top of page
Banner Lira Cultural horizontal.gif

TecnoPolítica no Sertão: quando o ‘Coronel’ vira Código e o Voto vira Dado em Arcoverde

Por Raul Silva | Analista de Sistemas, Jornalista e Professor Data: 11 de janeiro de 2026 | Tempo de Leitura: 6 min


Como a Tecnopolítica manipula a Política Pernambucana? Raul Silva analisa o uso de algoritmos e dados nas eleições de Arcoverde, revelando o novo "Curral Eleitoral Digital".


Exemplos práticos de Tecnopolítica são apps que permitem ao usuário enviar ou assinar projetos de lei e robôs que fiscalizam gastos públicos.
Exemplos práticos de Tecnopolítica são apps que permitem ao usuário enviar ou assinar projetos de lei e robôs que fiscalizam gastos públicos. | Foto: Reprodução

Era uma tarde de domingo na Praça da Bandeira. Antigamente, em ano eleitoral como este de 2026, esse cenário estaria tomado por carros de som, bandeiras e o aperto de mão suado dos candidatos. Hoje, a praça está silenciosa. O barulho mudou de lugar: ele agora vibra no bolso da calça, na notificação do WhatsApp, na timeline infinita do Instagram.


Não se engane: o "coronelismo" não morreu, ele apenas fez um upgrade.


Como jornalista que cobre os bastidores da Prefeitura de Arcoverde e, acima de tudo, como Bacharel em Sistemas de Informação que entende o que roda por trás da tela preta do seu celular, trago um alerta urgente. O voto de cabresto, que antes era trocado por um par de botinas ou um saco de cimento, foi digitalizado. O cabo eleitoral agora é um bot e o favor trocado é a validação do seu próprio ódio. Bem-vindos à era da Tecnopolítica no Sertão.


Do Coronel de Pano ao Coronel de Dados: a modernização do atraso


A Política Pernambucana sempre foi marcada por figuras carismáticas, os chamados "caciques". Mas em 2026, o carisma foi substituído pela eficiência fria da métrica. O novo coronel não precisa saber o nome da sua mãe ou ir ao batizado do seu filho; ele só precisa saber o seu padrão de navegação.


Enquanto a imprensa tradicional se limita a noticiar quem apoia quem, nós precisamos olhar para o invisível. Em cidades do interior como a nossa, a política virou uma guerra de narrativas segmentadas. O candidato não sobe mais no palanque para falar com a multidão; ele usa o Dark Post (publicação fantasma que só aparece para um público específico). Para o bairro São Cristóvão, ele promete segurança; para o Centro, promete incentivo fiscal. As promessas podem até ser contraditórias, mas como os públicos não se cruzam nas redes, a mentira não é descoberta.


Isso fragmenta a nossa sociedade. O Sertão, que sempre foi lugar de encontro e prosa na calçada, está sendo fatiado em bolhas digitais onde o vizinho não reconhece mais a realidade do outro.


A engenharia do Voto: um olhar de quem constrói sistemas


Aqui entro na minha seara técnica. Para muitos, o algoritmo é mágica. Para mim, como analista de sistemas, o algoritmo é uma sequência lógica de instruções finitas — e, mais importante, ele tem um "dono".


O que está acontecendo em Arcoverde é a aplicação bruta de Microtargetting (Microdirecionamento). Funciona assim: grandes bancos de dados cruzam informações públicas (seu CPF na farmácia, seu Like na foto do São João, sua geolocalização). Com isso, cria-se um perfil psicométrico.


Tecnicamente, o sistema não quer saber se você é de esquerda ou de direita. Ele quer saber qual gatilho emocional gera mais engajamento (leia-se: tempo de tela e compartilhamento).


  1. Viés de Confirmação: O código é escrito para lhe mostrar apenas o que você concorda. Se você tem medo da violência, o algoritmo vai inundar seu feed com notícias de crimes (muitas vezes antigas ou falsas), preparando o terreno para o candidato "da ordem".


  2. Câmaras de Eco: O sistema suprime o contraditório. Isso não é erro de sistema; é feature (funcionalidade). É assim que se radicaliza um eleitorado pacífico como o nosso.


Quando você acha que "escolheu" um candidato porque viu três vídeos dele falando "verdades", cuidado: pode ter sido apenas uma query (consulta) de banco de dados bem executada que selecionou você como alvo perfeito.


O Analfabetismo Digital é o novo Voto de Cabresto


Estou na sala de aula há quase quatorze anos. Vejo diariamente jovens com smartphones de última geração nas mãos, capazes de editar vídeos incríveis para o TikTok, mas incapazes de checar a fonte de uma notícia recebida no grupo da família.


O abismo da desigualdade social no Brasil agora tem uma nova camada: a desigualdade cognitiva digital. A Educação pública, apesar dos esforços heroicos de nós professores, ainda não conseguiu integrar o Letramento Midiático ao currículo de forma eficaz.


Ensinamos a fórmula de Bhaskara, mas não ensinamos como funciona a monetização do ódio nas Big Techs. O resultado? Um eleitorado vulnerável. Em Arcoverde, o novo analfabeto não é quem não sabe ler letras; é quem não sabe ler intenções por trás de um link. Enquanto não tratarmos a tecnologia como disciplina fundamental — tão importante quanto Português ou Matemática —, nossa democracia será apenas uma simulação rodando em um servidor estrangeiro.


Hackeando o Sistema


Arcoverde precisa de mais do que obras de pedra e cal; precisa de uma atualização de software moral. O Sertão não pode ser apenas consumidor de tecnologia; precisa ser crítico dela.


A tecnopolítica é uma ferramenta. Na mão do tirano, é controle. Na mão do cidadão consciente, pode ser libertação e transparência.


Como seu editor no O estopim, meu compromisso é este: usar o conhecimento técnico para iluminar o que tentam esconder no código-fonte da política local. Não seja um usuário passivo. Seja um cidadão com privilégios de administrador.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Banner Lira Cultural vertical.gif
bottom of page