Denúncia aponta superlotação e falhas no espaço de acessibilidade do São João de Arcoverde; prefeitura rebate
- Raul Silva

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Por Raul Silva para O estopim | 17 de junho de 2026

Uma denúncia feita por familiares de uma idosa de 82 anos colocou em xeque a estrutura do espaço de acessibilidade do São João de Arcoverde 2026. O relato descreve superlotação, pessoas passando mal, risco para idosos, cadeirantes e pessoas com deficiência e falhas no transporte acessível oferecido pela Prefeitura. Em resposta, a Secretaria de Assistência Social afirmou que o local operou “dentro da capacidade prevista para os usuários credenciados”, reconheceu “desafios operacionais” em noites de maior público e disse que os relatos serão considerados para ajustes nas próximas edições.
Na denúncia, a autora afirma que a mãe, inscrita para usar o espaço reservado, encontrou um ambiente de “total desorganização e falta de segurança”. Segundo o texto, havia “pessoas desmaiando, sendo retiradas do local pelos bombeiros, além de crianças, mulheres e idosos passando mal por causa da superlotação e do aperto”.
O relato também sustenta que o risco não se limitava ao desconforto.
“Em vários momentos, tive medo de que as grades cedessem e caíssem sobre os idosos, cadeirantes e pessoas com deficiência, que poderiam ter sido esmagados”, diz a denúncia.
Em outro trecho, a autora acrescenta que pessoas que passavam mal estariam sendo retiradas “por cima dos próprios idosos e cadeirantes, colocando todos em ainda mais risco”.
A crítica, porém, faz uma distinção entre a atuação da equipe e a estrutura montada pela gestão.
“Faço questão de reconhecer que os profissionais que trabalham no espaço da acessibilidade foram extremamente atenciosos e fizeram o possível para ajudar. O problema não foi a equipe, mas sim a falta de estrutura e organização”, afirma.
A denúncia também aponta problemas no deslocamento de volta para casa. De acordo com o relato, o transporte teria sido solicitado previamente, mas a idosa não constava na lista no momento do retorno. A família afirma que precisou improvisar a saída depois de ser informada de que o veículo atenderia apenas quem havia marcado a necessidade de transporte na inscrição.
“Resultado: minha mãe, uma senhora de 82 anos, e o filho e uma mãe que estavam conosco também no espaço de acesso precisaram ir de táxi, enquanto eu acompanhei minha mãe caminhando até em casa”, registra o texto.
A autora afirma ainda que a idosa “só conseguiu chegar porque fez um enorme esforço” e reforça que o serviço teria sido solicitado justamente porque ela não consegue se locomover com normalidade.
Além dos episódios narrados, a denúncia diz que a qualidade do atendimento teria piorado em relação aos anos anteriores.
“Este já é o segundo ano em que o atendimento à acessibilidade piora”, afirma a autora, que compara a experiência atual com a gestão passada e sustenta que, antes, havia “alimentação adequada, organização e um atendimento muito mais humano”.
O texto também questiona a localização da área destinada ao público com deficiência, idosos e cadeirantes. Segundo a denúncia, o espaço teria sido montado “próximo a um bueiro e em uma área de circulação de pessoas”. Ao final, a autora resume a frustração com a experiência: “As pessoas com deficiência, os idosos e seus familiares merecem respeito, dignidade e inclusão de verdade, não apenas discursos”.
Na nota de esclarecimento, a Secretaria de Assistência Social de Arcoverde afirma que recebeu o relato “com atenção” e reiterou “seu respeito a todas as pessoas que utilizam os serviços ofertados pela gestão municipal”.
Sobre a estrutura do espaço, a pasta informou que o ambiente foi:
“planejado e estruturado para atender pessoas idosas, pessoas com deficiência e pessoas com mobilidade reduzida previamente cadastradas, contando com equipe de acolhimento, acompanhamento e suporte durante toda a programação”.
Em relação ao ponto central da denúncia, a Secretaria sustentou que:
“os registros da Secretaria apontam que o espaço funcionou dentro da capacidade prevista para os usuários credenciados”.
A nota, no entanto, admite pressão maior em noites de grande apelo popular. Segundo o governo municipal:
“houve uma intensa concentração de pessoas em todo o circuito da festa, o que gerou desafios operacionais e demandou atuação permanente das equipes para preservar a segurança e a organização do local”.
No item sobre transporte, a Prefeitura afirmou que o serviço é definido com antecedência a partir das informações prestadas pelos próprios usuários no ato da inscrição.
“A solicitação do serviço precisa ser realizada antecipadamente para possibilitar o planejamento adequado de veículos, rotas e quantidade de passageiros”, diz a nota.
Ainda assim, a gestão declarou que compreende “os transtornos relatados” e que “cada situação será analisada para que eventuais ajustes possam ser implementados”.
O episódio lança luz sobre um ponto sensível da organização dos grandes eventos públicos: a distância entre a previsão administrativa e a experiência concreta de quem depende de acessibilidade para participar da festa com autonomia e segurança. Quando uma denúncia reúne relatos de superlotação, risco físico e falha no transporte, o debate deixa de ser apenas operacional e passa a atingir o núcleo da política de inclusão.
Ao mesmo tempo, a resposta oficial mostra que a gestão não reconhece, até aqui, excesso de público no espaço reservado, embora admita dificuldades de operação em noites mais cheias. O contraste entre as duas versões deve pressionar a administração a esclarecer critérios de lotação, protocolo de evacuação, fluxo de acompanhantes e funcionamento do transporte acessível.
Para além do embate político, o caso recoloca uma exigência básica para eventos custeados ou organizados pelo poder público: acessibilidade não pode ser tratada como setor periférico da festa. Precisa ser planejada, executada e fiscalizada como condição de direito.
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Raul Silva é jornalista e produtor de conteúdo do O estopim, com foco em cobertura de interesse público, política local e direitos da população no Sertão pernambucano.
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