, foge e acaba detido no exterior, a notícia não fala apenas de um indivíduo. Ela fala da degradação de mecanismos estatais que deveriam proteger a República e que, em vez disso, foram arrastados para dentro da disputa de facção.


No curto prazo, há pelo menos três cenários plausíveis.


  • O primeiro é a liberação sob condições, caso a frente migratória avance mais rapidamente do que a extradicional e a defesa consiga sustentar algum tipo de proteção provisória.

  • O segundo é a manutenção da custódia com aprofundamento da cooperação entre autoridades brasileiras e americanas, o que aproximaria o caso de um desfecho favorável à entrega ao Brasil.

  • O terceiro é um impasse prolongado, com judicialização, disputa sobre asilo, recursos e forte exploração política do caso pelos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.


Nenhum desses cenários é neutro. Todos carregam efeitos sobre a percepção pública da força das instituições brasileiras, da confiabilidade da cooperação internacional e da capacidade da extrema direita de fabricar mártires a partir de réus condenados.


Mais do que o destino pessoal de Alexandre Ramagem, o que está em disputa é a mensagem institucional do caso. Se a democracia brasileira condena, mas não consegue executar; se a cooperação internacional é acionada, mas não produz consequência; se a fuga vira apenas etapa tática de um roteiro político, o sinal emitido é de fragilidade.


Se, ao contrário, o processo avançar com base em devido processo legal, transparência mínima e coordenação entre Estados, o episódio pode se tornar um marco de responsabilização real, e não apenas simbólica, dos agentes que apostaram na ruptura.


Em política, a forma também é substância. E, neste caso, a forma como Brasil e Estados Unidos tratarão Ramagem dirá muito sobre o valor concreto que ambos atribuem à defesa da institucionalidade democrática.


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Raul Silva é jornalista político e analista de conjuntura de O estopim. Escreve sobre instituições, democracia, relações de poder e os efeitos sociais das decisões tomadas no topo da República.


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