Educação em Pernambuco: o que está em disputa na rede estadual
- Helena Valente
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Atualizado: há 8 horas
Merenda, contratos, obras escolares e professores pressionam o governo estadual e entram no centro da disputa política em Pernambuco.
Por Helena Valente para O estopim | 8 de julho de 2026

A educação pública estadual de Pernambuco chegou ao segundo semestre de 2026 no centro de uma disputa que mistura gestão, fiscalização, denúncias e eleição. Sob o governo Raquel Lyra, a rede estadual enfrenta cobranças sobre merenda, contratos, infraestrutura e valorização profissional, enquanto a sucessão estadual já coloca a área como uma das vitrines e vulnerabilidades do debate público. Levantamentos recentes mostram Raquel Lyra e João Campos como nomes centrais da disputa pelo governo de Pernambuco em 2026.
A discussão não se resume a indicadores ou promessas eleitorais. O que está em jogo é a capacidade do Estado de garantir comida adequada, professores em sala, escolas em condições de funcionamento, contratos regulares e transparência sobre o uso do dinheiro público.
A educação é uma política de impacto direto. Quando a merenda falha, o estudante sente. Quando uma obra atrasa, a escola perde. Quando há disputa entre contratação temporária e nomeação de concursados, a rede acumula instabilidade. Quando denúncias sobre reformas ou compras públicas aparecem, a pergunta central passa a ser quem fiscaliza, quem responde e quem corrige.
A alimentação escolar virou um dos pontos de maior desgaste da gestão estadual. O Tribunal de Contas de Pernambuco analisou contratos relacionados à merenda e, segundo notas taquigráficas do próprio TCE-PE e reportagens sobre a decisão, identificou falhas de planejamento que levaram à classificação de parte da situação como “emergência fabricada”. A decisão também resultou em multas a gestores e em determinações para corrigir práticas administrativas.
Antes disso, a Assembleia Legislativa de Pernambuco já havia discutido falhas na merenda em audiência pública. A Alepe registrou cobranças de estudantes e professores sobre a qualidade e a regularidade da alimentação escolar, além de questionamentos sobre o cumprimento da regra de compra mínima da agricultura familiar.
O Ministério Público de Pernambuco também participou de debate sobre alimentação escolar, por meio do CAO Educação, e destacou a iniciativa institucional Merendar como instrumento de atuação na garantia da alimentação escolar e no combate à fome.
A afirmação genérica de que houve “desvio de verba da merenda”, presente no texto original enviado à redação, não deve ser publicada como fato sem processo, decisão, relatório ou documento específico que comprove essa imputação. O que há, com base nas fontes consultadas, são auditorias, falhas apontadas, multas, cobranças públicas e procedimentos relacionados à merenda.
A política de pessoal também pressiona a Secretaria de Educação. Em 2024, o TCE-PE determinou que a Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco nomeasse quase 5 mil professores aprovados em concurso público realizado em 2022. O relator também determinou que a pasta não celebrasse nem renovasse contratos temporários enquanto houvesse aprovados no cadastro de reserva.
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A decisão mostra um problema estrutural: a dependência de vínculos temporários em uma rede que precisa de continuidade pedagógica. Para professores, estudantes e famílias, a discussão não é apenas administrativa. Ela afeta planejamento escolar, permanência de docentes, reposição de aulas e estabilidade das equipes.
Outro ponto de tensão envolve a infraestrutura. O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco, o Sintepe, apresentou denúncia sobre possíveis irregularidades em reformas de escolas estaduais. Segundo o sindicato, foram visitadas escolas apontadas como reformadas, mas ainda com problemas estruturais. A denúncia citou contratos milionários e foi repercutida pela imprensa local.
Como se trata de denúncia sindical, o caso exige contraditório, acesso aos contratos, análise de medições, verificação in loco e manifestação da Secretaria de Educação, do Governo de Pernambuco e das empresas citadas. Sem esse caminho, a denúncia deve ser apresentada como denúncia, não como conclusão definitiva.
A crise administrativa convive com indicadores que a gestão usa como defesa. Pernambuco superou a média nacional no Ideb 2023 do ensino médio, alcançando nota 4,5 contra 4,3 da média nacional, segundo divulgação da Secretaria de Educação com base nos dados do Inep e do MEC. O Ideb combina fluxo escolar e desempenho em avaliações, de acordo com a definição do próprio Inep.
Esse dado importa, mas não encerra o debate. Um indicador positivo não elimina problemas de gestão, contratos, merenda ou infraestrutura. Ao mesmo tempo, falhas administrativas não autorizam ignorar resultados educacionais quando eles existem. A cobertura responsável precisa mostrar as duas dimensões.
Com a disputa pelo governo em andamento, a educação tende a ganhar peso eleitoral. Reportagem da Folha de S.Paulo registrou avanço de Raquel Lyra nas pesquisas e citou a tentativa de sua base de concentrar a disputa em temas locais. A mesma cobertura apontou João Campos como principal adversário da governadora no cenário analisado.
Para o eleitor, o desafio é separar propaganda de política pública. Promessas sobre valorização de professores, escolas em tempo integral, tecnologia, merenda e obras precisam ser confrontadas com orçamento, execução, contratos, resultados e fiscalização.
O texto original enviado à redação não trazia documentos, números de processos, notas oficiais ou manifestação do Governo de Pernambuco sobre todas as acusações citadas. Antes da publicação, O estopim recomenda solicitar posicionamento à Secretaria de Educação e Esportes de Pernambuco, ao Governo do Estado, ao Sintepe e, quando houver empresa citada, à contratada responsável.
Até que esses documentos sejam anexados à apuração, devem ser tratados como pontos pendentes: eventual desvio de verba, favorecimento político em contratações e responsabilidade específica por obras não concluídas.
O que acontece agora
A educação estadual deve continuar sob pressão em três frentes. A primeira é administrativa, com necessidade de correção de contratos, planejamento de merenda e resposta a decisões dos órgãos de controle. A segunda é política, com cobranças de sindicatos, estudantes, deputados e adversários eleitorais. A terceira é eleitoral, porque a disputa de 2026 tende a transformar cada falha e cada entrega em argumento de campanha.
Para estudantes, servidores e famílias, a pergunta principal não é quem vence a narrativa. É o que muda dentro das escolas.
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Helena Valente é repórter especial e analista de Educação de O estopim. Dedica sua cobertura às políticas públicas, ao financiamento da educação, às desigualdades escolares e aos impactos das decisões de Brasília no cotidiano de estudantes, professores e comunidades. Sua escrita une apuração, análise crítica e compromisso com a defesa da escola pública, gratuita, laica, inclusiva e socialmente referenciada.
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